sábado, 11 de abril de 2026

Michael Roberts: Todos os caminhos da guerra levam à recessão

Em sua mais recente análise do impacto do conflito no Oriente Médio nas economias mundiais, o FMI disse em resumo: “Embora a guerra possa moldar a economia global de maneiras diferentes, todos os caminhos levam a preços mais altos e crescimento mais lento”. O preço global de referência do petróleo está a caminho de sua maior alta mensal já registrada em março, maior do que em 1990, quando o Iraque invadiu o Kuwait. O conflito pode terminar em breve, como Donald Trump e Marco Rubio afirmam. Ou, mais provavelmente, haveria um conflito mais longo que poderia se estender até abril e além, possivelmente envolvendo tropas americanas no terreno tentando romper o domínio do Irã sobre o Estreito de Ormuz e buscando encontrar e destruir os seus estoques nucleares.

De qualquer forma, os preços do petróleo bruto permanecerão altos por algum tempo (e ainda mais para os preços dos produtos derivados do petróleo, já que estes subiram ainda mais). Isso significa duas coisas. No curto prazo, a inflação global vai aumentar. Se o conflito durar mais, então o aumento da inflação será acompanhado por uma queda no crescimento econômico e pela probabilidade de que até mesmo algumas das principais economias entrem em recessão. A estagflação se torna assim um evento certo, tornando uma derrubada geral um evento possível. Se as instalações de petróleo e gás forem permanentemente danificadas ou ficarem fora de operação por muito tempo, os preços do petróleo subirão ainda mais, chegando a $150 por barril – quase três vezes os níveis pré-guerra – e os preços do gás natural disparariam para €120 MWh, ou quatro vezes a taxa pré-guerra. Tal aumento seria comparável ao choque global de oferta do final dos anos 1970, que contribuiu para a alta inflação e a recessão global.

O ministro das Finanças da França, Roland Lescure, estima que 30–40% da capacidade de refino do Golfo já foi danificada ou destruída pelos ataques retaliatórios do Irã, deixando uma escassez de 11 milhões de barris por dia nos mercados globais de petróleo. Roland Lescure alertou que poderia levar até três anos para restaurar as instalações danificadas e vários meses para reiniciar aquelas que foram fechadas.

Os economistas do Goldman Sachs apresentam três cenários: o cenário base é uma interrupção de seis semanas, onde o preço do petróleo bruto sobe para $120/barril antes de cair novamente para $80–100, sem danos duradouros à infraestrutura. O segundo cenário é uma guerra de médio prazo (dez semanas), onde o preço do petróleo bruto dispara para $140/barril, permanecendo em $95+ por mais dez semanas. Isso deixariam uma “marca” na produção de modo permanentemente. O terceiro cenário é apocalíptico (com dez semanas de guerra e danos duradouros). O preço do petróleo sobe para $160/barril e nunca volta a cair abaixo de $100 no futuro próximo devido a danos às instalações de produção.

A mais recente perspectiva econômica da OCDE já rebaixou as previsões de crescimento real do PIB nas principais economias este ano devido à guerra EUA-Israel com o Irã. Todas as economias do G7, exceto os EUA, agora crescerão mais lentamente este ano do que o previsto anteriormente, com o Reino Unido sendo aquele país que sofrerá a maior redução – de 1,2% para apenas 0,7%. A economia dos EUA crescerá mais rápido do que o previsto, segundo a OCDE, devido aos ganhos em suas exportações de petróleo e gás. A OCDE também elevou sua previsão de inflação nas principais economias do G20 de 2,8% para 4% anteriormente. A Argentina terá a maior taxa de inflação no G20, com 31%, e a China a menor, com 1,3%. A inflação nos EUA vai saltar para 4,2%, ante os atuais 2,9%. Se a guerra continuar no próximo trimestre, é de se esperar que essas previsões de crescimento sejam ainda mais reduzidas e as previsões de inflação elevadas. 

<><> Previsões revisadas de crescimento da OCDE

Na minha opinião, ao contrário das previsões otimistas da OCDE sobre o crescimento da economia capitalista nos EUA, ela não escapará de uma recessão. Segundo economistas do Royal Bank of Canada, se os preços do petróleo permanecerem em $100/barril, isso pode reduzir o crescimento real do PIB dos EUA em 0,8 ponto percentual (da média atual de 2% ao ano para perto de 1%) e a inflação americana pode chegar a 4% ao ano.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê que, se os preços da energia permanecerem persistentemente altos, o crescimento do comércio de mercadorias este ano desacelerará de 1,9% para 1,5%. O crescimento das exportações norte-americanas vai desacelerar um pouco, de uma expansão de 1,4% para 1,1%, mas a Europa será esmagada, com as exportações diminuindo 0,6% em vez de 0,5%. O impacto no crescimento será igualmente desigual: embora energia cara possa impulsionar o crescimento do PIB na América do Norte este ano para 2,5% (a partir de uma linha de base de 2,3%), isso desaceleraria o crescimento do PIB na Ásia para 3,1%, ante 3,9%. Na Europa, uma guerra prolongada quase paralisaria a economia, desacelerando sua expansão para 0,4% ante uma estimativa anterior de 1,6%. Análises do BCE também indicam que uma guerra longa significaria uma queda profunda e prolongada na produção com inflação persistentemente alta.

Na Europa, uma guerra prolongada quase paralisaria a economia, desacelerando sua expansão para 0,4% ante uma estimativa anterior de 1,6%. Análises do BCE também indicaram que uma guerra longa significaria uma queda profunda e prolongada na produção, com inflação persistentemente alta. Já a inflação anual da zona do euro subiu para 2,5% em março, contra 1,9% em fevereiro. Essa foi a maior taxa desde janeiro de 2025, elevando a inflação acima da meta de 2% do BCE, já que os custos de energia dispararam 4,9%, o primeiro aumento anual em quase um ano e o mais acentuado desde fevereiro de 2023, impulsionado pelo conflito no Oriente Médio. Além disso, uma explosão nos preços da energia não apenas aumenta a inflação geral, em certo ponto, ela força famílias e empresas a reduzir compras e investimentos para pagar as contas de energia. Isso funciona como um imposto sobre o crescimento. Já os custos de empréstimos, expressos nos rendimentos dos títulos do governo de longo prazo, estão subindo em todas as principais economias. Quão alto e por quanto tempo os preços da energia (e de outras commodities-chave) precisam subir para que uma queda aconteça?  Existem várias estimativas. Paul Krugman, o economista keynesiano mais eminente, acredita que a elasticidade de preço da demanda por petróleo bruto é baixa – ou seja, mesmo grandes aumentos de preço causam apenas pequenas quedas na demanda (ou seja, PIB).

Mas desta vez pode ser diferente. Ele acredita que ‘baixa interrupção’ (preço do petróleo entre 100 e 150 dólares/b) reduziria a oferta em cerca de 8% nos EUA. Uma perturbação média (preço do petróleo entre $120-230/b) causaria uma queda de 12% no crescimento econômico dos EUA.  Alta perturbação (preço do petróleo entre $155-370/b) faria a oferta dos EUA cair 16%. Um conflito prolongado atingiria o Oriente Médio e a Ásia de forma muito dura. Os estados do Golfo perderiam seu lucrativo tráfego turístico e as companhias aéreas poderiam ser obrigadas a contornar a área para o transporte global. Aquela vida luxuosa, “belos dias”, que os estrangeiros desfrutam acabaria por um bom tempo nesses lugares.

Com a paralização dos grandes projetos de infraestrutura nos países do Golfo, os trabalhadores migrantes da construção terão menos dinheiro para enviar para casa – uma perda que afeta famílias em todo o Oriente Médio e Sul da Ásia. Trabalhadores nos países do Golfo enviam para casa 88 bilhões de dólares em remessas anualmente. Países como Egito, Paquistão e Índia são os maiores beneficiários, totalizando dezenas de bilhões de dólares por ano e representando mais da metade de todas as remessas recebidas nessas economias. Egito, Paquistão e Jordânia recebem cada um mais de 4% do PIB proveniente das remessas do Golfo.

A Société Générale estima que cada aumento sustentado de 10 dólares nos preços do petróleo ampliaria o déficit em conta corrente da Índia – atualmente em torno de 1% do PIB – em meio ponto percentual e reduziria o crescimento econômico em 0,3%. A US$ 100/barril, isso significaria um déficit atual de 3% do PIB e uma redução no crescimento econômico de uma previsão de 6,4% para 5% para 2026.

O Centro para o Desenvolvimento Global (CGD), uma organização sediada em Washington, compilou uma lista dos 17 países mais vulneráveis aos choques da guerra do Irã. Treze deles são africanos, incluindo Angola, Nigéria, Egito, Gana e Etiópia. Na Ásia, Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka foram considerados vulneráveis, com a Jordânia sendo destacada no Oriente Médio. Juntos, preços mais altos do petróleo e desvalorização da taxa de câmbio levarão a um choque negativo nos termos de troca para muitos países, dificultando o pagamento da dívida externa e a construção de reservas cambiais. Países que têm alto serviço da dívida externa e reservas baixas estarão especialmente em risco. Por exemplo, o Egito pode precisar renovar mais de 4 bilhões de dólares em eurobonds em circulação no próximo ano; a Jordânia e o Paquistão podem precisar negociar cerca de 1 bilhão de dólares cada.

Cerca de 70% das importações de ureia do Brasil e 40% da Índia – essenciais para o setor agrícola – vêm do Golfo através do Estreito de Ormuz. As nações do Golfo importam a maior parte de seus alimentos: 75% do arroz vem pelo estreito, assim como mais de 90% de seu milho, soja e óleo vegetal. Além de tudo isso, países como Bangladesh, Índia e Paquistão serão atingidos pela inevitável queda nas remessas de milhões de seus cidadãos que trabalham nos países do Golfo, à medida que a guerra afeta a economia regional.

Três países serão menos afetados. Os EUA têm muitos estoques estratégicos e, claro, sua própria produção doméstica. Embora a China dependa de grande parte de seu petróleo do Oriente Médio (principalmente da Arábia Saudita), ela vem acumulando seus estoques estratégicos justamente para esses eventos e por preocupações com sanções americanas. No ano passado, a China importou cerca de metade de seu petróleo bruto e quase um terço de seu gás natural liquefeito do Oriente Médio. Mas acumulou de forma agressiva estoques estratégicos de combustíveis fósseis. Estima-se que a China detenha as maiores reservas emergenciais de petróleo do mundo, totalizando 1,3 bilhão de barris.

A China também fez investimentos significativos em eletrificação. A eletricidade representa 30% do consumo energético do país – cerca de 50% a mais que os dos EUA ou da Europa – tornou-se, assim, menos afetada por aumento temporários, mesmo longos, pelos preços globais do petróleo. (Com sua rápida expansão solar e eólica, já representa cerca de um terço da capacidade mundial de geração de energia renovável.) Uma mistura energética diversificada, múltiplos fornecedores e acesso a rotas que contornam o Golfo significam que apenas cerca de 6% do consumo total de energia da China está diretamente exposto a interrupções no estreito, estima o Goldman Sachs. Portanto, a China está bem-posicionada para lidar com qualquer escassez; ademais, ela ainda pode recorrer a mais importações de petróleo da Rússia e da América do Sul, onde tem se abastecido nos últimos anos para evitar o Oriente Médio. E, ironicamente, a Rússia se beneficiará do aumento das receitas de suas exportações de energia.

Um estudo recente de todas as guerras desde 1870 descobriu que: “a produção cai quase 10% nas economias que se tornam locais de guerra, enquanto os preços ao consumidor sobem cerca de 20% (em relação às tendências pré-guerra).” E “as economias dos países beligerantes e até mesmo as de terceiros testemunham dinâmicas igualmente desfavoráveis se forem expostas ao local da guerra por meio de ligações comerciais.” A produção em parceiros comerciais próximos cai 2% em relação à tendência. Essa guerra facilmente superará essas médias se durar por muito mais tempo.

¨      E agora, falastrão? Por Séamus Malekafzali

Após semanas de bombardeios contra instalações militares, navios de guerra e cidades iranianas, o presidente Trump declarou a guerra contra o Irã “vencida” em 24 de março. Uma conquista tão importante poderia ter sido anunciada em um discurso grandioso — em um porta-aviões com uma faixa anunciando “missão cumprida” —, mas a declaração passou despercebida.

Talvez a reação tenha sido tão discreta porque Trump já havia proclamado a vitória diversas vezes antes — como três semanas atrás, quando disse acreditar que a “guerra estava praticamente terminada”, ou há duas semanas, quando afirmou em um comício no Kentucky que os Estados Unidos haviam vencido “na primeira hora”.

Talvez tenha havido um espanto coletivo porque, ao mesmo tempo em que declarou vitória, Trump também afirmou, contrariando todas as negativas iranianas, ter mantido “conversas construtivas” com líderes não identificados em Teerã, que estariam “desesperados por um acordo”, apenas temendo se manifestar para não serem mortos, seja pelo governo ou pelos próprios EUA.

Ou talvez as palavras de Trump tenham sido ignoradas porque todos conseguem ver claramente que se trata de uma mentira. Apesar de tantas vitórias, apesar de tamanha complacência, a guerra de alguma forma continua, já que os iranianos, de modo inacreditável, recusam-se a “aceitar que foram derrotados militarmente”, nas palavras da secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt. A ideia de que os Estados Unidos estejam perdendo esta guerra é completamente impensável. Mas não há como fugir da verdade: os Estados Unidos estão, de fato, perdendo esta guerra.

Em seguidas entrevistas coletivas, declarações a grupos de repórteres e postagens nas redes sociais, o comandante-em-chefe relata milhares e milhares de ataques, a dizimação da Força Aérea Iraniana e a destruição de literalmente “100% ” das capacidades militares do Irã. Mas, como qualquer pessoa com olhos pode ver claramente, as forças armadas iranianas continuam lutando, não apenas de forma desajeitada e insignificante, como o presidente sugere, mas com níveis consistentes de disparos de mísseis balísticos contra Israel e bases americanas no Golfo Pérsico. Isso tem forçado a Casa Branca a recorrer a expressões cada vez mais desconcertantes para descrever o que está acontecendo.

Ao mesmo tempo em que o presidente afirmava que no Irã “ninguém sequer atira em nós”, um F-35, um caça furtivo considerado o cume do poderio militar, foi atingido e incapacitado por fogo antiaéreo iraniano pela primeira vez na história da aeronave (cinco dias depois, Trump afirmaria que o Irã “não possuía equipamentos antiaéreos”). Nos 12 dias desde que Trump publicou que o Irã agora enviava apenas “um ou dois drones” e “um míssil de curto alcance em algum lugar”, a Guarda Revolucionária Islâmica lançou mais de 30 ondas de ataques e não demonstra qualquer sinal de que irá parar ou mesmo reduzir o número de mísseis e drones que dispara. Apesar das alegações de destruição da Marinha iraniana, o Estreito de Ormuz permanece fechado a toda a navegação proveniente de nações que o Estado iraniano considera hostis.

Ao que tudo indica, todos os outros objetivos da guerra, sejam eles enfraquecer as capacidades militares iranianas ou derrubar a República Islâmica, foram deixados de lado enquanto o governo americano tenta desesperadamente controlar o preço do petróleo e reabrir Ormuz, que antes da guerra estava completamente aberto. O governo Trump recorreu a um ciclo rotineiro de manipulação de mercado, alegando escolta de petroleiros pela Marinha dos EUA que nunca existiu, a ausência de minas navais que, segundo a imprensa, já haviam sido instaladas, e a abertura forçada do Estreito como uma “ simples manobra militar ” na qual as nações europeias deveriam envolver seus próprios exércitos, a menos que não quisessem, o que não importa, porque os EUA não precisavam da ajuda delas mesmo.

A corrida para controlar o aumento acelerado do preço dos combustíveis tornou-se tão intensa que o Departamento do Tesouro, em uma medida sem precedentes, suspendeu as sanções ao petróleo iraniano que já estava a caminho, com o secretário Scott Bessent tentando alegar que os EUA estavam, com essa ação, “dando uma lição de jiu-jitsu” nos iranianos.

Apesar da presença de porta-aviões norte-americanos nas proximidades de suas águas territoriais e dos bombardeios regulares dos EUA e de Israel contra portos e lançadores de mísseis iranianos, o Irã está exportando consideravelmente mais petróleo agora do que antes da guerra, impôs um regime de pedágio a todos os navios que passam pelo estreito crucial e reduziu os mísseis interceptores israelenses e do Golfo a estoques baixos, o que levou a um número muito maior de impactos diretos do que no início do conflito.

Desesperado por símbolos de vitória americana, o Comando Central (CENTCOM) tem publicado regularmente vídeos de dispendiosos ataques aéreos contra drones individuais — por exemplo, lançando mísseis Hellfire de 100 mil dólares contra drones Shahed de US$ 7 mil , dos quais o Irã possuía 80.000 antes da guerra e que, em condições ideais, as forças armadas iranianas podem produzir 10.000 por mês. Em vez de receber informações reais sobre o progresso da guerra, o presidente Trump, segundo a NBC, tem recebido uma montagem diária dos “maiores e mais bem-sucedidos ataques contra alvos iranianos nas últimas 48 horas” por oficiais militares, descrita mais simplesmente como “uma série de vídeos de ‘coisas explodindo’”.

Existe uma comparação histórica pertinente para essa ênfase excessiva em missões aéreas, ataques realizados e comandantes mortos, em detrimento de todos os outros indicadores óbvios e abundantemente claros de vitória: o Vietnã. O General William Westmoreland, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, a quem o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, comparou com membros do governo Trump, vangloriava-se regularmente das estatísticas de perda de armamento e das taxas de abate como prova de que a maré estava virando contra Ho Chi Minh. O secretário de Defesa Robert McNamara declarou ao Senado, em 1965, que os EUA realizavam 13.000 missões aéreas por mês contra os norte-vietnamitas, que 1.900 “alvos fixos” haviam sido atingidos e que os EUA estavam “prejudicando a capacidade bélica do Vietnã do Norte”. Westmoreland declararia, em 1967, que “chegamos a um ponto importante, quando o fim começa a se vislumbrar”. A guerra continuaria por mais oito anos, terminando com a queda de Saigon para os comunistas.

A principal diferença, pode-se argumentar, é que a Guerra do Vietnã incluiu um enorme investimento em tropas terrestres, enquanto não há soldados americanos em solo iraniano. Isso pode mudar em breve.

Assim como em praticamente todos os outros aspectos deste conflito, isso representaria uma completa reversão das promessas feitas pela Casa Branca quando atacou o Irã pela primeira vez. Naquele momento o secretário de Guerra, Pete Hegseth, vangloriou-se de que não havia necessidade de tropas terrestres, pois os Estados Unidos haviam “assumido o controle do espaço aéreo e das vias navegáveis iranianas” por via aérea. Agora, há um consenso crescente no governo Trump de que tropas terrestres são necessárias para impor o controle que os EUA supostamente já conquistaram. No momento da redação deste texto, milhares de soldados norte-americanos estão a caminho do Golfo Pérsico, enquanto circulam relatos sobre um possível desembarque na Ilha de Kharg, ou talvez em qualquer outra ilha iraniana no Golfo e no Estreito, onde milhares, senão dezenas de milhares de iranianos, poderiam em breve ficar sob ocupação militar americana direta. O exército iraniano, por sua vez, vem reforçando suas defesas em Kharg, já bastante bombardeadas, antecipando o tipo de invasão que seus estrategistas militares vêm prevendo ao longo de quase toda a história da República Islâmica.

Independentemente do que aconteça a seguir, isto não é o que se espera de uma guerra vencida. Em vez disso, a expansão descontrolada da guerra contra o Irã continua a se dar aos trancos e barrancos. A questão de uma potencial nova guerra sem fim, que custará muitas milhares de vidas iranianas, para não mencionar os soldados americanos que estariam na linha de fogo direta do Irã, tem sido tratada com total descaso. Todos governos americanos anteriores a Trump evitaram a guerra com o Irã por um motivo: o medo de ficarem atoladas em um conflito em território hostil, sem fim à vista. Esta administração, acreditando que as guerras são perdidas não por serem superadas em manobras ou por falta de preparo, mas sim por serem politicamente corretas, fez uma escolha diferente.

Autoridades norte=americanas, de Stephen Miller a Hegseth, passando pelo próprio Trump, têm se vangloriado da natureza completamente assimétrica desta guerra, do poderio bélico esmagador que os Estados Unidos estão demonstrando e de que os iranianos não têm outra opção senão aceitar as exigências americanas sem questionamentos. A falha fundamental no pensamento estratégico americano é a mesma de 1967: a incapacidade de compreender a verdade básica de que, em uma guerra, o inimigo também tem voz.

 

Fonte:  The next recession blog - Tradução: Eleutério F. S. Prado/ The Nation | Tradução: Antonio Martins em Outras Palavras

 

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