Luís
Nassif: Eppur si muove, ou Lula entra no jogo
A frase
é de Galileu Galilei, insistindo em sua tese de que a terra se move, e não era
o centro do universo, como pretendia a Igreja.
Lula se
move. Na entrevista ao ICL, finalmente entrou em jogo, definindo as linhas
gerais de seu discurso de campanha.
Ponto 1
– Defesa da soberania
Há uma
demanda de país, de construção do futuro, do orgulho de ser brasileiro, visível
nas torcidas em torno do cinema, da volta da música nordestina, em João Gomes,
e na própria reação da opinião pública, quando Lula enfrentou a ofensiva de
Donald Trump.
Play
Video
Ponto 2
– Construção do futuro
Esse é
um ponto central. Bolsa Família não é novidade, é direito adquirido. O
assistencialismo foi fundamental para eliminar a pior das chagas públicas, a
fome. Agora é necessário mais, a apresentação de políticas estruturantes. Em
toda a entrevista, Lula insistiu nesse discurso, realçando a mais estruturante
das políticas, a educação.
Ponto 3
– As novas oportunidades
Bom
tempo foi destinado às terras raras, com um princípio bem definido: o Brasil
não pode repetir o ciclo das commodities, e só vender terras raras. Vai
conversar com todos os países e negociar: parcerias com empresas brasileiras,
transferência de tecnologia, geração de emprego. O mesmo vale para a Nova
Indústria Brasil e o programa de transição energética.
Esse
ponto é importante porque, durante todo o governo Lula 3, pouca atenção o
presidente deu a esses dois programas. Eram programas de Geraldo Alckmin e de
Fernando Haddad, não um programa do presidente Lula.
Agora,
adotou as crianças, ponto essencial para jogar ambos os programas no primeiro
plano do próximo mandato.
Ponto 4
– a segurança
Em
relação à segurança pública, trouxe alguns totens que pegam na opinião pública,
como a criação de uma Força Nacional. Mas mencionou também uma PEC para
garantir orçamento tanto para a segurança pública quanto para a defesa
nacional.
Ponto 5
– a diplomacia
Deixou
claro seu ponto mais forte: a estratégia de negociar soberanamente com todos os
países interessados em se aproximar do país.
Ponto 6
– a Lava Jato 2
Foi
bastante crítico em relação ao PowerPoint da Globonews, e ao risco de repetição
do jornalismo esgoto da revista Veja. Esse vai ser o ponto maior de disputa. Do
lado de Lula, a proposta do salto estruturante do país. Do lado da oposição, a
tentativa de reeditar o tema da corrupção, apoiado pela cobertura midiática,
muito influenciada pela extinta revista Veja.
<><>
O plano de governo
A
entrevista reforça as boas expectativas em relação ao plano de governo, que
está sendo montado, com a participação de alguns grandes técnicos dos governos
Lula 1 e 2, como Sérgio Gabrielli.
Será
peça central para não confiar apenas no anti-Bolsonaro como estimulador de
votos. Tem que recriar a confiança no país, o sonho do país grande (e justo) e,
principalmente, a perspectiva de futuro.
O tema
é tão relevante, que o Projeto Brasil, do Jornal GGN, reuniu um conselho de
nomes expressivos da ciência nacional para dar sua contribuição a esse esforço
nacional de reconstruir o futuro.
Em
breve.
• É hora de Lula começar a desenhar o
futuro
Há um
quadro complexo pela frente. A permanência da Selic em níveis elevados criou
uma situação insustentável de endividamento de famílias e de empresas. No caso
das famílias, o problema foi agravado pela epidemia de bets e pelas armadilhas
do crédito fácil.
A
guerra do Irã vai piorar a situação. De um lado, provocando aumento nos preços
dos combustíveis e dos alimentos. De outro, pressionando o Copom a manter a
Selic nos patamares atuais.
Ou
seja, o segundo semestre, em pleno processo eleitoral, será difícil. Ainda mais
com a mídia difundindo a imagem do “Flávio” amor e paz, e não acordando para os
riscos flagrantes para a democracia brasileira, embutidos em sua candidatura.
É tão
irracional esse exercício prematuro de antilulismo, que abre espaço para
conjecturas. O que a mídia pretende? Viabilizar uma terceira via, como o
governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite? E quando Lula e
Flávio-Paz-e-Amor forem para o 2º turno, como ficará a posição da mídia?
A
polarização não é mais entre esquerda-direita, entre lulistas-bolsonaristas. É
entre democracia e anarquia, civilização e barbárie. Ou alguém minimamente
racional tem alguma dúvida sobre o que será o Brasil, em caso de vitória de
Flávio Bolsonaro?
Ontem,
nos Estados Unidos, Flávio desenvolveu um discurso plenamente alinhado com o
Maga, o mais ostensivo discurso entreguista da história. Houve um pedido
explícito de atenção internacional ao Brasil, menções a monitoramento externo e
pressão diplomática e de entrega de terras raras, sem nenhuma contrapartida.
Aliás, o mesmo fez Ronaldo Caiado, o inacreditável governador de Goiás,
oferecendo as terras raras do Estado — atribuição que não cabe a nenhum
governador estadual.
O
discurso foi totalmente ajustado ao ambiente da CPAC, com aproximação com o
trumpismo, defesa de valores da “civilização ocidental” e retórica
anti-esquerda global. Um ponto indicativo do seu discurso de campanha foi
apresentar o Brasil como parceiro estratégico dos EUA e potencial fornecedor de
recursos e oportunidades. Em versões do discurso, chegou a dizer que o Brasil
pode ser “solução” para a América. Assim como a última campanha de Milei, este
será um mote de campanha: se Lula for eleito, EUA serão uma ameaça; com Flávio,
serão uma oportunidade.
Seja
qual for a retórica, o fato insofismável é que, antes do Maga, Flávio é um
representante autêntico das milícias cariocas. Mantinha relações diretas com
Adriano da Nóbrega, o chefe do escritório do crime. O Supremo Tribunal Federal
já o livrou do crime das rachadinhas. Mas há uma montanha de indícios de
lavagem de dinheiro que jamais mereceram a atenção da Procuradoria Geral da
República.
É esse
o nível de presidente que a Globo quer, que o Estadão aceita, que a Folha
promove? O antilulismo tornou-se uma epidemia mortal, que ainda vai promover a
destruição do país.
Por sua
vez, para enfrentar essa frente complexa, cuja formação atual é de
igrejas-Faria Lima-mídia-organizações criminosas que pululam em torno do
bolsonarismo, Lula não pode se valer apenas do anti-bolsonarismo.
Tem que
apresentar uma marca, não para o terceiro governo, que está no fim, mas para um
eventual quarto governo. Uma promessa de futuro melhor, um plano de metas, um
projeto de país. Precisa devolver o otimismo que marcou o país no final do seu
segundo governo, quase similar ao de JK.
É hora
de começar a desenhar o futuro, para não soçobrarmos como civilização e como
nação.
• A nova fase da guerra política. Por Luís
Nassif
A
primeira fase foi marcada pelo início da Operação Lava Jato 2, de acordo com os
seguintes indícios:
1. Vazamento do contrato da esposa de
Alexandre Moraes, nos primeiros dias de perícia dos celulares de Daniel
Vorcaro. Ficou nítido o eixo PF lavajatista -> jornalista lavajatista ->
Rede Globo.
2. Ao mesmo tempo, o pedido da PF, e a
autorização do Ministro André Mendonça, de quebra do sigilo de Fábio Luiz,
filho de Lula, sem nenhum envolvimento com o caso Master, deixou exposto o eixo
Mendonça – PF.
3. Finalmente, o PowerPoint de Andréia Sadi,
um desastre jornalístico tão amplo que obrigou a uma freada de arrumação no
sistema Globo. Essa pausa foi provocada também pelo enquadramento dos PFs
envolvidos com a Operação Master.
Agora,
como um trio de cordas desafinado, os três diários entram no segundo tempo do
jogo.
Ele
consistirá, é claro, na manutenção das críticas sobre o governo Lula e do baixo
astral permanente da cobertura.
Mas, ao
mesmo tempo, acabou a lua-de-mel com o amigo “Flávio”. Sincronizadamente, os
jornais passam a atacá-lo, na esperança de que seja substituído por algum
candidato da direita, menos marcado.
O
problema é que os “estadistas” da direita são de uma dimensão liliputiana.
De um
lado, o governador de Minas, Romeu Zema que, além de ter arrebentado com as
contas do estado, é de uma mediocridade poucas vezes vista entre governos
estaduais.
O
segundo candidato é o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, com uma vivência de
senador e governador sofrível, tendo como única bandeira os motes da direita no
campo da segurança pública.
O
terceiro candidato é o governador gaúcho Eduardo Leite.
A única
vantagem dos três é a absoluta blindagem que recebem da mídia do eixo Rio-São
Paulo, e a condescendência dos grupos de mídia dos respectivos estados.
Seja
quem for o candidato, há marcas que são indeléveis:
1. Subordinação à política externa
norte-americana.
2. Implantação de colégios militares em toda
rede federal.
3. Enfraquecimento das universidades
públicas e do sistema de financiamento à pesquisa.
4. Empoderamento das Polícias Militares,
ampliando o grau de violência.
5. Pacto com setores lava jatistas da PF e
do Judiciário.
O mesmo
mal que acomete a centro-esquerda acomete o centro-direita e sua busca
incessante pela terceira via. Não conseguem desenvolver um projeto de país. No
caso do centro-direita e direita, escudam-se unicamente na fantasia do livre
mercado e da privatização selvagem.
Nas
próximas semanas, Lula colocará a campanha na rua. Não se sabe se escudada em
um projeto claro de país, em um plano de metas, em uma visão de futuro, ou se
será mais do mesmo.
A
questão central é que a impaciência do eleitorado não aceita mais gambiarras.
Ou é apresentado a um projeto de futuro, ou concentra votos na destruição final
de qualquer projeto de nação.
• É hora de Lula assumir o bastão de
maestro. Por Luís Nassif
É
curioso o malabarismo do anti-lulismo.
Primeiro,
normalizam a candidatura do amigo Flávio. Ele seria menos radical que o pai
Jair. Aí surge o governador Ronaldo Caiado. Ele seria menos radical que o amigo
Flávio. No horizonte, aparece a candidatura de Eduardo Leite. Aí, já é chamado
de centro-esquerda.
Somados,
não dão nem meio Lula, nem meio Bolsonaro.
Mas
insistem no anti-lulismo militante, endossando fake news, como a quebra de
sigilo do filho de Lula, praticando o exercício diuturno do pessimismo, do mau
agouro, esperando que, do horizonte flácido, nasça um sir Galahad da 3ª via.
Seria isso?
E se o
galante cavalheiro não se apresentar? Insistiram no amigo Flávio? Amigo que é
amigo não repara nas abundantes provas de lavagem de dinheiro, de rachadinhas,
de ligações com milícias, com o Escritório do Crime. Afinal, o Brasil é uma
nação extrativista, cuja única utilidade é permitir o enriquecimento rápido dos
que conseguem a tacada – termo com que o cunhado de Rui Barbosa designava as
grandes jogadas especulativas.
É
incrível a falta de ambição de construir uma grande nação. Em tempos que não
voltam mais, lembro-me de conversas com grandes banqueiros, como Walther
Moreira Salles e Aloysio Faria, grandes industriais, como Jorge Gerdau, Paulo
Cunha, todos ambicionando serem grandes empresários de um grande país.
É
impressionante o que a ultra financeirização fez com o sentimento de país, com
a ideologia industrialista. As federações de indústrias se transformaram em
reduto do bolsonarismo, o mais anti-industrial dos governos que já tivemos. A
bancada agrícola não consegue entender a relevância das boas relações com a
China, inclusive no aprimoramento da infraestrutura agrícola.
Essa
perda de coesão se deve a três fatores.
O
primeiro, o esvaziamento dos partidos políticos. Nenhum deles ousa um projeto
nacional. É curioso, porque o PT tem o Instituto Perseu Abramo, já montou
grupos relevantes de discussão de políticas públicas, mas nenhuma delas chegou
ao nível federal, uma proposta de partido, menos ainda uma proposta de governo.
Um
segundo fator de consciência seria a mídia. Mas, dela não se pode esperar nada,
a não ser o imediatismo mais superficial e interessado.
Já não
existem think tanks. A Universidade produz diagnósticos, estudos, mas
descolados, sem um centro aglutinador das ideias.
Nesse
marasmo total, a única forma de coordenação seria da Presidência da República.
O país possui enorme potencial de ativos para montar políticas públicas. Há as
universidades, os centros de pesquisa, as entidades representativas da
indústria, comércio, agricultura e serviços, o cooperativismo, a agricultura
familiar, as associações de municípios, o SUS, os conselhos de secretários
estaduais.
Na área
federal, há enorme potencial de pensamento criativo no CGCE, na Finep, no IPEA,
no BNDES, na ENAP, nos ministérios.
Há um
enorme ferramental para comunicação direta entre o Presidente e o povo.
Franklin Delano Roosevelt promoveu uma revolução de opinião valendo-se de um
programa radiofônico. Jair Bolsonaro expunha diariamente sua cavalar estupidez
em lives diárias. Entrava na casa do cidadão comum com seu primarismo, mas
ficava de casa.
Um
plano de governo objetivo, explicado de maneira pedagógica pelo presidente,
valendo-se das redes sociais e das redes de emissoras, poderia acordar o país.
Há um país sedento por otimismo, borbulhando de amor próprio, descarregando
suas expectativas em torcidas de filmes nacionais, de torneios, trazendo de
volta a música regional.
Em
suma, tem-se a receita e os ingredientes na mesa. Falta apenas o maestro
condutor.
Fonte:
Jornal GGN

Nenhum comentário:
Postar um comentário