Política
de Trump faz alemães hesitarem em ir à Copa
O trem
para Stuttgart, na Alemanha, está praticamente lotado. Em cada parada entram
pessoas vestindo a camisa da Alemanha. Há uma animada conversa sobre a seleção
alemã de futebol e a Copa do Mundo que se aproxima, nos Estados Unidos, Canadá
e México.
Num dos
últimos dias de março, a Alemanha enfrentou o Gana no último amistoso
internacional antes do início da preparação para a Copa do Mundo. Muitos
torcedores começaram a viagem logo pela manhã, incluindo Dennis e Kai.
Os dois
amigos do norte da Alemanha embarcaram cedo no trem, vestindo a camisa da
seleção alemã e ansiosos para apoiar a equipe pessoalmente naquela noite em
Stuttgart.
Para
Dennis, em particular, viagens como esta são rotina; ele acompanha a seleção de
seu país desde 2015 e, aos 40 anos, praticamente não perdeu um jogo desde
então. Kai é presença constante na equipe desde a Eurocopa de 2024, sediada na Alemanha. "Usar a águia no
peito e cantar o hino nacional é algo especial", disse Dennis à DW.
"Você sempre encontra outros torcedores, viaja para torneios — isso é
sempre de arrepiar."
Os dois
são o que se conhece como torcedores assíduos, fãs que acompanham o time em
todas as partidas, independentemente do local.
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Expectativa antes do torneio
Não é
de admirar, portanto, que a próxima Copa do Mundo esteja firmemente marcada em
seus calendários. "Estou bastante ansioso", disse Kai, com os olhos
brilhando enquanto falava. "Quero absorver tudo o que está acontecendo nas
cidades. Dennis sempre falava muito sobre isso."
A
expectativa começa muito antes do torneio, acrescentou seu amigo Dennis:
"A empolgação começa dois anos antes; você começa a economizar e a pensar
em como será a viagem."
Ambos
já compraram ingressos para os jogos da Alemanha na fase de grupos, e o
itinerário está todo planejado. Eles estão muito animados e a atual situação
política nos Estados Unidos não está diminuindo o entusiasmo deles. "A
política deveria ficar fora do esporte. O esporte serve para construir pontes e
unir as pessoas, mas a política muitas vezes gosta de explorar torneios como
este", disse Dennis.
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Löw alerta contra viagens
Mas nem
todos estão tão tranquilos. Recentemente, o ex-técnico da seleção alemã Joachim
Löw alertou contra viagens à América do Norte. "Já tivemos debates antes
mesmo da Copa do Mundo de 2018 na Rússia
e pedidos de boicote antes da Copa do Mundo de 2022 no Catar. Mas jogar
em um país que está atualmente em guerra é ainda mais perigoso", alertou
Löw em um evento em Colônia.
Löw,
que levou a Alemanha à vitória na Copa do Mundo de 2014 no Brasil, referia-se
às políticas do presidente dos EUA, Donald Trump , que declarou guerra ao Irã
no final de fevereiro. Além disso, as operações da agência de imigração ICE e
outros conflitos geopolíticos estão causando instabilidade e incerteza. A
situação política está "ofuscando completamente o torneio", disse
Löw.
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Preocupação com liberdades individuais
Também
houve, e continua a haver, fortes críticas da esfera política. "O que a Fifa está organizando lá em
conjunto com Donald Trump não é algo que me anime", disse à DW
Boris Mijatovic, político do Partido Verde e ativista dos direitos
humanos.
"A
divulgação de dados pessoais, como endereços de e-mail, telefones celulares,
computadores ou contas de redes sociais, não deve ser ignorada. Trata-se de uma
violação da liberdade individual que eu não toleraria", disse Mijatovic.
"Um Estado que invade sua privacidade dessa maneira não deve ser
recompensado com uma visita."
Mijatovic
também teme outros "momentos bizarros de vergonha alheia", como o
presidente da Fifa, Gianni Infantino, entregando o recém-criado Prêmio da Paz
da Fifa a Trump durante o sorteio da Copa do Mundo.
"Acho
absolutamente grotesco o modo como se tem de prestar homenagem a este
presidente para ganhar o seu favor. Isto aplica-se tanto a Gianni Infantino
como ao chanceler [federal alemão] Friedrich Merz", acrescentou o
político, incluindo o presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), Bernd
Neuendorf, nas suas críticas.
Mijatovic
considera que falta coragem para expressar críticas à Fifa. "Sinto falta
dessa postura", disse ele. "Tudo o que construímos com respeito e
jogo limpo foi por água abaixo."
Mais
recentemente, um relatório da organização de direitos humanos Anistia
Internacional também destacou abusos nos países anfitriões da Copa do Mundo,
particularmente nos EUA.
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Alemães se dizem céticos
Para
Bengt Kunkel, torcedor da Alemanha, a Copa do Mundo deste ano será assistida
pela televisão em casa, e não pessoalmente. Kunkel, que foi a vários jogos da
Alemanha, não viajará para os Estados Unidos. "Tenho uma visão muito
crítica da Copa do Mundo", disse ele. Trump é um grande problema,
acrescentou. "Porque está tentando se apropriar da Copa do Mundo e
explorá-la para sua agenda política."
"Além
disso, existem as restrições à liberdade de imprensa e à liberdade de
expressão, além da condescendência política da Fifa ao conceder o Prêmio da Paz
a Donald Trump", disse Kunkel, que também critica o custo para os
torcedores .
"Calculamos
que, só para a fase de grupos, provavelmente teríamos que gastar entre 5 mil e
8 mil euros (R$ 29,7 mil a R$ 47,6 mil)", explicou o torcedor alemão.
"Este não é um torneio que agrade aos torcedores. Nada nesta Copa do Mundo
me atrai, então ficou claro que eu não iria."
Os
requisitos de entrada mais rigorosos para os fãs também são motivo de
preocupação para o torcedor de 27 anos.
"Quando
se trata de dizer: 'vamos verificar toda a atividade nas redes sociais de
pessoas que desejam entrar nos EUA e ver se alguém curtiu ou publicou algo
contra Donald Trump', isso não tem nada a ver com convidar o mundo para sua
casa e querer celebrar uma festa do futebol."
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Torcida continua, apesar de tudo
Kunkel
sabe que a Copa do Mundo de 2026 está dividindo os torcedores no momento.
"Mas eu entendo quem vai lá", disse Kunkel, acrescentando que não
acredita que um boicote seja a solução.
"Apesar
de tudo, não tem problema nenhum apoiar a seleção alemã. Então, vamos
aproveitar ao máximo e ter uma Copa do Mundo brilhante."
Até
Dennis e Kai admitem que "não é uma Copa do Mundo voltada para o público
em geral". Mesmo assim, eles confiam que os Estados Unidos garantirão a
segurança de todos e que será um festival de futebol fantástico.
"Queremos
nos tornar campeões mundiais", disse Dennis. "Temos que ser uma
equipe e agir como uma equipe, e se nós, torcedores, apoiarmos o time, podemos
ir muito longe."
Fonte:
DW Brasil

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