Florestan
Fernandes Jr.: O jogo político por trás das delações do caso Master
Após os
episódios da Lava Jato, marcados por delações questionadas, denúncias
controversas e práticas amplamente criticadas, é necessário manter atenção
redobrada ao que pode surgir.
Em meio
às investigações do maior escândalo financeiro do Brasil, Daniel Vorcaro, dono
do Banco Master, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB (Banco de
Brasília), negociam acordos de delação premiada com a Polícia Federal. Essas
delações ocorrem em pleno ano eleitoral e certamente terão impacto na campanha
presidencial.
E não é
por acaso. Antes mesmo de serem formalizadas as delações, jornalistas da mídia
corporativa já vinham construindo, em powerpoints, denúncias baseadas em
“fontes anônimas”, além de uma narrativa sobre quem deveria ser incluído no rol
dos envolvidos no esquema de Daniel Vorcaro.
A
versão inverossímil de uma suposta relação entre o governo Lula e o dono do
Banco Master, produziu efeitos: aumentou a rejeição ao presidente e reduziu sua
liderança nas pesquisas.
O mais
paradoxal é que justamente o governo que atuou para conter irregularidades e
iniciou o processo de liquidação do Master, estrutura criada durante o governo
Bolsonaro, acabou arcando com o desgaste político gerado por fatos ocorridos
naquele período e por agentes ligados àquela gestão.
A
história das campanhas eleitorais no Brasil, desde a eleição de Lula em 2002,
mostra como parte da mídia e da elite financeira busca influenciar o processo
eleitoral por meio da exploração do tema da corrupção. Para fixar essas
narrativas no imaginário popular, criaram-se até “marcas” com o sufixo “ão”:
Mensalão, Petrolão.
Mas,
como diz o ditado, “gato escaldado tem medo de água fria”. Após os episódios da
Lava Jato, marcados por delações questionadas, denúncias controversas e
práticas amplamente criticadas, é necessário manter atenção redobrada ao que
pode surgir.
Sobretudo
porque há indícios de que possíveis delatados, em razão de sua proximidade com
Vorcaro, possam ser poupados. Entre eles, figuram prefeitos e governadores
alinhados ao bolsonarismo, que utilizaram fundos de pensão de estados e
municípios para adquirir títulos de alto risco do Banco Master.
Um
exemplo é o governador Cláudio Castro, que teria comprometido entre R$ 970
milhões e R$ 2,6 bilhões da Rioprevidência. Outro caso, é o do governador do
Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que em 2024 autorizou a aquisição de R$ 30,4
bilhões em ativos do banco por meio do BRB. Além disso, houve tentativa de
compra do Banco Master pelo BRB, operação que não se concretizou após negativa
do Banco Central, já na gestão de Gabriel Galípolo.
Diante
desses elementos, é difícil prever como eventuais delações poderiam sustentar
narrativas já antecipadas em determinados espaços midiáticos.
Mas
vale lembrar que o presidente Lula foi condenado, sem provas, a 12 anos e um
mês de prisão pela "lavagem de dinheiro" nos casos de um triplex no
Guarujá que nunca foi dele e, da reforma de um sítio de amigos, em Atibaia.
Por
fim, destaca-se que o relator do caso Master no STF é o ministro terrivelmente
evangélico, André Mendonça, amigo próximo da madrasta de Flávio Bolsonaro,
Michele Bolsonaro.
Em ano
eleitoral, é preciso observar os fatos, quem os narra, como os narra e sob
quais interesses. A história recente do Brasil mostra que investigações
costumam ser instrumentalizadas e transformadas em armas políticas.
O caso
Banco Master ainda está em aberto, mas a disputa pela sua interpretação já
começou. E, mais uma vez, o risco não está apenas no que será revelado, mas na
forma como essas revelações serão utilizadas para influenciar o rumo da eleição
brasileira.
• Silêncio de Luiz Estêvão era essencial
para o crime perfeito de Daniel Vorcaro: a venda do Master para o BRB. Por
Joaquim de Carvalho
O
Estadão revelou que o Banco Master destinou R$ 27,2 milhões ao Metrópoles entre
2024 e 2025, um dado que, por si só, já desloca a discussão do campo comercial
para o campo político, financeiro e, sobretudo, da manipulação de informações.
São valores muito acima dos praticados pelo mercado e das receitas do próprio
veículo de comunicação.
A
partir dessa revelação, detectada pelo Coaf,
o que se mostra é mais do que uma relação de patrocínio: é um arranjo em
que dinheiro, influência e controle narrativo podem ter operado em sintonia num
momento decisivo, a tentativa de venda do banco ao BRB.
No
centro desse processo estão o banqueiro Daniel Vorcaro e o ex-senador Luiz
Estevão. A hipótese que emerge é que o silêncio, mais do que a ação, pode ter
sido o principal ativo estratégico.
Fundado
em Brasília e controlado pela família de Luiz Estevão, o Metrópoles rapidamente
deixou de ser um veículo regional para se tornar um site de repercussão
nacional.
Hoje, é
o veículo de notícias mais acessado do Distrito Federal e um dos maiores do
país, com enorme penetração entre leitores da capital. Isso significa que
grande parte da opinião pública brasiliense — incluindo eleitores, servidores
públicos e tomadores de decisão — passa, direta ou indiretamente, por sua linha
editorial.
Esse
alcance não é apenas um indicador de sucesso empresarial. É um instrumento de
poder.
Em uma
cidade onde política e administração pública se entrelaçam diariamente,
controlar ou influenciar o principal fluxo de informação local equivale a
ocupar uma posição estratégica no debate público.
Os R$
27,2 milhões transferidos ao Metrópoles, classificados como “inusitados” pelo
Coaf, ganham outra dimensão diante desse contexto.
Não se
trata apenas de financiar transmissões esportivas de baixa atratividade.
Trata-se, potencialmente, de estabelecer uma relação com o principal vetor de
informação de uma região diretamente impactada por uma operação sensível.
O
timing é revelador: os repasses se intensificam justamente quando o Banco
Master enfrentava investigações, buscava viabilizar sua venda e caminhava para
o colapso. Alertas da Caixa Econômica Federal apontam movimentações
incompatíveis com o faturamento, valores atípicos e circulação acelerada de
recursos. São elementos que, embora não provem irregularidade, indicam
necessidade de investigação.
Se o
Metrópoles é o principal formador de opinião do Distrito Federal, seu silêncio
— ou a ausência de cobertura crítica — passa a ter valor econômico e político.
A
hipótese plausível é direta: ao garantir um ambiente menos hostil, o Banco
Master poderia aumentar as chances de viabilizar sua negociação com o BRB sem
resistência significativa da opinião pública.
E aqui
está o ponto crucial: o BRB é um banco público. Isso significa que qualquer
operação malsucedida impacta diretamente os moradores do Distrito Federal, seja
por perdas financeiras, seja por efeitos indiretos sobre crédito, investimentos
e serviços.
Se uma
transação potencialmente arriscada deixa de ser amplamente debatida no
principal veículo de comunicação local, cria-se uma distorção grave: a
sociedade que arca com os riscos pode não ter acesso pleno às informações
necessárias para compreendê-los.
A
defesa de Luiz Estevão — de que pode dispor livremente dos recursos — é
juridicamente válida. No entanto, o ponto levantado pelo Coaf não é sobre o
direito de gastar, mas sobre o percurso e a finalidade dos recursos.
Quando
valores elevados entram e saem rapidamente de empresas ligadas ao mesmo grupo
familiar, em um contexto sensível, a questão deixa de ser apenas legal e passa
a ser estrutural: qual é a função econômica real dessas operações?
A
expressão “crime perfeito”, portanto, não funciona aqui, a princípio, apenas
como uma metáfora. Pode ter havido lavagem de dinheiro. É algo que a
investigação da Polícia Federal não pode desprezar.
O caso
envolvendo Banco Master, Metrópoles e seus protagonistas revela como dinheiro,
mídia e poder podem se entrelaçar de maneira sofisticada.
Quando
o principal veículo de comunicação de uma região está financeiramente conectado
a um agente sob pressão, o impacto deixa de ser privado e passa a ser coletivo.
O
silêncio do jornal de Luiz Estêvão também foi importante para a recondução do
governador Ibaneis Rocha para o comando do Distrito Federal, depois dos atos
golpistas.
A
decisão de reconduzi-lo foi de Alexandre de Moraes, e seria mais difícil se
houvesse uma cobertura crítica do Metrópoles.
E,
nesse ponto, Luiz Estêvão se tornou protagonista, ao receber e divulgar
mensagem do governador de que, no dia dos atos golpistas, ele havia tirado uma
"soneca".
Nesse
contexto, em que o dono do Metrópoles e o governador que quis comprar o Master
demonstram pçroximidade, o maior risco não está apenas no que foi feito, mas no
que pode não ter sido dito.
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Jornalistas do Metrópoles não precisam sair em defesa do patrão; ele é
grandinho e sabe se defender
Em
momentos de crise, especialmente quando envolvem dinheiro, poder e influência,
um dos maiores testes do jornalismo não está na apuração, mas na postura. E é
justamente nesse ponto que alguns profissionais do Metrópoles parecem ter
tropeçado ao sair em defesa pública de seu próprio patrão, Luiz Estevão.
A
situação se agrava porque não se trata de uma controvérsia trivial. O
empresário teria recebido R$ 27,2 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, o
personagem central do que o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad definiu como
“a maior fraude bancária da história do Brasil".
Diante
disso, o mínimo esperado de jornalistas, sobretudo aqueles que trabalham em um
veículo financiado por esse mesmo empresário, seria cautela, distanciamento e,
idealmente, silêncio público. Mas não foi o que ocorreu.
O
episódio mais simbólico foi protagonizado por Sam Pancher. Segundo relato
publicado na rede X (antigo Twitter), Pancher fez uma postagem defendendo o
veículo (e, consequentemente, endossando seu dono), mas acabou apagando o
conteúdo. O gesto de recuo, embora tardio, sugere ao menos algum reconhecimento
do problema.
Já
André Shalders seguiu um caminho diferente: manteve sua manifestação pública.
Ao fazer isso, não apenas reforçou o alinhamento com o patrão, como também
expôs um dilema clássico — o conflito entre independência editorial e lealdade
corporativa.
Shalders
diz que está sendo atacado pessoalmente pela divulgação da informação de que o
Metrópoles recebeu dinheiro de Vorcaro. Se é verdade que está sendo atacado,
não houve repercussão e, portanto, a manifestação dele serve muito mais de um
agrado ao patrão do que de defesa própria.
Shalders
diz que processará os críticos.
Nenhum
dos dois casos seria especialmente relevante se não revelassem algo maior: a
naturalização de jornalistas atuando como linha auxiliar de defesa de
interesses empresariais.
Jornalistas
têm direito a opiniões. O problema surge quando essas opiniões coincidem
sistematicamente com a proteção de quem paga seus salários, especialmente em
contextos que envolvem suspeitas, investigações e uma montanha de dinheiro.
Ao
defender publicamente o jornal de Luiz Estevão, esses profissionais não apenas
colocam em xeque sua independência, como também contaminam a percepção pública
sobre todo o veículo.
E isso
tem consequências. A credibilidade, uma vez arranhada, não se recupera com
facilidade.
Fundado
em 2015 em Brasília, o Metrópoles rapidamente se consolidou como um dos maiores
portais de notícias do país, acumulando prêmios e grande audiência digital.
Luiz
Estevão construiu sua fortuna no setor imobiliário e da construção civil em
Brasília, tornando-se um dos empresários mais influentes da capital federal.
Também teve carreira política, tendo sido senador da República.
Sua
trajetória, porém, é marcada por um dos maiores escândalos de corrupção do
Judiciário brasileiro: o caso da construção do Fórum Trabalhista de São Paulo.
As
investigações revelaram um esquema de desvio de recursos públicos por meio de
obras superfaturadas no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, envolvendo
o então juiz Nicolau dos Santos Neto.
Nesse
processo, Luiz Estevão foi condenado por peculato, estelionato e corrupção
ativa — este último crime caracterizado pelo pagamento de propina para
viabilizar o esquema.
As
condenações levaram à cassação de seu mandato e, anos depois, à execução da
pena. Em 2016, após decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal, ele foi
preso, permanecendo quatro anos na Papuda, tornando-se o primeiro ex-senador
brasileiro a cumprir pena em regime fechado por condenação criminal.
O
episódio marcou profundamente sua trajetória pública e permanece como
referência quando seu nome volta ao debate nacional.
Já o
nome de Daniel Vorcaro aparece no centro de investigações recentes envolvendo o
sistema financeiro, com suspeitas que incluem fraudes, corrupção e lavagem de
dinheiro. É nesse cenário que pagamentos milionários ganham relevância pública,
e exigem investigação, não defesa automática.
Nenhum
empresário precisa de jornalistas para defendê-lo publicamente — especialmente
alguém como Luiz Estevão, com recursos, influência e acesso a advogados.
Quando
jornalistas assumem esse papel, deixam de exercer sua função essencial:
questionar o poder, não protegê-lo.
A
imprensa não existe para blindar seus donos. Existe para informar a sociedade.
E,
nesse caso, a melhor contribuição que esses profissionais poderiam dar seria
simples: não dizer nada. Deixar que os fatos falem por si.
A
diretora de redação do Metrópoles, Lilian Tahan, foi procurada, mas não se
manifestou.
Fonte:
Brasil 247

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