Ultraprocessados:
estudo aponta maior risco de doenças e morte precoce
A
associação entre alimentos ultraprocessados (veja quadro) e doenças crônicas,
incluindo alguns tipos de câncer e obesidade, já está bem estabelecida. Agora,
porém, pesquisadores da China calcularam o quanto esses produtos podem impactar
no risco de sete enfermidades graves, além da chance de morte precoce por
qualquer causa. Publicado pelo grupo British Medical Journal, o estudo
baseia-se em dados de 8.819.894 adultos de 23 a 77 anos, distribuídos por todos
os continentes.
Financiados
pela Fundação Nacional de Ciências Naturais da China, os autores fizeram uma
das maiores revisões de pesquisas sobre a associação de ultraprocessados e
desfechos de saúde. Incluíram 51 estudos populacionais que acompanharam os
participantes por um prazo variando de dois a 32 anos. A análise apontou que o
consumo excessivo — acima de 20% da energia diária — dos produtos tem relação
com risco mais elevado de eventos cardiovasculares (24%), câncer (12%),
obesidade/sobrepeso (23%), síndrome metabólica/diabetes (24%),
depressão/ansiedade (27%), doenças digestivas (31%), hipertensão (11%) e morte
por qualquer causa.
Além
disso, cada 100g/dia de ultraprocessados adicionais estavam associados a mais
eventos cardiovasculares (14%), câncer (4%), síndrome metabólica/diabetes (2%),
além de morte por qualquer causa (3%). Segundo os pesquisadores, a análise de
dose-resposta foi um dos destaques do estudo, porque permitiu demonstram que,
estatisticamente, o risco varia conforme o aumento da quantidade
consumida.
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"Quanto menos, melhor"
“Produtos
ultraprocessados não são alimentos modificados, mas formulações com alto teor
de gorduras não saudáveis (frequentemente com níveis elevados de gorduras
saturadas ou trans), açúcares livres e sal —, além de aditivos destinados a
intensificar o impacto sensorial”, define Márcio Mancini, endocrinologista da
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Regional São Paulo
(Sbem-SP). O médico esclarece que, diferentemente de industrializados
minimamente processados, como a massa seca de macarrão, esses produtos contêm
pouco ou nenhum alimento em sua forma integral e são escassos em fibras
alimentares, compostos bioativos e micronutrientes.
Além
disso, a densidade energética dos ultraprocessados costuma ser alta —
salgadinhos têm 400-500 calorias por 100g, enquanto a mesma porção de barras
energéticas pode chegar a 400 calorias. Mancini destaca que, quando formulados
como bebidas, geralmente os produtos têm escassez ou ausência de nutrientes.
“Essas características tornam a maioria propensa a causar o consumo excessivo
de energia, levando a ganho de peso e obesidade. Eles também apresentam altas
cargas glicêmicas, o que faz com que desregulem a sinalização de saciedade e
controle do apetite, aumentando assim o risco de obesidade e diabetes.” Outro
ponto de preocupação é a adição de materiais como ftalatos e bisfenol,
incluídos para dar sabor e vida longa aos produtos, que podem ser prejudiciais.
No
estudo, os autores não chegam a definir um limite de consumo acima do qual os
ultraprocessados seriam inseguros. Para Márcio Mancini, porém, não há níveis
adequados. O médico lembra que, no artigo, os pesquisadores sugerem reduzir a
ingestão para 10% a 20% do habitual, mas esse dado é mais adequado para os
Estados Unidos e o Reino Unido, onde quase 60% das calorias diárias vêm desses
produtos. “Aqui no Brasil, há 40 anos, o percentual era 10%. Hoje, é 23%. A
recomendação é: quanto menos, melhor.”
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Nova
A
pesquisa, publicada ontem, utiliza a classificação Nova, desenvolvida pelo
médico epidemiologista brasileiro Carlos Augusto Monteiro, da Faculdade de
Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Segundo a categorização, não
se deve analisar apenas as calorias e nutrientes, mas analisar o grau de
processamento dos alimentos, que são divididos em in natura ou minimamente
processados; ingredientes culinários, alimentos processados e ultraprocessados.
“Esses últimos são formulações industriais feitas com ingredientes como
xaropes, amidos modificados, corantes, aromatizantes e emulsificantes, pensadas
para serem baratas, práticas e hiperpalatáveis”, explica o médico
endocrinologista Márcio Dytz, professor do Ceub.
Segundo
os autores do estudo, uma das hipóteses para explicar a associação encontrada
entre a ingestão desses produtos e o risco aumentado de doenças crônicas é a
alta densidade energética dos ultraprocessados. Como são produzidos para
favorecer o rápido consumo, isso retarda a percepção de saciedade e contribui
para uma maior ingestão de alimentos e ganho de peso.
O
artigo também discute possíveis efeitos relacionados à microbiota intestinal,
inflamação, estresse oxidativo e resistência à insulina. Além disso,
determinados compostos podem se formar durante o processamento térmico,
enquanto substâncias presentes em materiais de embalagem podem representar
outra possível fonte de exposição.
Embora
não defendam a proibição desses produtos, os autores defendem a redução por
alimentos menos processados. “Considerando que as doenças crônicas relacionadas
a alimentos ultraprocessados frequentemente se agrupam como multimorbidade,
reduzir o consumo desses alimentos e substituí-los por alternativas minimamente
processadas pode ser relevante para a prevenção de doenças crônicas e para o
manejo na atenção primária”, escreveram, no artigo.
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Três perguntas para Márcio Garrison, médico endocrinologista e prof
titular da Faculdade de Medicina do Ceub
·
O que pode ser considerado um consumo excessivo de
ultraprocessados?
Na
prática diária, considero excessivo quando o ultraprocessado deixa de ser
exceção e passa a ser a base do dia. É o refrigerante ou o suco de
caixinha diário, o presunto e o pão de forma no café da manhã, o biscoito ou o
salgadinho como lanche fixo e as refeições prontas várias vezes na semana. Nos
estudos analisados, quem tinha mais risco chegava a consumir de 30% a 50% das
calorias diárias desses produtos. Quando vejo que eles aparecem em quase todas
as refeições, principalmente em quem já tem obesidade, pré-diabetes ou
diabetes, esse é o sinal de alerta.
·
Os pesquisadores sugerem reduzir os ultraprocessados para
cerca de 10% a 20% da energia diária. Essa faixa já pode ser adotada como
recomendação médica?
Ainda
não como número validado, mas pode ser usada como metapragmática. Os
autores reforçam o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados no
mundo: nos EUA, eles atingiram um pico de 57% da ingestão calórica, e no
Brasil e no México houve um aumento de 10% para 23%. Por isso trato a
faixa de 10% a 20% como uma direção, e não como um limite comprovado. O Guia
Alimentar para a População Brasileira já dá a orientação mais sólida: fazer
da comida de verdade a base da alimentação e evitar ultraprocessados. Na
prática, isso significa reduzir de forma gradual a partir do consumo atual de
cada paciente, trocando por alternativas minimamente processadas em vez de
simplesmente proibir.
·
A cada 100g gramas adicionais de ultraprocessados por
dia, o estudo encontrou associação com 14% mais risco de eventos
cardiovasculares. Quais mecanismos metabólicos poderiam explicar essa relação?
É um
alerta relevante, já que 100g de ultraprocessados cabem facilmente na
rotina: basta um pacote de biscoito recheado ou um sanduíche de pão de
forma com presunto. O aumento de 14% no risco relativo é expressivo,
porque vale para cada 100g a mais por dia e se acumula com o consumo: quanto
maior for a quantidade de ultraprocessados na dieta, maior o risco. Os
mecanismos fazem sentido do ponto de vista metabólico. Esses produtos são
macios, calóricos e muito saborosos, então comemos mais rápido e em maior quantidade
antes de sentir saciedade. Tem muito açúcar, sal e gordura de má qualidade e
pouca fibra, o que favorece resistência à insulina, gordura abdominal, pressão
alta e alterações do colesterol. Há ainda indícios de que aditivos como
emulsificantes e adoçantes alteram a microbiota intestinal e aumentam a
inflamação e o estresse oxidativo. Além disso, substâncias que se formam no
processamento industrial, como a acrilamida, e compostos das embalagens, como
os bisfenóis, que interferem no sistema hormonal, se associam a maior risco
cardiovascular.
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Palavra de especialista - Durval Ribas Filho, médico nutrólogo, presidente da
Associação Brasileira de Nutrologia (Abran)
# De
olho no rótulo
Na
classificação de alimentos Nova, o ultraprocessado é considerado o pior. Mas é
importante que se diga que nem todo alimento industrializado é ultraprocessado.
Talvez seja esse o grande problema, é onde as pessoas efetivamente se
confundem, porque existem diferentes graus de processamento. Em tese, são
considerados ultraprocessados aqueles cujas formulações têm cinco ou mais
ingredientes cheios de aditivos, aromatizantes, espessantes, etc. É o caso de
macarrão instantâneo, nuggets, pão de forma industrializados, biscoitos
recheados. Falar como se todos industrializados fossem ultraprocessados é um
mito: sem dúvida alguma que, se tiver cinco ou mais ingredientes, aí entra
nessa categoria. Por isso, é sempre importante ver a rotulagem
nutricional.
<><> Classificação
Proposta
pela Faculdade de Saúde Pública da USP (Nupens), a Nova classifica os
alimentos em:
- In natura ou
minimamente processados: obtidos diretamente da natureza (plantas ou
animais) ou que sofreram alterações mínimas antes da compra (como limpeza,
remoção de partes não comestíveis, secagem, moagem, pasteurização ou
congelamento). Não contêm adição de sal, açúcar, óleos ou
gorduras. Exemplos: Frutas, legumes, verduras, arroz, feijão, carnes
frescas ou congeladas, leite pasteurizado e ovos.
- Ingredientes
culinários processados: substâncias extraídas de alimentos do grupo 1 ou
da natureza por meio de processos como prensagem, refino ou moagem. São
usados na cozinha para temperar e cozinhar os alimentos in
natura. Exemplos: óleos vegetais, manteiga, sal e açúcar.
- Processados:
produtos fabricados com a adição de sal, açúcar ou outra substância
culinária a um alimento in natura. Passam por métodos simples de
fabricação para aumentar a durabilidade ou realçar o sabor. Exemplos:
legumes em conserva, frutas em calda, queijos e pães artesanais ou simples
feitos apenas com farinha, água, sal e fermento.
- Ultraprocessados:
formulações industriais feitas inteiramente ou majoritariamente de
substâncias extraídas de alimentos (como amido, óleos, gorduras, açúcar e
proteínas isoladas), corantes, aromatizantes, realçadores de sabor e
outros aditivos cosméticos.
Exemplos:
refrigerantes, salgadinhos de pacote, biscoitos recheados, macarrão
instantâneo, "sopa" de pacote e embutidos (como salsicha e presunto)
Fonte:
Correio Braziliense

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