Por
que governo Lula está de olho nas eleições que podem tirar 'irmão' de Bolsonaro
do poder na Europa?
O
governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acompanha com atenção a
eleição parlamentar na Hungria, que acontece no domingo (12/4).
O país
é governado pelo político de direita Viktor Orbán, líder europeu que recebeu o
apoio explícito do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e que o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) chamou de "irmão" durante visita a
Budapeste em 2022.
Orbán
está no poder desde 2010 e, além do apoio de Trump e Bolsonaro, também é visto
como um aliado do líder russo Vladimir Putin.
Na
leitura de integrantes do governo brasileiro, as eleições na Hungria viraram
uma espécie de teste triplo. Primeiro, para medir a força do que classificam
como extrema-direita europeia após 16 anos de governo no país.
Segundo,
para avaliar a capacidade de mobilização de uma extrema-direita global tida
como cada vez mais articulada e da qual, segundo assessores de Lula, tanto
Orbán quanto Bolsonaro fariam parte.
Em
terceiro lugar, para observar até onde o atual governo americano liderado por
Trump está disposto e consegue influenciar eleições em países estrangeiros.
Um
auxiliar do presidente Lula disse à BBC News Brasil em caráter reservado que o
cenário observado na Hungria pode dar pistas sobre como (ou se) os Estados
Unidos poderão atuar durante as eleições brasileiras, em outubro deste ano.
A
maioria das pesquisas de opinião põe o partido de oposição Tisza e seu líder,
Peter Magyar, muito à frente do Fidesz de Orbán — a mais recente com 58% contra
35%.
Em meio
à possibilidade de derrota de Orbán, Trump enviou, nesta semana, o
vice-presidente dos EUA, JD Vance, à capital húngara, Budapeste, para
participar de um comício em uma clara demonstração de apoio à candidatura do
aliado.
"Eu
amo a Hungria e amo Viktor. Eu digo a vocês que ele é um homem
fantástico", disse Trump por telefone durante um comício da campanha de
Órban na terça-feira (7/4). "Sou um grande fã de Viktor e estou com ele
até o fim", completou Trump.
Para um
auxiliar de Lula ouvido em caráter reservado pela BBC News Brasil, a ida de
Vance para Budapeste não foi um ato meramente protocolar e mostra a preocupação
de Trump com o resultado da eleição de um aliado importante na Europa.
Orbán
ficou conhecido por adotar políticas de maior restrição à imigração, promoveu
reformas no Poder Judiciário húngaro e vem defendendo posições críticas à
influência da União Europeia em assuntos domésticos do seu país.
A
organização não-governamental Human Rights Watch alega em seu relatório sobre o
país, divulgado em 2025, que o governo Orbán estaria promovendo um
"ataque" às instituições democráticas do país, entre elas a
integrantes da imprensa.
O
relatório também critica a utilização de decretos para desrespeitar decisões
judiciais e restringir o direito dos professores à greve.
O
governo Orbán, por outro lado, rebate as acusações afirmando que o
primeiro-ministro seria uma espécie de "guerreiro da liberdade"
atuando em defesa da soberania de seu país.
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Proximidade com Bolsonaro
No
campo doméstico, uma eventual derrota de Orbán é interpretada pelo governo como
a derrota de um antigo aliado de Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos de
prisão por crimes como tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição
violenta do Estado democrático de direito.
Bolsonaro
segue sendo a principal liderança da direita no Brasil, mesmo enquanto cumpre
sua pena - em regime de prisão domiciliar temporária em razão de problemas de
saúde.
A
proximidade política entre Bolsonaro e Orbán ficou evidente em 2022, quando o
brasileiro foi à Hungria fazer uma visita de Estado ao primeiro-ministro.
Durante
o encontro, os dois trocaram elogios e Bolsonaro chegou a chamá-lo de
"irmão".
"Prezado
Orbán, trato como irmão, dada a afinidade que temos na defesa dos nossos
povos", disse Bolsonaro à época.
Em
março de 2024, em meio às investigações da Polícia Federal contra Bolsonaro, o
ex-presidente dormiu durante duas noites na Embaixada da Hungria, em Brasília.
O
episódio foi revelado pelo jornal The New York Times. Mais tarde, em 2025, o
caso foi citado pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, como uma das
justificativas para negar um pedido de prisão domiciliar feito pela defesa de
Bolsonaro.
O caso
foi apontado como um indício de que Bolsonaro poderia tentar pedir asilo em uma
embaixada estrangeira para fugir de um eventual pedido de prisão das
autoridades brasileiras.
Os
advogados de Bolsonaro, no entanto, rebateram as suposições de que a passagem
do ex-presidente pela embaixada tivesse o intuito de obter uma fuga.
"Não
há, portanto, razões mínimas e nem mesmo cenário jurídico a justificar que se
suponha algum tipo de movimento voltado a obter asilo em uma embaixada
estrangeira ou que indiquem uma intenção de evadir-se das autoridades legais ou
obstruir, de qualquer forma, a aplicação da lei penal", disse a defesa em
documento enviado ao STF naquela ocasião.
A
proximidade entre os dois continuou ao longo dos anos.
Em
julho de 2025, antes do julgamento de Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal
(STF), Orbán saiu em defesa do ex-presidente.
"Continue
lutando, @jairbolsonaro! Ordens de mordaça, proibições em redes sociais e
julgamentos motivados politicamente são ferramentas do medo, não da justiça.
Você pode colocar uma tornozeleira eletrônica em um homem, mas não na vontade
de uma nação!", disse Orbán em uma publicação no X (antigo Twitter).
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Possibilidade de interferência
Um
auxiliar do presidente Lula ouvido em caráter reservado disse que o Brasil não
descarta, totalmente, a possibilidade de que o governo americano ou uma ala
dele possa tentar interferir nas eleições presidenciais deste ano.
Ele
afirma que, no ano passado, o governo americano tentou, por meio do tarifaço,
influenciar o processo judicial envolvendo Jair Bolsonaro. A avaliação é de que
a aproximação recente entre Lula e Trump conseguiu frear alas do governo
americano mais próximas à família Bolsonaro.
Ele
citou como exemplo uma declaração do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que
aparece como principal pré-candidato da direita à Presidência, durante um
evento nos Estados Unidos no final de março deste ano em que ele pediu
"pressão" internacional sobre as eleições no Brasil.
"Apliquem
pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente. Em
vez de a administração (Joe) Biden interferir em nossas eleições para instalar
um socialista que odeia a América, aplicar pressão diplomática por eleições
livres e justas baseadas em valores de origem americana — essa é uma boa
mudança de política externa para a região, não é?", disse o pré-candidato
e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Essa
fonte disse, porém, que se as relações entre Lula e Trump se mantiverem
cordiais nos próximos meses, a possibilidade de uma interferência com a
chancela da Casa Branca diminuem.
Ele
relembrou, contudo, que uma possível interferência norte-americana em eleições
na América Latina durante a gestão Trump não seria novidade.
No ano
passado, o governo Trump deu aval a um empréstimo de US$ 20 bilhões à Argentina
às vésperas das eleições parlamentares do país que garantiram uma vitória do
partido do presidente Javier Milei.
Também
em 2025, o presidente Trump apoiou o candidato de direita Nasry Asfura à
presidência de Honduras, que acabou vencendo as eleições contra a então
presidente de esquerda Xiomara Castro.
O
presidente americano chegou a dizer que suspenderia a ajuda financeira dos
Estados Unidos a Honduras caso Asfura não fosse eleito.
Nesta
semana, o coordenador político da campanha à reeleição de Lula, o ministro do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias, disse que o governo
não iria tolerar interferência externa nas eleições presidenciais deste ano.
"Não
vamos tolerar interferência de ninguém. O Brasil não se mete, do ponto de vista
eleitoral, com nenhum país. Podemos até ter simpatia por este ou aquele
candidato, mas não nos metemos. O Brasil exige respeito dos outros países
porque isso é soberania", disse.
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Brasil monitora movimento dos EUA em eleição da Hungria
O
governo brasileiro monitora com atenção a visita do vice-presidente dos Estados
Unidos, JD Vance, à Hungria.
Vance
foi a um evento organizado pelo primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, que
concorre à reeleição ao cargo. O encontro entre Vance e Orbán, na quarta-feira
(8), em Budapeste, foi lido por assessores do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) como uma tentativa do governo americano de ajudar a eleger Orbán,
líder da ultradireita no país,
Orbán
aparece em desvantagem nas pesquisas e corre o risco de perder o mandato após
16 anos à frente do país.
Auxiliares
de Lula monitoram esses movimentos do governo americano na Hungria, pois estão
sendo lidos como uma espécie de "laboratório" para, eventualmente,
servir como um modelo a ser replicado em outros países em que haja candidatos
com alinhamento ideológico com Trump, como é o caso do pré-candidato Flávio
Bolsonaro (PL), no Brasil.
Embora
a eleição húngara seja no próximo domingo (12), Vance negou que os EUA estejam
tentando influenciar na disputa.
• Mapa de Risco: Por que eleição na
Hungria importa para Brasil e direita bolsonarista
A
eleição na Hungria, marcada para o próximo domingo (12), tem chamado atenção
fora da Europa. O motivo não é apenas o risco eleitoral enfrentado por Viktor
Orbán, mas também o modelo político que ele construiu e que passou a ser citado
como referência em outros países, incluindo o Brasil. Para Bruno Soller,
analista político da Real Time Big Data, o interesse de setores da direita
brasileira pelo caso húngaro não é casual.
“Orbán
vira uma referência porque mostra que é possível concentrar poder sem romper
formalmente com a democracia. Você continua tendo eleição, continua tendo
instituições, mas com um redesenho que favorece quem está no governo”, afirmou
durante participação no Mapa de Risco Internacional, programa de política do
InfoMoney.
Segundo
ele, esse ponto é central para entender por que o modelo desperta atenção fora
da Hungria. “Não é um rompimento explícito. É um processo mais gradual, em que
você vai alterando regras, ocupando espaços institucionais e mudando o
equilíbrio do sistema”, disse.
Esse
tipo de estratégia, na avaliação do analista, ajuda a explicar paralelos feitos
com o Brasil nos últimos anos. “Quando você olha para o discurso de alguns
setores do bolsonarismo, há uma admiração por essa capacidade de reorganizar o
sistema por dentro, sem necessariamente romper com a lógica democrática
formal”, afirmou.
Soller
ressalta que isso não significa replicação direta, mas aponta para uma
inspiração mais conceitual. “Não é copiar e colar. São contextos diferentes,
instituições diferentes. Mas existe uma referência, principalmente na ideia de
fortalecer o Executivo e tensionar outros poderes”, disse.
Essa
conexão também aparece na forma como Orbán se posiciona no cenário
internacional. “Orbán constrói uma narrativa muito forte de soberania nacional,
de enfrentamento a organismos internacionais, e isso dialoga com discursos que
a gente já viu em outros países, inclusive no Brasil”, afirmou.
Ao
mesmo tempo, o analista chama atenção para o fato de que o caso húngaro não
pode ser analisado isoladamente. “A Hungria acaba virando um símbolo porque
conseguiu sustentar esse modelo por mais tempo. Mas não é um caso único. Você
tem movimentos parecidos acontecendo em outros lugares”, disse.
Na
leitura de Soller, é justamente por isso que a eleição ganha relevância fora da
Europa. “Essa eleição ajuda a responder uma pergunta maior: até que ponto esse
tipo de arranjo político continua sendo viável eleitoralmente?”, afirmou.
E é
essa resposta que, segundo ele, tende a reverberar para além da Hungria. “O que
acontecer ali não fica só ali. Isso influencia a forma como outros grupos
políticos, em outros países, avaliam suas próprias estratégias”, disse.
Fonte:
BBC News Brasil/CNN Brasil/InfoMoney

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