sábado, 11 de abril de 2026

Marcelo Zero: Fracasso anunciado, sucesso previsto

A “política industrial” de Trump consiste na mera imposição aleatória, frequentemente politicamente motivada, de tarifas de importação altíssimas, como fez, em um passado muito distante e em circunstâncias muito diferentes, o presidente McKinley.

Trump prometeu que esses tarifaços irracionais, que se parecem muito mais com sanções comerciais do que com qualquer outra coisa, criariam uma avassaladora onda de criação de empregos.

Pois bem, passado pouco mais de um ano do Liberation Day, o dia do grande tarifaço inicial, o número de empregos na indústria manufatureira diminuiu no período, com 98 mil vagas a menos em comparação com o ano anterior, segundo os dados mais recentes do Departamento do Trabalho dos EUA.

Há 29,9 mil empregos a menos na indústria automobilística e 18 mil a menos na indústria madeireira, ambos setores que o presidente tentou proteger com barreiras comerciais.

O setor de transporte e armazenagem, por sua vez, perdeu quase 130 mil empregos no mesmo período.

Além disso, as novas tarifas mais altas sobre aço e alumínio dificultaram a construção de fábricas.

A taxa de contratação do setor de construção, que geralmente reflete a confiança nas perspectivas econômicas, está mais baixa agora do que no início da pandemia de Covid-19.

As próprias montadoras norte-americanas estão protestando e apontando para o fato de que esses acordos tarifários tornaram mais barato produzir carros no exterior do que na América do Norte, região na qual as montadoras estadunidenses dependem muito de peças e mão de obra do Canadá e do México. Trump teve um efeito disruptivo nessa cadeia regional, que antes funcionava bem.

O grande problema da “política” de Trump é tal efeito disruptivo e a incerteza que ela causa. Não há qualquer planejamento ou estudo técnico sério para estabelecer as tarifas mais adequadas, de acordo com as necessidades específicas.

Ademais, o “vai e vem” político de Trump só piora o quadro. Por tal razão, as empresas estadunidenses que estabeleceram suas bases físicas no exterior não “estão voltando”, como se esperava. O “reshoring” está fracassando.

E o pior é que esses tarifaços irracionais estão aumentando os custos para os consumidores, provocando queda de popularidade do governo. Trump definha rapidamente. Isola-se externa e internamente.

Política industrial não se improvisa e não pode se basear em “tarifaços”, principalmente quando esses “tarifaços” obedecem a uma lógica perversa de punição geopolítica e não a uma lógica virtuosa de cooperação econômica racional.

As relações políticas e econômicas entre os Estados não podem ser vistas, como faz obtusamente o governo Trump, como um jogo de soma zero.

Em contraste, o Brasil, com o BNDES, tem hoje uma política de neoindustrialização cuidadosamente planejada e calibrada.

Os resultados estão aparecendo.

Já em 2023, a indústria de transformação gerou 241,8 mil empregos e contribuiu para a abertura de mais de 30 mil empresas.

Em 2024, a indústria foi responsável por 76% do aumento de vagas formais de trabalho, conforme dados do FGV Ibre.

Em 2025, embora tenha havido uma desaceleração na geração de empregos em relação ao ano anterior, a indústria brasileira gerou 144.319 empregos formais, integrando um saldo positivo total de 1,27 milhão de vagas no país.

Mencione-se que o Brasil registrou um recorde histórico no estoque de empregos formais, atingindo 49,09 milhões de vínculos ativos no final de 2025, o maior nível registrado na série histórica do Novo Caged, iniciada em 2020.

A tendência de longo prazo, com essa política e com a diminuição das taxas de juros a níveis razoáveis, é que a indústria brasileira se torne, cada vez mais, um setor bastante dinâmico, gerando postos de trabalho de qualidade e portadores de futuro.

Observe-se que o Brasil está fazendo isso tudo sem “tarifaços” irracionais. Ao contrário, o Brasil está investindo em maior cooperação econômica e em diversificação das parcerias estratégicas.

Por isso, no ano passado (2025), o Brasil fechou o período com um recorde histórico de US$ 349 bilhões em exportações totais, apesar dos tarifaços trumpistas.

Neste primeiro trimestre de 2026, batemos um novo recorde. Exportamos mais US$ 82 bilhões em bens para o exterior, o maior valor exportado em apenas três meses.

Fechamos, juntamente com nossos parceiros do Mercosul, um acordo de livre comércio com a UE, um dos maiores do mundo. Também concluímos um acordo com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) e estamos negociando celeremente um acordo Mercosul/Canadá, o vizinho humilhado por Trump.

Enfatize-se que, em todas essas negociações, asseguramos e asseguraremos salvaguardas para proteger nossa produção e nossos empregos.

Não demonizamos o livre comércio e a cooperação econômica, como faz hoje Trump, o McKinley do século XXI, mas também não acreditamos que a simples e acrítica abertura dos mercados tenha o condão de assegurar automaticamente o desenvolvimento, como se argumentava na época em que o neoliberalismo, essa ideologia obsoleta e fracassada, ainda era levado a sério.

O Brasil tem um governo sério e competente, muito distinto do de Trump, que sabe ler o cenário externo e as grandes tendências geopolíticas e geoeconômicas mundiais. Sabe como se colocar no mundo, respeitando sempre o multilateralismo e adaptando-se, com inteligência, ao novo cenário da multipolaridade crescente.

Estamos no rumo certo, do qual só poderemos ser desviados caso os vassalos internos de Trump, os vira-latas que aplaudem e apoiam a destrutiva hegemonia predatória dos EUA, cheguem ao poder, com o auxílio das poderosas Big Techs estadunidenses, que dominam o mundo antidemocrático da “pós-verdade”.

Entretanto, contra essa perspectiva trágica, o Brasil tem um “Big Povo”, que abomina traidores e vassalos.

¨      Compra recorde da China eleva exportação de petróleo do Brasil ao 2º maior nível da história

A China importou em março um volume recorde de petróleo do Brasil, impulsionando as exportações brasileiras da commodity ao segundo maior nível da série histórica, em meio a uma reorganização dos fluxos globais de energia após as disrupções no Oriente Médio.

O país asiático comprou 1,6 milhão de barris por dia (bpd) de petróleo brasileiro no mês passado, maior volume já registrado e equivalente a 67% de todas as exportações do Brasil, segundo dados oficiais do governo federal. O montante superou o recorde anterior, de cerca de 1,46 milhão de bpd, registrado em maio de 2020.

"O avanço das exportações já era esperado, conforme o fechamento do Estreito de Ormuz resultou em uma busca intensa de países importadores por produtos providos por outras origens, encontrando no mercado brasileiro parte da oferta perdida no Oriente Médio", afirmou Bruno Cordeiro, analista de Inteligência de Mercado da StoneX.

Ele observou, com base em dados do governo, que a Índia foi o segundo maior destino das exportações de petróleo do Brasil em março, respondendo por 7% das cargas, com país asiático buscando também alternativas para lidar com as dificuldades para atravessar o Estreito de Ormuz, por onde passava antes da guerra no Irã cerca de 20% dos fluxos globais da commodity.

"Essa maior participação da Ásia acaba refletindo a necessidade do continente de diversificar ainda mais os seus fornecedores, com o Brasil se beneficiando desse cenário e escoando um maior volume de petróleo para o exterior."

Na sequência da China e Índia, aparece entre os principais destinos do petróleo brasileiro a Espanha, com 6,7%, e Estados Unidos, com 6,1%, disse Cordeiro.

As exportações totais de petróleo do Brasil atingiram 2,5 milhões de bpd em março, alta de 12,4% sobre fevereiro e o segundo maior da história, atrás apenas de março de 2023.

Cordeiro ponderou que a abertura do Estreito de Ormuz, com a trégua na guerra anunciada na véspera, deve aliviar a pressão asiática, o que poderia resultar em uma menor busca do petróleo brasileiro -- dada a proximidade geográfica e os benefícios logísticos desse comércio dos países do Golfo Pérsico com o continente.

"Ao mesmo tempo, a retomada gradual dos fluxos pelo Estreito de Ormuz é um fator que deve garantir a manutenção de volumes elevados de vendas do Brasil para alguns consumidores da região, principalmente China e Índia", acrescentou.

<><> DIESEL

Enquanto as exportações de petróleo avançaram, o Brasil reduziu de forma significativa as importações de diesel, um alerta para o país que importa cerca de 25% de suas necessidades.

De acordo com dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as compras externas do combustível somaram 1,05 bilhão de litros em março, queda de 25% em relação a fevereiro.

Para Cordeiro, "a redução expressiva das cargas destinadas ao Brasil reflete tanto um aumento significativo da competição pelo produto no mercado internacional, quanto pelo avanço dos preços do produto importado que chega aos portos brasileiros".

A redução foi sentida principalmente nas cargas provenientes dos Estados Unidos, apontaram os dados. A participação do diesel norte-americano nas importações brasileiras caiu para menos de 1% em março, ante 8,3% no mês anterior.

Segundo o analista da StoneX, "a diminuição do share norte-americano reflete, provavelmente, um redirecionamento das cargas de diesel exportado pelo país para outras regiões que vêm pagando prêmios maiores ao combustível, principalmente a Ásia -- que vem sentindo mais os impactos com a suspensão dos fluxos de derivados fósseis pelo Estreito de Ormuz.

Em meio à menor oferta norte-americana, a Rússia ampliou sua presença no mercado brasileiro, passando de uma participação de 58% em fevereiro para 75% em março, mesmo com volume semelhante de exportações realizadas em fevereiro, segundo Cordeiro.

"Apesar dos ataques ucranianos contra portos ocidentais estratégicos da Rússia em meados de março e uma redução temporária das exportações de combustíveis, é esperado que os impactos dessa menor oferta sejam sentidos nas cargas programadas para abril", disse Cordeiro.

Outro ponto de destaque foi a manutenção da participação da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, com cada um respondendo por cerca de 130 milhões de litros exportados ao Brasil no mês.

"Tal cenário reflete ou impactos maiores do fechamento do Estreito de Ormuz para as cargas previstas para abril, ou uma capacidade de escoamento desses produtos pelo Mar Vermelho", afirmou o analista.

Para os próximos meses, o cenário segue cercado de incertezas.

"Para abril e maio, as incertezas persistem. O acordo de cessar-fogo temporário entre EUA e Irã deve aliviar no curtíssimo prazo essa disputa pelas cargas no mercado internacional, com o Golfo Pérsico escoando um montante maior de produtos para outras regiões. Ainda assim, a falta de uma resolução definitiva para o conflito pode resultar em novos bloqueios no Estreito de Ormuz, o que manteria um balanço global bem estressado", disse Cordeiro.

¨      Maria Luiza Falcão: O mundo à espera de um gesto — e a falência de quem deveria contê-lo

Há momentos na história em que o mundo parece suspenso. Não por ausência de movimento, mas pelo excesso de incerteza concentrada em uma única variável. Hoje, essa variável tem nome: Donald Trump.

Mas há algo ainda mais perturbador do que a imprevisibilidade de um líder.

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É o silêncio — e a inação — de quem deveria impor limites.

<><> A irracionalidade no comando

A escalada envolvendo o Irã já ultrapassou o terreno da retórica. A ameaça a infraestruturas críticas, inclusive instalações sensíveis, deixou de ser hipótese distante para se tornar possibilidade concreta.

E, diante disso, o mundo assiste.

Assiste e espera.

A política internacional sempre conviveu com tensões. Mas o que se vê agora é diferente. Não há cálculo claro, não há estratégia transparente, não há compromisso com estabilidade. Há, sobretudo, improviso — e risco.

Quando esse improviso parte do comando dos Estados Unidos, o problema deixa de ser regional. Torna-se sistêmico.

<><> Correntes humanas: quando a população entra na linha de fogo

No interior do Irã, civis formam correntes humanas ao redor de pontos estratégicos.

Não se trata apenas de um gesto simbólico. Trata-se de um grito.

É o reconhecimento de que a guerra já não está distante. Ela se aproxima — e, com ela, a percepção de que ninguém virá impedir o pior.

Quando cidadãos passam a usar seus próprios corpos como barreira, o sistema internacional já falhou.

<><> A ONU: presença formal, ausência real

E é aqui que a situação se torna ainda mais grave.

A Organização das Nações Unidas, criada justamente para evitar que o mundo recaísse em ciclos de destruição descontrolada, simplesmente não atua.

Não media.]Não impõe.

Não contém.

O Conselho de Segurança da ONU, que deveria funcionar como instância de equilíbrio, permanece travado — capturado pelos interesses das próprias potências envolvidas no conflito.

O resultado é uma instituição que existe, mas não opera.

Uma estrutura que fala, mas não age.

Uma presença formal em um mundo que exige ação real.

<><> Estados Unidos e Israel: ação sem contrapeso

A convergência entre Estados Unidos e Israel avança sem obstáculos institucionais relevantes.

E isso altera profundamente o equilíbrio global.

Porque, sem mediação efetiva, o uso da força deixa de ser exceção e passa a ser instrumento recorrente de política internacional.

O que está em curso não é apenas uma operação militar. É uma reconfiguração do próprio funcionamento do sistema global.

<><> O colapso silencioso da ordem internacional

Durante décadas, sustentou-se a ideia — ainda que imperfeita — de que havia regras, limites e canais institucionais capazes de conter escaladas perigosas.

Hoje, essa arquitetura mostra sinais evidentes de esgotamento.

Não porque desapareceu formalmente.

Mas porque perdeu capacidade de produzir efeitos.

E um sistema que não produz efeitos, na prática, deixou de existir.

<><> O perigo maior: quando ninguém segura ninguém

O problema já não é apenas o que Donald Trump pode fazer.

O problema é que não há quem o impeça.

Não há freios institucionais eficazes no plano internacional.

Não há coordenação suficiente entre potências para impor contenção.

Não há uma autoridade reconhecida capaz de intervir.

E isso nos coloca diante de um cenário extremamente instável:

Um mundo em que decisões unilaterais podem desencadear consequências globais sem qualquer mecanismo efetivo de bloqueio.

<><> A normalização do vazio

Talvez o aspecto mais inquietante seja outro.

Estamos nos acostumando.

Acostumando-nos à ausência de mediação. À fragilidade das instituições.À ideia de que o conflito pode escalar sem controle.

E, quando isso se torna normal, o risco deixa de ser percebido como exceção.

Passa a ser parte do funcionamento do sistema.

<><> O que está em jogo

Não é apenas o Irã.

Não é apenas o Oriente Médio.

É a própria noção de ordem internacional.

Se a principal instituição criada para preservar a paz se mostra incapaz de agir quando mais se precisa dela, então a pergunta deixa de ser retórica:

Quem, afinal, contém o poder?

E a resposta, hoje, é a mais preocupante possível:

Ninguém.

 

Fonte: Brasil 247/Reuters

 

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