sábado, 11 de abril de 2026

Paulo Gala: Inflação nos EUA segue pressionada e choque do petróleo eleva incertezas globais

Os dados mais recentes de inflação nos Estados Unidos, referentes a fevereiro, vieram em linha com o esperado, mas continuam indicando um cenário desconfortável para a política monetária. O índice cheio avançou 0,4% no mês, acumulando alta de 2,8% em 12 meses, enquanto o núcleo — que exclui itens mais voláteis — também subiu 0,4% no mês, atingindo 3% na comparação anual.

Apesar de não trazer surpresas, o dado reforça que a inflação americana segue acima da meta de 2%, especialmente no núcleo, que ainda mostra rigidez. Trata-se, além disso, de um indicador defasado, anterior ao novo choque de alta do petróleo, o que sugere pressões adicionais nos números mais recentes.

O cenário deve se deteriorar nos dados de março, ainda não divulgados, quando os efeitos do aumento dos preços de energia aparecerão com mais intensidade. Nos Estados Unidos, ao contrário do Brasil, o repasse ao consumidor ocorre de forma praticamente imediata. O preço da gasolina, por exemplo, saltou de cerca de US$ 2,80 para US$ 4 por galão, com impacto disseminado sobre toda a economia.

No Brasil, o efeito inflacionário tende a ser mais amortecido no curto prazo, em função da política de preços da Petrobras, que ainda atua como um mecanismo parcial de contenção. Ainda assim, o IPCA de março, a ser divulgado, já deve refletir aumentos em combustíveis como gasolina e diesel.

No mercado internacional, o petróleo voltou a operar próximo de US$ 100 por barril, revertendo parcialmente o alívio observado anteriormente. A persistência das tensões geopolíticas e o risco de interrupções no fluxo global de petróleo mantêm os preços elevados e voláteis.

Embora exista um cessar-fogo formal, ele é considerado frágil e vulnerável, com riscos constantes de escalada. Esse ambiente de incerteza sustenta a pressão sobre as commodities e limita uma normalização mais consistente dos mercados.

No caso brasileiro, há um fator compensatório relevante: a valorização cambial. O real tem se apreciado com a alta do petróleo, refletindo a posição do país como um importante exportador da commodity. Esse movimento ajuda a mitigar, ao menos parcialmente, o impacto inflacionário vindo do exterior.

Em termos práticos, a valorização do real reduz o preço em moeda local dos produtos cotados em dólar, como combustíveis. Assim, uma alta do petróleo em dólar pode ser neutralizada, em parte, por um câmbio mais valorizado.

O efeito líquido sobre a inflação dependerá justamente desse balanço entre preços internacionais e taxa de câmbio. Em um cenário hipotético de alta de 20% no petróleo compensada por valorização equivalente do real, o impacto doméstico poderia ser praticamente anulado.

Ainda assim, o ambiente global permanece incerto. O conflito no Oriente Médio continua pressionando o câmbio e os preços de energia, limitando a margem de apreciação mais consistente da moeda brasileira.

Do ponto de vista de política monetária, o cenário não altera substancialmente as expectativas. No Brasil, a tendência segue de cortes graduais de juros, possivelmente na ordem de 0,25 ponto percentual nas próximas reuniões.

Já nos Estados Unidos, a combinação de mercado de trabalho resiliente, inflação persistente e choque de energia sugere maior cautela. O Federal Reserve deve manter os juros elevados por mais tempo, aguardando maior clareza sobre a trajetória inflacionária.

<><> PIB dos EUA desacelera e cresce menos do que o esperado no 4º trimestre

O crescimento do PIB dos EUA desacelerou e foi revisado para 0,5% no quarto trimestre, indicando um ritmo mais fraco da atividade econômica, influenciado principalmente pela retração nos investimentos empresariais e no acúmulo de estoques. Apesar desse cenário, os lucros corporativos apresentaram avanço significativo no período.

De acordo com dados divulgados pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos e reportados pela Reuters, a terceira estimativa do Produto Interno Bruto mostrou uma expansão anualizada de 0,5%, abaixo dos 0,7% anteriormente informados. Economistas consultados pela própria Reuters esperavam que o número fosse mantido, o que não se confirmou após a revisão.

A desaceleração foi atribuída, sobretudo, à redução dos gastos das empresas, especialmente em produtos intelectuais e formação de estoques. Esses componentes tiveram impacto direto na revisão para baixo do desempenho econômico no período analisado.

O consumo das famílias, responsável por mais de dois terços da economia norte-americana, também apresentou leve recuo na taxa de crescimento. O avanço foi ajustado de 2,0% para 1,9%, sinalizando uma moderação na demanda interna.

Outro fator relevante para o enfraquecimento da economia no quarto trimestre foi a paralisação parcial do governo federal ocorrida no ano anterior. O evento contribuiu para uma desaceleração expressiva em relação ao ritmo de expansão de 4,4% registrado no terceiro trimestre.

•        Vitória do Irã enfraquece o petrodólar, abre espaço para o "petroyuan” e fortalece o Sul Global

Com a vitória do Irã contra Estados Unidos e Israel na guerra no Golfo Pérsico, Teerã e Pequim passaram a avançar de forma estratégica contra a hegemonia do dólar no sistema financeiro internacional. Segundo reportagem da Al Jazeera, esse movimento ganhou força com a adoção do yuan em operações comerciais no Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais importantes do mundo.

A iniciativa, que representa uma vitória política e econômica do Irã, reforça a cooperação com a China e amplia o debate global sobre a desdolarização. No centro dessa estratégia está o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto da oferta mundial de petróleo e gás natural liquefeito. De acordo com a reportagem, embarcações comerciais passaram a pagar taxas de passagem em yuan, sinalizando uma mudança relevante nas regras do comércio internacional de energia.

Ainda que o número de navios que utilizaram a moeda chinesa seja limitado – ao menos duas embarcações até o fim de março, segundo a Lloyd’s List –, o gesto tem forte impacto simbólico e geopolítico. O próprio Ministério do Comércio da China reconheceu os relatos, enquanto a embaixada iraniana no Zimbábue defendeu abertamente a adoção do chamado “petroyuan” no mercado global de petróleo.

<><> Desafio direto ao sistema dominado pelos EUA

Para Irã e China, o avanço do yuan representa uma resposta direta ao uso do dólar como instrumento de pressão política por parte dos Estados Unidos. Há décadas, Washington utiliza a centralidade de sua moeda para impor sanções e influenciar economias rivais, como as de Teerã e Pequim.

O economista Kenneth Rogoff, professor da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, explicou à Al Jazeera as motivações iranianas: “Em um nível, o Irã está tentando provocar os Estados Unidos, adicionando insulto ao prejuízo”.

Ele acrescentou: “Em outro nível, o Irã está totalmente comprometido em preferir o yuan para evitar sanções dos EUA e fortalecer sua aliança com a China, que vem avançando de forma consistente para redefinir seu comércio – e o dos países do BRICS – em yuan”.

A estratégia também reduz custos e facilita o comércio bilateral, que cresceu significativamente desde a assinatura de uma parceria estratégica de 25 anos entre os dois países, em 2021.

<><> Integração sino-iraniana ganha força

A China atualmente compra mais de 80% das exportações de petróleo iraniano, muitas vezes com descontos associados a pagamentos em yuan. Em contrapartida, o Irã importa grandes volumes de máquinas, equipamentos eletrônicos, produtos químicos e componentes industriais chineses.

Mesmo com o conflito em curso, os fluxos comerciais entre os dois países se mantiveram estáveis. Nas primeiras semanas da guerra, o Irã exportou entre 12 milhões e 13,7 milhões de barris de petróleo, com a maior parte destinada à China, segundo dados de empresas de monitoramento do setor.

Para o professor Bulent Gokay, da Universidade de Keele, o Irã compreende plenamente o alcance dessa disputa. Ele afirmou: “O Irã entende claramente a importância desse desafio à dominância financeira dos Estados Unidos, bem como o papel vital do sistema do dólar e dos petrodólares”.

Segundo ele, a estratégia chinesa está alinhada à construção de uma nova ordem global: “um mundo financeiro multipolar, em que o papel central do dólar dos EUA seja contrabalançado pela crescente influência das potências emergentes”.

•        Europa se distancia dos EUA

A relação entre Europa e Estados Unidos atravessa um dos momentos mais delicados dos últimos anos, marcada pelo agravamento da guerra no Irã, críticas públicas de Donald Trump aos aliados europeus e divergências estratégicas sobre o conflito. A postura cautelosa dos países europeus diante da escalada militar tem sido alvo de ataques do presidente norte-americano, ampliando o distanciamento político entre os dois lados do Atlântico, relata a Folha de São Paulo.

O cenário reflete uma mudança significativa na dinâmica transatlântica. Há cerca de um ano, líderes europeus ainda buscavam contornar declarações provocativas de Trump com gestos diplomáticos. Nas últimas semanas, no entanto, o tom se agravou, com o presidente dos EUA passando a combinar ameaças e insultos. A contenção europeia frente à guerra levou Trump a classificar o continente como “covarde”, aprofundando o desgaste nas relações.

Cinco semanas após o início dos bombardeios conduzidos por Israel e Estados Unidos, os países europeus continuam evitando um envolvimento direto no conflito, que consideram caro, fora de contexto e impopular. Mesmo grupos políticos alinhados ideologicamente a Trump, como setores da ultradireita, têm evitado apoiar abertamente a intervenção militar. Na Alemanha, a AfD optou por não endossar a ação norte-americana, influenciada pelo cenário eleitoral. Na França e na Itália, forças semelhantes enfrentaram derrotas recentes.

Diante desse quadro, a Europa tem adotado uma postura discreta no debate internacional, priorizando preocupações internas como o aumento do preço dos combustíveis, possíveis novas ondas migratórias e riscos de terrorismo. A reação às declarações de Trump tem sido, em muitos casos, contida. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, por exemplo, ignorou críticas diretas do presidente americano.

Já o presidente francês, Emmanuel Macron, elevou o tom após ser alvo de comentários pessoais durante um jantar na Casa Branca. Trump mencionou um episódio envolvendo a primeira-dama francesa, Brigitte Macron, amplamente repercutido nas redes sociais no ano anterior. Em resposta, Macron afirmou que as declarações não eram “nem elegantes nem apropriadas” e que “não merecem resposta”.

O líder francês também criticou a inconsistência das posições americanas. “Quando levamos as coisas a sério, não dizemos o contrário do que dissemos no dia anterior”, declarou, referindo-se às frequentes ameaças de Trump de retirar os Estados Unidos da Otan. Macron ainda destacou a gravidade do momento: “Estamos falando de guerra. Estamos falando hoje de mulheres e homens que estão em combate, de mulheres, homens e civis que estão sendo mortos.”

Apesar do discurso de distanciamento, a atuação europeia no conflito não é inexistente. Infraestruturas no continente continuam sendo utilizadas para operações militares americanas. Bases no Reino Unido, nos Açores portugueses e na Alemanha têm desempenhado papel logístico relevante, incluindo abastecimento de aeronaves e coordenação de ataques aéreos e operações com drones.

Especialistas apontam que essa participação indireta expõe as contradições da posição europeia. Enquanto líderes tentam limitar o envolvimento político e militar, a dependência estratégica em relação aos Estados Unidos permanece evidente. O jornal The Wall Street Journal destacou que essa cooperação evidencia o custo potencial de uma eventual retirada completa das forças americanas da Europa.

Nos bastidores diplomáticos, a estratégia predominante tem sido “administrar” a relação com Trump, diante do receio de enfraquecimento da Otan e do impacto na contenção da Rússia na guerra da Ucrânia. Analistas, porém, alertam para a necessidade de maior autonomia estratégica europeia.

O conflito no Oriente Médio também abriu espaço para movimentações geopolíticas da Rússia. Segundo análises, Moscou conseguiu aliviar pressões econômicas com a flexibilização de sanções e aumento da circulação de sua frota de petróleo. Além disso, o Kremlin teria tentado negociar apoio de inteligência com Washington envolvendo o Irã e a Ucrânia, sem sucesso.

No cenário político europeu, eleições na Hungria adicionam incerteza ao quadro. O pleito parlamentar pode encerrar o longo governo de Viktor Orbán, conhecido por sua proximidade com Moscou. A possível vitória da oposição preocupa os Estados Unidos, que enviaram o vice-presidente J.D. Vance a Budapeste para participar de eventos de campanha.

A combinação de tensões políticas, divergências estratégicas e interesses geopolíticos reforça o afastamento entre Europa e Estados Unidos. Em um contexto de guerra e disputas de poder global, a relação entre os aliados históricos enfrenta um dos períodos mais desafiadores das últimas décadas.

<><> Pesquisa revela que o mundo considera a China melhor que os EUA

Uma pesquisa realizada pela Gallup revelou que a China superou os Estados Unidos em termos de índices de aprovação mundial em 2025, com uma mediana de 36% de aprovação para a liderança chinesa, em comparação com 31% para os Estados Unidos.

O relatório da Gallup publicado na sexta-feira afirmou que a vantagem de cinco pontos percentuais da China sobre os Estados Unidos é a maior registrada a favor da China em quase 20 anos.

A recente mudança reflete uma queda na aprovação dos EUA junto com um aumento para a China. A aprovação mediana da liderança dos EUA caiu de 39% em 2024 para 31% em 2025, retornando a patamares de baixa registrados anteriormente, enquanto a aprovação da China subiu de 32% para 36%, segundo o relatório.

Os resultados mais recentes são baseados em pesquisas da Gallup realizadas em 2025 em mais de 130 países, com cerca de 1.000 respondentes em cada país. Eles não consideram as recentes mudanças da política externa dos EUA desde o início de 2026, incluindo seu ataque ao Irã e sua retirada de 66 organizações internacionais.

A aprovação da liderança dos EUA diminuiu em muitas nações aliadas dos EUA, incluindo muitos parceiros da OTAN, e afundou de maneira mais expressiva na Alemanha, onde houve queda de 39 pontos percentuais.

 

Fonte: Brasil 247

 

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