Paulo
Gala: Inflação nos EUA segue pressionada e choque do petróleo eleva incertezas
globais
Os
dados mais recentes de inflação nos Estados Unidos, referentes a fevereiro,
vieram em linha com o esperado, mas continuam indicando um cenário
desconfortável para a política monetária. O índice cheio avançou 0,4% no mês,
acumulando alta de 2,8% em 12 meses, enquanto o núcleo — que exclui itens mais
voláteis — também subiu 0,4% no mês, atingindo 3% na comparação anual.
Apesar
de não trazer surpresas, o dado reforça que a inflação americana segue acima da
meta de 2%, especialmente no núcleo, que ainda mostra rigidez. Trata-se, além
disso, de um indicador defasado, anterior ao novo choque de alta do petróleo, o
que sugere pressões adicionais nos números mais recentes.
O
cenário deve se deteriorar nos dados de março, ainda não divulgados, quando os
efeitos do aumento dos preços de energia aparecerão com mais intensidade. Nos
Estados Unidos, ao contrário do Brasil, o repasse ao consumidor ocorre de forma
praticamente imediata. O preço da gasolina, por exemplo, saltou de cerca de US$
2,80 para US$ 4 por galão, com impacto disseminado sobre toda a economia.
No
Brasil, o efeito inflacionário tende a ser mais amortecido no curto prazo, em
função da política de preços da Petrobras, que ainda atua como um mecanismo
parcial de contenção. Ainda assim, o IPCA de março, a ser divulgado, já deve
refletir aumentos em combustíveis como gasolina e diesel.
No
mercado internacional, o petróleo voltou a operar próximo de US$ 100 por
barril, revertendo parcialmente o alívio observado anteriormente. A
persistência das tensões geopolíticas e o risco de interrupções no fluxo global
de petróleo mantêm os preços elevados e voláteis.
Embora
exista um cessar-fogo formal, ele é considerado frágil e vulnerável, com riscos
constantes de escalada. Esse ambiente de incerteza sustenta a pressão sobre as
commodities e limita uma normalização mais consistente dos mercados.
No caso
brasileiro, há um fator compensatório relevante: a valorização cambial. O real
tem se apreciado com a alta do petróleo, refletindo a posição do país como um
importante exportador da commodity. Esse movimento ajuda a mitigar, ao menos
parcialmente, o impacto inflacionário vindo do exterior.
Em
termos práticos, a valorização do real reduz o preço em moeda local dos
produtos cotados em dólar, como combustíveis. Assim, uma alta do petróleo em
dólar pode ser neutralizada, em parte, por um câmbio mais valorizado.
O
efeito líquido sobre a inflação dependerá justamente desse balanço entre preços
internacionais e taxa de câmbio. Em um cenário hipotético de alta de 20% no
petróleo compensada por valorização equivalente do real, o impacto doméstico
poderia ser praticamente anulado.
Ainda
assim, o ambiente global permanece incerto. O conflito no Oriente Médio
continua pressionando o câmbio e os preços de energia, limitando a margem de
apreciação mais consistente da moeda brasileira.
Do
ponto de vista de política monetária, o cenário não altera substancialmente as
expectativas. No Brasil, a tendência segue de cortes graduais de juros,
possivelmente na ordem de 0,25 ponto percentual nas próximas reuniões.
Já nos
Estados Unidos, a combinação de mercado de trabalho resiliente, inflação
persistente e choque de energia sugere maior cautela. O Federal Reserve deve
manter os juros elevados por mais tempo, aguardando maior clareza sobre a
trajetória inflacionária.
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PIB dos EUA desacelera e cresce menos do que o esperado no 4º trimestre
O
crescimento do PIB dos EUA desacelerou e foi revisado para 0,5% no quarto
trimestre, indicando um ritmo mais fraco da atividade econômica, influenciado
principalmente pela retração nos investimentos empresariais e no acúmulo de
estoques. Apesar desse cenário, os lucros corporativos apresentaram avanço
significativo no período.
De
acordo com dados divulgados pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos e
reportados pela Reuters, a terceira estimativa do Produto Interno Bruto mostrou
uma expansão anualizada de 0,5%, abaixo dos 0,7% anteriormente informados.
Economistas consultados pela própria Reuters esperavam que o número fosse
mantido, o que não se confirmou após a revisão.
A
desaceleração foi atribuída, sobretudo, à redução dos gastos das empresas,
especialmente em produtos intelectuais e formação de estoques. Esses
componentes tiveram impacto direto na revisão para baixo do desempenho
econômico no período analisado.
O
consumo das famílias, responsável por mais de dois terços da economia
norte-americana, também apresentou leve recuo na taxa de crescimento. O avanço
foi ajustado de 2,0% para 1,9%, sinalizando uma moderação na demanda interna.
Outro
fator relevante para o enfraquecimento da economia no quarto trimestre foi a
paralisação parcial do governo federal ocorrida no ano anterior. O evento
contribuiu para uma desaceleração expressiva em relação ao ritmo de expansão de
4,4% registrado no terceiro trimestre.
• Vitória do Irã enfraquece o petrodólar,
abre espaço para o "petroyuan” e fortalece o Sul Global
Com a
vitória do Irã contra Estados Unidos e Israel na guerra no Golfo Pérsico, Teerã
e Pequim passaram a avançar de forma estratégica contra a hegemonia do dólar no
sistema financeiro internacional. Segundo reportagem da Al Jazeera, esse
movimento ganhou força com a adoção do yuan em operações comerciais no Estreito
de Ormuz, uma das rotas energéticas mais importantes do mundo.
A
iniciativa, que representa uma vitória política e econômica do Irã, reforça a
cooperação com a China e amplia o debate global sobre a desdolarização. No
centro dessa estratégia está o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz, por
onde passa cerca de um quinto da oferta mundial de petróleo e gás natural
liquefeito. De acordo com a reportagem, embarcações comerciais passaram a pagar
taxas de passagem em yuan, sinalizando uma mudança relevante nas regras do
comércio internacional de energia.
Ainda
que o número de navios que utilizaram a moeda chinesa seja limitado – ao menos
duas embarcações até o fim de março, segundo a Lloyd’s List –, o gesto tem
forte impacto simbólico e geopolítico. O próprio Ministério do Comércio da
China reconheceu os relatos, enquanto a embaixada iraniana no Zimbábue defendeu
abertamente a adoção do chamado “petroyuan” no mercado global de petróleo.
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Desafio direto ao sistema dominado pelos EUA
Para
Irã e China, o avanço do yuan representa uma resposta direta ao uso do dólar
como instrumento de pressão política por parte dos Estados Unidos. Há décadas,
Washington utiliza a centralidade de sua moeda para impor sanções e influenciar
economias rivais, como as de Teerã e Pequim.
O
economista Kenneth Rogoff, professor da Universidade Harvard e ex-economista-chefe
do Fundo Monetário Internacional, explicou à Al Jazeera as motivações
iranianas: “Em um nível, o Irã está tentando provocar os Estados Unidos,
adicionando insulto ao prejuízo”.
Ele
acrescentou: “Em outro nível, o Irã está totalmente comprometido em preferir o
yuan para evitar sanções dos EUA e fortalecer sua aliança com a China, que vem
avançando de forma consistente para redefinir seu comércio – e o dos países do
BRICS – em yuan”.
A
estratégia também reduz custos e facilita o comércio bilateral, que cresceu
significativamente desde a assinatura de uma parceria estratégica de 25 anos
entre os dois países, em 2021.
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Integração sino-iraniana ganha força
A China
atualmente compra mais de 80% das exportações de petróleo iraniano, muitas
vezes com descontos associados a pagamentos em yuan. Em contrapartida, o Irã
importa grandes volumes de máquinas, equipamentos eletrônicos, produtos
químicos e componentes industriais chineses.
Mesmo
com o conflito em curso, os fluxos comerciais entre os dois países se
mantiveram estáveis. Nas primeiras semanas da guerra, o Irã exportou entre 12
milhões e 13,7 milhões de barris de petróleo, com a maior parte destinada à
China, segundo dados de empresas de monitoramento do setor.
Para o
professor Bulent Gokay, da Universidade de Keele, o Irã compreende plenamente o
alcance dessa disputa. Ele afirmou: “O Irã entende claramente a importância
desse desafio à dominância financeira dos Estados Unidos, bem como o papel
vital do sistema do dólar e dos petrodólares”.
Segundo
ele, a estratégia chinesa está alinhada à construção de uma nova ordem global:
“um mundo financeiro multipolar, em que o papel central do dólar dos EUA seja
contrabalançado pela crescente influência das potências emergentes”.
• Europa se distancia dos EUA
A
relação entre Europa e Estados Unidos atravessa um dos momentos mais delicados
dos últimos anos, marcada pelo agravamento da guerra no Irã, críticas públicas
de Donald Trump aos aliados europeus e divergências estratégicas sobre o
conflito. A postura cautelosa dos países europeus diante da escalada militar
tem sido alvo de ataques do presidente norte-americano, ampliando o
distanciamento político entre os dois lados do Atlântico, relata a Folha de São
Paulo.
O
cenário reflete uma mudança significativa na dinâmica transatlântica. Há cerca
de um ano, líderes europeus ainda buscavam contornar declarações provocativas
de Trump com gestos diplomáticos. Nas últimas semanas, no entanto, o tom se
agravou, com o presidente dos EUA passando a combinar ameaças e insultos. A
contenção europeia frente à guerra levou Trump a classificar o continente como
“covarde”, aprofundando o desgaste nas relações.
Cinco
semanas após o início dos bombardeios conduzidos por Israel e Estados Unidos,
os países europeus continuam evitando um envolvimento direto no conflito, que
consideram caro, fora de contexto e impopular. Mesmo grupos políticos alinhados
ideologicamente a Trump, como setores da ultradireita, têm evitado apoiar
abertamente a intervenção militar. Na Alemanha, a AfD optou por não endossar a
ação norte-americana, influenciada pelo cenário eleitoral. Na França e na
Itália, forças semelhantes enfrentaram derrotas recentes.
Diante
desse quadro, a Europa tem adotado uma postura discreta no debate
internacional, priorizando preocupações internas como o aumento do preço dos
combustíveis, possíveis novas ondas migratórias e riscos de terrorismo. A
reação às declarações de Trump tem sido, em muitos casos, contida. O
primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, por exemplo, ignorou críticas
diretas do presidente americano.
Já o
presidente francês, Emmanuel Macron, elevou o tom após ser alvo de comentários
pessoais durante um jantar na Casa Branca. Trump mencionou um episódio
envolvendo a primeira-dama francesa, Brigitte Macron, amplamente repercutido
nas redes sociais no ano anterior. Em resposta, Macron afirmou que as
declarações não eram “nem elegantes nem apropriadas” e que “não merecem
resposta”.
O líder
francês também criticou a inconsistência das posições americanas. “Quando
levamos as coisas a sério, não dizemos o contrário do que dissemos no dia
anterior”, declarou, referindo-se às frequentes ameaças de Trump de retirar os
Estados Unidos da Otan. Macron ainda destacou a gravidade do momento: “Estamos
falando de guerra. Estamos falando hoje de mulheres e homens que estão em
combate, de mulheres, homens e civis que estão sendo mortos.”
Apesar
do discurso de distanciamento, a atuação europeia no conflito não é
inexistente. Infraestruturas no continente continuam sendo utilizadas para
operações militares americanas. Bases no Reino Unido, nos Açores portugueses e
na Alemanha têm desempenhado papel logístico relevante, incluindo abastecimento
de aeronaves e coordenação de ataques aéreos e operações com drones.
Especialistas
apontam que essa participação indireta expõe as contradições da posição
europeia. Enquanto líderes tentam limitar o envolvimento político e militar, a
dependência estratégica em relação aos Estados Unidos permanece evidente. O
jornal The Wall Street Journal destacou que essa cooperação evidencia o custo
potencial de uma eventual retirada completa das forças americanas da Europa.
Nos
bastidores diplomáticos, a estratégia predominante tem sido “administrar” a
relação com Trump, diante do receio de enfraquecimento da Otan e do impacto na
contenção da Rússia na guerra da Ucrânia. Analistas, porém, alertam para a
necessidade de maior autonomia estratégica europeia.
O
conflito no Oriente Médio também abriu espaço para movimentações geopolíticas
da Rússia. Segundo análises, Moscou conseguiu aliviar pressões econômicas com a
flexibilização de sanções e aumento da circulação de sua frota de petróleo.
Além disso, o Kremlin teria tentado negociar apoio de inteligência com
Washington envolvendo o Irã e a Ucrânia, sem sucesso.
No
cenário político europeu, eleições na Hungria adicionam incerteza ao quadro. O
pleito parlamentar pode encerrar o longo governo de Viktor Orbán, conhecido por
sua proximidade com Moscou. A possível vitória da oposição preocupa os Estados
Unidos, que enviaram o vice-presidente J.D. Vance a Budapeste para participar
de eventos de campanha.
A
combinação de tensões políticas, divergências estratégicas e interesses
geopolíticos reforça o afastamento entre Europa e Estados Unidos. Em um
contexto de guerra e disputas de poder global, a relação entre os aliados
históricos enfrenta um dos períodos mais desafiadores das últimas décadas.
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Pesquisa revela que o mundo considera a China melhor que os EUA
Uma
pesquisa realizada pela Gallup revelou que a China superou os Estados Unidos em
termos de índices de aprovação mundial em 2025, com uma mediana de 36% de
aprovação para a liderança chinesa, em comparação com 31% para os Estados
Unidos.
O
relatório da Gallup publicado na sexta-feira afirmou que a vantagem de cinco
pontos percentuais da China sobre os Estados Unidos é a maior registrada a
favor da China em quase 20 anos.
A
recente mudança reflete uma queda na aprovação dos EUA junto com um aumento
para a China. A aprovação mediana da liderança dos EUA caiu de 39% em 2024 para
31% em 2025, retornando a patamares de baixa registrados anteriormente,
enquanto a aprovação da China subiu de 32% para 36%, segundo o relatório.
Os
resultados mais recentes são baseados em pesquisas da Gallup realizadas em 2025
em mais de 130 países, com cerca de 1.000 respondentes em cada país. Eles não
consideram as recentes mudanças da política externa dos EUA desde o início de
2026, incluindo seu ataque ao Irã e sua retirada de 66 organizações
internacionais.
A
aprovação da liderança dos EUA diminuiu em muitas nações aliadas dos EUA,
incluindo muitos parceiros da OTAN, e afundou de maneira mais expressiva na
Alemanha, onde houve queda de 39 pontos percentuais.
Fonte:
Brasil 247

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