sábado, 11 de abril de 2026

A história por trás da tradição de comer ovos de chocolate na Páscoa

Muitas tradições da Páscoa — como os pães doces e o almoço de domingo — vêm do cristianismo da era medieval ou até das crenças pagãs mais antigas. Mas o ovo de chocolate é uma reviravolta mais recente.

Ovos de galinha são consumidos na Páscoa há séculos. Há muito tempo, os ovos simbolizam o renascimento e a renovação, o que os torna perfeitos para comemorar a história da ressurreição de Jesus, que coincide com a chegada da primavera no hemisfério norte.

Atualmente, a Igreja Católica permite o consumo de ovos durante o período de jejum da quaresma, mas, na Idade Média, eles eram proibidos, junto com a carne e os laticínios. Os chefes de cozinha medievais, muitas vezes, encontravam formas surpreendentes de contornar a proibição — e até faziam ovos falsos para substituir os verdadeiros.

Na Páscoa — um período de celebração — os ovos e a carne, como o cordeiro (outro símbolo de renovação), voltavam à mesa.

Mesmo depois que os ovos foram permitidos nas refeições no período de jejum, eles continuaram ocupando lugar de destaque no banquete de Páscoa. O escritor de livros de receitas do século 17 John Murrell recomendava "ovos com molho verde", uma espécie de pesto feito com folhas de azedinha.

Em toda a Europa, os ovos também eram oferecidos como dízimo para as igrejas locais na Sexta-Feira Santa.

Pode ter sido daí que surgiu a ideia de dar ovos de presente.

A prática foi abandonada em muitas áreas protestantes depois da Reforma, mas algumas aldeias inglesas mantiveram a tradição até o século 19.

Não se sabe exatamente quando as pessoas começaram a decorar os ovos, mas as pesquisas apontam para o século 13, quando o rei inglês Eduardo 1º (1239-1307) deu ovos embalados em folhas de ouro de presente para seus cortesãos.

Sabemos também que, alguns séculos mais tarde, pessoas de toda a Europa coloriam seus ovos. Normalmente, escolhiam o amarelo, usando cascas de cebola, ou vermelho, com raízes de plantas rubiáceas ou beterraba.

Acredita-se que os ovos vermelhos simbolizassem o sangue de Cristo. Um autor do século 17 indicou que essa prática vinha dos primeiros cristãos da Mesopotâmia, mas é difícil saber ao certo.

Na Inglaterra, a forma mais popular de decorar os ovos empregava pétalas de flores, que geravam impressões coloridas. O Museu Wordsworth, na região de Lake District, ainda conserva uma coleção de ovos feitos para os filhos do poeta William Wordsworth (1770-1850) nos anos 1870.

<><> Dos ovos secos para os de chocolate

Pintar ovos com padrões coloridos ainda é uma atividade comum na Páscoa, mas, atualmente, esses ovos são cada vez mais associados ao chocolate. Quando ocorreu essa mudança?

Quando o chocolate chegou pela primeira vez à Grã-Bretanha no século 17, era uma novidade fascinante e muito cara.

Em 1669, o Conde de Sandwich pagou 227 libras por uma receita de chocolate do rei Carlos 2º (1630-1685). O valor equivale a 32 mil libras (cerca de R$ 204 mil), em valores atuais.

Hoje em dia, o chocolate é considerado um alimento sólido, mas, na época, era uma bebida normalmente condimentada com pimenta, seguindo as tradições maias e astecas.

E, para os ingleses, essa nova e exótica bebida era diferente de tudo o que eles já haviam experimentado. Um autor a chamou de "néctar americano": uma bebida para os deuses.

O chocolate logo se tornou uma bebida da moda entre os aristocratas, muitas vezes oferecida de presente, como símbolo de status. E essa tradição permanece até hoje.

A bebida também era apreciada nas recém-abertas cafeterias de Londres. O café e o chá também haviam acabado de ser introduzidos na Inglaterra, e as três bebidas rapidamente mudaram a forma como os britânicos interagiam socialmente entre si.

Foi naquela época que os teólogos do catolicismo, de fato, relacionaram o chocolate à Páscoa, mas devido à preocupação de que tomar chocolate infringiria as práticas de jejum durante a quaresma.

Após intensos debates, ficou definido que o chocolate preparado com água poderia ser aceitável durante o jejum. Pelo menos na Páscoa — uma época de festa e celebração — o chocolate era aceito.

O chocolate continuou sendo caro até o século 19. Em 1847, a empresa Fry’s (que hoje pertence à fábrica de chocolates inglesa Cadbury) produziu as primeiras barras de chocolate sólidas, que revolucionaram o comércio do produto.

Com isso, o chocolate ficou muito mais acessível na era vitoriana, mas ainda era visto com certa complacência. E, trinta anos mais tarde, em 1873, a Fry’s desenvolveu o primeiro ovo de Páscoa de chocolate como uma iguaria de luxo, mesclando duas tradições relacionadas à troca de presentes.

Mesmo no início do século 20, esses ovos de chocolate ainda eram vistos como um presente especial e muitas pessoas nunca comiam os que ganhavam. Uma mulher no País de Gales chegou a guardar um ovo de 1951 por 70 anos e um museu em Torquay, no sul da Inglaterra, recentemente comprou um ovo que estava guardado desde 1924.

Somente nos anos 1960 e 1970, os supermercados começaram a oferecer ovos de chocolate a preços mais baixos, esperando lucrar com a tradição da Páscoa.

Com as preocupações crescentes sobre a continuidade da produção de chocolate e a gripe aviária reduzindo a produção de ovos, a Páscoa poderá ter aparência um pouco diferente no futuro. Mas, se há uma coisa que os ovos de Páscoa podem nos mostrar é a capacidade de adaptação das tradições.

•        Pequena história do coelho, do ovo e das tradições de Páscoa

Há séculos, famílias de diversas partes do mundo celebram a maior festa do Cristianismo de maneira parecida. No sábado, com a missa da Vigília Pascal seguida da queima simbólica do Judas e, no domingo, através da missa de Páscoa e da busca por ovos coloridos no jardim e pela casa.

No entanto, já nem todo mundo sabe por que se celebra a Páscoa. E a figura do coelho da Páscoa não exatamente ajuda, já que ele nada tem a ver com a ressurreição de Cristo.

Não se sabe exatamente como e onde surgiu o costume do coelhinho de Páscoa. Há várias explicações para esse fato. Além de símbolo de fertilidade, o coelho também é visto como um mensageiro da primavera na Europa.

<><> Tradição protestante

A primeira menção sobre o coelho da Páscoa trazendo ovos é do século 17. Posteriormente, no século 19, o símbolo ganhou popularidade na Alemanha, sendo promovido pelo setor da confeitaria. Segundo o pesquisador de costumes Alois Döring, de Bonn, o coelho teria sido uma invenção protestante.

"Crianças católicas sabiam que na Páscoa poderiam voltar a comer ovos, que durante a Quaresma eram proibidos. Mas como explicar às crianças protestantes por que, de repente, havia tantos ovos na Páscoa?", explica Döring.

Foi por isso que os protestantes criaram as histórias do coelho que distribuía, de casa em casa, os ovos acumulados durante o período. Além disso, o coelho era um símbolo da fertilidade – o que aliás não explicava como o animal, na condição de mamífero, tinha tantos ovos.

Os protestantes não se preocuparam muito com a biologia, mas, sim, com os costumes católicos como o de fazer os fiéis rirem durante as missas de Páscoa. Enquanto protestantes celebravam a ressurreição de Cristo no domingo de Páscoa com muita seriedade e silêncio, em muitas igrejas católicas procurava-se comemorá-la de forma festiva.

Durante o período barroco, era comum até que padres católicos contassem anedotas aos fiéis. E o púlpito, muitas vezes, era transformado em ateliê. "De muitos sermões, pode-se até tirar belas passagens sobre a pintura e a decoração de ovos de Páscoa, que nos séculos 17 e 18 eram comuns. Ou foram se tornando comuns", conta Döring.

<><> Um ovo, dois ovos, três ovos pra mim

Até o começo do século 20, o coelho não era conhecido como símbolo da Páscoa no Brasil. O costume foi levado ao país por imigrantes alemães na região Sul, entre 1913 e 1920.

Uma antiga lenda conta que uma mulher pobre coloriu alguns ovos e os escondeu em um ninho para dá-los a seus filhos como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram o ninho, um grande coelho passou correndo. Espalhou-se, então, a história de que o coelho é quem trouxe os ovos.

Segundo a tradição alemã, as crianças procuram no domingo de Páscoa ovos de chocolate "presenteados e escondidos pelo coelho" no quintal ou jardim de casa. Além disso, ganham cestas com coelhinhos, pequenos ovos de chocolate e de galinha cozidos e coloridos com tinta especial. Existem ainda diversas receitas de bolos especiais para a Páscoa.

<><> Os ovos de Páscoa

Historiadores afirmam que o costume de cozinhar e depois colorir ovos de galinha para serem dados de presente surgiu entre os antigos egípcios, persas e algumas tribos germânicas. Hoje se atribui aos chineses o costume milenar de presentear parentes e amigos com ovos nas festas de primavera.

Já os reis e príncipes da Antiguidade confeccionavam ovos de prata e ouro recobertos de pedras preciosas. O povo, sem recursos para tais luxos, manteve a tradição de pintar e decorar os ovos de galinha.

Os ovos sempre foram tidos como símbolo de vida nova e, assim sendo, da ressurreição de Jesus Cristo. A tradição de pintar, decorar e presentear os ovos já existia desde os primórdios do Cristianismo.

"Antigamente, era comum pintar os ovos apenas de vermelho, para simbolizar tanto a cor do sangue de Cristo quanto a do amor que ele nutria pela humanidade. Isso ainda é assim na Igreja Ortodoxa", conta Döring. "E a decoração servia para distinguir os ovos bentos dos não bentos durante a Páscoa."

Com o passar do tempo, diversos outros costumes foram criados em torno do ovo, como por exemplo, a brincadeira de escondê-los.

<><> Páscoa: uma festa cristã

Com a intenção de celebrar a ressurreição de Jesus Cristo, a Páscoa é a principal festa cristã, comemorada no primeiro domingo de lua cheia depois do início da primavera europeia, isto é, entre os dias 22 de março e 25 de abril. A Páscoa vem sendo celebrada há 1.700 anos, desde o Primeiro Concílio de Niceia, em 325, que fixou a data para a festividade.

A mensagem central da Páscoa é que a morte não é o fim de tudo. "A vida triunfa sobre a morte, a verdade sobre mentira, a justiça sobre a injustiça, o amor sobre o ódio", resume a doutrina da fé do catecismo católico.

A festa religiosa incorpora o Pessach, comemoração judaica que recorda a travessia dos judeus do Egito até a Terra Prometida, marcada pela travessia do Mar Vermelho.

 

Fonte: Por Serin Quinn, para The Conversation/DW Brasil

 

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