Congresso:
Por onde avançam as bancadas religiosas
Desde
as primeiras décadas do século XXI, observa-se, em diversas regiões do
Ocidente, a consolidação de uma política antidemocrática marcada pelo
crescimento da extrema direita em múltiplos setores da sociedade. Trata-se de
um fenômeno mundial, heterogêneo em suas expressões nacionais, mas dotado de
traços comuns que permitem compreendê-lo como parte de uma mesma racionalidade
política e cultural. Em muitas regiões do mundo (inclusive no Brasil e outras
regiões das Américas) forças de extrema direita chegaram ao poder em regimes de
democracia liberal. Discursos sustentados pelo ódio ao outro, valorizando
sentimentos de supremacia étnica e racial, de cunho racista e xenófobo contra a
população negra, indígena, migrante. Discursos de afirmação e poder sustentados
pela violência, pelo uso da força contra mulheres e crianças, contra populações
vulneráveis que vivem em territórios disputados pelo crime organizado;
discursos que desprezam a realidade de famílias em situação de precarização
social (em sua maioria chefiadas por mulheres).
Uma
realidade vivenciada no Brasil e em diversas partes do mundo, onde a
racionalidade neoliberal da exclusão e das violências se entrelaçam com novos
arranjos e configurações conservadoras que rechaçam as conquistas por direitos
das mulheres, da população LGBTQIA+ em alianças com o autoritarismo
armamentista, o punitivismo, grupos religiosos e não religiosos conservadores
que defendem a moral tradicionalista em defesa da família tradicional
heteropatriarcal. São movimentos políticos que não são novos, mas se
reaglutinam em torno de uma “nova ordem” que se coadunam com interesses
econômicos cada vez mais concentrados num sistema “canibal” (Fraser, 2024) que
vem devorando a democracia, o cuidado com as pessoas e o ambiente e cada vez
concentra mais a riqueza nas mãos de muito poucos, eliminando direitos,
precarizando a vida, o trabalho, ampliando as violações de direitos,
desmontando o Estado Social.
Apesar
das diferenças históricas e institucionais entre países capitalistas, esses
movimentos compartilham uma visão de mundo profundamente alinhado ao
neoliberalismo. O individualismo radical, a meritocracia como narrativa
justificadora das desigualdades (“eu me fiz sozinho”), a ostentação como
símbolo de sucesso e o rechaço sistemático à alteridade constituem elementos
centrais dessa lógica. Trata-se de uma perspectiva excludente, que naturaliza
privilégios e transforma desigualdades estruturais em falhas individuais. E
família tradicional, o enfrentamento à violência doméstica (com leis
punitivistas) e a politização do religioso (MACHADO, VAGGIONE, BIROLI, 2020)
vão se reconfigurando como estratégias discursivas para ocupar os espaços de
deliberação política, como o parlamento, para maximizar agendas reativas aos
avanços de políticas sexuais, de gênero e da família (idem, 2020) com grande
impacto na formulação, revisão e aprovação de leis e implantação de políticas
públicas.
A
ascensão da extrema direita não ocorre no vazio. Ela é alimentada por fatores
históricos e conjunturais que se combinam de forma explosiva: o racismo e a
xenofobia, voltam a ser legitimados em discursos públicos; a aversão crescente
aos sistemas democráticos liberais; a aliança entre extremismos religiosos e
projetos nacionalistas supremacistas; e, sobretudo, o aprofundamento da crise
do capitalismo global desde 2008. A agenda do capital especulativo
internacional impõe reformas que fragilizam legislações trabalhistas, desmontam
políticas públicas e corroem o Estado Social. O resultado é a precarização
generalizada da vida, que se expressa no trabalho instável, na insegurança
material e no esvaziamento das perspectivas de futuro — especialmente para jovens,
mulheres e populações racializadas.
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Precarização da vida, produção do medo e subjetividades autoritárias
A
precarização da vida não é apenas um fenômeno econômico; ela produz efeitos
profundos na subjetividade. O medo e a incerteza gerados pela instabilidade
permanente alimentam sentimentos de autopreservação, ameaça e ressentimento.
Como analisa Wendy Brown (2019), trata-se de uma “produção subjetiva
neoliberal”, na qual indivíduos são levados a competir entre si, internalizando
o fracasso como culpa pessoal.
É nesse
terreno que prosperam sentimentos autoritários e destrutivos em relação ao
“outro”. Nacionalismos excludentes, discursos fascistas e posições
segregacionistas são socialmente construídos a partir da instrumentalização da
raiva e do ódio de sujeitos que tiveram suas vidas precarizadas. Muitos se
percebem abandonados economicamente e ressentidos racialmente, especialmente em
sociedades marcadas por hierarquias coloniais não superadas. O migrante que
“rouba” seu emprego, as mulheres que “disputam” salários e empregos e o ataque
às políticas de equidades de gênero, raça e diversidade sexual; o
tradicionalismo e a “retidão” moral, a defesa da família tradicional em choque
com movimentos sociais crescentes em busca de justiça, direitos e reparação:
negros, indígenas, mulheres, pessoas não binárias, homossexuais,
ambientalistas, entre outros grupos sub-representados na política, mas
amplamente majoritários socialmente tornam-se “o outro” a ser destruído,
ridicularizado, tratado como “minoritários”.
Nancy
Fraser denomina esse estágio como “capitalismo canibal”: um sistema que devora
as próprias bases sociais que o sustentam, ao mesmo tempo em que desloca
conflitos estruturais para guerras culturais e morais. Assim, ataques aos
valores democráticos, civilizatórios e humanistas tornam-se frequentes,
acompanhados da demonização do social e do político.
A moral
tradicionalista — centrada na família heteronormativa, branca e patriarcal —
emerge como um ideal supostamente ameaçado. Essa visão de mundo estruturado no
pensamento cristão conservador é um elemento central para destacar este novo
momento de coalizões políticas de extrema direita. Ela opera como eixo
organizador desses grupos, unificando-os em torno de uma agenda que se
apresenta como defensiva, mas que, na prática, legitima racismos, misoginias e
posicionamentos supremacistas sustentados num arcaísmo colonialista
escravocrata e patriarcal. O movimento é reacionário porque estabelece um
“ideal a ser recuperado”, que nunca existiu, de fato. E que combate os avanços
de inclusão social e política (ainda que insuficientes) trazidos por movimentos
feministas, antirracistas, direitos LGBTQIA e ambientalistas em torno de
equidade de gênero, raça e diversidade. Essas novas estratégias têm objetivos
definidos: restringir as conquistas plurais e reposicionar o Estado em torno
retrocessos que redefinem normas e leis que passam a ser desvantajosas para os
direitos das mulheres e das maiorias sociais sub-representadas.
O
controle sobre a reprodução e a sexualidade, a defesa da família tradicional,
hierárquica sob o “mando” masculino torna-se um valor a ser preservado em
contraposição aos avanços de uma educação baseada no respeito às diferenças,
voltada para a equidade de gênero, racial e sexualmente diversa. Esta reação
conservadora está profundamente enraizada nas visões de mundo em que o papel do
Estado social é cada vez menor, devolvendo às famílias as obrigações com o
cuidado, educação e saúde, dos seus integrantes.
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Gênero, moralidade e revolução digital
Uma
democracia secular liberal autoriza a proteção dos valores religiosos como um
direito individual, mas limita esses direitos à legislação secular que protege
o direito individual de crença. Ao mesmo tempo, é o Estado secular que protege
o interesse coletivo, público, de respeitar as liberdades individuais de crença
e louvor, sem que essas perspectivas se imponham como regra para terceiros.
Seja para garantir a liberdade de expressão da diversidade religiosa, seja para
garantir o direito e a autonomia das mulheres ao próprio corpo, à sua
sexualidade e vida reprodutiva. No entanto, o que tem se observado nesta
atualização conservadora é que a estratégia legal está aliada a valores
cristãos tradicionalistas. A batalha em torno do aborto é reveladora do quão
política e instrumentalizada está a atuação do campo religioso e não religioso
conservador no parlamento brasileiro em relação ao combate à igualdade de
gênero, aos direitos sexuais e reprodutivos e à diversidade sexual. E como
ocupam lugar central na agenda da extrema direita.
Esses
ataques se intensificam no contexto da revolução digital, em que algoritmos
amplificam discursos de ódio, incentivam a cultura do confronto e minam valores
fundamentais da cidadania democrática, como o diálogo, a solidariedade e o
respeito ao voto consciente.
Esse
ambiente é agravado pela presença crescente da violência armada, do crime
organizado, das milícias e do militarismo, especialmente em territórios
periféricos urbanos, áreas rurais, regiões de fronteira e florestas. A
combinação entre armas, extremismos de direita e política institucional cria um
cenário particularmente ameaçador para mulheres, população negra, indígenas e
LGBTQIA, +. Embora heterogêneos, grupos de extrema direita se aglutinam em
torno da percepção de um inimigo comum. A história política e social é
reveladora do quanto o corpo das mulheres é esse “inimigo comum”, que é
reificado e transformado em objeto de controle e poder de hierarquias
religiosas, do Estado e das ideologias supremacistas masculinistas.
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A extrema direita no Brasil: autoritarismo estrutural e bolsonarismo
No
Brasil, a reinserção da extrema direita na política institucional ganhou força
com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e se consolida com o avanço da
representação parlamentar da extrema direita em 2022. O mesmo pleito que deu a
vitória ao presidente Luís Inácio Lula da Silva, do campo progressista, elegeu
um parlamento majoritariamente conservador e de direita ampliando, também, a
representação de defensores de agendas da extrema direita. Do ponto de vista
partidário, as siglas que elegeram, em 2022, as maiores bancadas estão nas
posições de direita e extrema direita na Câmara Federal (a única exceção pela
esquerda foi o Partido dos Trabalhadores, com 69 deputados e deputadas):
Partido Liberal (99 deputados); União Brasil (59 deputados); Partido Progressista
(47 deputados); Republicanos (41 deputados), chegando a 246 deputados (48% dos
513 deputados federais) (MANTOVANI, et.al, 2023). De acordo com o estudo sobre
o perfil do Congresso eleito em 2022, são esses os partidos que abrigam a
maioria de eleitos com posições conservadoras, defensores do armamentismo, de
regimes autoritários, religiosos de posições antigênero, contrários aos avanços
democráticos relacionados à igualdade de gênero, direitos sexuais e
reprodutivos e à laicidade do Estado.
Outro
dado colhido na análise dos perfis dos eleitos em 2022 no Instagram: a
perspectiva religiosa. Dos 513 deputados federais eleitos, 63% deles/delas (323
parlamentares) declararam relação ou vínculo com alguma perspectiva religiosa.
Desse grupo, 46% (152 deputados/as) apresentavam-se como católicos, 28,8% (95
deles) apresentavam-se em suas redes como cristãos/cristãs sem vincular com
alguma denominação específica, 24,6% (81 deputados/as eleitos) apresentavam-se
como evangélicos, em alguns casos apresentando a denominação a qual pertenciam.
Dos 513 deputados eleitos, somente uma deputada declarou seu vínculo com
tradições religiosas de matriz africana. No senado, dos 81 senadores
observados, 56% (45 senadores) declararam algum vínculo com alguma matriz religiosa
cristã.
Embora
heterogêneos, esses grupos se aglutinam em torno de dois grandes polos: o
libertarianismo neoliberal, que prega o Estado mínimo e naturaliza o trabalho
precarizado como liberdade; e os grupos autodefinidos como defensores da pauta
religiosa, que ganharam força na representação política institucional desde os
anos 1990 com o avanço de lideranças pentecostais, mas também segmentos
católicos tradicionalistas.
Esses
grupos atuam em alianças estratégicas, frequentemente em articulação com atores
internacionais, inclusive setores do Vaticano (CORRÊA, 2018). O avanço dos
direitos humanos e da diversidade é apresentado como ameaça à “família
tradicional”, reforçando pânicos morais e legitimando violências simbólicas e
materiais.
De
acordo com Mantovani, et.al (2023) a aproximação entre grupos armamentistas e
religiosos extremistas representa cerca de um terço da Câmara dos Deputados na
Legislatura 2023-2026, enquanto a aliança entre agendas neoconservadoras e
fundamentalistas que combatem a igualdade de gênero alcança mais de 40% do
parlamento. As redes sociais, com suas bolhas de ódio e fake news, intensificam
esse cenário, especialmente em temas como aborto, violência sexual e direitos
das mulheres.
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Feminismo, diálogo e alianças interseccionais
Nesse
contexto, os feminismos enfrentam desafios internos e externos. De um lado,
sofre ataques constantes, caricaturado como radical e intolerante. De outro,
precisa reconhecer que parte de suas linguagens e práticas se distanciaram das
vivências de muitas mulheres, especialmente aquelas que se entendem como
conservadoras, religiosas ou, ainda, aquelas que desempenham atividades de
cuidado reprodutivo de suas famílias e do trabalho doméstico não remunerado, o
que produz uma importante assimetria econômica e, em muitos casos,
impossibilitam que elas consigam romper ciclos de violências que se impõem
sobre si e seus filhos.
É
fundamental afirmar que fé não é incompatível com a luta das mulheres. Nem
todas vivenciam a submissão como algo natural, e o preconceito contra
feministas e as lutas feministas cria barreiras que precisam ser rompidas. O
diálogo com mulheres não radicalizadas, mas conservadoras, é estratégico para
ampliar alianças e enfrentar a captura da agenda de direitos pela extrema
direita com um discurso em defesa de uma moral reprodutiva e matrimonial
hierárquica, de rejeição à diversidade sexual e de revisão reacionária de
conquistas regulatórias fruto das lutas feministas ao longo do século XX no
campo do direito e da formulação de leis.
As
redes sociais desempenham papel central nesse processo de reação conservadora e
de extrema direta contra a vida das mulheres. Fake news e campanhas de
desinformação criminalizam o aborto, incentivam violações e estupros virtuais e
negam a violência sexual — especialmente contra meninas e mulheres —, além de
reforçar estereótipos de radicalismo e destruição sobre o feminismo que
utilizam o medo e a incerteza como ferramentas políticas.
Nesse
contexto, figuras como Michelle Bolsonaro emergem como herdeiras políticas de
um pensamento de extrema direita (onde o bolsonarismo tornou-se o elo de coesão
dessa multiplicidade de interesses) que se ancora fortemente no campo religioso
antifeminista, mobilizando valores tradicionalistas e assimétricos com a
promessa de restauração da paz e da prosperidade da família tradicional.
O
feminismo, por sua vez, enfrenta um duplo desafio. De um lado, é alvo constante
de ataques, caricaturado como intolerante, radical e desconectado da “vida
real”. De outro, precisa reconhecer que, em alguns momentos, suas linguagens e
estratégias se distanciaram das vivências de muitas mulheres — especialmente
daquelas que se identificam como conservadoras, religiosas ou ainda as mais
vulneráveis economicamente, que dependem de benefícios para garantir o mínimo
de sustento aos seus dependentes. Ou ainda, por dificuldades econômicas, não
conseguem romper os ciclos de violência cotidiana de relações abusivas e
violentas.
É
fundamental afirmar que fé e luta das mulheres não são incompatíveis. Nem todas
as mulheres vivenciam a submissão como destino, mesmo em contextos religiosos.
O preconceito contra o feminismo e contra feministas cria barreiras que
precisam ser enfrentadas com diálogo, escuta e construção de pontes — sem abrir
mão de princípios.
A
extrema direita tem tentado se apropriar de pautas comuns às mulheres,
ressignificando esses discursos a partir de abordagens conservadoras e
moralizantes. Questões como violência doméstica, hierarquias de gênero, estupro
de meninas e mulheres, gravidez indesejada, responsabilidades individuais sobre
o trabalho reprodutivo e de cuidado enquanto o Estado diminui políticas
sociais, são alguns exemplos.
Por
isso, ampliar alianças é urgente. Agendas como o enfrentamento das violências
de gênero e raciais; a defesa da remuneração do trabalho doméstico e do cuidado
para as mulheres (para além do auxílio financeiro à família), o fortalecimento
da autonomia das mulheres, seja econômica, patrimonial, educacional com
políticas de Estado voltada para as mulheres, a valorização do trabalho
doméstico como atividade produtiva, a educação antirracista, anti-homofóbica
nas escolas baseada no respeito às diferenças constituem agendas que podem
fortalecer a presença das lutas feministas emancipatórias às realidades
concretas da maioria das mulheres e são pontos de conexão fundamentais.
As
alianças interseccionais são indispensáveis. Machismo e racismo aprofundam
vulnerabilidades; machismo e homofobia intensificam a violência contra mulheres
lésbicas e trans; e a condição socioeconômica agrava todas essas desigualdades,
especialmente em territórios periféricos urbanos e rurais.
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Considerações finais
A
ascensão da extrema direita representa uma ameaça concreta à democracia e aos
direitos das mulheres. Enfrentá-la exige compreender suas raízes estruturais no
neoliberalismo, no machismo e no racismo, mas também exige um feminismo capaz
de dialogar, ampliar alianças e disputar sentidos na sociedade. Defender a
democracia, hoje, é também defender a vida, a dignidade e a pluralidade das
experiências femininas em toda a sua diversidade.
Fonte: Por
Denise Mantovani, em Outras Palavras

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