Por
que é tão difícil taxar super-ricos e grandes fortunas?
A
discussão sobre a taxação de grandes fortunas voltou ao centro do debate
político. A proposta costuma ganhar força entre eleitores que defendem que
pessoas extremamente ricas contribuam mais para o financiamento do Estado –
seja por meio de um imposto de renda mais alto ou de um imposto patrimonial,
cobrado anualmente ou de forma extraordinária sobre patrimônios acima de um
determinado limite.
Governos
que apoiam a medida argumentam que a tributação da riqueza extrema poderia
aliviar a carga fiscal sobre a classe média, pressionada por anos de estagnação
de renda, além de ajudar a reduzir desigualdades sociais crescentes. Para
outros, trata-se de uma forma de diminuir déficits orçamentários sem recorrer a
cortes profundos em serviços públicos.
Há
ainda quem defenda o imposto sob um ponto de vista mais filosófico: em níveis
muito altos, a acumulação de riqueza deixaria de produzir benefícios reais para
seus detentores e passaria a concentrar poder econômico de forma
desproporcional. Isso, por si, justificaria uma intervenção do Estado.
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"Taxe os ricos como eu"
Em
geral, é considerado rico quem possui um patrimônio líquido de pelo menos 30
milhões de dólares (R$ 154 milhões) em ativos, enquanto os super-ricos detêm
US$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão) ou mais.
Nos
Estados Unidos, um dos defensores dessa medida é o republicano Mitt Romney,
empresário e ex-governador de Massachusetts. Segundo ele, há um grande problema
nas brechas relacionadas aos ganhos de capital.
"Chegamos
a um ponto em que qualquer combinação de soluções para os problemas econômicos
do nosso país vai envolver fazer com que os americanos mais ricos contribuam
mais", escreveu ele em um artigo de opinião intitulado "Tax the Rich,
Like Me" ("Taxe os ricos como eu", em tradução livre), publicado
no New York Times em dezembro de 2025.
Zohran
Mamdani, o novo prefeito da cidade de Nova York, propôs aumentar a alíquota do
imposto de renda municipal de 3,9% para 5,9% para rendas anuais acima de 1
milhão de dólares.
No
início de março, parlamentares do Estado de Washington aprovaram um novo
imposto sobre rendas acima de 1 milhão de dólares (R$ 5,15 milhões). A medida
aguarda ser sancionada pelo governador. Outros estados também estão avaliando
iniciativas semelhantes.
Essas
propostas são importantes porque os Estados Unidos têm a maior economia do
mundo. O país também abriga o maior número de milionários e bilionários,
segundo cálculos da Forbes.
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Quem tem medo de pagar imposto?
"Tributar
os super-ricos é justo, economicamente eficiente e, em alguns países, promove
outros objetivos importantes, como fortalecer a democracia", aponta Brian
Galle, professor na Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia em
Berkeley, especializado em tributação.
De
acordo com Galle, em muitos países, os super-ricos controlam uma parcela tão
grande dos recursos sociais que conseguem influenciar resultados políticos e
econômicos. Isso, continua ele, pode levar a dinâmicas políticas problemáticas
e a consequências econômicas desastrosas.
Um dos
principais obstáculos para tributar os super-ricos está nos próprios sistemas
tributários atuais, já que, na maioria dos casos, o imposto só é cobrado quando
ativos de investimento são vendidos, explica o professor em Berkeley.
"Famílias
super-ricas podem se dar ao luxo de vender apenas uma pequena parte de sua
riqueza, o que lhes permite escolher quando e muitas vezes onde pagar
impostos", acrescenta.
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E a taxação sobre a riqueza?
Em vez
de um imposto sobre a renda, outra possibilidade é somar todos os ativos e,
então, tributar esse valor. O nome disso é imposto sobre o patrimônio.
Desde
1965, 13 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE) instituíram um imposto sobre o patrimônio líquido, ressalta Cristina
Enache e Alex Mengden, economistas da Tax Foundation, centro de pesquisa
independente especializado em política tributária.
Hoje,
apenas quatro países ainda mantêm um imposto sobre a riqueza – entre eles
Noruega, Espanha e Suíça.
De modo
geral, esses tributos arrecadaram pouca receita e criaram grandes dificuldades
administrativas, afirmam Enache e Mengden. Outro problema recorrente foram os
questionamentos legais.
O
Tribunal Constitucional da Alemanha decidiu, em 1995, que o imposto sobre
patrimônio violava o princípio da igualdade e o declarou inconstitucional. Como
consequência, a Alemanha suspendeu a cobrança em 1997.
Já a
Suprema Corte da Holanda determinou, em 2021, que o imposto patrimonial do país
violava a legislação europeia sobre direitos de propriedade e não
discriminação.
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Dificuldades no cálculo
Quando
se trata de impostos sobre o patrimônio, um grande problema é calcular a
riqueza de alguém.
Dinheiro
em espécie é fácil de se contabilizar, mas e todas as casas, carros, jatos
particulares e investimentos? Sem mencionar coleções de arte ou o conteúdo de
cofres privados. Isso se torna ainda mais difícil (e caro) se precisar ser
feito todos os anos.
Segundo
estudos da Tax Foundation, um imposto sobre o patrimônio desestimula a poupança
e o investimento, prejudicando o empreendedorismo no longo prazo.
Além
disso, um imposto desse tipo "pode levar à fuga de capitais e à mudança de
pessoas ricas para países ou estados vizinhos", apontaram Mengden e
Enache. "Após um aumento de 0,1 ponto percentual no imposto sobre
patrimônio da Noruega, o país viu um êxodo de indivíduos com patrimônio elevado
para lugares como Suíça e Reino Unido."
Brian
Galle, da Universidade da Califórnia em Berkeley, é menos convencido de que os
superricos possam simplesmente mover sua riqueza para evitar tributos. "Um
bom desenho jurídico pode, por exemplo, tornar muito mais difícil para
investidores ricos escaparem da tributação", diz o professor de direito.
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A Califórnia pode ter a resposta?
Quando
se trata de um novo tributo sobre grandes fortunas, a Califórnia pode estar
mostrando o caminho com um imposto único de 5% sobre pessoas com patrimônio
superior a 1 bilhão de dólares.
Se essa
proposta for incluída na cédula de votação de novembro, será um grande teste
para uma grande economia. Em 2024, graças a um forte crescimento, o Estado se
tornou a quarta maior economia do mundo, atrás apenas dos EUA como um todo, da
China e da Alemanha.
Os
defensores da ideia afirmam que a medida aumentará a arrecadação. Já os
críticos dizem que ele expulsará pessoas ricas, que podem se mudar para Texas,
Flórida ou Nevada.
O
governador Gavin Newsom é contra a ideia, assim como líderes do setor de
tecnologia e, provavelmente, muitos dos cerca de 200 bilionários que vivem no
estado. A maior preocupação deles é que o imposto incluia riqueza ilíquida e
ganhos não realizados.
Isso
significa que "ganhos de papel" – teóricos – em ações ou imóveis
seriam tributados. Os mais alarmistas temem que isso possa forçar algumas
pessoas a vender suas casas ou participações de controle nas empresas que
fundaram apenas para pagar a conta de impostos.
Fonte:
DW Brasil

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