População
de rua: Água somente para quem tem CEP?
Era uma
manhã de sol inclemente. Caminhando pela região central de Belo Horizonte, eu e
meu parceiro nos deparamos com uma cena que resume, de forma dolorosa, a
paisagem urbana comum nas grandes cidades brasileiras: um homem jovem,
descalço, deitado sobre o asfalto em ebulição, espremido entre a calçada e o
fluxo violento dos carros, rodeado por lixo.
Diante
daquela cena, a primeira reação foi humanamente instintiva: verificar se ele
ainda respirava. A incredulidade com a dimensão real e simbólica daquele
abandono tomou conta de mim. Felizmente, o peito subia e descia. Tentei
acordá-lo, temendo que sofresse uma insolação severa ali mesmo, na tentativa de
sugerir que buscasse uma sombra. Mas ele não respondeu. O sono profundo — ou
talvez a exaustão absoluta — o mantinha ali, completamente vulnerável aos
riscos do trânsito e do clima.
No
primeiro plano da minha visão, uma placa vermelha ordenava: “PARE”. Aquela
sinalização de trânsito transformou-se, naquele instante, em um imperativo
ético. Eu parei. Aquela vulnerabilidade extrema não era apenas uma fatalidade
individual; era a materialização de um sistema de exclusão. A ausência de
acesso à moradia e a serviços básicos nos espaços públicos impacta diretamente
a saúde dessa população, expondo-a a riscos diários à própria integridade
física e biológica, uma realidade já exaustivamente mapeada por pesquisadores
da saúde pública.
No dia
seguinte, voltei a encontrá-lo. Estava no mesmo local, desta vez desperto e
separando materiais recicláveis para tentar sobreviver. Ele me contou que havia
dormido ali mesmo, ao relento. Expliquei que, no dia anterior, havia tirado uma
foto (preservando sua identidade) porque sentia a urgência de denunciar o
descaso do poder público com a sua vida e a de tantos outros. Ele sorriu e
agradeceu.
<><>
A seca estrutural e o higienismo como política urbana
O
Brasil vive uma escalada vertiginosa e alarmante. O número de pessoas em
situação de rua no país cresceu significativamente nos últimos anos, superando
a marca de 365 mil cidadãos, segundo dados recentes do Cadastro Único
(CadÚnico) sistematizados pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas
com a População em Situação de Rua (Polos/UFMG).
O
descaso público se manifesta não apenas na falta de infraestrutura, mas também
no desmonte de iniciativas que tentam mitigar o problema. Na própria capital
mineira, um projeto fundamental de lavanderia popular, conhecido como Acquabox,
foi fechado em 2025. Após poucos meses de operação na cidade e envolto em
justificativas desencontradas, o serviço teria sido transferido para a cidade
vizinha de Contagem. A quem interessa retirar de uma capital a possibilidade de
uma pessoa lavar a própria roupa?
O que
precisamos compreender é que a barreira de acesso à água e ao saneamento nas
cidades não é apenas uma falha de engenharia ou de orçamento. Trata-se de uma
ferramenta de higienismo social. Ao negar água para beber e locais para
necessidades fisiológicas, o Estado tenta promover uma remoção invisível:
expulsar essas pessoas dos espaços públicos pelo cansaço, pela sede e pela
humilhação.
Não é
um acidente de percurso. Existe o que o filósofo Achille Mbembe definiu como
necropolítica — a política que dita quem deve viver e quem pode ser deixado
para morrer. A desigualdade no acesso é um projeto. Aquele homem dormindo sob o
sol escaldante é vítima — por vezes fatal — de escolhas políticas ou da omissão
calculada delas. Sem água limpa, perde-se a saúde; sem água para o banho e para
a limpeza das próprias roupas, arranca-se o que resta de dignidade social.
<><>
Saneamento universal, mas apenas para quem tem CEP?
O
avanço das lógicas privatistas no saneamento brasileiro, impulsionado pela Lei
nº 14.026/2020, vende a promessa da universalização dos serviços. Diante desse
cenário, impõe-se uma pergunta incômoda: as promessas dessa nova normativa
alcançarão quem não tem CEP?
Pesquisadores
e defensores dos direitos humanos alertam consistentemente que os modelos de
privatização e regionalização estimulados pela nova lei tendem a focar em áreas
lucrativas, negligenciando populações e territórios que não geram retorno
financeiro. Se o saneamento além do domicílio já era uma lacuna no Brasil, a
lógica de mercado ameaça aprofundar ainda mais a sede e a falta de higiene nas
ruas.
Diante
dessa omissão, o Supremo Tribunal Federal (STF) precisou intervir. Na Arguição
de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 976, julgada em 2023, a Corte
determinou claramente que prefeitos e governadores devem “disponibilizar
bebedouros, banheiros públicos e lavanderias sociais de fácil acesso para a
população em situação de rua” dentro de suas zeladorias urbanas. No entanto,
passados anos da decisão, em que momento ela será amplamente efetivada? As
calçadas continuam secas e inóspitas.
Com o
agravamento das mudanças climáticas, o debate se torna uma questão de
emergência global. O verão brasileiro e as ondas de calor históricas
transformam o concreto em fornos a céu aberto. Garantir “refúgios climáticos”
urbanos — espaços arborizados, com pontos de hidratação contínua e sombras
acessíveis — deixou de ser luxo paisagístico para se tornar política de redução
de danos e proteção à vida humana.
<><>
O que ele encontrará ao despertar?
O
encontro no asfalto de Belo Horizonte obriga a uma reflexão inescapável para
todos nós, cidadãos, ativistas, gestores públicos e acadêmicos: para quem
estamos direcionando nossos esforços? Se a produção intelectual, a gestão
urbana e o jornalismo não priorizarem as existências mais vulneráveis,
estaremos todos falhando miseravelmente.
A
atuação estatal exige um senso de emergência que hoje inexiste. Imaginem a
diferença radical e estrutural na vida daquele jovem se, ao acordar do asfalto
fervente, houvesse um banheiro público limpo na esquina, um bebedouro em pleno
funcionamento e uma lavanderia social? Ou, num cenário de verdadeira justiça
social, se aquele despertar fosse acompanhado por um processo efetivo de
acolhimento habitacional (como os modelos de Housing First), reintegrando-o a
um lar?
Garantir
banheiros, água e refúgios não é assistencialismo; é a base dos direitos
humanos. É restaurar a humanidade que lhes foi roubada diariamente. Só assim
permitiremos que o “PARE” da exclusão, cravado no trânsito violento das nossas
cidades, se transforme, finalmente, no “SIGA” em direção à cidadania plena.
Fonte:
Por Washington Lima dos Santos, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário