“Militares atuaram em 8 de janeiro por omissão e também por ação”, diz
historiador
Houve uma tentativa de insurreição, segundo
conceito da ciência política – e uma insurreição que repete ações semelhantes
que ocorreram recentemente da Ucrânia à Bolívia e
nos Estados Unidos. Essa é a avaliação do historiador Francisco
Teixeira, que estuda a relação entre civis e militares e mantém contato com
oficiais. Em conversa com a Agência Pública, ele analisa os eventos
de 8 de Janeiro e a não punição dos principais envolvidos.
“É um movimento caracterizado por insurreição, que
geraria necessidade, então, de uma intervenção militar. E isso se
afirmaria através de um golpe de Estado. É uma técnica que é perfeitamente
identificada na Marcha sobre Roma de 1922, de Benito Mussolini. É um modelo da insurreição fascista”, diz.
Teixeira foi presidente do Instituto
Pandiá Calógeras de Estratégia Internacional do Ministério da Defesa
durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, é professor emérito do
Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e
Estado-Maior do Exército (ECEME) e professor titular de História Moderna e
Contemporânea da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Ele revela, na entrevista, como um grupo de
estudiosos dos militares manteve interlocução com o PT e o governo
federal durante o dia 8 para ajudar a afastar a opção de
uma GLO e abrir caminho para a intervenção civil, prevista
no artigo 136 da Constituição, em casos de Defesa do Estado. “Na verdade,
tinha se preparado o nome de um general para assumir o controle. E assumindo o
controle a devolução desse poder à República não seria fácil”, diz.
<<<<< Eis a entrevista.
·
Como o senhor analisa a participação dos militares no dia 8 de janeiro?
Os militares tiveram uma participação
intensa, mas também variada, em graus diferentes. Eu acho que, para
simplificar, de um lado, nós poderíamos dizer que houve uma participação por
inação.
Essa inação se deu, por exemplo, no caso do
coronel Fernandes da Hora, comandante da Guarda Presidencial, que não
agiu. Tinha os homens, tinha os meios, tinha as formas, inclusive, de dar
alerta prévio do que estava acontecendo e não fez nada do que suas funções o
obrigavam a fazer.
Mas também do General Dutra, comandante
militar do Planalto, que tem todo um aparelho ali, e que a gente sabe,
inclusive quando tem manifestações populares, Gritos da Terra, tudo isso é colocado
em funcionamento — e não foi. Aqui teve uma participação muito clara por
inação, por deixar acontecer.
De outro lado, houve uma participação também por
ação, e essa é ainda mais grave, se é possível, porque também deixar invadir
o Palácio Presidencial é de extrema gravidade.
Isso ocorreu porque alguns elementos dentro
do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) e dentro das Forças
Armadas, particularmente no Comando Militar do Exército, tiveram uma
atuação muito clara nesse sentido.
Seja através da infiltração de homens no processo
insurrecional… Na verdade, do ponto de vista estrito de ciência política, não
foi golpe, foi uma tentativa de insurreição que levaria a um golpe.
Mas isso é uma questão mais técnica.
·
Não, é muito interessante, por favor desenvolva.
Todo o modelo, o que aconteceu em 2014 na Praça Maidan (praça central de Kiev, na Ucrânia), o que aconteceu em
La Paz (Bolívia) em 2019, o que aconteceu no Capitólio, é insurreição.
É um movimento caracterizado por insurreição, que
geraria necessidade, então, de uma intervenção militar. E isso se afirmaria
através de um golpe de Estado.
Deu certo na Praça Maidan, deu certo
em La Paz, não deu certo no Capitólio, em Washington, e não deu
certo no Brasil.
É uma técnica perfeitamente identificada
na Marcha sobre Roma de 1922, de Benito Mussolini. É um modelo da insurreição fascista.
Mas, voltando aqui, quer dizer, no caso da ação,
ficou claro, por exemplo, que o general Arruda, então comandante do Exército,
não só protegeu esses infiltrados, que depois acabaram sendo denominados de
“kids pretos”, como também mobilizou, deslanchou a ação de blindados
na Praça dos Cristais para proteger os insurretos, as pessoas que
estavam depredando a cidade e foram procurar abrigo lá na praça, no chamado
acampamento dos patriotas.
·
Mas não houve punição…
Isso não foi entendido assim. Naquele momento, as
pessoas responsáveis pelas cobranças que deveriam ser feitas, principalmente
o general Gonçalves Dias (chefe do GSI) e o ministro José Múcio Monteiro, eles não entenderam isso.
Múcio vinha já há dias e dias dizendo que não
era para mexer nos acampamentos, que tinha, inclusive, amigos e familiares e
que todos eram patriotas. E o Gonçalves Dias tinha a ilusão de que
ele estava no controle da máquina, o que se mostrou que não era verdade e que
ele, ao não afastar os elementos golpistas militares dentro do GSI, cavou
a própria tumba.
·
O senhor acredita que o governo Lula não deu a resposta adequada à
seriedade do que aconteceu, em relação ao papel de membros do Alto Comando do
Exército?
Olha, aí tem que fazer uma distinção: antes do
dia 8 de janeiro e depois. E distinguir o governo do
próprio Lula.
Na verdade, se a gente se lembrar do processo de
transição, o Lula criou comissões de transição em todos os
ministérios. Isso foi exemplar. Nunca tinha sido feito com essa amplitude e foi
extremamente importante para trazer ideias e propostas da sociedade civil para
a formação do governo.
A única área onde não se permitiu criar comissões
de debate foi exatamente na área de assuntos militares e defesa. Tanto
o Gonçalves Dias como o José Múcio, com o apoio de Joseli
Camelo, do STF, fecharam a área de uma forma como se não tivesse nada a
ser discutido.
Isso foi um engano de proporções gigantescas,
porque não permitiu a participação de inúmeros analistas, gente que há 20 anos
vem estudando assuntos militares, principalmente na Unicamp, na UFF,
na Federal de Minas Gerais, no IESP… Há uma quantidade de novas teses
e livros publicados sobre assuntos militares e defesa que eles desconhecem.
Eles monopolizaram o setor. O Joseli
Camelo e o Gonçalves Dias como sendo aqueles militares com
quem Lula conversa e com quem Lula confia. E eles passaram uma visão
totalmente errada do ânimo militar naquele momento. Eles consideraram que
estava tudo pacificado, que tudo iria se dissolver.
Tanto, que eles aceitaram duas coisas esdrúxulas.
Uma foi a negativa dos comandantes militares em fazer a passagem de comando,
fazendo uma passagem de comando anterior para que, nem os que estavam saindo,
nem os que estavam entrando, terem que encontrar o presidente Lula e
bater continência para ele.
Isso foi aceito, o que é absurdamente
antirrepublicano.
E a segunda coisa, a defesa dos acampamentos militares. A ideia de que os acampamentos iam
acabar por si mesmo e que não havia nenhum problema, mesmo já tendo indícios de
que havia atos terroristas sendo planejados lá.
Quer dizer, essas informações não foram levadas à
atenção de Lula pelas duas pessoas que ele considerava fundamentais
como pontes com os militares, que eram o general Gonçalves Dias e o
tenente-brigadeiro Joseli Camelo, e que na verdade não serviram de ponte
para nada. São pessoas muito pouco consideradas nos meios militares. Os
militares consideram os dois totalmente desprovidos de capacidade de diálogo ou
de fazer pontes nesse sentido.
Fizeram um informe errado ao Lula e deram
origem a um documento que circulou no governo nos dias anteriores à posse, onde
na verdade se fazia uma série de exigências dos militares ao governo, inclusive
falando em cláusulas pétreas que o Lula não podia mexer.
·
Falando do artigo 142…
Não só esse, mas nomeações por antiguidade, em
aceitar as nomeações feitas no governo Bolsonaro, de não mudar antigos
militares, uma série de exigências que foram levadas ao Lula e eram exatamente
aquilo que uma nova inteligência sobre o assunto considerava que não deveria
ser feito.
·
O que deveria ter sido feito?
Por exemplo, era claro ser preciso renovar todos os
quadros de livre nomeação nos meios militares, inclusive as adidâncias no
exterior, principalmente nos Estados Unidos e na Europa
Ocidental, e também de que o critério de antiguidade não deveria ser
respeitado, porque esse critério de antiguidade consolidava esse grupo formado
desde a oposição à Dilma e o apoio ao impeachment contra a Dilma.
E isso foi aceito pelo governo. Foi um erro total.
Quando a gente chega no 8 de janeiro, você vê
que não houve nenhuma mudança no GSI, no Ministério da Defesa, não
houve nenhuma mudança nos cargos principais.
E mais do que isso, pessoas altamente
comprometidas, como o tenente-coronel Mauro Cid, estavam nomeadas para funções de extrema relevância, como o comando do
batalhão de Forças Especiais em Goiânia.
Outra coisa também importante aí é que havia um
grupo de generais que tinha levado o Estado-Maior do Exército a um
certo impasse. Havia um grupo bolsonarista muito forte, mas havia um
grupo antibolsonarista. Um grupo profissional muito importante de
generais. Pelo menos cinco dos quinze generais eram constitucionalistas
republicanos e foram chamados de “melancia”. E foram muito maltratados.
·
Bom, a gente sabe que o general Richard Nunes é um deles. O atual
comandante, o general Tomás e o general André Luiz Novaes foram muito expostos
nas redes bolsonaristas, chamados de “melancia”, “frouxos”…
Eles foram tão expostos, tão expostos… E estavam
ali para assumirem os cargos de responsabilidade do Ministério da Defesa,
do GSI, da ABIN, etc. E não foram chamados. Foram deixados ao
relento.
Eles colocaram em risco a carreira deles,
expuseram-se, colocaram-se como um freio ao golpe, mas o
governo Lula não reconheceu isso.
Nenhum deles assumiu um cargo de relevância, nenhum
deles assumiu o papel que poderia ter assumido, nesse sentido, e estão no final
das suas carreiras.
Tendo nomeado um desses generais considerados
“melancia”, na verdade eu chamo de republicanos, os generais mais antigos,
preteridos, teriam que ter ido todos para a reserva. É o que a gente chama de
“carona”. O que teria feito uma renovação importante dos quadros.
Mas nem o Múcio, nem o Joseli Camelo, que
eram quem falava diretamente com o Lula sobre militares, aceitaram
isso, acharam que era criar caso.
Não se sabe nem mais com a renovação no próximo ano
do Alto Comando se esse tipo de equilíbrio vai ser mantido ou não, como é que
isso vai ficar.
·
Com essa situação, existe um risco de ameaça antidemocrática voltar a
vir do setor militar?
Veja, a gente tem visto pesquisas de opinião,
pesquisas de intenção de voto e mostra que o bolsonarismo está tão firme quanto antes, com
pequenas variações.
Cerca de 90% daqueles que votaram
no Bolsonaro continuam aderindo. E, por outro lado, cerca de 30% dos
eleitores se manifestam claramente como bolsonaristas.
Quer dizer, a gente não fez de maneira alguma uma
mudança importante na sociedade.
Neste momento, a gente tem um oficial de alto
nível, com uma trajetória muito relevante, que é o Mauro Cid, com uma
tornozeleira eletrônica e até agora o Exército não abriu uma sindicância
interna contra ele.
Ele tem acusações claras de falsificação de
documentos públicos e não tem nenhum IPM, nenhum Inquérito Policial
Militar, nenhuma investigação.
Quer dizer, imagina no serviço público se alguém é
acusado de falsificar um documento público na universidade. Se eu falsificar o
diário de nota de um aluno, é aberta uma comissão de inquérito imediatamente.
Outra coisa: está todo mundo fazendo carreira
normalmente. É só você ver o destino, por exemplo, do
tenente-coronel Paulo Fernandes Da Hora, comandante da Guarda
Presidencial. Foi nomeado para um cargo na Espanha (Instrutor do
Curso de Altos Estudo Estratégicos para Oficiais Superiores Ibero-Americanos),
o General Gustavo Henrique Dutra, ex-comandante militar do Planalto, que
foi nomeado para a vice-chefia do Estado-Maior.
Ninguém foi mandado para casa.
·
E por que não?
Porque não é a característica das Forças.
Nós poderíamos dizer que o golpe se baseou num
tripé. O bolsonarismo de rua desses pequenos empreendedores,
pequenos empresários, esse pessoal que acabou indo pra rua e se dispôs a fazer
carreata, passeata, demonstração e quebra-quebra, e que é o alvo principal do
inquérito de ações antidemocráticas.
Eles é que foram presos.
O segundo pilar é o governo do Distrito
Federal, onde se tramou largamente, onde se encontrou uma outra minuta do
golpe, no caso o ex-ministro da Justiça e secretário de Segurança Pública de
Brasília, o Anderson Torres, e a cúpula da PM que foi presa, mas
até agora a gente não tem nenhuma notícia dos processos, das acusações, a coisa
tá meio abafada.
E o terceiro pilar, que é dentro da União, que é o
pilar do Poder Federal, do Governo Federal, onde estão os elementos que estavam
no GSI, que estavam no Comando Militar do Planalto, que estavam
no Comando da Guarda Presidencial, que estavam na Abin.
Então, na verdade, do tripé, só um pé está sendo
investigado e condenado.
·
Queria voltar à questão dos membros do Alto Comando que não aceitaram a
ideia de golpe…
Olha, na verdade, eles agiram de forma passiva, mas
muito clara, no sentido de que não aceitariam uma intervenção militar. Na
verdade, eles fizeram uma resistência passiva.
Uma situação que a gente chamaria, o verbo attendere,
em francês, “atentismo”, de ficar atento para esperar o que ia acontecer.
Mas com isso, não se permitiu que os elementos
mais bolsonaristas do Alto Comando embarcassem num primeiro momento
na tentativa de golpe.
Várias vezes o golpe foi esboçado. Ele foi esboçado
no 7 de setembro de 2021; no dia 30 de outubro de 2022, segundo turno das eleições
presidenciais. Ele foi esboçado no dia 12 de dezembro, quanto da diplomação
do Lula. A cada vez, tentava-se avaliar quem poderia ir junto, se era ali
o momento, se ia ou não ia….
…Sei.
Mas houve não só essa situação de atentismo desses
cinco generais, como também um contato direto entre o Supremo Tribunal
Federal e o Alto Comando.
Em vários momentos, o ministro Toffoli, mas
não só ele, fez contato com alguns desses generais e disseram que não ia haver
validação, como houve em 1964 de um golpe de qualquer tipo que fosse
desferido pelo bolsonarismo.
Então, de um lado, houve essa resistência passiva
dentro do Alto Comando e, de outro, uma pressão externa vinda
do Supremo, avaliando que não haveria validação pós-fato do golpe.
Por isso que eu falo que é uma insurreição. O que
se esperava é que o ato de Brasília impedisse o funcionamento do
governo e que fosse repetido, clonado em São Paulo, no Rio,
em Recife, em Belo Horizonte, no Sul, para, com isso,
paralisar o país.
E numa situação de paralisia, então, se declarar
que o governo era incapaz de se manter.
E que isso, então, implicava no uso do artigo 142, que teria que ser validado pelo Supremo. Mas aí o Supremo já
tinha avisado que não ia validar, que não ia ter validação.
Houve, durante alguns momentos da sexta-feira, dia
6 de janeiro, até a terça-feira, dia 10 de janeiro, um certo medo de alguns
generais do Alto Comando, de que um coronel qualquer, sei lá,
em Quixeramobim (CE), ou em Pouso Alto (MG), colocasse as
tropas na rua.
Ou seja, não se tinha o controle sobre o conjunto
das Organizações Militares.
E que, colocadas as tropas na rua, outras seguissem
e que não haveria condições de usar uma força militar para combater outra. Que
haveria, então, um dominó de adesões aí.
Mesmo no dia 8, no meio da tarde, o Flávio
Dino não tinha nenhuma certeza da PM do Distrito Federal,
ou mesmo da Polícia Federal, estarem cumprindo as ordens do governo.
A grande novidade, aquilo que também fez um
desequilíbrio, foi, sem dúvida nenhuma, uma atuação muito firme do André
Passos Rodrigues, o diretor-geral da Polícia Federal, que conseguiu que a
maior parte da Polícia Federal se mantivesse numa posição legalista e não
seguisse a desobediência, por exemplo, que o comandante do Exército,
general Arruda promoveu mobilizando os carros blindados.
E também o aviso do Dino de que ele
chamaria PMs do Maranhão ou da Bahia, onde os governos
do PT tinham mais controle, para ocupar Brasília.
Isso fez com que a PM do Distrito
Federal também se movesse.
Mas até às 5 horas da tarde, mais ou menos, isso
não estava claro.
Às 5 horas e pouco da tarde, o
general Arruda estava aos berros, aos berros com o Dino lá
no comando militar, porque ele não queria aceitar, e não aceitou de fato, que a
PM e a Polícia Federal entrassem no acampamento para prender os
insurretos.
Então, a situação foi uma situação muito delicada.
E, realmente, não se sabia durante algumas horas
sobre que forças o Governo Federal tinha ou não tinha controle.
·
O senhor, como estudioso e especialista em Forças Armadas, teve alguma
atuação nesse dia?
Eu acho que a gente conseguiu alguns canais diretos
de fala. E esses canais funcionaram com dois deputados do PT, que estavam
na comitiva do Lula lá em São Paulo, e com dois secretários
do Ministério da Justiça, que entenderam perfeitamente.
É aí é que está o grande pulo do gato e a mudança e
a sensação de retomada de controle que foi não utilizar o artigo 142 da
Constituição (que garante a decretação de GLO) e ir para o artigo 136
de Defesa do Estado, onde se coloca a questão da intervenção civil. Tanto que
imediatamente se nomeia Ricardo Capelli, que é um jornalista, é um civil,
para fazer a intervenção.
Então esses canais ligados principalmente a um
grupo de cientistas políticos e advogados que conseguiram falar e dizer que de
maneira alguma se deveria usar a GLO. Porque na verdade, se tinha já até
preparado o nome de um general para assumir o controle. E assumindo o controle,
a devolução desse poder à República não seria fácil.
Esse era o mesmo grupo de pesquisadores que hoje
acha que o artigo 142 tem que ser reescrito. Ele é uma falha, é
aquilo que a gente chama de erro constitucional, acontece nas constituições,
aconteceu na Constituição de Weimar e deu no que deu.
E esses pesquisadores realmente ficaram muito
surpresos quando o governo agora voltou a utilizar o 142.
·
Sim. O senhor diz agora, na adoção de uma GLO para portos e aeroportos
do Rio. Qual o problema?
Com isso, volta a se dar uma força muito grande a
essa falsa doutrina da tutela militar sobre a República. Sobre a ideia de que
sem os militares a República não consegue se manter.
Essa é uma questão fundamental da República. E com
isso, o governo Lula comete o principal erro dele em toda a gestão da
crise, que é revigorar o artigo 142 através da questão da criminalidade urbana.
·
Agora, o PT chegou a falar em reformar o artigo 142 e tal. Acho que já
desistiram, né?
Já. Na verdade, com a nova GLO, se reafirmou a
doutrina que está contida nele, que é a tutela militar.
A outra coisa é também que os próprios militares se
entendem como poder, o que é um erro, né?
Eles não são poder, não existe poder militar
na República. Os poderes são três, estão lá na Constituição. E devem
conviver harmonicamente.
Os militares são uma burocracia do Poder
Executivo que têm uma característica weberiana específica: são os que têm
o monopólio da violência legal do Estado. A
diferença deles é isso. Mas são uma burocracia de Estado, não são um poder.
Quer dizer, não tem que se fazer uma avaliação dos interesses da opinião das
Forças Armadas.
·
Que foi o caso do convite para fazerem parte da Comissão Eleitoral, por
exemplo.
O ministro Barroso, o que é de se surpreender,
porque ele é um jurista do Supremo, ele, ao convocar militares para compor
aquela comissão eleitoral, ele errou enormemente.
Ele abriu a porta a que os militares tivessem
opinião sobre urna eletrônica, sobre sistema de apuração,
sobre código-fonte, sobre tudo isso.
Quer dizer, os militares são chamados para garantir
a integridade da votação. É isso. Eles não têm opinião. Se se vota
em papel, em máquina, se vota de dia, de noite, nada tem opinião deles.
Eles não têm que fazer nada disso. Quem tem opinião
sobre isso são os três poderes. O Legislativo que criou a regra,
o Executivo que criou a lei, quem executa, e a Justiça
Eleitoral, que vê se está tudo conforme os preceitos legais.
·
Mas nesse caso, do desmerecimento das urnas, aquele relatório que não
diz nem que não nem que sim, mas que pode ser, neste caso estamos falando de
uma atuação institucional, e não só de um ou dois generais…
Aquilo era criar as condições para deslegitimar o
resultado eleitoral. Veja que em todas essas insurreições modernas,
na Praça Maidan, na reeleição do Evo, ou na contagem de votos do Trump, todo o centro da questão é
deslegitimar a votação. Não é o candidato. Não é dizer que o candidato é
corrupto, que o candidato é isso, que o candidato é aquilo.
É o próprio processo eleitoral.
Então, quando o Exército assume uma
postura de, contra o Superior Tribunal Eleitoral, criticar o processo
eleitoral, ele estava exorbitando enormemente das suas funções.
E todos aqueles que fizeram a expressão verbal
dessa exorbitância deveriam ter sido punidos no ato.
No ato.
Deixá-los continuar falando sobre resultados
eleitorais, a discutir, a fazer pareceres de moto próprio, é uma forma de
subverter o processo eleitoral. Não é legítimo, é ilegal.
Mas a institucionalidade, ela se expressa
verbalmente através de indivíduos.
Sim.
Você não tem como punir a instituição e
o Exército. Mas se alguém, como foi o caso do ministro da Defesa
do Bolsonaro, vem a público e diz que desconfia do sistema eleitoral, ele
deve ser punido. E isso não aconteceu.
Não aconteceu, não pela parte do Poder Executivo,
de onde a gente não esperaria nada, mas não aconteceu também por parte
da Justiça Eleitoral e nem da parte do Supremo.
Porque, naquele momento, as pessoas realmente não
estavam acreditando na possibilidade do golpe.
·
Você compartilha da opinião que as instituições responderam bem,
salvaram a democracia?
Não é verdade. Quando o poder militar fala do
processo eleitoral, as instituições não estão funcionando. Como hoje também não
estão.
Numa democracia normal, saudável, não tem
que se vencer golpes. Não tem que se lidar com golpes. Não tem que se lidar com
minutas que vão caçar juízes do Superior Tribunal Eleitoral ou
do Supremo Tribunal Eleitoral.
Então não é verdade que a democracia brasileira estava bem, era forte e que mostrou sua
força vencendo o golpe.
Venceu o golpe por muito pouco. O risco foi muito,
muito elevado.
·
Como é que estão as relações civis militares hoje?
Olha só, eu diria que 80% das forças militares,
mais quase 90% do oficialato, é aquilo que a gente poderia chamar de “morista”.
Continuam defensores do Sérgio Moro, da ideia de que não houve eleição legítima, houve
intervenção do Supremo e do Superior Tribunal Eleitoral, que
eles é que escolheram o Lula presidente.
Por sinal, o Lula é tratado normalmente como o
“descondenado”. Não como alguém que foi absorvido e não tem nada contra ele,
mas como “descondenado”, mostrando a ideia de uma justiça parcial nesse
sentido.
O governo não tem promovido de maneira alguma uma
renovação das Forças Armadas. Ele tem reafirmado tudo, inclusive a
política do primeiro e segundo mandatos do Lula, de reforçar com
equipamento, com novas armas, com novos treinamentos, etc., as Forças Armadas.
Até porque o Lula acha que isso é importante para a política externa,
e o Lula é apaixonado por política externa.
Então ele continua investindo. Não houve nenhuma
punição, não houve nenhuma diminuição.
Existem elementos fundamentais que nós, o círculo
de intelectuais, professores que estudamos isso, consideram básico como, por
exemplo, a reforma dos currículos das escolas e academias
militares para tirar essa ideia messiânica de tutela das forças militares sobre
a República. Mas isso nem é pensado.
A nova política de inteligência promulgada, mês
passado, pelo ministro José Múcio Monteiro, permite que os órgãos de
inteligência das Forças Armadas operem dentro da fronteira. O que é
totalmente absurdo. A função dos militares é fronteira para fora, e não
fronteira para dentro.
O documento do José Múcio
Monteiro reafirma essa capacidade e não fala mais em “inimigos internos”,
mas fala em “forças antagônicas no país”.
Quer dizer, continuamos dentro do mesmo mundo
mental do bolsonarismo no seio das Forças Armadas.
Fonte: Por Natalia Viana, da Agência Pública

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