Como
a nova direita que governa a América Latina se alinha a Trump diante dos olhos
do mundo
Talvez
em outro momento da história, um presidente dos Estados Unidos que falasse diante
das Nações Unidas sobre usar seu "poderio militar
incomparável" para
defender seus interesses na América Latina, ou sobre conquistar
um "espólio" em um de seus países, teria provocado rejeição de
governos de esquerda e de direita da região.
Mas o
presidente americano que diz essas coisas hoje é Donald Trump, e, em toda a
América Latina, vários representantes de uma nova direita estão no poder e,
longe de criticá-lo, se alinham a ele diante dos olhos do mundo.
Essa
realidade política ficou evidente nesta semana em Nova York, durante a Assembleia Geral da ONU, onde Trump
apresentou o poderio militar ativo dos EUA no hemisfério como uma conquista de
seu governo, enquanto enfrenta desafios crescentes em outras partes do mundo.
Em seu
discurso na ONU na terça-feira (22/9), ele citou a ação militar que ordenou na Venezuela para prender o então
presidente Nicolás Maduro em janeiro e o
controle que os EUA obtiveram de parte das vastas reservas de petróleo do país, porque
"ao vencedor cabe o espólio".
"Nossas
ações na Venezuela são uma prova de que os EUA não permitirão mais que ameaças
contra a América se estabeleçam em nenhum lugar do hemisfério ocidental",
advertiu.
"E,
se necessário, usaremos nosso poderio militar incomparável para proteger os
interesses nacionais vitais dos EUA."
Após o
discurso, Trump ouviu elogios de presidentes latino-americanos.
"Permita-me
parabenizá-lo, porque acho que o senhor bateu um recorde mundial: não acredito
que tenha havido um presidente americano que tenha se reunido tantas vezes com
presidentes do hemisfério ocidental", disse o presidente paraguaio, Santiago Peña, a Trump em uma
reunião do Escudo das Américas, horas mais tarde,
em Nova York.
A
afinidade dos governantes latino-americanos com o presidente dos EUA se
manifesta sobretudo em temas de segurança, mas há indícios de que ela esteja se
ampliando para outras áreas.
<><>
'Sendo duro'
O
Escudo das Américas surgiu em março como uma coalizão de Washington com
governos da região politicamente próximos para combater o crime organizado —
embora o próprio Trump tenha dito na terça-feira, diante dos integrantes do
grupo, que eles "talvez não saibam" o quanto essa aliança que ele
lidera é importante.
O
Chile, governado desde março pelo político de direita José Antonio Kast, aderiu naquele dia
à aliança de 15 países, que declararam sua disposição de impor "sanções e outras
medidas" contra grupos que Trump classificou como narcoterroristas
na América Latina, entre eles o Primeiro Comando da Capital (PCC)
Além
dos EUA e do Chile, a declaração foi aprovada pelos governos da Argentina,
Bolívia, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador,
Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
"O
crime organizado não respeita fronteiras, por isso estamos muito felizes em
fazer parte desta coalizão. Aplaudimos sua liderança e sua iniciativa,
presidente Trump", disse durante o encontro Keiko Fujimori, que assumiu a
presidência do Peru em julho e também aderiu recentemente ao grupo.
"A
única maneira de combater o crime é sendo duro", respondeu Trump.
"Vocês
têm que ser muito duros. Talvez nem gostem disso, mas precisam ser: isso vai
detê-lo rapidamente."
O
presidente dos EUA ordenou que suas próprias forças militares realizassem bombardeios que, desde o ano
passado, mataram mais de 220 pessoas em embarcações que supostamente
transportavam drogas em águas do Caribe e do Pacífico, sem apresentar provas
claras disso.
Um
relator especial da ONU para direitos humanos afirmou em um relatório na
segunda-feira (21/9) que esses ataques dos EUA "violam o direito
internacional" e "plausivelmente constituem crimes contra a
humanidade".
O autor
do relatório, Ben Saul, também afirmou que o Escudo das Américas "prioriza
uma resposta altamente centrada na segurança, sem compromissos explícitos com
os direitos humanos e o direito internacional, nem com o enfrentamento das
causas profundas do crime organizado, como a pobreza, a corrupção e a
fragilidade do Estado".
São
críticas também levantadas por outros especialistas, mas que foram deixadas de
lado durante o encontro entre os EUA e seus aliados latino-americanos na
terça-feira.
Em vez
disso, Trump falou sobre as organizações de narcotráfico e sugeriu aos
presidentes que fazem parte do grupo: "Nos digam quais são e nós as
eliminaremos. Ou eliminem vocês mesmos; gosto ainda mais disso. Mas, se não
conseguirem, faremos isso por vocês".
Nesse
momento, os presentes na sala riram.
<><>
'Ambições hegemônicas'
Durante
seu primeiro mandato, Trump ameaçou, em 2017, intervir militarmente na crise da
Venezuela, mas isso provocou ampla rejeição, inclusive entre seus aliados na
região.
"Nem
a Colômbia nem a América Latina, do sul do Rio Grande à Patagônia, poderiam
concordar. A América é um continente de paz", afirmou o então presidente
colombiano, Juan Manuel Santos, após se reunir com o vice-presidente dos EUA na
época, Mike Pence.
Outros
governos conservadores que eram críticos do regime socialista de Maduro na
Venezuela, como os do México e do Peru, também se opuseram à opção apresentada
por Trump naquela ocasião.
Alguns
analistas atribuíram aquelas reações às consequências deixadas pela longa
história de intervenções dos EUA na América Latina, diretas ou encobertas, que
em vários casos provocaram violência e abusos graves.
Mas,
nos últimos anos, políticos de uma nova direita chegaram ao poder em países da
região, com posições mais radicais do que as da direita tradicional e promessas
de adotar políticas de linha dura contra a criminalidade.
Trump
destacou na terça-feira, diante de seus aliados latino-americanos, que
"houve uma grande mudança nos países, uma grande guinada para a
direita", e se vangloriou de ter apoiado eleitoralmente alguns deles.
"Todos
os que apoiei venceram. Como vocês sabem, acabamos de conseguir uma grande
vitória na Colômbia", disse, em referência à vitória de Abelardo de la
Espriella em junho, que enviou seu vice, José Manuel Restrepo, a Nova York.
O maior
contraponto regional a Trump na Assembleia Geral da ONU, até agora, foi o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), que afirmou que "o Brasil não
cabe no quintal de ninguém".
A
poucas semanas das eleições de outubro — que têm entre os candidatos Flávio
Bolsonaro, representante dessa nova direita e simpatizante de Trump — , Lula
alertou para o retorno da "interferência externa em processos
eleitorais" durante o principal fórum da diplomacia global.
"Na
América Latina e no Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência
militar do mundo é inevitável, sobretudo em um contexto de recrudescimento das
ambições hegemônicas", disse Lula, um dos poucos líderes de esquerda no
poder atualmente na América do Sul.
O
Brasil está fora do Escudo das Américas, mas em seu território estão dois dos
grupos criminosos que a aliança quer sancionar: o Comando Vermelho e o PCC.
Quando
Washington classificou as duas organizações como terroristas, em maio, o
governo Lula recebeu a medida com desconfiança, por entender que ela poderia
abrir caminho para intervenções militares dos EUA em território brasileiro.
<><>
'Uma só voz'
Embora
o Escudo das Américas tenha como foco questões de segurança, Trump também
mencionou, diante dos integrantes do grupo, a "enorme riqueza
natural" dos países e pediu que evitem "que potências externas hostis
se apoderem dela".
"Os
recursos das Américas devem sempre pertencer aos povos das Américas. Os EUA
estão dispostos a colaborar com vocês para alcançar esse objetivo",
afirmou.
O
secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que a aliança oferece a
oportunidade de "colaborar nas áreas econômica e diplomática para falar
com uma só voz, em uníssono, sobre temas que (nos) unem".
E
talvez um desses temas possa ser a inteligência artificial.
De
fato, o presidente argentino, Javier Milei, defendeu durante a Assembleia Geral
da ONU a posição de Trump contrária à regulamentação dessa tecnologia, mesmo
diante dos alertas cada vez maiores de que ela representa sérios riscos para a
humanidade.
"A
inteligência artificial, ou superinteligência, como diz o presidente Donald
Trump, pode multiplicar nossa produtividade em ordens de grandeza que ainda
desconhecemos", afirmou Milei.
E
acrescentou que o Ocidente deve liderar o desenvolvimento dessa tecnologia para
torná-la compatível com os "valores fundamentais libertários".
"Nesse
ponto", ressaltou, "compartilhamos plenamente a visão do presidente
Trump".
¨
Escudo das Américas: tropas norte-americanas participam
de operação antidrogas no Equador
Dezenas
de militares e agentes antidrogas dos Estados Unidos participaram de uma
operação contra integrantes do Cartel Jalisco Nova
Geração,
uma das maiores organizações criminosas do México, na cidade de Samborondón,
região metropolitana de Guayaquil, no Equador. A ação ocorreu poucos dias após
o presidente
equatoriano, Daniel Noboa, defender na Assembleia Geral da ONU uma maior
cooperação internacional no combate ao crime organizado transnacional, e o
presidente norte-americano, Donald Trump, anunciar uma ampliação do Escudo das
Américas.
A
polícia equatoriana mobilizou um forte aparato para a operação. Ao todo, 320
agentes participaram das buscas em duas mansões de luxo nos arredores de
Guayaquil, principal porto de exportação do país e uma das rotas do
narcotráfico na região. Eles contaram com o apoio de cerca de 50 militares e
agentes antidrogas norte-americanos. Apesar de usarem máscaras para preservar
suas identidades, os agentes exibiam bandeiras dos Estados Unidos nos
uniformes.
A
operação resultou na prisão de 39 pessoas nas províncias de Guayas, Manabí e
Los Ríos. Entre os detidos estão o suposto líder e o responsável pelas finanças
de uma rede ligada diretamente ao Cartel Jalisco Nova
Geração.
Embora
o governo de Daniel Noboa já tivesse anunciado a presença de tropas
norte-americanas no país, esta foi a primeira aparição pública desses agentes
em território equatoriano. Segundo o ministro do Interior, John Reimberg, o
apoio dos Estados Unidos foi decisivo para
uma investigação que durou oito meses, incluindo o fornecimento de drones e
equipamentos de inteligência.
Com
base em um decreto assinado por
Noboa em junho,
militares norte-americanos podem permanecer no Equador por até 180 dias sob um
regime migratório especial e com garantias de imunidade durante suas atividades
no país.
<><>
Escudo das Américas
A ação
contra o braço equatoriano do Cartel Jalisco Nova Geração ocorreu dias após a ampliação do Escudo
das Américas,
aliança regional de segurança criada por Trump para reforçar a cooperação entre
os países do continente no combate ao crime organizado transnacional.
Durante
uma reunião realizada esta semana em Nova York, à margem da Assembleia Geral da
ONU,
14 países latino-americanos aderiram a uma nova etapa da estratégia liderada
por Washington. O grupo reúne Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica,
República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai,
Peru e Trinidad e Tobago, além dos Estados Unidos.
O
encontro também marcou a adoção de uma declaração conjunta que classifica 24
organizações criminosas como ameaças regionais e prevê instrumentos como
congelamento de ativos, restrições de vistos e responsabilização de pessoas que
ofereçam apoio financeiro ou logístico a esses grupos. Entre os alvos estão o Primeiro Comando da
Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), as duas maiores facções criminosas do
Brasil.
O
governo brasileiro ficou fora da iniciativa e resiste à classificação de
facções do narcotráfico como organizações terroristas. Brasília argumenta que PCC e Comando
Vermelho
têm objetivos essencialmente econômicos e não se enquadram na definição de
terrorismo adotada pela legislação nacional. Integrantes do governo e
especialistas também veem o risco de que esse enquadramento abra caminho para
uma participação mais direta dos Estados Unidos em operações de segurança na
região.
A
operação em Samborondón dá uma dimensão concreta a esse debate. Com a presença
ostensiva de agentes americanos em território equatoriano, a ação exemplifica o
tipo de cooperação em segurança que Washington pretende fortalecer por meio do
Escudo das Américas.
Fonte:
BBC News Mundo/Opera Mundi

Nenhum comentário:
Postar um comentário