Luís
Nassif: O caso Master é um ecossistema de corrupção
O caso
Master não pode ser analisado como aventura individual de um banqueiro
desatinado, que montou uma estrutura viciada, tipo pirâmide, e não hesitava em
queimar centenas de milhões de reais em um consumo conspícuo ou para comprar
autoridades.
Trata-se
de um ecossistema completo de corrupção, envolvendo os seguintes atores:
>>>
1. A fintech como infraestrutura universal
O
Brasil criou, entre 2018 e 2023, o ambiente regulatório mais favorável à
proliferação de fintechs do mundo em desenvolvimento. O Banco Central, sob a
liderança de Roberto Campos Neto, autorizou as licenças de instituição de
pagamento e a regulação de arranjos de pagamento. O resultado foi uma explosão:
de algumas dezenas de fintechs em 2015, o país chegou a mais de 1.300 em 2023,
segundo a Associação Brasileira de Fintechs.
O que o
promotor Lincoln Gakiya, do GAECO de São Paulo, documenta nas suas
investigações é que o mesmo ambiente que permitiu ao pequeno empreendedor do
Nordeste receber pagamento pelo celular também criou o canal perfeito para o
PCC, para igrejas corporativas e para operadores políticos movimentarem
dinheiro de origem ilícita com uma eficiência que as antigas casas-cofre jamais
permitiriam.
>>>
2. O que o crime entendeu antes do regulador
O PCC
entendeu antes de qualquer analista de Faria Lima o potencial das fintechs para
a lavagem de dinheiro em escala. Gakiya documentou publicamente que a facção,
após décadas operando com postos de gasolina, agências de veículos e empresas
de ônibus como fachadas, migrou parte relevante de seus fluxos financeiros para
bancos digitais e fintechs, especialmente após a pandemia.
Recursos
do tráfico internacional de cocaína — hoje exportada principalmente para a
Europa e a Ásia, onde o quilo pode valer até US$ 150 mil, segundo Gakiya —
entram no sistema por meio de laranjas com contas em múltiplas fintechs. O
dinheiro é fragmentado em valores abaixo dos limites de reporte automático ao
COAF, distribuído por dezenas de contas, reagrupado em estruturas jurídicas
mais complexas — FIDCs, fundos de participação, holdings — e emerge como lucro
legítimo de uma empresa que presta serviços reais.
>>>
3. A igreja como nó da rede
Uma
grande igreja evangélica no Brasil recebe recursos de milhares de pessoas
físicas em valores variados, predominantemente em espécie ou por Pix de contas
pessoais. Não tem obrigação legal de identificar doadores ou dizimistas. Não
precisa publicar balanços. Opera sob imunidade tributária ampla, consolidada
pelo STF para cobrir patrimônio, renda e serviços vinculados às suas atividades
essenciais.
O
relatório do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro do Ministério
Público de São Paulo registrou que a Igreja Universal recebeu entre 2011 e 2015
cerca de R$ 33,3 bilhões apenas em doações bancárias.
Quando
a essa arquitetura se acrescenta uma fintech própria — como a Clava Forte Bank,
fundada por André e Cassiane Valadão e citada na CPI do INSS em relação ao
Banco Master — ou uma parceria com um banco digital, o circuito se fecha.
A
Operação Plata documentou a versão mais crua desse modelo: igrejas evangélicas
fundadas diretamente por operadores do PCC no Rio Grande do Norte e em São
Paulo, com laranjas como titulares formais, usadas para lavar mais de R$ 23
milhões do tráfico.
>>>
4. A Faria Lima como câmara de compensação
A
terceira camada do sistema é a que menos aparece nas investigações criminais —
e por isso é a mais importante de nomear.
A Faria
Lima não é um lugar. É um ecossistema: gestoras de recursos, fundos de private
equity, family offices, estruturadoras de FIDCs, assessores de investimento e
escritórios jurídicos especializados. Esse ecossistema tem uma função legítima
e essencial na alocação de capital produtivo. Mas tem também, em sua fração
mais opaca, uma função que raramente é discutida com clareza: a de câmara de
compensação entre dinheiro de origem questionável e ativos com aparência de
legitimidade.
Um
fundo de crédito estruturado capta recursos de múltiplos cotistas, inclusive de
fundos de fundos que por sua vez captam de investidores pessoa física. Quem
está no quinto nível da cadeia não sabe — e frequentemente não tem obrigação
regulatória de saber — de onde vem o dinheiro do cotista do segundo nível. A
due diligence que seria necessária para rastrear a origem dos recursos até sua
fonte primária raramente é feita, porque é cara, porque o regulador não exige
com rigor suficiente e porque o incentivo do gestor é captar, não investigar.
Isso
não é peculiaridade do Master. É uma vulnerabilidade estrutural do modelo de
crédito privado brasileiro, onde a cadeia entre o poupador final e o devedor
original pode ter cinco, seis, sete intermediários, cada um com visibilidade
apenas de seu elo imediato.
>>>
5. O político como elo de proteção
A
proteção opera em três planos.
O
primeiro é legislativo: a Frente Parlamentar Evangélica bloqueia
sistematicamente qualquer tentativa de criar obrigações de transparência para
entidades religiosas. Propostas de auditoria externa obrigatória para igrejas
acima de determinado porte de receita são arquivadas antes de chegar a votação.
O
segundo é regulatório: as janelas de licenciamento de fintechs e de emissão de
CDBs por bancos médios foram ampliadas. O resultado colateral foi a criação de
um ambiente em que atores com intenções duvidosas podiam obter licenças com
relativa facilidade, antes que os mecanismos de supervisão do Banco Central
evoluíssem na mesma velocidade.
O
terceiro é o mais sutil e o mais difícil de documentar: a captura de instâncias
de investigação e julgamento. Gakiya foi explícito ao dizer que “para o crime
organizado manter seu negócio funcionando ele precisa de proteção, e essa
proteção não é só feita pelo criminoso armado, mas por agentes públicos — pode
ser policial corrompido, pode ser fiscal, promotor, juiz.”
>>>
6. A gramática comum
O que
une esses quatro mundos — a fintech, a igreja, o crime e a política — não é um
plano centralizado. É uma gramática comum, com quatro palavras fundamentais.
Opacidade:
cada um desses mundos tem seu próprio mecanismo de evitar rastreabilidade. A
fintech usa a fragmentação de contas. A igreja usa a imunidade e a ausência de
obrigação de declarar doadores. O fundo usa a cadeia de intermediários. O
político usa o caixa dois, a doação disfarçada, o intermediário.
Legitimidade
emprestada: nenhum desses instrumentos é ilegal por definição. Uma fintech é
legítima. Uma igreja é legítima. Um FIDC é legítimo. Um político eleito é
legítimo. A ilicitude não está no instrumento — está no uso.
Escala
de pequenos valores: o Pix e os bancos digitais permitiram que a fragmentação
de pagamentos — o chamado smurfing — alcançasse uma eficiência sem precedentes.
Velocidade
regulatória assimétrica: o crime organizado, as corporações religiosas e os
operadores financeiros adaptam seus métodos em tempo real. O regulador trabalha
em ciclos de anos.
>>>
7. O que seria necessário para romper o ciclo
A
primeira medida seria a obrigação de transparência financeira para entidades
religiosas acima de determinado porte. Não tributação — transparência. Balanços
auditados por terceiros independentes, publicados anualmente. Identificação de
doações acima de determinado valor. Isso não viola a liberdade religiosa; viola
o privilégio de operar com renúncia fiscal do Estado sem qualquer prestação de
contas ao público.
A
segunda é a lei antimáfia que Gakiya defende há anos — e que o Congresso
sistematicamente atrasa. A proposta inclui a tipificação de organizações
criminosas como mafiosas, com confisco ampliado de bens e responsabilização de
quem presta serviços a essas organizações mesmo sem participação direta nos
crimes.
A
terceira é a agência federal antimáfia com acesso integrado aos dados do COAF,
da Receita, do Banco Central e do BNDES. A competição institucional entre PF,
MP e GAECO estadual é um dos maiores ativos do crime organizado no Brasil.
A
quarta — e talvez a mais difícil — é a reforma do regime de due diligence
(investigação antes de uma decisão relevante) na cadeia de fundos de crédito
estruturado. Exigir que cada elo da cadeia conheça a origem primária dos
recursos que administra, e que responda por isso, muda radicalmente o cálculo
de risco dos intermediários financeiros que hoje se beneficiam da assimetria de
informação.
• Folha e o caso Master: a escandalização
e a hipocrisia. Por Luís Nassif
Os mais
velhos se lembram da campanha dos jornais no pré-golpe de 1964. Os de
meia-idade ainda têm vivos na memória os episódios do “mensalão” e da Lava
Jato, com suas narrativas construídas em cima de meias verdades e vazamentos
seletivos. O padrão parece se repetir.
Para
ilustrar o ponto, vale examinar a matéria da Folha de S.Paulo intitulada
“Master gastou R$ 60 milhões com autoridades da República em Londres, Nova York
e Lisboa“, reproduzida de forma integral por veículos como a Revista Oeste e a
Gazeta do Povo.
O texto
afirma que Daniel Vorcaro “acompanhou pessoalmente o desembolso de US$ 11,5
milhões — equivalentes a R$ 60 milhões na cotação atual — para financiar
eventos internacionais de alto padrão, repletos de autoridades”, e que as
informações foram colhidas de “documentos recolhidos pela Polícia Federal”, ou
seja, trata-se de mais um vazamento da Polícia Federal.
A
reportagem detalha o gasto mais expressivo: cerca de US$ 7,5 milhões no 1º
Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres entre 24 e 26 de abril de
2024. O fórum foi organizado pelo Grupo Voto — não pelo Banco Master. O
patrocínio foi destinado ao organizador do evento, não pessoalmente aos
ministros presentes.
O que é
o Grupo Voto? É uma empresa de “diplomacia empresarial e relações
institucionais” que tem entre seus apoiadores Jorge Gerdau, um dos expoentes do
pensamento liberal brasileiro. O grupo já realizou eventos de lobby em favor do
licenciamento de uma megafábrica de celulose da multinacional chilena CMPC.
Recentemente
lançou o Voto Mídia, tendo como garoto-propaganda o governador do Rio Grande do
Sul, Eduardo Leite.
Seus
eventos reúnem indistintamente figuras da esquerda e da direita — entre os
nomes confirmados em edições recentes estão o ex-ministro Eduardo Pazuello e
deputados do PL e do Republicanos.
O
problema real não é que o Master tenha patrocinado eventos com ministros. Isso
é prática comum e disseminada no Brasil, envolvendo patrocinadores dos mais
variados setores. O problema é que a Folha — e os veículos que reproduziram a
reportagem — não contextualizou quem mais participava dessa mesma lógica.
Alimentou a Lava Jato 2 sem identificar os verdadeiros beneficiários do
festival de patrocínios do Master.
O
Master bancou oito eventos entre 2022 e 2024:
1. Nova York, novembro de 2022 — Lide Brazil
Conference, com jantar no Fasano custeado pelo banco.
2. Paris, outubro de 2023 — 1º Fórum Esfera
Internacional, no Hotel Renaissance Paris Vendôme.
3. Londres, abril de 2024 — 1º Fórum
Jurídico Brasil de Ideias, organizado pelo Grupo Voto, no Hotel The Peninsula.
4. Nova York, maio de 2024 — Summit Valor
Econômico Brazil-USA, organizado pelo Grupo Globo, no Hotel Plaza.
5. Cambridge (EUA), 2024 — Brazil
Conference, na Harvard e no MIT.
6. Lisboa, junho de 2024 — 12º Fórum
Jurídico de Lisboa.
7. Roma, outubro de 2024 — 2º Fórum Esfera
Internacional, no Hotel St. Regis.
8. Rio de Janeiro, agosto de 2024 — 23º
Fórum Empresarial Lide, no Hotel Fairmont Copacabana.
Além
dos eventos, o Master mantinha contratos com múltiplos veículos de comunicação.
Em
abril de 2022 e fevereiro de 2023, figurou como patrocinador máster do Camarote
Quem/O Globo no Carnaval do Rio.
Em maio
de 2024, foi o apresentador principal do Summit do Valor Econômico em Nova York
— evento no qual o presidente da Editora Globo, Frederic Kachar, declarou
publicamente: “Tenho alegria de ter patrocinadores de empresas que admiro e que
tenho o privilégio de ser amigo. Muito obrigado ao Banco Master, na figura de
seu presidente Daniel Vorcaro.”
O Will
Bank, braço digital do Master, foi patrocinador máster do quadro “Willimpíadas”
no Domingão com Huck em 2025.
O site
Metrópoles e emissoras do apresentador Ratinho também receberam recursos do
grupo. Segundo dados do COAF revelados pelo Estadão, a empresa do jornalista
Leo Dias recebeu ao menos R$ 9,9 milhões do Master entre fevereiro de 2024 e
maio de 2025.
É nesse
ponto que a seletividade editorial fica mais evidente. O mesmo jornal O Globo
que dedicou reportagens extensas ao contrato do escritório de advocacia de
Viviane Barci de Moraes com o Master — contrato usado para sugerir influência
do banco sobre o ministro Alexandre de Moraes — nunca registrou que, no mesmo
período, mantinha relação comercial direta com a instituição, cujo principal
patrocinador da celebração dos seus próprios 25 anos em Nova York era o próprio
Vorcaro.
A
estratégia de Vorcaro operou em dois níveis simultâneos: eventos de acesso
fechado em Londres, Nova York, Paris e Roma, para construir proximidade com a
elite jurídica e política; e contratos publicitários com veículos e
comunicadores de massa para construir legitimidade pública. A Folha e os
veículos que reproduziram sua reportagem cobriram seletivamente o primeiro
nível — ignorando sistematicamente o segundo, no qual eram protagonistas.
Fonte:
Jornal GGN

Nenhum comentário:
Postar um comentário