Washington
Araújo: O Brasil fecha o cassino que levamos no bolso
O
Brasil decidiu nesta sexta-feira, 25 de setembro, fechar o cassino que durante
anos ajudou a instalar no bolso de milhões de pessoas. A Medida Provisória
1.394 proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das
apostas de quota fixa em todo o território nacional, alcançando apostas
esportivas e jogos on-line.
A
mudança começa de imediato. Desde a publicação da medida, novos recursos já não
podem ingressar nas plataformas. Em dez dias, sites e aplicativos deverão ficar
indisponíveis, e a publicidade e os patrocínios terão de desaparecer. As
autorizações existentes serão extintas em 30 dias. O país que abriu esse
mercado agora escolheu fechá-lo.
O
movimento impressiona menos pela velocidade do que pela extensão da correção de
rumo. As apostas esportivas foram autorizadas em 2018, ganharam novo marco
legal em 2023 e entraram em regime federal de autorização em 2025. Nesse
intervalo, as bets avançaram pelo futebol, pela televisão, pelas redes sociais
e, sobretudo, pelos celulares.
Este
artigo foi escrito inicialmente em 9 de setembro. Naquele momento, o debate
brasileiro girava em torno de limites à propaganda, bloqueio de operadores
ilegais, advertências sobre dependência e mecanismos de proteção aos
apostadores. Dezesseis dias depois, a discussão mudou de tamanho. O governo
escolheu retirar as bets do mercado legal brasileiro.
A
decisão merece apoio. Durante anos, o poder público tentou administrar um
negócio cuja capacidade de produzir dano crescia mais depressa do que os
instrumentos criados para contê-lo. A proibição enfrenta a raiz legal do
problema. O desafio seguinte será impedir que a atividade apenas atravesse a
fronteira entre o mercado autorizado e a clandestinidade.
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A perda tem endereço
Sempre
me pareceu pobre reduzir essa discussão à liberdade de adultos escolherem onde
gastar dinheiro. O apostador entra numa plataforma com um celular e algum
dinheiro. Do outro lado existe uma empresa capaz de registrar acesso,
depósitos, perdas, frequência, horários, preferências e reação depois de uma
derrota. Cada clique acrescenta uma peça ao retrato comportamental do usuário.
A
plataforma aprende quanto alguém arrisca, em que momento volta e como reage ao
prejuízo. Para quem aposta, podem ser alguns minutos diante de uma partida de
futebol. Para a empresa, os mesmos minutos produzem dados capazes de indicar
propensão a continuar, interromper ou tentar recuperar aquilo que acabou de
perder.
A
Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1,2% dos adultos sofram de
transtorno relacionado ao jogo. Pessoas que apostam em níveis prejudiciais
respondem por aproximadamente 60% das perdas que alimentam a receita global do
setor. Parte expressiva do dinheiro nasce justamente onde a relação com a
aposta já produz sofrimento.
Esses
números sempre me levam para dentro das casas. O salário entra, uma aposta
parece pequena e logo surge outra. A perda produz desejo de recuperação.
Aparecem depósitos sucessivos, empréstimos, faturas adiadas, dívidas escondidas
e promessas de parar. O mecanismo mais cruel surge nesse ponto: procurar na
aposta seguinte o dinheiro perdido na anterior.
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O celular encurtou tudo
A
psicologia conhece esse mecanismo. Recompensas imprevisíveis favorecem a
repetição, vitórias ocasionais prolongam a expectativa e perdas sucessivas
podem empurrar o jogador para a perseguição do dinheiro perdido. O celular
eliminou quase todos os intervalos que antes separavam impulso e ação. Entre
perder cem reais e tentar recuperá-los podem existir poucos segundos.
A
disponibilidade permanente aprofundou o problema. A aposta acompanha a pessoa
até a cama, aparece numa madrugada de insônia, depois de uma discussão, durante
uma viagem de ônibus ou minutos após o salário cair. O jogo deixou o espaço
físico destinado ao jogo e passou a caminhar com o indivíduo durante
praticamente todo o dia.
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O custo apareceu
Os
números brasileiros já permitem enxergar a dimensão da ferida. Levantamento
divulgado em 2026 estimou em 10,9 milhões o número de brasileiros com padrão de
jogo de risco ou problemático. Outro estudo, citado pelo próprio governo,
calculou em R$ 38,8 bilhões por ano os custos sociais e econômicos associados
às apostas e aos jogos de azar.
Qualquer
discussão séria precisa considerar também as objeções do setor regulado, que
contesta metodologias usadas em parte dessas estimativas e sustenta que a
proibição pode fortalecer operadores clandestinos. O argumento merece exame.
Mas ele também revela o tamanho da tarefa que agora se apresenta ao Estado:
proibir sem abandonar a fiscalização.
A
Medida Provisória prevê bloqueio de sites, restrição de meios de pagamento,
deveres para plataformas digitais e mecanismos de fiscalização contra
operadores ilegais. A eficácia da proibição dependerá dessa engrenagem
funcionar continuamente. Sem repressão ao mercado clandestino, o país corre o
risco de retirar a placa da fachada e deixar a porta dos fundos aberta.
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Depois das luzes
Durante
anos, clubes carregaram marcas de bets nas camisas, estádios foram cobertos por
publicidade e celebridades apresentaram apostas como extensão natural do
entretenimento. Crianças aprenderam nomes dessas empresas muito antes de
compreender o significado de perder dinheiro. O mercado conquistou espaço
econômico, cultural e afetivo antes que o país dimensionasse plenamente suas
consequências.
A
proibição federal interrompe essa normalização. Esse pode ser seu efeito mais
importante no longo prazo: retirar do cotidiano a mensagem insistente de que
apostar é parte ordinária da experiência esportiva, um gesto tão banal quanto
escolher um time ou assistir a uma partida. Durante anos, essa associação foi
construída diante de milhões de brasileiros.
A lei,
porém, não desfaz em poucos dias aquilo que o mercado levou anos para instalar.
É possível retirar logotipos das camisas, aplicativos das lojas e plataformas
da internet. Muito mais difícil será retirar das famílias as dívidas
acumuladas, dos dependentes o impulso de apostar e de uma geração a ideia
cuidadosamente cultivada de que dinheiro pode nascer de um palpite sobre uma
tela.
Em
2018, o Brasil abriu a porta. Em 2026, decidiu fechá-la. Entre uma data e
outra, o cassino coube no bolso, atravessou a sala de casa e alcançou o
orçamento de milhões de brasileiros. A proibição chega tarde para apagar os
danos já produzidos, mas chega a tempo de impedir que continuem sendo tratados
como preço inevitável do entretenimento.
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Bets e a grita. Por Carol Proner
Novidades
nas eleições brasileiras sobre bets. O governo do presidente Lula torna as
plataformas digitais de apostas online, as chamadas bets, ilegais a partir de
hoje. O mote é: “vamos construir um país livre de bets, com mais oportunidade e
futuro”. A grande imprensa – o grande capital – é contra sob argumento de que
viola a segurança jurídica da atividade econômica. O que está em jogo é a
segurança da vida das pessoas, uma atividade que entra na casa, na vida,
destrói famílias, adoece e mata. É corajoso porque entra no debate do grande
capital e das armadilhas financeiras em novos arranjos enganosos contra os mais
vulneráveis.
Anúncio
ao lado de três ministros – Saúde, Justiça e Economia -, em rede nacional,
faltando 9 dias para as eleições, com argumentos tão potentes a favor da vida e
contra o capitalismo das pirâmides de azar, ousado!
Presidentes
de alguns clubes de futebol estão raivosos. Editoriais gritando. Lula resolveu
apostar, com o perdão da má palavra, no tudo ou nada. Trucou, all-in, um
país livre das bets é palavra de ordem nos comícios do Rio de Janeiro e em
outras praças. Não sei se a estratégia vai funcionar, mas é corajoso.
No
primeiro trimestre desse ano, os números aproximados mostram que essa turma das
bets ganhou R$ 88,5 bilhões, pagou em apostas R$ 68,3 bilhões. Dos R$ 20
bilhões retidos, R$ 10 bilhões rendem em impostos para o governo e os outros R$
10 bilhões, eles chamam de realização do “business” do “case” de sucesso. R$ 20
bilhões foram surrupiados da classe trabalhadora. A ludopatia, estimulada pelas
bets, alcança 50 milhões de pessoas entre as classes mais vulneráveis.
61% dos
jogadores dizem que apostam com dinheiro da poupança, deixando de comprar
coisas, usam o cartão de crédito, emprestam dinheiro de outros ou vendem alguma
coisa. Números do Ministério da Saúde declaram que o governo gasta R$ 30
bilhões por ano para tratar os efeitos da adição, depressão e suicídio.
Lula
prova que uma sociedade pode ser bem diferente do que está posto como imutável,
ajuda o povo a pensar em transformação, em como começar de novo, sair do vício
e dar a volta por cima. Falta tratar o vício do financeiro em ganhar dinheiro
fácil.
Fonte:
Brasil 247

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