sábado, 11 de abril de 2026

Luís Nassif: O caso Master é um ecossistema de corrupção

O caso Master não pode ser analisado como aventura individual de um banqueiro desatinado, que montou uma estrutura viciada, tipo pirâmide, e não hesitava em queimar centenas de milhões de reais em um consumo conspícuo ou para comprar autoridades.

Trata-se de um ecossistema completo de corrupção, envolvendo os seguintes atores:

>>> 1. A fintech como infraestrutura universal

O Brasil criou, entre 2018 e 2023, o ambiente regulatório mais favorável à proliferação de fintechs do mundo em desenvolvimento. O Banco Central, sob a liderança de Roberto Campos Neto, autorizou as licenças de instituição de pagamento e a regulação de arranjos de pagamento. O resultado foi uma explosão: de algumas dezenas de fintechs em 2015, o país chegou a mais de 1.300 em 2023, segundo a Associação Brasileira de Fintechs.

O que o promotor Lincoln Gakiya, do GAECO de São Paulo, documenta nas suas investigações é que o mesmo ambiente que permitiu ao pequeno empreendedor do Nordeste receber pagamento pelo celular também criou o canal perfeito para o PCC, para igrejas corporativas e para operadores políticos movimentarem dinheiro de origem ilícita com uma eficiência que as antigas casas-cofre jamais permitiriam.

>>> 2. O que o crime entendeu antes do regulador

O PCC entendeu antes de qualquer analista de Faria Lima o potencial das fintechs para a lavagem de dinheiro em escala. Gakiya documentou publicamente que a facção, após décadas operando com postos de gasolina, agências de veículos e empresas de ônibus como fachadas, migrou parte relevante de seus fluxos financeiros para bancos digitais e fintechs, especialmente após a pandemia.

Recursos do tráfico internacional de cocaína — hoje exportada principalmente para a Europa e a Ásia, onde o quilo pode valer até US$ 150 mil, segundo Gakiya — entram no sistema por meio de laranjas com contas em múltiplas fintechs. O dinheiro é fragmentado em valores abaixo dos limites de reporte automático ao COAF, distribuído por dezenas de contas, reagrupado em estruturas jurídicas mais complexas — FIDCs, fundos de participação, holdings — e emerge como lucro legítimo de uma empresa que presta serviços reais.

>>> 3. A igreja como nó da rede

Uma grande igreja evangélica no Brasil recebe recursos de milhares de pessoas físicas em valores variados, predominantemente em espécie ou por Pix de contas pessoais. Não tem obrigação legal de identificar doadores ou dizimistas. Não precisa publicar balanços. Opera sob imunidade tributária ampla, consolidada pelo STF para cobrir patrimônio, renda e serviços vinculados às suas atividades essenciais.

O relatório do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro do Ministério Público de São Paulo registrou que a Igreja Universal recebeu entre 2011 e 2015 cerca de R$ 33,3 bilhões apenas em doações bancárias.

Quando a essa arquitetura se acrescenta uma fintech própria — como a Clava Forte Bank, fundada por André e Cassiane Valadão e citada na CPI do INSS em relação ao Banco Master — ou uma parceria com um banco digital, o circuito se fecha.

A Operação Plata documentou a versão mais crua desse modelo: igrejas evangélicas fundadas diretamente por operadores do PCC no Rio Grande do Norte e em São Paulo, com laranjas como titulares formais, usadas para lavar mais de R$ 23 milhões do tráfico.

>>> 4. A Faria Lima como câmara de compensação

A terceira camada do sistema é a que menos aparece nas investigações criminais — e por isso é a mais importante de nomear.

A Faria Lima não é um lugar. É um ecossistema: gestoras de recursos, fundos de private equity, family offices, estruturadoras de FIDCs, assessores de investimento e escritórios jurídicos especializados. Esse ecossistema tem uma função legítima e essencial na alocação de capital produtivo. Mas tem também, em sua fração mais opaca, uma função que raramente é discutida com clareza: a de câmara de compensação entre dinheiro de origem questionável e ativos com aparência de legitimidade.

Um fundo de crédito estruturado capta recursos de múltiplos cotistas, inclusive de fundos de fundos que por sua vez captam de investidores pessoa física. Quem está no quinto nível da cadeia não sabe — e frequentemente não tem obrigação regulatória de saber — de onde vem o dinheiro do cotista do segundo nível. A due diligence que seria necessária para rastrear a origem dos recursos até sua fonte primária raramente é feita, porque é cara, porque o regulador não exige com rigor suficiente e porque o incentivo do gestor é captar, não investigar.

Isso não é peculiaridade do Master. É uma vulnerabilidade estrutural do modelo de crédito privado brasileiro, onde a cadeia entre o poupador final e o devedor original pode ter cinco, seis, sete intermediários, cada um com visibilidade apenas de seu elo imediato.

>>> 5. O político como elo de proteção

A proteção opera em três planos.

O primeiro é legislativo: a Frente Parlamentar Evangélica bloqueia sistematicamente qualquer tentativa de criar obrigações de transparência para entidades religiosas. Propostas de auditoria externa obrigatória para igrejas acima de determinado porte de receita são arquivadas antes de chegar a votação.

O segundo é regulatório: as janelas de licenciamento de fintechs e de emissão de CDBs por bancos médios foram ampliadas. O resultado colateral foi a criação de um ambiente em que atores com intenções duvidosas podiam obter licenças com relativa facilidade, antes que os mecanismos de supervisão do Banco Central evoluíssem na mesma velocidade.

O terceiro é o mais sutil e o mais difícil de documentar: a captura de instâncias de investigação e julgamento. Gakiya foi explícito ao dizer que “para o crime organizado manter seu negócio funcionando ele precisa de proteção, e essa proteção não é só feita pelo criminoso armado, mas por agentes públicos — pode ser policial corrompido, pode ser fiscal, promotor, juiz.”

>>> 6. A gramática comum

O que une esses quatro mundos — a fintech, a igreja, o crime e a política — não é um plano centralizado. É uma gramática comum, com quatro palavras fundamentais.

Opacidade: cada um desses mundos tem seu próprio mecanismo de evitar rastreabilidade. A fintech usa a fragmentação de contas. A igreja usa a imunidade e a ausência de obrigação de declarar doadores. O fundo usa a cadeia de intermediários. O político usa o caixa dois, a doação disfarçada, o intermediário.

Legitimidade emprestada: nenhum desses instrumentos é ilegal por definição. Uma fintech é legítima. Uma igreja é legítima. Um FIDC é legítimo. Um político eleito é legítimo. A ilicitude não está no instrumento — está no uso.

Escala de pequenos valores: o Pix e os bancos digitais permitiram que a fragmentação de pagamentos — o chamado smurfing — alcançasse uma eficiência sem precedentes.

Velocidade regulatória assimétrica: o crime organizado, as corporações religiosas e os operadores financeiros adaptam seus métodos em tempo real. O regulador trabalha em ciclos de anos.

>>> 7. O que seria necessário para romper o ciclo

A primeira medida seria a obrigação de transparência financeira para entidades religiosas acima de determinado porte. Não tributação — transparência. Balanços auditados por terceiros independentes, publicados anualmente. Identificação de doações acima de determinado valor. Isso não viola a liberdade religiosa; viola o privilégio de operar com renúncia fiscal do Estado sem qualquer prestação de contas ao público.

A segunda é a lei antimáfia que Gakiya defende há anos — e que o Congresso sistematicamente atrasa. A proposta inclui a tipificação de organizações criminosas como mafiosas, com confisco ampliado de bens e responsabilização de quem presta serviços a essas organizações mesmo sem participação direta nos crimes.

A terceira é a agência federal antimáfia com acesso integrado aos dados do COAF, da Receita, do Banco Central e do BNDES. A competição institucional entre PF, MP e GAECO estadual é um dos maiores ativos do crime organizado no Brasil.

A quarta — e talvez a mais difícil — é a reforma do regime de due diligence (investigação antes de uma decisão relevante) na cadeia de fundos de crédito estruturado. Exigir que cada elo da cadeia conheça a origem primária dos recursos que administra, e que responda por isso, muda radicalmente o cálculo de risco dos intermediários financeiros que hoje se beneficiam da assimetria de informação.

•        Folha e o caso Master: a escandalização e a hipocrisia. Por Luís Nassif

Os mais velhos se lembram da campanha dos jornais no pré-golpe de 1964. Os de meia-idade ainda têm vivos na memória os episódios do “mensalão” e da Lava Jato, com suas narrativas construídas em cima de meias verdades e vazamentos seletivos. O padrão parece se repetir.

Para ilustrar o ponto, vale examinar a matéria da Folha de S.Paulo intitulada “Master gastou R$ 60 milhões com autoridades da República em Londres, Nova York e Lisboa“, reproduzida de forma integral por veículos como a Revista Oeste e a Gazeta do Povo.

O texto afirma que Daniel Vorcaro “acompanhou pessoalmente o desembolso de US$ 11,5 milhões — equivalentes a R$ 60 milhões na cotação atual — para financiar eventos internacionais de alto padrão, repletos de autoridades”, e que as informações foram colhidas de “documentos recolhidos pela Polícia Federal”, ou seja, trata-se de mais um vazamento da Polícia Federal.

A reportagem detalha o gasto mais expressivo: cerca de US$ 7,5 milhões no 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres entre 24 e 26 de abril de 2024. O fórum foi organizado pelo Grupo Voto — não pelo Banco Master. O patrocínio foi destinado ao organizador do evento, não pessoalmente aos ministros presentes.

O que é o Grupo Voto? É uma empresa de “diplomacia empresarial e relações institucionais” que tem entre seus apoiadores Jorge Gerdau, um dos expoentes do pensamento liberal brasileiro. O grupo já realizou eventos de lobby em favor do licenciamento de uma megafábrica de celulose da multinacional chilena CMPC.

Recentemente lançou o Voto Mídia, tendo como garoto-propaganda o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.

Seus eventos reúnem indistintamente figuras da esquerda e da direita — entre os nomes confirmados em edições recentes estão o ex-ministro Eduardo Pazuello e deputados do PL e do Republicanos.

O problema real não é que o Master tenha patrocinado eventos com ministros. Isso é prática comum e disseminada no Brasil, envolvendo patrocinadores dos mais variados setores. O problema é que a Folha — e os veículos que reproduziram a reportagem — não contextualizou quem mais participava dessa mesma lógica. Alimentou a Lava Jato 2 sem identificar os verdadeiros beneficiários do festival de patrocínios do Master.

O Master bancou oito eventos entre 2022 e 2024:

1.       Nova York, novembro de 2022 — Lide Brazil Conference, com jantar no Fasano custeado pelo banco.

2.       Paris, outubro de 2023 — 1º Fórum Esfera Internacional, no Hotel Renaissance Paris Vendôme.

3.       Londres, abril de 2024 — 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, organizado pelo Grupo Voto, no Hotel The Peninsula.

4.       Nova York, maio de 2024 — Summit Valor Econômico Brazil-USA, organizado pelo Grupo Globo, no Hotel Plaza.

5.       Cambridge (EUA), 2024 — Brazil Conference, na Harvard e no MIT.

6.       Lisboa, junho de 2024 — 12º Fórum Jurídico de Lisboa.

7.       Roma, outubro de 2024 — 2º Fórum Esfera Internacional, no Hotel St. Regis.

8.       Rio de Janeiro, agosto de 2024 — 23º Fórum Empresarial Lide, no Hotel Fairmont Copacabana.

Além dos eventos, o Master mantinha contratos com múltiplos veículos de comunicação.

Em abril de 2022 e fevereiro de 2023, figurou como patrocinador máster do Camarote Quem/O Globo no Carnaval do Rio.

Em maio de 2024, foi o apresentador principal do Summit do Valor Econômico em Nova York — evento no qual o presidente da Editora Globo, Frederic Kachar, declarou publicamente: “Tenho alegria de ter patrocinadores de empresas que admiro e que tenho o privilégio de ser amigo. Muito obrigado ao Banco Master, na figura de seu presidente Daniel Vorcaro.”

O Will Bank, braço digital do Master, foi patrocinador máster do quadro “Willimpíadas” no Domingão com Huck em 2025.

O site Metrópoles e emissoras do apresentador Ratinho também receberam recursos do grupo. Segundo dados do COAF revelados pelo Estadão, a empresa do jornalista Leo Dias recebeu ao menos R$ 9,9 milhões do Master entre fevereiro de 2024 e maio de 2025.

É nesse ponto que a seletividade editorial fica mais evidente. O mesmo jornal O Globo que dedicou reportagens extensas ao contrato do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes com o Master — contrato usado para sugerir influência do banco sobre o ministro Alexandre de Moraes — nunca registrou que, no mesmo período, mantinha relação comercial direta com a instituição, cujo principal patrocinador da celebração dos seus próprios 25 anos em Nova York era o próprio Vorcaro.

A estratégia de Vorcaro operou em dois níveis simultâneos: eventos de acesso fechado em Londres, Nova York, Paris e Roma, para construir proximidade com a elite jurídica e política; e contratos publicitários com veículos e comunicadores de massa para construir legitimidade pública. A Folha e os veículos que reproduziram sua reportagem cobriram seletivamente o primeiro nível — ignorando sistematicamente o segundo, no qual eram protagonistas.

 

Fonte: Jornal GGN

 

Nenhum comentário: