Junho de 2013. A questão urbana ainda não é prioridade de governo
Desde que D. João VI chegou
ao Brasil, fala-se que as cidades receberam transformações urbanas. É bem
verdade que desde os tempos da colônia até o século XX as cidades brasileiras avançaram muito em termos
de urbanização. No entanto, o que parece ter avançado bem pouco é o
entendimento da relação entre a cidade e a cidadania. Para o arquiteto e
urbanista Roberto Andrés, as desigualdades que se manifestam na cidade é como um
catalisador de todas as desigualdades que vivemos. “A sociedade vive em
cidades, e as cidades refletem essa desigualdade e as reforçam. O esquema
construído no Brasil, de bairros precarizados na assistência
às periferias que estão em torno de áreas centrais bem providas de
infraestrutura e serviços, é um esquema que sempre serviu para manter
uma segregação e uma lógica de exclusão presentes na cultura e na
sociedade brasileira”, analisa.
Para Andrés, bem pouco ainda é compreendido sobre aquele momento. “A
sociedade brasileira, os analistas, a imprensa, a classe política, ao fim de
cada um destes levantes, dizia: ‘isso aí é um bando de arruaceiros. São
bandidos, inconsequentes que estão depredando o patrimônio público e isto não
tem validade política’. E, desta maneira, a sociedade brasileira sempre denegou
a questão da desigualdade urbana, da má condição de vida nas periferias
das cidades e das péssimas condições de circulação do transporte. Deste modo,
o transporte não foi colocado como um problema de primeira ordem para
o país”, pontua.
Roberto Andrés possui graduação e mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade
Federal de Minas Gerais – UFMG. Também é doutor em Arquitetura e Urbanismo pela
Universidade de São Paulo – USP. Atua como professor do curso de Arquitetura e
Urbanismo da UFMG, pesquisador do grupo Cosmópolis (CNPq) e revisor do
periódico Journal of Public Spaces. É coorganizador dos
livros Guia morador (2013), Escavar o futuro (2014)
e Urbe urge (2018). Recentemente, lançou A razão dos centavos:
crise urbana, vida democrática e as revoltas de 2013 (Zahar, 2023). Também
foi um dos fundadores da revista Piseagrama e seu coeditor entre 2011
e 2020.
>>>> Confira a entrevista.
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Onze anos depois, podemos afirmar que já compreendemos “a razão dos
centavos” que deram a largada nas marchas de Junho de 2013?
Roberto Andrés – Quem se dedica à pesquisa
séria sobre Junho de 2013, e a questão urbana com seu atravessamento com a política, tem sido
capaz de jogar luz sobre a questão daqueles protestos e sobre a questão do
transporte. Existe um atravessamento entre a mobilidade urbana e
as revoltas sociais que eclodem de tempos em tempos no Brasil.
Revoltas pelo aumento tarifário, pelas más condições de transporte, são muito
antigas no país. A primeira delas aconteceu em 1880, que foi a Revolta do
Vintém.
Depois vieram várias outras, um ciclo de levantes
em 1909, 1930, 1946, depois na década de 1950 no Rio de Janeiro, anos de
1970 e 1980 em várias capitais. Todos estes levantes populares de baixa
organização ocorram sempre subitamente, de forma avassaladora, produzindo
grandes quebra-quebras, surpreendendo o poder político e os analistas, pois
ninguém esperava revoltas daquele tipo e, ao final, a sociedade brasileira
sempre lidou com eles com mecanismos de denegação.
De certa forma, a sociedade brasileira, os
analistas, a imprensa, a classe política, ao fim de cada um destes levantes,
dizia: “isso aí é um bando de arruaceiros. São bandidos, inconsequentes que
estão depredando o patrimônio público e isto não tem validade política.” E,
desta maneira, a sociedade brasileira sempre denegou a questão da desigualdade urbana, da má condição de vida nas periferias das
cidades e das péssimas condições de circulação do transporte. Deste
modo, o transporte não foi colocado como um problema de primeira ordem para o
país.
<<<< “Não era por 20 centavos”
Quando veio o ciclo de revoltas que
desembocou em 2013, que havia começado lá em 2003 em Salvador, foi
mais um ciclo denegado. Em junho de 2013, quando a coisa explodiu, as
pessoas disseram: “ah, não era por 20 centavos”. Na verdade, o Brasil sempre
disse isso, que “não era por 20 centavos”, sobre os diversos ciclos de levantes
anteriores.
Esta forma de denegação é um dos principais
elementos que impedem a compreensão daquele problema. Afinal de contas, não era
tão difícil assim entender. A pesquisa do Ibope em 20 de junho, o dia
de maior volume de manifestantes nas ruas – em que muitos acusaram a entrada da
direita em campo, quando as pautas se diluíram –, constatou que 37% dos
manifestantes disseram que estavam nas ruas pela questão do transporte. A revolta de 2013 é a revolta dos centavos. A principal razão
dela é a questão do transporte público. E isso não é minha opinião, são
mensurações feitas pelo instituto de pesquisa.
As outras pautas realmente surgiram. No entanto,
como a classe política e os analistas costumam dar mais valor às pautas que
estão mais habituados, como a questão da corrupção, etc., muitos dizem hoje que
a corrupção se tornou a principal razão. Mas não é o que os números mostram.
·
Quais os desafios para compreendermos a complexidade de Junho 2013 a
partir da perspectiva da vida urbana? Aliás, afirmar que a pauta dos 20
centavos foi central no contexto das marchas seria um reducionismo?
Roberto Andrés – A conformação territorial
urbana é central na vida política e social no Brasil. E isso é pouco
compreendido. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, essa
sociedade extremamente desigual não está forjada em torno de um espaço plano e
geométrico. A sociedade vive em cidades, e as cidades refletem essa
desigualdade e as reforçam. O esquema construído no Brasil, de bairros
precarizados na assistência às periferias que estão em torno de áreas centrais
bem providas de infraestrutura e serviços, é um esquema que sempre serviu para
manter uma segregação e uma lógica de exclusão presentes na cultura e na
sociedade brasileira.
O déficit histórico de cidadania no
Brasil sempre operou junto com uma desigualdade urbana que estrutura,
na vida cotidiana, esse déficit. Quando, nos últimos 40 anos, o Brasil caminhou
para uma redemocratização, para um maior acesso das classes populares a renda,
educação, serviços de saúde, o Brasil foi elevando o patamar das expectativas e
aspirações. Começa emergir uma geração para quem esse déficit de cidadania não
é mais uma opção. São pessoas que passam a aspirar uma vida coletiva com
patamares de igualdade de condições maiores.
No entanto, as cidades brasileiras continuam
amarradas ao velho esquema da sociedade sem cidadãos. E esse choque ocorreu em
2013, não só em junho, mas naquele ciclo de lutas e protestos que
aconteceram entre 2010 e 2013. É um ciclo de movimentos que passaram a
reivindicar o uso de espaços públicos, a melhoria do transporte público, a
preservação de parques e áreas verdes, melhoria das cidades, redução de
automóveis, tudo isso diz respeito a uma forma de vida democrática que passa a
ser aspirada por um conjunto cada vez maior de atores.
Uma parte disso desemboca no mês de junho de
2013, principalmente na luta pelo transporte e em outras reivindicações que
foram colocadas ali. O descompasso entre uma cidadania que elevava seu patamar,
uma nova geração que passava a aspirar por formas de vida baseadas em direitos
e um país que não era capaz de entregar nada neste sentido, foi o que produziu
a série de choques e conflitos daquele período. Mas, para que haja compreensão
disso, é preciso colocar a vida urbana dentro da equação em que se analisa a
política e, infelizmente, isso é muito pouco feito no Brasil de hoje.
·
Em que medida a explosão de 2013 ressignificou a pauta progressista? Ou,
na verdade, nunca ressignificou?
Roberto Andrés – 2013 trouxe para a rua uma
miríade de pautas que são aprofundadas. São debates progressistas presentes no
debate constituinte, na Constituição de 1988. A maior parte das
aspirações e reivindicações estava em torno do transporte, mas havia
também reivindicações em torno de serviços
públicos de educação e saúde. E um terceiro grupo de
reivindicações, que era o de oposição à Copa do Mundo. Ainda, houve um
quarto grupo de reivindicações de demandas anticorrupção. Além disso, vimos
outros grupos menores e um deles, que não foi tão pequeno, foi
pautas progressistas, feministas, LGBTQIA+, ambientais,
etc.
Todo esse conjunto de demandas trouxe uma
atualização das pautas da esquerda, colocando no centro da agenda questões ligadas às
formas de vida, não superando, de certa maneira, mas dando um passo adiante em
relação às lutas restritas ao campo econômico-financeiro. Assim, vão trazendo à
tona lutas por formas de vida que dizem respeito
à desigualdade cotidiana. O transporte, elas dizem respeito a uma
desigualdade diária, em que a maioria da população mais vulnerável precisa se
sujeitar a horas de transporte precário, enquanto a elite pode se deslocar
tranquilamente em seus automóveis, em trajetos mais curtos.
A ausência de serviços públicos de
educação e saúde de alta qualidade impede que a população mais vulnerável
acesse itens elementares para sua vida. Enquanto a elite paga opções privadas.
As pautas feministas, LGBTQIA+, antirracistas e ambientais dizem respeito a
setores da sociedade que são historicamente vulnerabilizados em benefício de
outros que mantêm seus privilégios.
É importante entender que todas essas agendas
são agendas contra desigualdades, contra a opressão e contra
o privilégio de alguns poucos. Mas elas não tratam necessariamente de
finanças. É por isso, talvez, que uma parte da esquerda tenha
dificuldade de entendê-la. Agora, não se pode negar que elas são agendas
emancipadoras e redutoras que buscam reduzir a desigualdade.
·
Junho de 2013 não foi um evento isolado no mundo. Qual a incidência de
outras marchas pelo mundo no movimento brasileiro? Como analisa o rescaldo de
todos esses movimentos globais?
Roberto Andrés – As revoltas de
junho de 2013 fizeram parte de um ciclo
global de revoltas iniciado em 2011, que atravessou países da Europa, os Estados Unidos e, por fim, chegou à América Latina. Essa onda de
revoltas responde a uma situação de crise econômica e de déficit de
democracia, principalmente nos países europeus, nos Estados Unidos e nos países
latino-americanos. De certa maneira, uma série de insatisfações da sociedade se
mostrou muito forte naquele momento e cada um desses ciclos de protestos buscou
responder, dentro do contexto local, a essas insatisfações presentes e
espalhadas pela sociedade.
Depois desse ciclo de revolta, poucos desses
problemas são encaminhados e a maior parte dos problemas permanece. E as
insatisfações difusas também permanecem. Na primeira metade da década passada
havia uma movimentação progressista que buscava a resposta a esses problemas.
Só que a ausência de encaminhamentos efetivos abriu espaço para que, na segunda
metade da década, surgissem soluções autoritárias de extrema-direita que foram capazes de mobilizar as
insatisfações. Isso não é uma especificidade do Brasil. A extrema-direita,
emergindo a partir de 2015/2016, é um fenômeno global.
No entanto, no Brasil muita gente trata
esse ciclo como se a manifestação da primeira metade da década tivesse alguma
relação de causa com a ascensão da extrema-direita. Essa é uma abordagem
“tipo jabuticaba”, já que ela não existe em outros países. Ninguém
nos Estados Unidos diz que o Occupy Wall
Street foi o responsável pela emergência de Donald Trump. Ou, ainda,
ninguém na Espanha afirmará que o 15M foi o
ovo da serpente que chocou a extrema-direita do partido Vox. Ou, tampouco,
no Chile, dirão que aquelas acampadas de 2011 foram o germe
do fascismo que está presente na extrema-direita do país.
Essa abordagem não faz nenhum sentido, tanto que
ela não é adotada em nenhum outro país. Não se culpa o sintoma pelo problema
que permanece. É como se você culpasse a febre pela doença que está cometendo o
paciente.
·
Em Junho 2013, se alguém falasse em extrema-direita, ninguém saberia do
que se tratava. Como e quando as marchas de 2013 e a extrema-direita se cruzam?
Roberto Andrés – Para o livro “A razão dos
centavos”, eu fiz uma pesquisa extensa, reproduzindo um acervo de mais de 6.000
cartazes que foram expostos nas ruas de 2013. O objetivo do estudo era
confirmar e buscar jogar luz sobre o que de fato estava sendo dito nas ruas.
Como classifiquei esses cartazes? Eles são
expressos em quatro principais grupos, a questão do transporte é o maior deles,
depois da questão da Copa do Mundo, da corrupção e
dos serviços públicos de qualidade. Esses são os quatro grandes grupos de
reivindicações, mas, por fim, há uma série de reivindicações menores e que
também têm sua especialidade. É o caso da questão feminista, da questão
LGBTQIA+ e da questão ambiental, da pauta indígena, da pauta da aversão às
mídias, da pauta contra a violência policial e há muitos e muitos cartazes que
pedem mais participação, mais democracia.
Agora, não há em 2013 nenhum cartaz pedindo
a volta da ditadura. A ditadura é rechaçada ali. Em todo esse acervo, não
há nenhum cartaz pedindo intervenção militar. Essa palavra não existia
naquele período. Vemos pouquíssimos discursos de ódio. Eu encontrei no
acervo todo cerca de 10 cartazes com discurso de ódio, isso em mais de 6 mil.
E aquela também não era uma agenda contra
o PT. E isso se vê nos cartazes, se vê nas pesquisas de opinião. Então,
a extrema-direita não teve participação naquele ciclo ou, se teve,
foi minúscula, concentrada em poucos grupos organizados em São Paulo, mas
que não conseguiu prevalecer no imaginário popular, nem se expressar na
multidão de manifestantes avulsos que levaram seus cartazes para a rua.
<<<< Achatando um período histórico
O que muitos analistas fazem, hoje, é achatar um
período histórico, ignorando o que aconteceu nos 18 meses seguintes
ao Junho de 2013, elevando a agenda que emergiu a partir de 2015 e
sobrepondo-a sobre o que havia em 2013. Esse é um processo parecido com aquela
mecânica da dupla exposição de fotografia que ficou conhecida recentemente pela
fotografia de Lula, com um vidro estilhaçado sobre seu peito.
Trata-se de colar uma imagem sobre a outra para
produzir uma outra interpretação, uma interpretação nova dos fatos.
No Brasil, a extrema-direita emerge de um processo posterior. Não diz
respeito ao esmagamento das linhas de fuga de 2013.
·
Como podemos compreender o Movimento Passe Livre? Que análise faz do
movimento hoje?
Roberto Andrés – O Movimento Passe Livre significou um momento novo na
luta pelo transporte no Brasil. Até meados da década de 1980, os grupos que
lutavam pelo transporte ainda eram principalmente grupos populares, de baixa
organização, que rompiam com suas revoltas de tempos em tempos. Naquele
momento, começa uma nova geração de movimentos pelo transporte, ligados a
uma nova esquerda que emergia no país.
Nos anos 2000, essa esquerda organizada
que reivindica a questão da mobilidade urbana tem uma atualização com a entrada
em campo dos setores ligados ao autonomismo de grupo, como movimentos
estudantis que chegaram no Movimento Passe Livre em 2005, fundado
no Fórum Social Mundial em janeiro de 2005. O Movimento Passe
Livre também é um avanço de organização de grupos que já estavam se
organizando localmente e que foram expressos na Revolta do Buzu,
em Salvador, em 2003, que foi um movimento grande; nas Revoltas da
Catraca, de Florianópolis, em 2004 e 2005, que também foram movimentos
expressivos, em diversos outros grupos que passavam a se organizar nas cidades.
Essa organização do Movimento Passe Livre deu uma estrutura nacional
às lutas pelo transporte no Brasil.
A questão do transporte entra em grande
deterioração no início do governo Dilma, fruto da ausência de políticas
para o setor nos governos petistas, e também devido ao grande incentivo de
automóveis. Já havia muitos grupos no país organizados em torno da questão do
transporte. Uma parte estava federada no Movimento Passe Livre, outra
parte tinha atuação local, marcada principalmente pelos Blocos de Luta,
que eram coalizões locais compostas por diversos movimentos dedicados a fazer
determinada mobilização.
A grande organização do Movimento Passe Livre,
de São Paulo, foi o que produziu a força daquelas manifestações também.
Estamos falando de um movimento que trabalhava incansavelmente, que se
organizava e planejava estrategicamente com muita experiência e que tinha
grande capacidade de articulação entre atores da cidade, lideranças sociais e
movimentos estudantis. Então, não foi por acaso que eles conseguiram causar
todo aquele barulho em São Paulo.
<<<< Limites
No entanto, as próprias táticas e os próprios
princípios vindos do campo autonomista, que prevaleceram nesse movimento,
também apresentaram alguns limites nas diversas iniciativas que lutaram
pelo transporte no Brasil no pós-2013. Se essas táticas foram
importantes para agregar muita gente e produzir manifestações mais poderosas,
mais abertas para o público como um todo, de outro lado essas táticas também
apresentaram dificuldades em manter a liderança dos protestos ou manter uma
certa condução dos protestos quando a pauta explodiu.
E, também, há a dificuldade de produzir
desdobramentos institucionais na pós-movimentação. É algo que diz respeito aos
próprios métodos e princípios que estavam ali colocados, e que abriam e traziam
essa dificuldade.
Apontar os limites não significa reduzir
a importância do Movimento Passe Livre. Foi um movimento central
na história do Brasil, na história da luta pelo transporte, que foi capaz
de elevar a agenda do transporte da mobilidade urbana para um patamar ao qual
ela nunca havia chegado. E isso não é pouco.
·
O seu livro “A razão dos centavos” conduz o leitor por três momentos:
antes, durante e depois, tendo como marco Junho de 2013. Essa é uma narrativa
de quem viveu cada um destes tempos? O que essa experiência lhe deixa de
legado?
Roberto Andrés – A organização do livro diz
respeito a três aspectos que seguem pouco compreendidos depois de 2013: as
razões, as características e os desdobramentos. As razões de
junho seguiram muito mal compreendidas, especialmente devido a esse
mecanismo de delegação da questão urbana e da questão do transporte na
centralidade que tem na vida social e política. A dificuldade de compreender
as características de Junho de 2013 dizem respeito a essa diversidade
de fato, de manifestantes e de agendas que entrou nas ruas. E como
a compreensão hegemônica no Brasil não foi capaz de colocar
a pauta do transporte como guarda-chuva disso tudo – embora ela tenha
sido a pauta, como vimos, de maior relevância para os manifestantes –, nós não
consolidamos no debate coletivo uma agenda principal para as movimentações de
junho. Isso faz com que elas sigam sob disputa e sobre análise ainda 10 anos
depois.
Os desdobramentos dizem respeito a um
processo muito mal debatido no Brasil, que coloca aquele ciclo de
imobilizações não como sintoma, não como ponto de inflexão, mas como origem de
todos os males do país, como se fosse uma espécie de pecado original. Vivemos
no Paraíso da República do Real e esse pecado original nos legou os
piores caminhos possíveis, em que todos os atores são responsabilizados por
suas ações no período seguinte. Somente um evento é o culpado de todos esses males.
Essa interpretação infantil, que ainda hoje
prevalece, precisa ser contraposta por uma análise mais objetiva e sensata dos
acontecimentos. Não é possível buscarmos explicações de base factual para os
acontecimentos que vivemos no país. Então, a terceira parte do livro examina os
últimos 10 anos a partir de um encadeamento causal entre diversas ações de
diversos atores, e não pela simplificação de escolha de um bode expiatório para
os problemas que vieram.
·
Voltando à pauta da mobilidade urbana, o quanto avançamos em termos de
políticas públicas pós-2013? Como está hoje a implantação do passe-livre no
país?
Roberto Andrés – É muito raro um ciclo de
protesto, de mobilização, produzir mudanças institucionais imediatas. Muito
mais comum é que esses ciclos, historicamente, produzam mudança de mentalidade.
Ou seja, que levem ideias que eram vistas como utópicas para o campo do
possível. Esse é um argumento apresentado no livro baseado em autores que
tratam desse tema.
Isso pode ser muito bem exemplificado com o que
aconteceu na pauta da tarifa zero em 2013. Ela era uma agenda vista como irrealista naquele momento;
hoje temos 74 cidades no país com tarifa zero. Antes de junho, eram 10 ou 12. A
população atendida era de 300 e poucas mil pessoas. Hoje são 3,5 milhões.
A pauta caiu na boca dos políticos mais
conservadores, que perceberam que ela é uma agenda positiva. Só
a esquerda não abraçou essa agenda ainda (a esquerda no governo
federal). Da mesma maneira, os movimentos e os grupos que se articulam pela
mobilidade urbana e pela tarifa zero, apesar de toda a repressão que sofreram
nos últimos anos, conseguiram ampliar sua capacidade de organização e fizeram,
por exemplo, uma grande mobilização em torno da questão do passe livre nas
eleições de 2022. O que contribuiu para produzir uma redução de abstenções
naquela eleição. Pela primeira vez na história do país, no segundo turno, houve
menos abstenção do que no primeiro turno. E, com essa redução, segundo a
pesquisa do Valor Econômico, as cidades que tiveram tarifa zero no segundo
turno chegaram a 0,4% menos de abstenções do que as que não tiveram.
Essa contribuição foi crucial para que os eleitores
mais pobres pudessem votar. Eleitores mais pobres, que rejeitavam o então
presidente da República, foram capazes de serem o fiel da balança de uma
eleição muito apertada. Assim, esse é o avanço da pauta da tarifa zero nos
últimos anos, sendo muito possivelmente o principal legado daquele ciclo de
imobilizações.
·
Tendo em perspectiva a atual conjuntura, já encontramos nossas “flores
no deserto”? E quais caminhos ainda precisamos percorrer para transformar esses
campos desérticos em agriculturáveis?
Roberto Andrés – “Flores do deserto” é o
título de um dos últimos capítulos do livro, que busca mapear os desdobramentos
políticos progressistas no campo, na sociedade e na política institucional do
ciclo de levante em 2013.
De certa maneira, nós estamos tratando de um ciclo
de levantes que expressava uma insatisfação de fundo com a forma de vida
hegemônica no país e com suas relações com a política e o econômico, que
acabaram colocando questões no centro da agenda. Hoje, essas questões passaram
a habitar, inclusive na política institucional, com força muito maior do que
tinham a questão feminista, a questão ambiental, a questão indígena, a questão
LGBTQIA+. Todas essas são questões que estavam expressas nas ruas de 2013 e que
tiveram um salto muito grande, tanto na sociedade quanto na política
institucional, no campo progressista.
Este capítulo olha para os desdobramentos que
aconteceram nas revoltas dos secundaristas, nos movimentos feministas de
2015, nos movimentos de ocupação da política e na renovação de
atores políticos. Mas o deserto brasileiro é grande, até porque a
crise que veio em seguida, resultante da concatenação de movimentos de diversos
atores, nos deixa um saldo pavoroso e um cenário de grande destruição, acirrado
com o governo de Jair Bolsonaro. A recuperação do país, o
florescimento e o fortalecimento de novos grupos no campo da política em
diversos aspectos ainda precisam ser muito incentivados, semeados para que se
desdobre, com a força necessária, no próximo período.
Não é uma tarefa fácil. E o país segue com o
desafio, já apresentado em 2013, de um enfrentamento da forma
política em que o Centrão tem as chaves do cofre sob muito pouco escrutínio público. Este
desafio segue existindo no deserto da política brasileira.
·
Pelos movimentos vistos, o governo Lula aprendeu algo com 2013? Ou as
incompreensões do governo Dilma ainda residem nesta nova administração
progressista?
Roberto Andrés – Em relação aos governos
anteriores, o governo Lula apresentou avanços importantes em pautas
como a questão feminista, a questão antirracista, a questão ambiental e a
questão indígena. São pautas que se fortaleceram na esquerda nos últimos anos e
que, no novo governo Lula, se soube explorar.
No entanto, ele não incorporou a questão
urbana, que é estrutural e que acaba atravessando os demais fatores da desigualdade brasileira. Ela não ocorre somente no aspecto
econômico; a desigualdade territorial estrutura as demais
desigualdades. A pessoa que passa duas horas no transporte público pode ter uma
melhoria de vida com o aumento de salário, mas ela não vai se emancipar se esse
esquema cotidiano de deslocamento preconizado não for melhorado. A pessoa que
não tem oportunidades nos seus bairros de espaços públicos, de serviços
públicos de qualidade, nunca terá as condições de ascensão social necessárias
para, de fato, estruturar uma outra escala na sua vida.
A questão urbana continua sendo um
tabuleiro que dificulta ou impede a ascensão social de muitos no Brasil. Por
isso é que precisa ser encaminhada como prioridade. Essa percepção ainda não
chegou ao novo governo Lula. A priorização de recursos públicos para a
compra de automóvel não é sustentável em nenhum sentido. Não é possível que a
população mais pobre pague esses automóveis. Não é sustentável ambientalmente,
não é sustentável da perspectiva do trânsito e a proliferação de automóveis prejudica,
sobretudo, os mais pobres que são os mais afetados pela poluição do ar, pelos
acidentes e pelos congestionamentos que atrasam o transporte público.
<<<< O investimento em transporte
público é emancipador
O investimento em transporte
público, a busca pela tarifa zero, é uma política
emancipadora que o governo federal não adotou. Enquanto não adotar, nós
seguiremos nessa espiral de degradação das condições de vida nas cidades.
Parece que a principal pauta de 2013, que é o direito à mobilidade livre
para a maioria, ainda não foi absorvida.
Caso esse governo dê certo, partindo da perspectiva
econômica e política, e consiga retirar mais uma vez milhões de pessoas da
pobreza, essas pessoas não terão uma ascensão social sustentável, baseada no
modelo da classe média de planos de saúde privada, educação privada e automóvel
particular. As pessoas necessitarão de serviços públicos de grande qualidade,
de uma melhor infraestrutura nas cidades, que lhes dê condições de uma vida
melhor. Isso não está no radar desse governo.
Fonte: Entrevista com Roberto Andrés, para IHU
OnLine

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