sábado, 11 de abril de 2026

Luís Nassif: Eppur si muove, ou Lula entra no jogo

A frase é de Galileu Galilei, insistindo em sua tese de que a terra se move, e não era o centro do universo, como pretendia a Igreja.

Lula se move. Na entrevista ao ICL, finalmente entrou em jogo, definindo as linhas gerais de seu discurso de campanha.

Ponto 1 – Defesa da soberania

Há uma demanda de país, de construção do futuro, do orgulho de ser brasileiro, visível nas torcidas em torno do cinema, da volta da música nordestina, em João Gomes, e na própria reação da opinião pública, quando Lula enfrentou a ofensiva de Donald Trump.

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Ponto 2 – Construção do futuro

Esse é um ponto central. Bolsa Família não é novidade, é direito adquirido. O assistencialismo foi fundamental para eliminar a pior das chagas públicas, a fome. Agora é necessário mais, a apresentação de políticas estruturantes. Em toda a entrevista, Lula insistiu nesse discurso, realçando a mais estruturante das políticas, a educação.

Ponto 3 – As novas oportunidades

Bom tempo foi destinado às terras raras, com um princípio bem definido: o Brasil não pode repetir o ciclo das commodities, e só vender terras raras. Vai conversar com todos os países e negociar: parcerias com empresas brasileiras, transferência de tecnologia, geração de emprego. O mesmo vale para a Nova Indústria Brasil e o programa de transição energética.

Esse ponto é importante porque, durante todo o governo Lula 3, pouca atenção o presidente deu a esses dois programas. Eram programas de Geraldo Alckmin e de Fernando Haddad, não um programa do presidente Lula.

Agora, adotou as crianças, ponto essencial para jogar ambos os programas no primeiro plano do próximo mandato.

Ponto 4 – a segurança

Em relação à segurança pública, trouxe alguns totens que pegam na opinião pública, como a criação de uma Força Nacional. Mas mencionou também uma PEC para garantir orçamento tanto para a segurança pública quanto para a defesa nacional.

Ponto 5 – a diplomacia

Deixou claro seu ponto mais forte: a estratégia de negociar soberanamente com todos os países interessados em se aproximar do país.

Ponto 6 – a Lava Jato 2

Foi bastante crítico em relação ao PowerPoint da Globonews, e ao risco de repetição do jornalismo esgoto da revista Veja. Esse vai ser o ponto maior de disputa. Do lado de Lula, a proposta do salto estruturante do país. Do lado da oposição, a tentativa de reeditar o tema da corrupção, apoiado pela cobertura midiática, muito influenciada pela extinta revista Veja.

<><> O plano de governo

A entrevista reforça as boas expectativas em relação ao plano de governo, que está sendo montado, com a participação de alguns grandes técnicos dos governos Lula 1 e 2, como Sérgio Gabrielli.

Será peça central para não confiar apenas no anti-Bolsonaro como estimulador de votos. Tem que recriar a confiança no país, o sonho do país grande (e justo) e, principalmente, a perspectiva de futuro.

O tema é tão relevante, que o Projeto Brasil, do Jornal GGN, reuniu um conselho de nomes expressivos da ciência nacional para dar sua contribuição a esse esforço nacional de reconstruir o futuro.

Em breve.

•        É hora de Lula começar a desenhar o futuro

Há um quadro complexo pela frente. A permanência da Selic em níveis elevados criou uma situação insustentável de endividamento de famílias e de empresas. No caso das famílias, o problema foi agravado pela epidemia de bets e pelas armadilhas do crédito fácil.

A guerra do Irã vai piorar a situação. De um lado, provocando aumento nos preços dos combustíveis e dos alimentos. De outro, pressionando o Copom a manter a Selic nos patamares atuais.

Ou seja, o segundo semestre, em pleno processo eleitoral, será difícil. Ainda mais com a mídia difundindo a imagem do “Flávio” amor e paz, e não acordando para os riscos flagrantes para a democracia brasileira, embutidos em sua candidatura.

É tão irracional esse exercício prematuro de antilulismo, que abre espaço para conjecturas. O que a mídia pretende? Viabilizar uma terceira via, como o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite? E quando Lula e Flávio-Paz-e-Amor forem para o 2º turno, como ficará a posição da mídia?

A polarização não é mais entre esquerda-direita, entre lulistas-bolsonaristas. É entre democracia e anarquia, civilização e barbárie. Ou alguém minimamente racional tem alguma dúvida sobre o que será o Brasil, em caso de vitória de Flávio Bolsonaro?

Ontem, nos Estados Unidos, Flávio desenvolveu um discurso plenamente alinhado com o Maga, o mais ostensivo discurso entreguista da história. Houve um pedido explícito de atenção internacional ao Brasil, menções a monitoramento externo e pressão diplomática e de entrega de terras raras, sem nenhuma contrapartida. Aliás, o mesmo fez Ronaldo Caiado, o inacreditável governador de Goiás, oferecendo as terras raras do Estado — atribuição que não cabe a nenhum governador estadual.

O discurso foi totalmente ajustado ao ambiente da CPAC, com aproximação com o trumpismo, defesa de valores da “civilização ocidental” e retórica anti-esquerda global. Um ponto indicativo do seu discurso de campanha foi apresentar o Brasil como parceiro estratégico dos EUA e potencial fornecedor de recursos e oportunidades. Em versões do discurso, chegou a dizer que o Brasil pode ser “solução” para a América. Assim como a última campanha de Milei, este será um mote de campanha: se Lula for eleito, EUA serão uma ameaça; com Flávio, serão uma oportunidade.

Seja qual for a retórica, o fato insofismável é que, antes do Maga, Flávio é um representante autêntico das milícias cariocas. Mantinha relações diretas com Adriano da Nóbrega, o chefe do escritório do crime. O Supremo Tribunal Federal já o livrou do crime das rachadinhas. Mas há uma montanha de indícios de lavagem de dinheiro que jamais mereceram a atenção da Procuradoria Geral da República.

É esse o nível de presidente que a Globo quer, que o Estadão aceita, que a Folha promove? O antilulismo tornou-se uma epidemia mortal, que ainda vai promover a destruição do país.

Por sua vez, para enfrentar essa frente complexa, cuja formação atual é de igrejas-Faria Lima-mídia-organizações criminosas que pululam em torno do bolsonarismo, Lula não pode se valer apenas do anti-bolsonarismo.

Tem que apresentar uma marca, não para o terceiro governo, que está no fim, mas para um eventual quarto governo. Uma promessa de futuro melhor, um plano de metas, um projeto de país. Precisa devolver o otimismo que marcou o país no final do seu segundo governo, quase similar ao de JK.

É hora de começar a desenhar o futuro, para não soçobrarmos como civilização e como nação.

•        A nova fase da guerra política. Por Luís Nassif

A primeira fase foi marcada pelo início da Operação Lava Jato 2, de acordo com os seguintes indícios:

1.       Vazamento do contrato da esposa de Alexandre Moraes, nos primeiros dias de perícia dos celulares de Daniel Vorcaro. Ficou nítido o eixo PF lavajatista -> jornalista lavajatista -> Rede Globo.

2.       Ao mesmo tempo, o pedido da PF, e a autorização do Ministro André Mendonça, de quebra do sigilo de Fábio Luiz, filho de Lula, sem nenhum envolvimento com o caso Master, deixou exposto o eixo Mendonça – PF.

3.       Finalmente, o PowerPoint de Andréia Sadi, um desastre jornalístico tão amplo que obrigou a uma freada de arrumação no sistema Globo. Essa pausa foi provocada também pelo enquadramento dos PFs envolvidos com a Operação Master.

Agora, como um trio de cordas desafinado, os três diários entram no segundo tempo do jogo.

Ele consistirá, é claro, na manutenção das críticas sobre o governo Lula e do baixo astral permanente da cobertura.

Mas, ao mesmo tempo, acabou a lua-de-mel com o amigo “Flávio”. Sincronizadamente, os jornais passam a atacá-lo, na esperança de que seja substituído por algum candidato da direita, menos marcado.

O problema é que os “estadistas” da direita são de uma dimensão liliputiana.

De um lado, o governador de Minas, Romeu Zema que, além de ter arrebentado com as contas do estado, é de uma mediocridade poucas vezes vista entre governos estaduais.

O segundo candidato é o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, com uma vivência de senador e governador sofrível, tendo como única bandeira os motes da direita no campo da segurança pública.

O terceiro candidato é o governador gaúcho Eduardo Leite.

A única vantagem dos três é a absoluta blindagem que recebem da mídia do eixo Rio-São Paulo, e a condescendência dos grupos de mídia dos respectivos estados.

Seja quem for o candidato, há marcas que são indeléveis:

1.       Subordinação à política externa norte-americana.

2.       Implantação de colégios militares em toda rede federal.

3.       Enfraquecimento das universidades públicas e do sistema de financiamento à pesquisa.

4.       Empoderamento das Polícias Militares, ampliando o grau de violência.

5.       Pacto com setores lava jatistas da PF e do Judiciário.

O mesmo mal que acomete a centro-esquerda acomete o centro-direita e sua busca incessante pela terceira via. Não conseguem desenvolver um projeto de país. No caso do centro-direita e direita, escudam-se unicamente na fantasia do livre mercado e da privatização selvagem.

Nas próximas semanas, Lula colocará a campanha na rua. Não se sabe se escudada em um projeto claro de país, em um plano de metas, em uma visão de futuro, ou se será mais do mesmo.

A questão central é que a impaciência do eleitorado não aceita mais gambiarras. Ou é apresentado a um projeto de futuro, ou concentra votos na destruição final de qualquer projeto de nação.

•        É hora de Lula assumir o bastão de maestro. Por Luís Nassif

É curioso o malabarismo do anti-lulismo.

Primeiro, normalizam a candidatura do amigo Flávio. Ele seria menos radical que o pai Jair. Aí surge o governador Ronaldo Caiado. Ele seria menos radical que o amigo Flávio. No horizonte, aparece a candidatura de Eduardo Leite. Aí, já é chamado de centro-esquerda.

Somados, não dão nem meio Lula, nem meio Bolsonaro.

Mas insistem no anti-lulismo militante, endossando fake news, como a quebra de sigilo do filho de Lula, praticando o exercício diuturno do pessimismo, do mau agouro, esperando que, do horizonte flácido, nasça um sir Galahad da 3ª via. Seria isso?

E se o galante cavalheiro não se apresentar? Insistiram no amigo Flávio? Amigo que é amigo não repara nas abundantes provas de lavagem de dinheiro, de rachadinhas, de ligações com milícias, com o Escritório do Crime. Afinal, o Brasil é uma nação extrativista, cuja única utilidade é permitir o enriquecimento rápido dos que conseguem a tacada – termo com que o cunhado de Rui Barbosa designava as grandes jogadas especulativas.

É incrível a falta de ambição de construir uma grande nação. Em tempos que não voltam mais, lembro-me de conversas com grandes banqueiros, como Walther Moreira Salles e Aloysio Faria, grandes industriais, como Jorge Gerdau, Paulo Cunha, todos ambicionando serem grandes empresários de um grande país.

É impressionante o que a ultra financeirização fez com o sentimento de país, com a ideologia industrialista. As federações de indústrias se transformaram em reduto do bolsonarismo, o mais anti-industrial dos governos que já tivemos. A bancada agrícola não consegue entender a relevância das boas relações com a China, inclusive no aprimoramento da infraestrutura agrícola.

Essa perda de coesão se deve a três fatores.

O primeiro, o esvaziamento dos partidos políticos. Nenhum deles ousa um projeto nacional. É curioso, porque o PT tem o Instituto Perseu Abramo, já montou grupos relevantes de discussão de políticas públicas, mas nenhuma delas chegou ao nível federal, uma proposta de partido, menos ainda uma proposta de governo.

Um segundo fator de consciência seria a mídia. Mas, dela não se pode esperar nada, a não ser o imediatismo mais superficial e interessado.

Já não existem think tanks. A Universidade produz diagnósticos, estudos, mas descolados, sem um centro aglutinador das ideias.

Nesse marasmo total, a única forma de coordenação seria da Presidência da República. O país possui enorme potencial de ativos para montar políticas públicas. Há as universidades, os centros de pesquisa, as entidades representativas da indústria, comércio, agricultura e serviços, o cooperativismo, a agricultura familiar, as associações de municípios, o SUS, os conselhos de secretários estaduais.

Na área federal, há enorme potencial de pensamento criativo no CGCE, na Finep, no IPEA, no BNDES, na ENAP, nos ministérios.

Há um enorme ferramental para comunicação direta entre o Presidente e o povo. Franklin Delano Roosevelt promoveu uma revolução de opinião valendo-se de um programa radiofônico. Jair Bolsonaro expunha diariamente sua cavalar estupidez em lives diárias. Entrava na casa do cidadão comum com seu primarismo, mas ficava de casa.

Um plano de governo objetivo, explicado de maneira pedagógica pelo presidente, valendo-se das redes sociais e das redes de emissoras, poderia acordar o país. Há um país sedento por otimismo, borbulhando de amor próprio, descarregando suas expectativas em torcidas de filmes nacionais, de torneios, trazendo de volta a música regional.

Em suma, tem-se a receita e os ingredientes na mesa. Falta apenas o maestro condutor.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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