segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Análise da Abin aponta extrema-direita no Brasil como “facilitadora” de ofensiva de Trump

Sentado, de mãos cruzadas e com olhar sério para a câmera, o embaixador dos Estados Unidos no Panamá, Kevin Cabrera, anuncia, em vídeo publicado no canal do Departamento de Estado no YouTube em 13 de agosto de 2026: “Agora, a América tem a oportunidade de estabelecer uma nova ordem”. A frase ecoa a Doutrina Monroe, do princípio do século 19, que tratava o continente americano como área de influência dos EUA. O presidente Donald Trump a resgatou para justificar interferências políticas, militares e econômicas em outros países. Um dos alvos é o Brasil, em pleno ano eleitoral. A Agência Pública apurou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) tem monitorado a situação por meio de relatórios internos que classificam os discursos de figuras da extrema-direita no Brasil como “facilitadores” de ataques à soberania nacional.

Recentemente, num relatório entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e à Polícia Federal (PF), a Abin classificou como “crítico” o risco de interferência e influência dos EUA nas eleições brasileiras. O conteúdo do documento foi revelado pela jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. A Pública apurou que relatórios semelhantes vêm sendo produzidos desde novembro de 2025, quando a gestão de Trump passou a ampliar o plano de hegemonia na América Latina.

Parte da extrema-direita no Brasil tem visões ideológicas alinhadas à gestão trumpista. Essa ala extremista é observada, nas análises da Abin, como colaboradora dos interesses americanos no país. Os países latino-americanos já foram definidos como “quintal” de Washington pelo Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Peter Hegseth, em entrevista à Fox News no ano passado. A ascensão desta narrativa trumpista foi rebatida pelo presidente Lula em seu último discurso, na abertura da Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira, 22 de setembro. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, declarou o presidente, que também é candidato à reeleição.

Fontes da Abin contaram à reportagem, sob reserva, que o cerne do interesse dos EUA estaria na extração de terras raras — mais de 20% das reservas mundiais de terras raras estão no solo brasileiro. A Pública mostrou que, no início do mandato, Trump assinou um decreto para acelerar a produção de minerais críticos e reduzir a dependência do governo chinês. “(…) Minerais críticos são essenciais para a prontidão militar americana, já que eles são componentes-chave de jatos, satélites, submarinos, bombas e sistemas de mísseis guiados”, registra um trecho do decreto.

A Pública também apurou que a embaixada dos EUA no Brasil procurou o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcanti (RJ), para que ele recebesse dois enviados do Departamento de Estado. Segundo a apuração, a missão da dupla era lançar dúvidas sobre as urnas eletrônicas. O Itamaraty negou os vistos a Riley Bernes e Samuel Samson.

Em meio à tensão diplomática, o Ministério das Relações Exteriores ainda não deu aval à indicação de Donald Trump para a embaixada dos EUA no Brasil. O indicado foi o representante da Flórida  — equivalente a um deputado estadual —, Daniel Perez, cujo nome foi aprovado pelo Senado americano em 7 de agosto. Contudo, ele não pode assumir o cargo sem o agrément — norma da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, de 1961. O agrément é a aceitação do país que vai receber o indicado e vem antes da indicação, o que não ocorreu no caso brasileiro.

O parlamentar é fiel ao movimento nacionalista Make America Great Again (MAGA), amigo pessoal e integrante do mesmo grupo político de Marco Rubio. A Pública mostrou que Perez é peça importante no projeto expansionista de Trump e que seria uma figura relevante na tentativa de interferência no Brasil, inclusive no auxílio à formulação de leis no Congresso Nacional.

<><> Discursos intervencionistas no radar da Abin

O monitoramento da Abin abrange ainda discursos intervencionistas que possam “causar impacto nas instituições” e obter apoio popular e político para uma interferência americana. O acompanhamento dos agentes de inteligência é constante e poderia incluir políticos com mandatos e posicionamentos radicais, bem como pessoas com poder de mobilização, como influenciadores digitais de extrema-direita.

“As eleições brasileiras não têm, como há quatro anos, um cenário de abolição do Estado Democrático de Direito. Agora é um cenário de interferência externa em que o governo dos EUA tem preferência pelo campo opositor e vê nesse campo um facilitador de seus interesses unicamente americanos”, frisou uma fonte da Abin, sob condição de anonimato.

Ações para estimular o apoio à interferência americana foram intensificadas em 2026. Entre elas, a protagonizada por Marco Rubio em 16 de julho, quando convocou 66 países a se unirem a um projeto de combate ao que classificou como “terrorismo de extrema esquerda”. Sem provas, Rubio — filho de cubanos conservadores e integrante de uma elite econômica estabelecida na Flórida — acusou Cuba de espionagem e de infiltração no território americano.

Dois meses depois, em 22 de setembro, os 14 países da América Latina, membros do “Escudo das Américas” — aliança bélica criada por Donald Trump — assinaram um acordo para impor sanções às facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), a exemplo do congelamento de bens e de restrições à imigração e a vistos.

•        O Brasil não cabe no quintal de ninguém? Por Paulo Nogueira Batista Jr

No seu discurso na ONU, o presidente Lula soltou a frase: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém!” e foi interrompido por aplausos. Fiquei honrado com o fato de ele ter recorrido ao título de um livro meu, de 2019. A frase parece estar se tornando um slogan da campanha eleitoral. Quase desmaiei, cravejado de brilhantes, como diria Nelson Rodrigues.

Mas a frase é muito mais do que um slogan. Ela alude, primeiramente, às dimensões do nosso país, que é um dos gigantes do mundo. Temos o quinto maior território do planeta, a sétima maior população e o oitava economia do mundo. O Brasil faz parte de um grupo de apenas cinco países, juntamente com China, Índia, Rússia e Estados Unidos, que integram a lista das dez maiores nações em termos territoriais, demográficos e econômicos. Temos, também, imensas reservas de terras raras e minerais críticos, urânio, petróleo, minério de ferro, entre outros minerais. Temos a maior biodiversidade do mundo. Temos, além disso, uma belíssima tradição cultural nacional, que suscita a admiração de outros países. E, como se não bastasse, temos os brasileiros, um povo admirável em muitos sentidos, entre os quais humanidade, simpatia, cordialidade, criatividade e capacidade de trabalho.

E, no entanto, o leitor ou leitora há de ter reparado que eu coloquei um ponto de interrogação no título deste artigo. Por quê? É que a soberania e a integridade nacionais estão ameaçadas como nunca. Por dois motivos interligados. Primeiro, porque concorre à Presidência um Flávio Bolsonaro, que cabe no quintal de qualquer um. E disputa com chance de vencer, a julgar pelas pesquisas. Trata-se de um político que, entre muitos defeitos graves, se apresenta, sem nenhuma vergonha, como candidato a vassalo dos EUA de Trump! Basta lembrar que ele ofereceu generosamente criar, em caso de vitória eleitoral, “uma equipe de transição à disposição do governo americano”! Por incrível que possa parecer, essas foram as palavras textuais de uma carta de agradecimento de Marco Rubio, ministro das relações exteriores de Trump.

Há um agravante – e este é o segundo motivo do ponto de interrogação –  a fase em que se encontram os EUA, que seguem um imperialismo agressivo e intervencionista, que tem sido referido por alguns analistas, entre eles Vijay Prashad, como hiperimperialismo. Basta lembrar o que aconteceu na Venezuela, transformada em protetorado dos EUA. O governo Trump não esconde, antes proclama, as suas intenções. Afirmou em documentos oficiais e diversos pronunciamentos do presidente e seus ministros que o Hemisfério Ocidental, da Groenlândia à Patagonia, é sua área de influência exclusiva. Essa hegemonia sobre o hemisfério não estará completa sem a submissão do Brasil, o maior país da América Latina.

A forma mais fácil de alcançar esse objetivo é eleger um Flávio Bolsonaro. O Brasil será conquistado sem a necessidade de disparar um tiro sequer!

Caso Lula se eleja, o problema não estará resolvido. A verdade é que não estamos bem preparados para enfrentamentos militares. O problema é antigo. Escrevi a respeito em um dos capítulos de O Brasil não cabe no quintal de ninguém, sob o título “Um país desarmado”. Suponho que Lula e sua equipe estejam totalmente conscientes da urgência de reforçar a defesa nacional. Imagino que o esforço já tenha começado, ao menos em 2026, depois do que vimos na Venezuela, em Cuba e no Irã. Com base em nossos próprios recursos, reforçados por cooperação militar e tecnológica com países como França, Turquia, Irã, Rússia e China, e com um esforço concentrado do governo e do país, teremos condições de superar essa vulnerabilidade estratégica.

E retirar o ponto de interrogação da frase

•        Promessa de Flávio, aliança militar com EUA prevê controle de terras raras. Por Jamil Chade

Integrar o Escudo das Américas, como prometido por Flávio Bolsonaro, submeteria o Brasil a uma aliança militar com os EUA que prevê o controle do abastecimento de terras raras e recursos naturais.

Criado no início do ano, a iniciativa da Casa Branca conta com cerca de 20 países da região e, oficialmente, tem como objetivo combater o narcotráfico na América Latina.

Mas a reunião desta semana do bloco – a segunda realizada desde sua criação – revelou que a guerra contra as drogas é apenas uma camuflagem para o estabelecimento de uma estrutura política e militar dos EUA na região.

A suspeita é de que a principal função da aliança não seja lidar com o crime. Fontes ouvidas pelo ICL Notícias apontam que, nas reuniões, chamou a atenção dos demais governos a insistência dos EUA em incluir temas econômicos e comerciais sem qualquer tipo de vínculo com o narcotráfico. Pela primeira vez, ainda se falou de investimentos.

No texto, elaborado pelo Departamento de Estado e submetido aos demais países para aprovação, o governo norte-americano estabelece que as ambições da aliança vão muito além da questão de segurança.

Segundo o pacto, o fortalecimento da resiliência do hemisfério passa por três pilares. Um deles é o econômico, abandonando a ideia vendida inicialmente de que o Escudo das América lidaria apenas com o crime organizado. Agora, a aliança se compromete a “defender nossas economias mediante o fortalecimento da cooperação econômica”.

Pela primeira vez de forma pública, o governo norte-americano ainda cita na aliança militar que Flávio Bolsonaro quer aderir o acesso aos recursos naturais como estratégico para o grupo. A resiliência do continente, portanto, passaria pela “salvaguarda das cadeias de suprimento de minerais críticos por meio de fontes diversificadas e confiáveis”.

<><> Big Techs e China

O documento também propõe a “promoção de regulamentações sobre fornecedores confiáveis para infraestrutura digital, aplicadas de forma não discriminatória”. Os termos são usados para descrever condições ideias para as empresas americanas de tecnologia.

O pacto ainda usa uma manobra diplomática para falar da necessidade de que a região se afaste da China. Para isso, o texto diz que “a soberania econômica é defendida com sucesso quando o capital que ingressa em nossas nações é transparente e verificável”.

Ou seja, que venha de economias de mercado, e não de governos fechados. A referência soou um alerta de que o pacto esteja sendo criado para dificultar a entrada de investimentos chineses na região.

Outro destaque do pacto é a suposta defesa da “soberania nacional”. O uso do termo, porém, não se refere à ingerência americana, que é plena. Recorrer à defesa da soberania é a forma encontrada para rejeitar qualquer interferência chinesa nos processos políticos da região.

O documento ainda concluiu com um compromisso entre os países de que se comprometem em “fortalecer a cooperação por meio de um maior compartilhamento de inteligência; facilitar o acesso, quando apropriado, a tecnologias e capacidades de segurança; promover o treinamento e o desenvolvimento profissional de recursos humanos; e ampliar o intercâmbio de melhores práticas”.

“Os Estados participantes também pretendem aprofundar a cooperação em questões de investimento e economia, bem como fortalecer a consulta e a coordenação de posições comuns sobre temas de interesse compartilhado em fóruns regionais e multilaterais”, completa.

Nesta semana, ao final do encontro, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, admitiu que não existe mais apenas o foco nos cartéis.

“Esta é uma aliança importante também porque nos proporciona a oportunidade de agir conjuntamente em questões econômicas e diplomáticas. Podemos fazer ouvir nossa voz em uníssono e ganhar força por meio desse tipo de unidade, que é um dos aspectos em que estamos concentrando nossos esforços”, completou.

 

Fonte: Por Dyepeson Martins, da Agência Pública/ICL Notícias

 

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