Maria
Luiza Falcão: O mundo diante do duplo choque inflacionário
Durante
anos, a economia mundial contou com um amortecedor silencioso. Enquanto crises
financeiras, tensões geopolíticas e choques de commodities se sucediam, havia
um elemento que ajudava a conter os efeitos inflacionários globais: a
capacidade da China de produzir bens industriais a custos declinantes.
Esse
mecanismo foi central para a estabilidade relativa dos preços nas últimas
décadas. Mesmo diante de expansões monetárias agressivas no Ocidente, a
inflação permaneceu sob controle em grande parte porque havia uma oferta
abundante de bens manufaturados baratos vindos da Ásia.
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Esse arranjo pode estar se desfazendo.
Os
sinais começam a aparecer com clareza. Após anos de pressão deflacionária sobre
sua indústria, os preços ao produtor na China voltam a subir, impulsionados
pelo encarecimento da energia e de matérias-primas estratégicas.
À
primeira vista, poderia parecer apenas um ajuste conjuntural. Mas não é. O que
está em curso pode representar uma mudança qualitativa no funcionamento da
economia global.
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O primeiro choque: energia, guerra e insumos
O
aumento recente dos preços não surge no vazio. Ele está diretamente ligado à
reconfiguração geopolítica em curso.
A
escalada no Oriente Médio, com impactos sobre fluxos energéticos e cadeias de
suprimento, reintroduz um elemento clássico da economia internacional: o choque
de custos baseado em commodities. O encarecimento do petróleo, do gás e de
insumos industriais como o alumínio pressiona diretamente os custos de produção
em escala global.
Esse é
um fenômeno conhecido — e historicamente associado a períodos de inflação
elevada e desaceleração econômica.
Mas
desta vez há um agravante.
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O segundo choque: a China como vetor inflacionário
A
elevação dos custos na China altera um dos pilares mais importantes da
globalização recente.
Durante
décadas, o país funcionou como exportador de desinflação. Seus ganhos de
produtividade, combinados com baixos custos salariais e escala industrial,
permitiram que o resto do mundo importasse bens a preços cada vez menores.
Agora,
essa lógica começa a se inverter.
Quando
os preços sobem na base industrial chinesa, o impacto não fica restrito ao seu
território. Ele se transmite imediatamente ao restante do mundo, por meio das
cadeias produtivas altamente integradas que se estruturaram nas últimas três
décadas.
Não se
trata apenas de bens finais. Trata-se de componentes, insumos intermediários,
máquinas, equipamentos — toda a espinha dorsal da produção global.
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O duplo choque e seus efeitos
O
resultado é a emergência de um duplo choque inflacionário:
De um
lado, o aumento dos preços de energia e matérias-primas.
De
outro, o encarecimento dos bens industriais produzidos pela China.
Isso
cria uma situação particularmente complexa:
• os
custos sobem na origem da produção
• e os
preços aumentam também no consumo final
Ou
seja, a inflação deixa de ser localizada e se torna sistêmica.
Esse
tipo de dinâmica é especialmente difícil de conter, porque não depende apenas
de políticas monetárias. Trata-se de um fenômeno estrutural, ancorado na
reorganização das cadeias globais e nas tensões geopolíticas.
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Uma mudança de era na economia internacional
Há
ainda um elemento mais profundo que precisa ser considerado.
A
elevação dos custos na China não é apenas resultado de choques externos. Ela
reflete transformações internas relevantes: mudanças demográficas, aumento do
custo do trabalho, reorientação do modelo de crescimento e maior foco no
mercado doméstico.
Tudo
isso reduz a capacidade do país de continuar desempenhando o papel de “fábrica
barata do mundo”.
O que
está em curso, portanto, não é apenas um episódio inflacionário. É uma mudança
na arquitetura da globalização.
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O paradoxo do sistema: inflação e dólar forte
Curiosamente,
esse novo cenário não implica necessariamente o enfraquecimento imediato do
sistema financeiro internacional baseado no dólar.
Em
momentos de incerteza, o capital global tende a buscar ativos considerados
seguros. Isso mantém a centralidade do dólar, mesmo em um ambiente de inflação
elevada.
Temos,
assim, uma combinação paradoxal:
•
inflação global crescente
•
manutenção da dominância financeira dos Estados Unidos
Essa
tensão é característica de períodos de transição histórica — em que as
estruturas econômicas começam a se deslocar, mas as instituições financeiras
ainda refletem o arranjo anterior.
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O que está em jogo
Se essa
dinâmica se consolidar, o mundo entrará em uma fase distinta daquela que marcou
as últimas décadas.
Não
estaremos mais diante de uma globalização que reduz custos e estabiliza preços.
Estaremos diante de um sistema em que:
• a
produção é mais cara
• as
cadeias são mais frágeis
• e os
choques se propagam com maior intensidade
A
China, que por tanto tempo funcionou como âncora de estabilidade inflacionária,
pode passar a ser um dos principais canais de transmissão de pressões de
preços.
Esse é
o ponto central. E ele redefine não apenas a dinâmica econômica, mas o próprio
equilíbrio do sistema internacional.
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E para o Brasil?
No caso
brasileiro, os efeitos dessa nova configuração são particularmente perversos. O
país importa tanto insumos industriais quanto bens finais, além de ser
diretamente afetado pelo encarecimento de energia e fertilizantes. Isso
significa pressão inflacionária dupla, vinda de fora, sobre uma economia que já
convive com juros estruturalmente muito elevados. O resultado é um
estreitamento ainda maior do espaço de política econômica: o Banco Central
tende a manter — ou até reforçar — uma postura restritiva para conter uma
inflação que não tem origem doméstica, penalizando investimento, consumo,
crescimento e emprego.
Em
outras palavras, o Brasil corre o risco de enfrentar o pior dos mundos:
inflação importada combinada com estagnação induzida pela política monetária. É
nesse tipo de armadilha que economias periféricas pagam o preço mais alto das
transições do sistema internacional.
• Quando o crédito vira armadilha, o
perdão vira necessidade. Por Julimar Roberto
Foi
identificado um momento alarmante no Brasil, no qual o endividamento das
famílias atingiu um recorde histórico. Segundo a Pesquisa Nacional de
Endividamento e Inadimplência do Consumidor da Confederação Nacional do
Comércio, mais de 80% dos lares brasileiros estão hoje comprometidos com
dívidas. Não se trata de um detalhe estatístico, mas de um retrato fiel de um
país no qual a sobrevivência passou a depender do crédito. E o fato é que essa
situação não surgiu por acaso.
Mesmo
com as bravas lutas das instituições sindicais e do próprio Governo Federal
contra a precarização do trabalho - herança da reforma trabalhista de Temer e
dos anos sombrios do governo Bolsonaro - e mesmo com melhorias nas taxas de
emprego e renda, o fato é que os juros dispararam.
A
elevação da taxa Selic a partir de 2021 fez com que os juros bancários
saltassem de uma média de 38,5% ao ano para impressionantes 61%. Na prática,
isso significa que aquela dívida contraída para pagar uma conta básica
rapidamente se transforma em uma bola de neve. E nós sabemos bem como isso
funciona, a pessoa parcela, depois renegocia, depois entra no rotativo e,
quando percebe, está presa em um ciclo quase impossível de romper. É o que
especialistas vêm chamando de armadilha do crédito.
E essa
armadilha tem consequências profundas. Não se trata apenas de nome sujo.
Trata-se de famílias inteiras comprometendo uma parte crescente da sua renda
apenas para pagar juros. Trata-se de gente abrindo mão de consumo básico, de
lazer, de qualidade de vida. Trata-se, em última instância, de um país que
cresce menos porque sua população está sufocada financeiramente.
É
justamente nesse cenário que ganha centralidade a iniciativa do Governo Lula de
construir um novo programa de renegociação de dívidas, com possibilidade de
perdão de até 80% dos débitos. A proposta, que vem sendo elaborada pelo
Ministério da Fazenda em diálogo com o sistema financeiro, prevê descontos
proporcionais à renda, prioridade para quem ganha até três salários mínimos e a
oferta de crédito mais barato para quitar o restante das dívidas.
Além
disso, o programa pretende ser mais simples e acessível do que experiências
anteriores, permitindo que trabalhadoras e trabalhadores reorganizem sua vida
financeira com menos burocracia. Nesse contexto, também está em debate a
possibilidade de uso do FGTS para quitação de dívidas e a criação de mecanismos
para evitar o reendividamento, como restrições ao uso de crédito em apostas
online.
Não
estamos falando de um gesto isolado, mas de uma política pública que reconhece
a gravidade da situação e busca enfrentar o problema de forma concreta. E o
Brasil precisa encarar esse debate com honestidade.
Perdoar
parte das dívidas não é premiar quem deve, como Bolsonaro fez com seus
comparsas empresários e banqueiros. Perdoar parte das dívidas é reconhecer que
milhões de brasileiros e brasileiras foram empurrados para uma situação
insustentável por um modelo econômico que privilegia o sistema financeiro em
detrimento da renda oriunda do trabalho. É dar uma chance real de recomeço para
famílias que hoje estão presas a contratos abusivos.
Medidas
como a criação de linhas de crédito mais baratas, o foco em quem ganha menos e
a possibilidade de reorganização das dívidas são fundamentais para quebrar o
ciclo do endividamento e recolocar essas pessoas na economia de forma ativa.
Mas
sabemos que o enfrentamento precisa ir além. É preciso atacar a raiz da questão
que são os juros elevados e a lógica de um sistema financeiro que lucra com a
inadimplência. O Brasil precisa continuar com o plano de fortalecimento da
renda, de valorização do salário mínimo, de garantia de empregos de qualidade e
de uma regularização severa das práticas que incentivam o endividamento, como o
crédito fácil e as apostas online, principalmente. Sem isso, qualquer programa
de renegociação será apenas um alívio temporário.
Estamos,
portanto, diante de uma escolha de modelo de país. Um país onde o crédito serve
para impulsionar a vida das pessoas ou um país onde o crédito tem a finalidade
de aprisionar com uma corda cada vez mais curta. Defender políticas de alívio
da dívida é, hoje, defender a dignidade. Mas ir além disso é defender um Brasil
onde as pessoas não precisem se endividar para viver.
E é
preciso ter clareza. Nada do que está sendo construído agora é irreversível. O
Brasil já viu, em um passado recente, direitos serem desmontados, políticas
públicas serem interrompidas e a vida da população ser empurrada para a
precarização e o abandono.
Faz-se
urgente alertar que o caminho que começou a ser reconstruído exige
continuidade. Exige compromisso com quem trabalha, com quem produz e com quem
sustenta esta nação todos os dias.
E 2026
é um ano decisivo, onde não há espaço para neutralidade. Cada escolha feita nas
urnas define se avançamos na construção de um país mais justo ou se despencamos
em outro abismo de desigualdades que transforma o crédito em instrumento de
opressão.
Não é
apenas sobre dívida, é sobre qual tipo de Brasil escolhemos construir — e essa
escolha se define no voto.
• Oliveiros Marques: Cassinos no bolso,
tragédia em casa: por que o Brasil precisa acabar com as bets agora
Entre
os muitos pontos abordados pelo presidente Lula em sua entrevista nesta semana,
um em especial deveria ter dominado o debate público: a defesa que ele fez do
fim das casas de apostas on-line, as chamadas “bets”. Em meio a temas diversos,
essa posição se destaca não apenas pela coragem política, mas também pela
urgência social que carrega - ainda que tenha sido, curiosamente, tratada como
nota de rodapé por grande parte da mídia corporativa.
E não
surpreende. Com raríssimas exceções, os grandes veículos de comunicação têm
hoje, nas empresas de apostas, uma de suas principais fontes de receita
publicitária. São bilhões de reais irrigando emissoras, portais e eventos
esportivos, criando um ambiente onde o silêncio ou a minimização crítica se
tornam quase regra. O conflito de interesses é evidente: como dar o devido
destaque a uma pauta que ameaça diretamente uma fonte tão robusta de
financiamento?
Enquanto
isso, dentro das casas brasileiras, os efeitos dessa explosão das apostas
online são devastadores. O que antes era restrito a ambientes físicos, hoje
está a um clique de distância - no celular, no computador, na televisão. Ao
alcance dos dedos de todas as idades. São verdadeiros cassinos digitais
operando 24 horas por dia, capturando especialmente os mais vulneráveis:
trabalhadores de baixa renda, jovens, desempregados, pessoas endividadas. A
promessa de ganho fácil, amplificada por publicidade agressiva e mensagens
frequentes de influenciadores digitais, mascara uma realidade cruel: a
esmagadora maioria perde.
As
consequências vão muito além do indivíduo. Famílias inteiras têm sua
estabilidade comprometida. Contas deixam de ser pagas, dívidas se acumulam,
relações se deterioram. Até o consumo de bens de primeira necessidade nos
supermercados tem seu tamanho reduzido. O vício em apostas, já reconhecido como
um problema de saúde pública em diversos países, cresce silenciosa e
rapidamente no Brasil. E junto com ele, cresce também o impacto negativo na
economia familiar e, por extensão, na economia nacional. Dinheiro que poderia
estar sendo investido no comércio local, na alimentação, na educação, escoa
para plataformas muitas vezes sediadas no exterior, sem retorno social
equivalente.
Diante
desse cenário, a fala de Lula não é apenas pertinente - é necessária. Colocar
em debate o fim das bets é enfrentar um problema estrutural que está corroendo
o tecido social brasileiro. Trata-se de uma escolha política que contrapõe o
interesse público ao lucro privado de poucos.
É hora
de encarar essa discussão com a seriedade que ela exige. Não basta regular de
forma tímida ou apostar em campanhas educativas que competem com uma máquina
bilionária de publicidade. É preciso ir à raiz do problema. O começo poderia
ser o de proibir a publicidade dessas empresas, como acontece com cigarros. Mas
isso é pouco. Se os danos são amplos, contínuos e comprovados, a conclusão se
impõe: é preciso acabar com todas elas.
Fonte:
Brasil 247

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