segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A nova extrema direita alemã

As três últimas eleições estaduais alemãs produziram sentimentos mistos no Brasil e no mundo. Os três estados, salvo o lado ocidental de Berlim, faziam parte da antiga Alemanha Oriental, socialista real, o que leva a inquietações sobre como isso seria possível. Há quem se apresse e já veja uma vinculação apressada entre socialismo real e ascensão da extrema direita, como faz o analista alemão-brasileiro Oliver Stuenkel.

Há duas questões centrais aqui:

(i)          compreender o fim do socialismo real na parte oriental da Alemanha e como sua assimilação pelo lado capitalista foi, na verdade, uma anexação e não uma reunificação;

(ii)         (é o próprio caráter de classe e político da (Alternativa para a Alemanha, AfD na sigla em alemão) que não nasce do nada, mas captura votos de trabalhadores simples, quadros oriundos da democracia cristã e financiadores ricos.

De imediato, surgem muitas sutilezas nesse processo, que não estão dissociadas das turbulências mundiais e europeias. Os estados que antes faziam parte da Alemanha Oriental não possuem padrões eleitorais semelhantes. E todos foram governados por partidos do establishment alemão antes da ascensão da AfD – agudizada nos últimos anos, sobretudo com os efeitos trágicos da guerra na Ucrânia para o país.

Simplificações liberais, contudo, geram mais confusão do que explicam, pois geralmente são apenas o desespero de uma erosão da ordem pós-nazista da antiga Alemanha Ocidental, construída sob os marcos do ordoliberalismo, da desnazificação light – se formos generosos – e a criação de um consenso parlamentar em torno do capitalismo, que só agora encontra questionamento.

 <><> A farsa e o fracasso da reunificação

Graças aos marcos fundacionais da atual República Federal Alemã – que nada mais é do que a velha Alemanha Ocidental, fundada por americanos, britânicos e franceses no lado Oeste do país – é natural o silenciamento sobre o passado nazista, o reforço no anticomunismo – como um equivalente oposto ao nazismo para – e, ainda, o estabelecimento da anexação da Alemanha Oriental como “unificação”.

Fato incontestável é que nas três últimas eleições, isto é, tanto na cidade de Berlim – capital do país que tem status de estado – quanto na Saxônia-Anhalt ou em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD avançou muito, se tornando a maior força parlamentar – e quase absoluta –, salvo no caso berlinense onde o Linke [literalmente Esquerda] – se tornou a maior força, mas também em termos relativos.

A Berlim reunificada dos anos 1990 viveu 11 anos sob governo democrata cristão, depois vieram outras duas décadas de coalizões lideradas pelos social-democratas (SPD, em alemão) – e desde 2021, assistiu ao retorno fracassado dos democratas cristãos. A antiga e bisonha divisão da cidade em duas persiste: a zona ocidental, que nunca deixou de ser capitalista, segue votando com a direita, mas a zona oriental, ex-socialista, à esquerda.

Pode parecer surpreendente para os mais jovens, mas o lado oeste de Berlim foi, literalmente, uma ilha capitalista em meio à finada Alemanha Oriental. Era entre ela e o entorno socialista que estava o Muro de Berlim. A maneira como a Alemanha Oriental colapsou ficou inscrita na paisagem urbana da cidade, inclusive com uma enorme desigualdade. A cidade, contudo, é a maior do país, vista isoladamente, e um respiro de cosmopolitismo.

Desde o fim da Alemanha Oriental, a Saxônia-Anhalt – salvo por uma única legislatura, na avalanche social-democrata de 1998 – foi governada somente pelos democratas cristãos. Já Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental tem sido governada por gabinetes liderados pelos social-democratas desde 1998 – o último deles, tendo o Linke como parceiro minoritário do SPD. Nada mais establishment por três décadas.

Poderíamos dar outros exemplos na ex-Alemanha Oriental, como a Turíngia já ter sido governada pelo Linke ou Brandemburgo (o estado que literalmente envolve Berlim) ser historicamente social-democrata, embora tenha visto a extrema direita crescer por lá também – inclusive tendo vencido as últimas eleições europeias naquela parte da Alemanha. Já a Saxônia, inversamente, é continuamente democrata cristã.

Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental possuem populações em declínio. A primeira viu sua população cair de 2,8 para 2,1 milhões de habitantes desde o fim da Alemanha Oriental. A segunda, de 2 para 1,5 milhão. Os últimos anos foram marcados pela chegada de milhares de imigrantes principalmente da Ucrânia – em um cenário de serviços sociais em declínio. Somente Berlim tem 3,7 milhões de habitantes.

Ainda que desenvolvidas em termos mundiais, Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental são estados pobres para o padrão nacional e estão, respectivamente, na última e penúltima posição de IDH entre os estados alemães. Berlim não é tão relativamente rica quanto se imagina, mas empata com Hamburgo em IDH entre as entidades subnacionais – é a vitrine do país, graças ao investimento governamental, embora o dinheiro esteja mesmo no Oeste.

O crescimento da AfD é perfeitamente explicável nesse cenário de orfandade. Mas entre isso e o fim da Alemanha Oriental, contudo, houve três longas décadas. Esse fenômeno ocorre, precisamente, onde é mais pobre, e onde é mais fácil criar campanhas de pânico moral com imigrantes – que, muitas vezes, se estabelecem temporariamente antes de tentarem a sorte em outras partes do país. Os partidos tradicionais falharam em inúmeros sentidos.

 <><> A farsa do AfD

De um lado, a AfD é financiada pelos ricos, mas seus eleitores são pobres, desempregados e trabalhadores braçais, sobretudo do Leste – e, em geral, alemães étnicos, cujas frustrações são direcionadas contra os imigrantes e os diferentes, exatamente como nas tenebrosas décadas de 1920 e 1930. Sua política gira em torno da expulsão de imigrantes, cortes de impostos e nada ou pouco realmente sobre bem-estar social.

Embora meios liberais creditem a culpa pela AfD ao antigo socialismo do Leste ou a interferências externas – de Donald Trump aos russos –, o fato é que o partido nasceu da costela da democracia cristã. O envolvimento de muitos de seus dirigentes com o ecossistema democrata cristão é documentado: o número 2 do partido, Tino Chrupalla, nasceu na Alemanha Oriental, mas foi da juventude democrata cristã.

A líder do partido Alice Weidel é uma mulher lésbica, casada com uma imigrante, reside na Suíça, nasceu na Alemanha Ocidental e seu doutorado é um estudo sobre o sistema de aposentadorias da China, apoiado pela Fundação Konrad Adenauer, think tank da democracia cristã – isso pode não ser sério, mas é verdade. Mesmo o estridente e radical Björn Höcke, não nasceu na Turíngia em que ele lidera a AfD, mas na Alemanha Ocidental.

Um ponto tragicomicamente paradoxal, contudo, é como setores da AfD se opõem ao rearmamento alemão – alguns até contra a OTAN como Björn Höcke. O partido tem se oposto às políticas belicistas do governo Merz, inclusive aprovadas pelos sócios minoritários da grande coalizão, os social-democratas, que comandam o Ministério da Defesa. Em dezembro do ano passado, a AfD, ironicamente, votou contra a proposta de ampliar a convocação militar.

Ulrich Siegmund, líder da AfD na Saxônia-Anhalt, que se saiu relativamente vitorioso há pouco, foi admoestado a apoiar o rearmamento do país – o que naquele estado passa por um projeto industrial que envolve, vejam só, uma escandalosa parceria com Israel. A resposta dele foi de que o rearmamento alemão seria necessário para possibilitar a “remigração” – o eufemismo para expulsão de imigrantes defendido pelo seu partido.

No cenário atual, Ulrich Siegmund não foi ao encontro do seu partido em nível federal, muitíssimo pelo contrário – a julgar pela recente, e turbulenta, troca de porta-voz para política de defesa do partido. Ele, na verdade, criou uma narrativa para defender uma política chancelada por democratas cristãos – com o apoio de social-democratas – que é de puro belicismo. Em outras palavras, a extrema direita alemã estaria à esquerda de seu establishment nesse assunto.

Nenhuma novidade: no passado, Adolf Hitler ascendeu com o apoio de setores centristas e da “direita democrática”. Os “nazistas” se tornaram maioria política rapidamente graças a isso. Hjalmar Schacht, homem forte da economia de Hitler, tinha sido anos antes fundador do Partido Democrático, uma agremiação liberal. O nazismo não estatizou, ele fez os grandes oligopólios econômicos se tornarem parte da máquina de guerra cuja face pública era Hitler.

Muitos quadros como Hjalmar Schacht sobreviveram à guerra, não sendo punidos e retornando aos seus postos de elite – como o futuro premiê alemão, e membro da democracia cristã, Kurt Georg Kiesinger (1966-1969), ele mesmo um ex-nazista, se é que isso é possível, que escamoteou seu papel durante o regime. O nazismo não veio do nada, nem foi ou voltou para o nada – e a AfD se coloca nesse mesmo contexto, em meio aos tantos paradoxos da política alemã.

Liberalismo e extrema direita na Alemanha não só se alimentaram mutuamente como, muitas vezes, foram diferentes máscaras de atores que batalharam para sustentar o sistema capitalista no país. Isso tem pouco a ver com o legado do marxismo ou do socialismo real no país, muito embora seja conveniente construir esse monstro para tirar o foco do que realmente importa – em que pesem os problemas do Bloco Socialista no Leste.

Por sua vez, o futuro de uma esquerda realmente transformadora na Alemanha passa por superar esse impasse. O Linke, que há alguns anos enfrentou uma grave crise, hoje apareceu como uma esperança pelo seu resultado em Berlim – muito embora não nos outros dois estados. Resolver essa difícil equação e colocar fim a um belicismo que, ao final, apoia a OTAN e Benjamin Netanyahu é parte disso, do contrário é só mais um para encenar a farsa de sempre.

¨      Cidade alemã bane novas homenagens a vítimas do Holocausto

Uma cidade no leste da Alemanha aprovou nesta quinta-feira (24/09) uma moção apresentada pelo partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) e pela conservadora União Democrata-Cristã (CDU), do chanceler federal Friedrich Merz, para veta a instalação de futuras placas em homenagem às vítimas do Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial.

As chamadas "pedras de tropeço" (do alemão Stolpersteine) são pequenas placas de latão, geralmente de dez por dez centímetros, fixadas sobre paralelepípedos de concreto e colocadas na calçada em frente da última moradia de vítimas do regime nazista. Elas são um elemento fundamental na cultura de memória do Holocausto na Alemanha.

O Conselho Municipal da pequena cidade de Heidenau, próxima a Dresden, no estado da Saxônia, votou pela interrupção da instalação de novas placas e decidiu que futuras homenagens deverão se concentrar em um memorial localizado no cemitério ao norte da cidade de 16,5 mil habitantes.

A medida alimentou o debate sobre o real comprometimento da CDU com o chamado "cordão sanitário" – uma barreira informal pela qual os principais partidos alemães descartam qualquer cooperação formal com a AfD.

O caso em Heidenau ocorre em um momento em que a sigla ultradireitista lidera as pesquisas nacionais, à frente da CDU de Merz.

A aprovação da moção contrariou uma recomendação da administração municipal, segundo a qual "uma proibição geral de futuras Stolpersteine não é necessária para a criação de um memorial central, nem se justifica pela própria proposta".

Os defensores da moção argumentaram que muitos moradores consideravam as "pedras de tropeço" inadequadas, por estarem no chão e poderem ser pisoteadas.

O idealizador das Stolpersteine, o artista Gunter Demnig, rejeitou o argumento. Para ele, as homenagens históricas têm que estar visíveis nos locais onde as vítimas do nazismo costumavam viver, e tornam a história palpável para as novas gerações.

Demnig associou o veto em Heidenau ao êxito recente da AfD em eleições estaduais no país, e acusou a CDU de abandonar seus valores, afirmando que o partido de Merz "talvez devesse desistir do C" que leva no nome "porque eles já abandonaram o cristianismo".

<><> "Apagar as vítimas é apagar o próprio passado"

A AfD tem questionado frequentemente a cultura alemã de memória do Holocausto; seu cofundador, o parlamentar Alexander Gauland, chegou a descrever a era nazista como uma "titica de pássaro" em meio a mil anos de história alemã, que, segundo ele, teriam sido bem-sucedidos.

"Estou envergonhado", declarou nesta sexta-feira o embaixador de Israel na Alemanha, Ron Prosor. "Quem apaga as vítimas do passado apaga o próprio passado." Ele alertou que a Alemanha precisa de "uma barreira clara contra o antissemitismo, seja da direita, da esquerda ou dos círculos islamistas".

A ministra alemã da Educação, Karin Prien (CDU), classificou a medida como um "escândalo". "Qualquer um que queira relegar os memoriais da vida judaica a cemitérios está tornando os judeus 'invisíveis mais uma vez'", afirmou ao jornal Bild.

"Eu também vejo a CDU na Saxônia como portadora dessa responsabilidade", disse ela ao jornal, lançando uma advertência a seu próprio partido.

Prien explicou que as pequenas placas embutidas nas calçadas servem como lembretes diários dos destinos individuais e da responsabilidade que a Alemanha deve assumir em relação ao Holocausto.

Charlotte Knobloch, lider de uma associação judaica na Baviera, também criticou duramente a CDU. "Estou chocada com o fato de um partido democrático ter optado por apoiar uma manobra tão evidente da extremista AfD", disse ao grupo de mídia alemão Funke.

Mesmo antes da decisão na noite desta quinta-feira, o Comitê Internacional de Auschwitz expressou sua indignação com a moção. "Esta é uma tentativa transparente e desprezível de expulsar mais uma vez as vítimas nazistas de Heidenau da cidade e descartá-las onde, segundo a AfD, a memória já pertence – no cemitério", declarou o vice-presidente da entidade, Christoph Heubner. "É um escândalo que representantes da CDU estejam se aliando à AfD em atos tão desprezíveis", acrescentou.

"Escândalo" também foi a palavra usada por Felix Banaszak, uma das principais lideranças dos Verdes, para se referir ao episódio. Ele defendeu que é preciso fazer de tudo "para manter viva a memória daqueles que foram perseguidos e assassinados".

A prefeita de Heidenau, Conny Oertel (sem partido), era contra a moção e pediu ao Conselho Municipal que a rejeitasse. Ela, no entanto, enfatizou que o Conselho, como um todo, apoiava a continuidade da homenagem às vítimas do nazismo. "A questão era apenas a forma como isso seria feito", afirmou.

<><> Mais lenha na fogueira da crise da CDU

O caso deve gerar mais dor de cabeça à CDU de Merz, que perdeu muitos votos em eleições regionais recentes na Saxônia-Anhalt, em Berlim e Mecklemburgo Pomerânia-Ocidental — neste último estado, o partido sequer atingiu a cláusula de barreira de 5%, ficando pela primeira vez sem deputados estaduais desde a Reunificação Alemã.

Em Berlim, onde a CDU amargou o segundo lugar, atrás do partido  A Esquerda, conservadores têm tentado articular uma coalizão com o Partido Social-Democrata (SPD) e os Verdes para se manter na prefeitura. 

Um dos argumentos apresentados por eles contra os rivais d'A Esquerda é justamente de que a sigla é conivente com o antissemitismo em suas próprias fileiras.

Após a eleição em Berlim, Merz, sem citar nominalmente o A Esquerda, expressou preocupação com o "antissemitismo crescente, radical e abertamente manifestado". Ele instou os social-democratas e ambientalistas a darem uma "resposta muito clara – especialmente aqui em Berlim – ao fato de que a vida judaica na Alemanha já não é segura".

<><> Acusações de antissemitismo também contra A Esquerda

No episódio mais recentes de constrangimento para os esquerdistas, um ativista antissemita e o chefe de um clã frequentemente associado ao crime organizado foram vistos na festa da vitória do partido em Berlim, no domingo passado.

Um dos deputados do partido, Ferat Kocak, foi fotografado ao lado de Ibrahim Ibrahim, descrito pela imprensa alemã como apoiador de militantes palestinos armados. O parlamentar defendeu-se depois dizendo ter tirado "centenas" de fotos com apoiadores, e frisando que a festa da vitória estava "aberta ao público".

Outro que compareceu ao evento foi Issa Remmo, chefe do "clã Remmo", família frequentemente acusada de manter uma rede de conexões com o crime organizado e associada a um espetacular roubo de joias.

A copresidente do partido, Ines Schwerdtner, disse que a festa não tinha lista de convidados, "mas, assim que essas pessoas foram vistas, foi pedido a elas que se retirassem".

A esquerdista Elif Eralp, que pleiteia a prefeitura de Berlim e também corteja os verdes e social-democratas para uma aliança, distanciou-se dos episódios. "Celebrar a violência e o terrorismo é absolutamente inaceitável", disse. "Farei de tudo para garantir que os judeus, assim como os muçulmanos, as pessoas LGBTQIA+ e todos em nossa cidade, possam se sentir seguros."

As acusações de antissemitismo contra o A Esquerda podem vir a dificultar a formação de um governo de coalizão na prefeitura de Berlim.

Bärbel Bas, copresidente nacional do SPD, parceiro do governo federal, afirmou que seria "muito difícil" trabalhar com uma legenda na qual "grande parte age de forma antissemita".

 

Fonte: Por Hugo Albuquerque, em A Terra é Redonda/DW Brasil

 

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