Marcelo
Zero: Fracasso anunciado, sucesso previsto
A
“política industrial” de Trump consiste na mera imposição aleatória,
frequentemente politicamente motivada, de tarifas de importação altíssimas,
como fez, em um passado muito distante e em circunstâncias muito diferentes, o
presidente McKinley.
Trump
prometeu que esses tarifaços irracionais, que se parecem muito mais com sanções
comerciais do que com qualquer outra coisa, criariam uma avassaladora onda de
criação de empregos.
Pois
bem, passado pouco mais de um ano do Liberation Day, o dia do grande tarifaço
inicial, o número de empregos na indústria manufatureira diminuiu no período,
com 98 mil vagas a menos em comparação com o ano anterior, segundo os dados
mais recentes do Departamento do Trabalho dos EUA.
Há 29,9
mil empregos a menos na indústria automobilística e 18 mil a menos na indústria
madeireira, ambos setores que o presidente tentou proteger com barreiras
comerciais.
O setor
de transporte e armazenagem, por sua vez, perdeu quase 130 mil empregos no
mesmo período.
Além
disso, as novas tarifas mais altas sobre aço e alumínio dificultaram a
construção de fábricas.
A taxa
de contratação do setor de construção, que geralmente reflete a confiança nas
perspectivas econômicas, está mais baixa agora do que no início da pandemia de
Covid-19.
As
próprias montadoras norte-americanas estão protestando e apontando para o fato
de que esses acordos tarifários tornaram mais barato produzir carros no
exterior do que na América do Norte, região na qual as montadoras
estadunidenses dependem muito de peças e mão de obra do Canadá e do México.
Trump teve um efeito disruptivo nessa cadeia regional, que antes funcionava
bem.
O
grande problema da “política” de Trump é tal efeito disruptivo e a incerteza
que ela causa. Não há qualquer planejamento ou estudo técnico sério para
estabelecer as tarifas mais adequadas, de acordo com as necessidades
específicas.
Ademais,
o “vai e vem” político de Trump só piora o quadro. Por tal razão, as empresas
estadunidenses que estabeleceram suas bases físicas no exterior não “estão
voltando”, como se esperava. O “reshoring” está fracassando.
E o
pior é que esses tarifaços irracionais estão aumentando os custos para os
consumidores, provocando queda de popularidade do governo. Trump definha
rapidamente. Isola-se externa e internamente.
Política
industrial não se improvisa e não pode se basear em “tarifaços”, principalmente
quando esses “tarifaços” obedecem a uma lógica perversa de punição geopolítica
e não a uma lógica virtuosa de cooperação econômica racional.
As
relações políticas e econômicas entre os Estados não podem ser vistas, como faz
obtusamente o governo Trump, como um jogo de soma zero.
Em
contraste, o Brasil, com o BNDES, tem hoje uma política de neoindustrialização
cuidadosamente planejada e calibrada.
Os
resultados estão aparecendo.
Já em
2023, a indústria de transformação gerou 241,8 mil empregos e contribuiu para a
abertura de mais de 30 mil empresas.
Em
2024, a indústria foi responsável por 76% do aumento de vagas formais de
trabalho, conforme dados do FGV Ibre.
Em
2025, embora tenha havido uma desaceleração na geração de empregos em relação
ao ano anterior, a indústria brasileira gerou 144.319 empregos formais,
integrando um saldo positivo total de 1,27 milhão de vagas no país.
Mencione-se
que o Brasil registrou um recorde histórico no estoque de empregos formais,
atingindo 49,09 milhões de vínculos ativos no final de 2025, o maior nível
registrado na série histórica do Novo Caged, iniciada em 2020.
A
tendência de longo prazo, com essa política e com a diminuição das taxas de
juros a níveis razoáveis, é que a indústria brasileira se torne, cada vez mais,
um setor bastante dinâmico, gerando postos de trabalho de qualidade e
portadores de futuro.
Observe-se
que o Brasil está fazendo isso tudo sem “tarifaços” irracionais. Ao contrário,
o Brasil está investindo em maior cooperação econômica e em diversificação das
parcerias estratégicas.
Por
isso, no ano passado (2025), o Brasil fechou o período com um recorde histórico
de US$ 349 bilhões em exportações totais, apesar dos tarifaços trumpistas.
Neste
primeiro trimestre de 2026, batemos um novo recorde. Exportamos mais US$ 82
bilhões em bens para o exterior, o maior valor exportado em apenas três meses.
Fechamos,
juntamente com nossos parceiros do Mercosul, um acordo de livre comércio com a
UE, um dos maiores do mundo. Também concluímos um acordo com a Associação
Europeia de Livre Comércio (EFTA) e estamos negociando celeremente um acordo
Mercosul/Canadá, o vizinho humilhado por Trump.
Enfatize-se
que, em todas essas negociações, asseguramos e asseguraremos salvaguardas para
proteger nossa produção e nossos empregos.
Não
demonizamos o livre comércio e a cooperação econômica, como faz hoje Trump, o
McKinley do século XXI, mas também não acreditamos que a simples e acrítica
abertura dos mercados tenha o condão de assegurar automaticamente o
desenvolvimento, como se argumentava na época em que o neoliberalismo, essa
ideologia obsoleta e fracassada, ainda era levado a sério.
O
Brasil tem um governo sério e competente, muito distinto do de Trump, que sabe
ler o cenário externo e as grandes tendências geopolíticas e geoeconômicas
mundiais. Sabe como se colocar no mundo, respeitando sempre o multilateralismo
e adaptando-se, com inteligência, ao novo cenário da multipolaridade crescente.
Estamos
no rumo certo, do qual só poderemos ser desviados caso os vassalos internos de
Trump, os vira-latas que aplaudem e apoiam a destrutiva hegemonia predatória
dos EUA, cheguem ao poder, com o auxílio das poderosas Big Techs
estadunidenses, que dominam o mundo antidemocrático da “pós-verdade”.
Entretanto,
contra essa perspectiva trágica, o Brasil tem um “Big Povo”, que abomina
traidores e vassalos.
¨ Compra recorde da
China eleva exportação de petróleo do Brasil ao 2º maior nível da história
A China
importou em março um volume recorde de petróleo do Brasil, impulsionando as
exportações brasileiras da commodity ao segundo maior nível da série histórica,
em meio a uma reorganização dos fluxos globais de energia após as disrupções no
Oriente Médio.
O país
asiático comprou 1,6 milhão de barris por dia (bpd) de petróleo brasileiro no
mês passado, maior volume já registrado e equivalente a 67% de todas as
exportações do Brasil, segundo dados oficiais do governo federal. O montante
superou o recorde anterior, de cerca de 1,46 milhão de bpd, registrado em maio
de 2020.
"O
avanço das exportações já era esperado, conforme o fechamento do Estreito de
Ormuz resultou em uma busca intensa de países importadores por produtos
providos por outras origens, encontrando no mercado brasileiro parte da oferta
perdida no Oriente Médio", afirmou Bruno Cordeiro, analista de
Inteligência de Mercado da StoneX.
Ele
observou, com base em dados do governo, que a Índia foi o segundo maior destino
das exportações de petróleo do Brasil em março, respondendo por 7% das cargas,
com país asiático buscando também alternativas para lidar com as dificuldades
para atravessar o Estreito de Ormuz, por onde passava antes da guerra no Irã
cerca de 20% dos fluxos globais da commodity.
"Essa
maior participação da Ásia acaba refletindo a necessidade do continente de
diversificar ainda mais os seus fornecedores, com o Brasil se beneficiando
desse cenário e escoando um maior volume de petróleo para o exterior."
Na
sequência da China e Índia, aparece entre os principais destinos do petróleo
brasileiro a Espanha, com 6,7%, e Estados Unidos, com 6,1%, disse Cordeiro.
As
exportações totais de petróleo do Brasil atingiram 2,5 milhões de bpd em março,
alta de 12,4% sobre fevereiro e o segundo maior da história, atrás apenas de
março de 2023.
Cordeiro
ponderou que a abertura do Estreito de Ormuz, com a trégua na guerra anunciada
na véspera, deve aliviar a pressão asiática, o que poderia resultar em uma
menor busca do petróleo brasileiro -- dada a proximidade geográfica e os
benefícios logísticos desse comércio dos países do Golfo Pérsico com o
continente.
"Ao
mesmo tempo, a retomada gradual dos fluxos pelo Estreito de Ormuz é um fator
que deve garantir a manutenção de volumes elevados de vendas do Brasil para
alguns consumidores da região, principalmente China e Índia", acrescentou.
<><>
DIESEL
Enquanto
as exportações de petróleo avançaram, o Brasil reduziu de forma significativa
as importações de diesel, um alerta para o país que importa cerca de 25% de
suas necessidades.
De
acordo com dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria,
Comércio e Serviços, as compras externas do combustível somaram 1,05 bilhão de
litros em março, queda de 25% em relação a fevereiro.
Para
Cordeiro, "a redução expressiva das cargas destinadas ao Brasil reflete
tanto um aumento significativo da competição pelo produto no mercado
internacional, quanto pelo avanço dos preços do produto importado que chega aos
portos brasileiros".
A
redução foi sentida principalmente nas cargas provenientes dos Estados Unidos,
apontaram os dados. A participação do diesel norte-americano nas importações
brasileiras caiu para menos de 1% em março, ante 8,3% no mês anterior.
Segundo
o analista da StoneX, "a diminuição do share norte-americano reflete,
provavelmente, um redirecionamento das cargas de diesel exportado pelo país
para outras regiões que vêm pagando prêmios maiores ao combustível,
principalmente a Ásia -- que vem sentindo mais os impactos com a suspensão dos
fluxos de derivados fósseis pelo Estreito de Ormuz.
Em meio
à menor oferta norte-americana, a Rússia ampliou sua presença no mercado
brasileiro, passando de uma participação de 58% em fevereiro para 75% em março,
mesmo com volume semelhante de exportações realizadas em fevereiro, segundo
Cordeiro.
"Apesar
dos ataques ucranianos contra portos ocidentais estratégicos da Rússia em
meados de março e uma redução temporária das exportações de combustíveis, é
esperado que os impactos dessa menor oferta sejam sentidos nas cargas
programadas para abril", disse Cordeiro.
Outro
ponto de destaque foi a manutenção da participação da Arábia Saudita e dos
Emirados Árabes Unidos, com cada um respondendo por cerca de 130 milhões de
litros exportados ao Brasil no mês.
"Tal
cenário reflete ou impactos maiores do fechamento do Estreito de Ormuz para as
cargas previstas para abril, ou uma capacidade de escoamento desses produtos
pelo Mar Vermelho", afirmou o analista.
Para os
próximos meses, o cenário segue cercado de incertezas.
"Para
abril e maio, as incertezas persistem. O acordo de cessar-fogo temporário entre
EUA e Irã deve aliviar no curtíssimo prazo essa disputa pelas cargas no mercado
internacional, com o Golfo Pérsico escoando um montante maior de produtos para
outras regiões. Ainda assim, a falta de uma resolução definitiva para o
conflito pode resultar em novos bloqueios no Estreito de Ormuz, o que manteria
um balanço global bem estressado", disse Cordeiro.
¨
Maria Luiza Falcão: O mundo à espera de um gesto — e a
falência de quem deveria contê-lo
Há
momentos na história em que o mundo parece suspenso. Não por ausência de
movimento, mas pelo excesso de incerteza concentrada em uma única variável.
Hoje, essa variável tem nome: Donald Trump.
Mas há
algo ainda mais perturbador do que a imprevisibilidade de um líder.
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É o
silêncio — e a inação — de quem deveria impor limites.
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A irracionalidade no comando
A
escalada envolvendo o Irã já ultrapassou o terreno da retórica. A ameaça a
infraestruturas críticas, inclusive instalações sensíveis, deixou de ser
hipótese distante para se tornar possibilidade concreta.
E,
diante disso, o mundo assiste.
Assiste
e espera.
A
política internacional sempre conviveu com tensões. Mas o que se vê agora é
diferente. Não há cálculo claro, não há estratégia transparente, não há
compromisso com estabilidade. Há, sobretudo, improviso — e risco.
Quando
esse improviso parte do comando dos Estados Unidos, o problema deixa de ser
regional. Torna-se sistêmico.
<><>
Correntes humanas: quando a população entra na linha de fogo
No
interior do Irã, civis formam correntes humanas ao redor de pontos
estratégicos.
Não se
trata apenas de um gesto simbólico. Trata-se de um grito.
É o
reconhecimento de que a guerra já não está distante. Ela se aproxima — e, com
ela, a percepção de que ninguém virá impedir o pior.
Quando
cidadãos passam a usar seus próprios corpos como barreira, o sistema
internacional já falhou.
<><>
A ONU: presença formal, ausência real
E é
aqui que a situação se torna ainda mais grave.
A
Organização das Nações Unidas, criada justamente para evitar que o mundo
recaísse em ciclos de destruição descontrolada, simplesmente não atua.
Não
media.]Não impõe.
Não
contém.
O
Conselho de Segurança da ONU, que deveria funcionar como instância de
equilíbrio, permanece travado — capturado pelos interesses das próprias
potências envolvidas no conflito.
O
resultado é uma instituição que existe, mas não opera.
Uma
estrutura que fala, mas não age.
Uma
presença formal em um mundo que exige ação real.
<><>
Estados Unidos e Israel: ação sem contrapeso
A
convergência entre Estados Unidos e Israel avança sem obstáculos institucionais
relevantes.
E isso
altera profundamente o equilíbrio global.
Porque,
sem mediação efetiva, o uso da força deixa de ser exceção e passa a ser
instrumento recorrente de política internacional.
O que
está em curso não é apenas uma operação militar. É uma reconfiguração do
próprio funcionamento do sistema global.
<><>
O colapso silencioso da ordem internacional
Durante
décadas, sustentou-se a ideia — ainda que imperfeita — de que havia regras,
limites e canais institucionais capazes de conter escaladas perigosas.
Hoje,
essa arquitetura mostra sinais evidentes de esgotamento.
Não
porque desapareceu formalmente.
Mas
porque perdeu capacidade de produzir efeitos.
E um
sistema que não produz efeitos, na prática, deixou de existir.
<><>
O perigo maior: quando ninguém segura ninguém
O
problema já não é apenas o que Donald Trump pode fazer.
O
problema é que não há quem o impeça.
Não há
freios institucionais eficazes no plano internacional.
Não há
coordenação suficiente entre potências para impor contenção.
Não há
uma autoridade reconhecida capaz de intervir.
E isso
nos coloca diante de um cenário extremamente instável:
Um
mundo em que decisões unilaterais podem desencadear consequências globais sem
qualquer mecanismo efetivo de bloqueio.
<><>
A normalização do vazio
Talvez
o aspecto mais inquietante seja outro.
Estamos
nos acostumando.
Acostumando-nos
à ausência de mediação. À fragilidade das instituições.À ideia de que o
conflito pode escalar sem controle.
E,
quando isso se torna normal, o risco deixa de ser percebido como exceção.
Passa a
ser parte do funcionamento do sistema.
<><>
O que está em jogo
Não é
apenas o Irã.
Não é
apenas o Oriente Médio.
É a
própria noção de ordem internacional.
Se a
principal instituição criada para preservar a paz se mostra incapaz de agir
quando mais se precisa dela, então a pergunta deixa de ser retórica:
Quem,
afinal, contém o poder?
E a
resposta, hoje, é a mais preocupante possível:
Ninguém.
Fonte:
Brasil 247/Reuters

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