Michael
Roberts: Todos os caminhos da guerra levam à recessão
Em sua mais recente
análise do
impacto do conflito no Oriente Médio nas economias mundiais, o FMI disse em
resumo: “Embora a guerra possa moldar a economia global de maneiras diferentes,
todos os caminhos levam a preços mais altos e crescimento mais lento”. O preço
global de referência do petróleo está a caminho de sua maior alta mensal já
registrada em março, maior do que em 1990, quando o Iraque invadiu o Kuwait. O
conflito pode terminar em breve, como Donald Trump e Marco Rubio afirmam. Ou,
mais provavelmente, haveria um conflito mais longo que poderia se estender até
abril e além, possivelmente envolvendo tropas americanas no terreno tentando
romper o domínio do Irã sobre o Estreito de Ormuz e buscando encontrar e
destruir os seus estoques nucleares.
De
qualquer forma, os preços do petróleo bruto permanecerão altos por algum tempo
(e ainda mais para os preços dos produtos derivados do petróleo, já que estes
subiram ainda mais). Isso significa duas coisas. No curto prazo, a inflação
global vai aumentar. Se o conflito durar mais, então o aumento da inflação será
acompanhado por uma queda no crescimento econômico e pela probabilidade de que
até mesmo algumas das principais economias entrem em recessão. A estagflação se
torna assim um evento certo, tornando uma derrubada geral um evento possível. Se
as instalações de petróleo e gás forem permanentemente danificadas ou ficarem
fora de operação por muito tempo, os preços do petróleo subirão ainda mais,
chegando a $150 por barril – quase três vezes os níveis pré-guerra – e os
preços do gás natural disparariam para €120 MWh, ou quatro vezes a taxa
pré-guerra. Tal aumento seria comparável ao choque global de oferta do final
dos anos 1970, que contribuiu para a alta inflação e a recessão global.
O
ministro das Finanças da França, Roland Lescure, estima que 30–40% da
capacidade de refino do Golfo já foi danificada ou destruída pelos ataques
retaliatórios do Irã, deixando uma escassez de 11 milhões de barris por dia nos
mercados globais de petróleo. Roland Lescure alertou que poderia levar até três
anos para restaurar as instalações danificadas e vários meses para reiniciar
aquelas que foram fechadas.
Os
economistas do Goldman Sachs apresentam três cenários: o cenário base é uma
interrupção de seis semanas, onde o preço do petróleo bruto sobe para
$120/barril antes de cair novamente para $80–100, sem danos duradouros à
infraestrutura. O segundo cenário é uma guerra de médio prazo (dez semanas),
onde o preço do petróleo bruto dispara para $140/barril, permanecendo em $95+
por mais dez semanas. Isso deixariam uma “marca” na produção de modo
permanentemente. O terceiro cenário é apocalíptico (com dez semanas de guerra e
danos duradouros). O preço do petróleo sobe para $160/barril e nunca volta a
cair abaixo de $100 no futuro próximo devido a danos às instalações de
produção.
A mais recente
perspectiva econômica da OCDE já rebaixou as previsões de crescimento real
do PIB nas principais economias este ano devido à guerra EUA-Israel com o Irã.
Todas as economias do G7, exceto os EUA, agora crescerão mais lentamente este
ano do que o previsto anteriormente, com o Reino Unido sendo aquele país que
sofrerá a maior redução – de 1,2% para apenas 0,7%. A economia dos EUA crescerá
mais rápido do que o previsto, segundo a OCDE, devido aos ganhos em suas
exportações de petróleo e gás. A OCDE também elevou sua previsão de inflação
nas principais economias do G20 de 2,8% para 4% anteriormente. A Argentina terá
a maior taxa de inflação no G20, com 31%, e a China a menor, com 1,3%. A
inflação nos EUA vai saltar para 4,2%, ante os atuais 2,9%. Se a guerra
continuar no próximo trimestre, é de se esperar que essas previsões de
crescimento sejam ainda mais reduzidas e as previsões de inflação
elevadas.
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Previsões revisadas de crescimento da OCDE
Na
minha opinião, ao contrário das previsões otimistas da OCDE sobre o crescimento
da economia capitalista nos EUA, ela não escapará de uma recessão. Segundo
economistas do Royal Bank of Canada, se os preços do petróleo permanecerem em
$100/barril, isso pode reduzir o crescimento real do PIB dos EUA em 0,8 ponto
percentual (da média atual de 2% ao ano para perto de 1%) e a inflação
americana pode chegar a 4% ao ano.
A Organização
Mundial do Comércio (OMC) prevê que, se os preços da energia
permanecerem persistentemente altos, o crescimento do comércio de mercadorias
este ano desacelerará de 1,9% para 1,5%. O crescimento das exportações
norte-americanas vai desacelerar um pouco, de uma expansão de 1,4% para 1,1%,
mas a Europa será esmagada, com as exportações diminuindo 0,6% em vez de 0,5%. O
impacto no crescimento será igualmente desigual: embora energia cara possa
impulsionar o crescimento do PIB na América do Norte este ano para 2,5% (a
partir de uma linha de base de 2,3%), isso desaceleraria o crescimento do PIB
na Ásia para 3,1%, ante 3,9%. Na Europa, uma guerra prolongada quase
paralisaria a economia, desacelerando sua expansão para 0,4% ante uma
estimativa anterior de 1,6%. Análises do BCE também indicam que uma guerra
longa significaria uma queda profunda e prolongada na produção com inflação
persistentemente alta.
Na
Europa, uma guerra prolongada quase paralisaria a economia, desacelerando sua
expansão para 0,4% ante uma estimativa anterior de 1,6%. Análises do BCE também
indicaram que uma guerra longa significaria uma queda profunda e prolongada na
produção, com inflação persistentemente alta. Já a inflação anual da zona do
euro subiu para 2,5% em março, contra 1,9% em fevereiro. Essa foi a maior taxa
desde janeiro de 2025, elevando a inflação acima da meta de 2% do BCE, já que
os custos de energia dispararam 4,9%, o primeiro aumento anual em quase um ano
e o mais acentuado desde fevereiro de 2023, impulsionado pelo conflito no
Oriente Médio. Além disso, uma explosão nos preços da energia não apenas
aumenta a inflação geral, em certo ponto, ela força famílias e empresas a
reduzir compras e investimentos para pagar as contas de energia. Isso funciona
como um imposto sobre o crescimento. Já os custos de empréstimos, expressos nos
rendimentos dos títulos do governo de longo prazo, estão subindo em todas as
principais economias. Quão alto e por quanto tempo os preços da energia (e de
outras commodities-chave) precisam subir para que uma queda aconteça?
Existem várias estimativas. Paul Krugman, o economista keynesiano mais
eminente, acredita que a elasticidade de preço da demanda por petróleo bruto é
baixa – ou seja, mesmo grandes aumentos de preço causam apenas pequenas quedas
na demanda (ou seja, PIB).
Mas
desta vez pode ser diferente. Ele acredita que ‘baixa interrupção’ (preço do
petróleo entre 100 e 150 dólares/b) reduziria a oferta em cerca de 8% nos EUA.
Uma perturbação média (preço do petróleo entre $120-230/b) causaria uma queda
de 12% no crescimento econômico dos EUA. Alta perturbação (preço do
petróleo entre $155-370/b) faria a oferta dos EUA cair 16%. Um conflito
prolongado atingiria o Oriente Médio e a Ásia de forma muito dura. Os estados
do Golfo perderiam seu lucrativo tráfego turístico e as companhias aéreas
poderiam ser obrigadas a contornar a área para o transporte global. Aquela vida
luxuosa, “belos dias”, que os estrangeiros desfrutam acabaria por um bom tempo
nesses lugares.
Com a
paralização dos grandes projetos de infraestrutura nos países do Golfo, os
trabalhadores migrantes da construção terão menos dinheiro para enviar para
casa – uma perda que afeta famílias em todo o Oriente Médio e Sul da Ásia.
Trabalhadores nos países do Golfo enviam para casa 88 bilhões de dólares em
remessas anualmente. Países como Egito, Paquistão e Índia são os maiores
beneficiários, totalizando dezenas de bilhões de dólares por ano e
representando mais da metade de todas as remessas recebidas nessas economias.
Egito, Paquistão e Jordânia recebem cada um mais de 4% do PIB proveniente das
remessas do Golfo.
A
Société Générale estima que cada aumento sustentado de 10 dólares nos preços do
petróleo ampliaria o déficit em conta corrente da Índia – atualmente em torno
de 1% do PIB – em meio ponto percentual e reduziria o crescimento econômico em
0,3%. A US$ 100/barril, isso significaria um déficit atual de 3% do PIB e uma
redução no crescimento econômico de uma previsão de 6,4% para 5% para 2026.
O
Centro para o Desenvolvimento Global (CGD), uma organização sediada em
Washington, compilou uma lista dos 17 países mais vulneráveis aos choques da
guerra do Irã. Treze deles são africanos, incluindo Angola, Nigéria, Egito,
Gana e Etiópia. Na Ásia, Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka foram considerados
vulneráveis, com a Jordânia sendo destacada no Oriente Médio. Juntos, preços
mais altos do petróleo e desvalorização da taxa de câmbio levarão a um choque
negativo nos termos de troca para muitos países, dificultando o pagamento da
dívida externa e a construção de reservas cambiais. Países que têm alto serviço
da dívida externa e reservas baixas estarão especialmente em risco. Por
exemplo, o Egito pode precisar renovar mais de 4 bilhões de dólares em eurobonds
em circulação no próximo ano; a Jordânia e o Paquistão podem precisar negociar
cerca de 1 bilhão de dólares cada.
Cerca
de 70% das importações de ureia do Brasil e 40% da Índia – essenciais para o
setor agrícola – vêm do Golfo através do Estreito de Ormuz. As nações do Golfo
importam a maior parte de seus alimentos: 75% do arroz vem pelo estreito, assim
como mais de 90% de seu milho, soja e óleo vegetal. Além de tudo isso, países
como Bangladesh, Índia e Paquistão serão atingidos pela inevitável queda nas
remessas de milhões de seus cidadãos que trabalham nos países do Golfo, à
medida que a guerra afeta a economia regional.
Três
países serão menos afetados. Os EUA têm muitos estoques estratégicos e, claro,
sua própria produção doméstica. Embora a China dependa de grande parte de seu
petróleo do Oriente Médio (principalmente da Arábia Saudita), ela vem
acumulando seus estoques estratégicos justamente para esses eventos e por
preocupações com sanções americanas. No ano passado, a China importou cerca de
metade de seu petróleo bruto e quase um terço de seu gás natural liquefeito do
Oriente Médio. Mas acumulou de forma agressiva estoques estratégicos de
combustíveis fósseis. Estima-se que a China detenha as maiores reservas
emergenciais de petróleo do mundo, totalizando 1,3 bilhão de barris.
A China
também fez investimentos significativos em eletrificação. A eletricidade
representa 30% do consumo energético do país – cerca de 50% a mais que os dos
EUA ou da Europa – tornou-se, assim, menos afetada por aumento temporários,
mesmo longos, pelos preços globais do petróleo. (Com sua rápida expansão solar
e eólica, já representa cerca de um terço da capacidade mundial de geração de
energia renovável.) Uma mistura energética diversificada, múltiplos
fornecedores e acesso a rotas que contornam o Golfo significam que apenas cerca
de 6% do consumo total de energia da China está diretamente exposto a
interrupções no estreito, estima o Goldman Sachs. Portanto, a China está
bem-posicionada para lidar com qualquer escassez; ademais, ela ainda pode
recorrer a mais importações de petróleo da Rússia e da América do Sul, onde tem
se abastecido nos últimos anos para evitar o Oriente Médio. E, ironicamente, a
Rússia se beneficiará do aumento das receitas de suas exportações de energia.
Um estudo recente de
todas as guerras desde 1870 descobriu que: “a produção cai quase 10% nas
economias que se tornam locais de guerra, enquanto os preços ao consumidor
sobem cerca de 20% (em relação às tendências pré-guerra).” E “as economias dos
países beligerantes e até mesmo as de terceiros testemunham dinâmicas
igualmente desfavoráveis se forem expostas ao local da guerra por meio de
ligações comerciais.” A produção em parceiros comerciais próximos cai 2% em
relação à tendência. Essa guerra facilmente superará essas médias se durar por
muito mais tempo.
¨
E agora, falastrão? Por Séamus Malekafzali
Após
semanas de bombardeios contra instalações militares, navios de guerra e cidades
iranianas, o presidente Trump declarou a guerra contra o Irã
“vencida” em 24 de março. Uma conquista tão importante poderia ter sido
anunciada em um discurso grandioso — em um porta-aviões com uma faixa
anunciando “missão cumprida” —, mas a declaração passou despercebida.
Talvez
a reação tenha sido tão discreta porque Trump já havia proclamado a vitória
diversas vezes antes — como três semanas atrás, quando disse acreditar que a “guerra estava praticamente terminada”, ou há duas
semanas, quando afirmou em um comício no
Kentucky que os Estados Unidos haviam vencido “na primeira hora”.
Talvez
tenha havido um espanto coletivo porque, ao mesmo tempo em que declarou
vitória, Trump também afirmou, contrariando todas as negativas iranianas, ter
mantido “conversas construtivas” com líderes não identificados em Teerã, que
estariam “desesperados por um acordo”, apenas temendo se manifestar para não
serem mortos, seja pelo governo ou pelos próprios EUA.
Ou
talvez as palavras de Trump tenham sido ignoradas porque todos conseguem ver
claramente que se trata de uma mentira. Apesar de tantas vitórias, apesar de
tamanha complacência, a guerra de alguma forma continua, já que os iranianos,
de modo inacreditável, recusam-se a “aceitar que foram derrotados
militarmente”, nas palavras da secretária de
imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt. A ideia de que os Estados Unidos
estejam perdendo esta guerra é completamente impensável. Mas não há como fugir
da verdade: os Estados Unidos estão, de fato, perdendo esta guerra.
Em
seguidas entrevistas coletivas, declarações a grupos de repórteres e postagens
nas redes sociais, o comandante-em-chefe relata milhares e milhares de ataques,
a dizimação da Força Aérea Iraniana e a destruição de literalmente “100% ” das capacidades
militares do Irã. Mas, como qualquer pessoa com olhos pode ver claramente, as
forças armadas iranianas continuam lutando, não apenas de forma desajeitada e
insignificante, como o presidente sugere, mas com níveis consistentes de
disparos de mísseis balísticos contra Israel e bases americanas no Golfo
Pérsico. Isso tem forçado a Casa Branca a recorrer a expressões cada vez mais
desconcertantes para descrever o que está acontecendo.
Ao
mesmo tempo em que o presidente afirmava que no Irã “ninguém sequer atira em
nós”, um F-35, um caça furtivo considerado o cume do poderio militar, foi atingido e incapacitado por
fogo antiaéreo iraniano pela primeira vez na história da aeronave (cinco dias
depois, Trump afirmaria que o Irã “não possuía
equipamentos antiaéreos”). Nos 12 dias desde que Trump publicou que o Irã agora
enviava apenas “um ou dois drones” e “um míssil de curto alcance em algum
lugar”, a Guarda Revolucionária Islâmica lançou mais de 30 ondas de ataques e
não demonstra qualquer sinal de que irá parar ou mesmo reduzir o número de
mísseis e drones que dispara. Apesar das alegações de destruição da Marinha
iraniana, o Estreito de Ormuz permanece fechado a toda a navegação proveniente
de nações que o Estado iraniano considera hostis.
Ao que
tudo indica, todos os outros objetivos da guerra, sejam eles enfraquecer as
capacidades militares iranianas ou derrubar a República Islâmica, foram
deixados de lado enquanto o governo americano tenta desesperadamente controlar
o preço do petróleo e reabrir Ormuz, que antes da guerra estava completamente
aberto. O governo Trump recorreu a um ciclo rotineiro de manipulação de
mercado, alegando escolta de
petroleiros pela Marinha dos EUA que nunca existiu, a ausência de minas navais que,
segundo a imprensa, já haviam sido instaladas, e a abertura forçada do Estreito
como uma “ simples manobra militar ” na qual as nações
europeias deveriam envolver seus próprios exércitos, a menos que não quisessem,
o que não importa, porque os EUA não precisavam da ajuda delas mesmo.
A
corrida para controlar o aumento acelerado do preço dos combustíveis tornou-se
tão intensa que o Departamento do Tesouro, em uma medida sem precedentes,
suspendeu as sanções ao petróleo iraniano que já estava a caminho, com o
secretário Scott Bessent tentando alegar que os EUA
estavam, com essa ação, “dando uma lição de jiu-jitsu” nos iranianos.
Apesar
da presença de porta-aviões norte-americanos nas proximidades de suas águas
territoriais e dos bombardeios regulares dos EUA e de Israel contra portos e
lançadores de mísseis iranianos, o Irã está exportando consideravelmente mais
petróleo agora do que antes da guerra, impôs um regime de pedágio a todos os
navios que passam pelo estreito crucial e reduziu os mísseis interceptores
israelenses e do Golfo a estoques baixos, o que levou a um número muito maior
de impactos diretos do que no início do conflito.
Desesperado
por símbolos de vitória americana, o Comando Central (CENTCOM) tem publicado regularmente vídeos de
dispendiosos ataques aéreos contra drones individuais — por exemplo, lançando
mísseis Hellfire de 100 mil dólares contra drones Shahed de US$ 7 mil , dos quais o Irã
possuía 80.000 antes da guerra e que, em condições ideais, as forças armadas
iranianas podem produzir 10.000 por mês. Em vez de receber informações reais
sobre o progresso da guerra, o presidente Trump, segundo a NBC, tem recebido
uma montagem diária dos “maiores e mais
bem-sucedidos ataques contra alvos iranianos nas últimas 48 horas” por oficiais
militares, descrita mais simplesmente como “uma série de vídeos de ‘coisas
explodindo’”.
Existe
uma comparação histórica pertinente para essa ênfase excessiva em missões
aéreas, ataques realizados e comandantes mortos, em detrimento de todos os
outros indicadores óbvios e abundantemente claros de vitória: o Vietnã. O
General William Westmoreland, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA,
a quem o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, comparou
com membros do governo Trump, vangloriava-se regularmente das estatísticas de
perda de armamento e das taxas de abate como prova de que a maré estava virando
contra Ho Chi Minh. O secretário de Defesa Robert McNamara declarou ao Senado, em 1965,
que os EUA realizavam 13.000 missões aéreas por mês contra os
norte-vietnamitas, que 1.900 “alvos fixos” haviam sido atingidos e que os EUA
estavam “prejudicando a capacidade bélica do Vietnã do Norte”. Westmoreland
declararia, em 1967, que “chegamos a
um ponto importante, quando o fim começa a se vislumbrar”. A guerra continuaria
por mais oito anos, terminando com a queda de Saigon para os comunistas.
A
principal diferença, pode-se argumentar, é que a Guerra do Vietnã incluiu um
enorme investimento em tropas terrestres, enquanto não há soldados americanos
em solo iraniano. Isso pode mudar em breve.
Assim
como em praticamente todos os outros aspectos deste conflito, isso
representaria uma completa reversão das promessas feitas pela Casa Branca
quando atacou o Irã pela primeira vez. Naquele momento o secretário de Guerra,
Pete Hegseth, vangloriou-se de que não havia
necessidade de tropas terrestres, pois os Estados Unidos haviam “assumido o
controle do espaço aéreo e das vias navegáveis iranianas” por via aérea. Agora,
há um consenso crescente no governo Trump de que tropas terrestres são
necessárias para impor o controle que os EUA supostamente já conquistaram. No
momento da redação deste texto, milhares de soldados norte-americanos estão a
caminho do Golfo Pérsico, enquanto circulam relatos sobre um possível
desembarque na Ilha de Kharg, ou talvez em qualquer outra ilha iraniana no
Golfo e no Estreito, onde milhares, senão dezenas de milhares de iranianos,
poderiam em breve ficar sob ocupação militar americana direta. O exército
iraniano, por sua vez, vem reforçando suas defesas em Kharg, já bastante
bombardeadas, antecipando o tipo de invasão que seus estrategistas militares
vêm prevendo ao longo de quase toda a história da República Islâmica.
Independentemente
do que aconteça a seguir, isto não é o que se espera de uma guerra vencida. Em
vez disso, a expansão descontrolada da guerra contra o Irã continua a se dar
aos trancos e barrancos. A questão de uma potencial nova guerra sem fim, que
custará muitas milhares de vidas iranianas, para não mencionar os soldados
americanos que estariam na linha de fogo direta do Irã, tem sido tratada com
total descaso. Todos governos americanos anteriores a Trump evitaram a guerra
com o Irã por um motivo: o medo de ficarem atoladas em um conflito em
território hostil, sem fim à vista. Esta administração, acreditando que as
guerras são perdidas não por serem superadas em manobras ou por falta de
preparo, mas sim por serem politicamente corretas, fez uma escolha diferente.
Autoridades
norte=americanas, de Stephen Miller a Hegseth, passando pelo próprio Trump, têm
se vangloriado da natureza completamente assimétrica desta guerra, do
poderio bélico esmagador que os Estados Unidos estão demonstrando e de que os
iranianos não têm outra opção senão aceitar as exigências americanas sem
questionamentos. A falha fundamental no pensamento estratégico americano é a
mesma de 1967: a incapacidade de compreender a verdade básica de que, em uma
guerra, o inimigo também tem voz.
Fonte: The next
recession blog
- Tradução: Eleutério F. S. Prado/ The Nation | Tradução: Antonio Martins em
Outras Palavras

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