Em
meio à crise de conduta no STF, o silêncio do tribunal é o maior risco para a
democracia
Ao
final de uma semana de altas tretas, entre uma guerra de decisões monocráticas
e uma chuva de ofícios, os ministros do Supremo Tribunal Federal se sentaram
para discutir e decidir os rumos das investigações contra Alexandre de Moraes e
André Mendonça. Discutiram muito – não faltaram indelicadezas e grosserias –,
mas não decidiram nada. A situação ficou como estava: ninguém sabe se, como
ou quando serão investigados. Para
muitos, a lastimável sessão deixou a sensação de que o STF chegou ao fundo do
poço, mas temos motivos para crer que ainda existe um alçapão capaz de nos
levar ainda mais baixo.
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Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades
A
proximidade das eleições interferiu na não decisão do STF – e não foi por simples coincidência. Mas a questão mais importante a se perguntar
é o que sobrará do STF depois das eleições.
A redemocratização e a reforma do Judiciário apostaram na ampliação das
competências do Supremo. O tribunal tornou-se mais acessível às demandas da
sociedade, e, além de dar a última palavra, tem sido frequentemente convocado a
dar também a primeira. Dessa forma,
aceitou sem reservas mergulhar na judicialização da política. Hoje, a Corte acumula as funções de um
tribunal constitucional, tribunal de
recursos e a mais importante vara criminal do país – esta última fortemente
acionada nos últimos anos, depois que políticos passaram a enfrentar cada vez
mais processos criminais.
A
inserção do STF no jogo político foi normalizada. Para fugir ao volume
estratosférico dos processos, as decisões monocráticas, tomadas por um único
ministro, ficaram comuns. O resultado foi uma concentração de poder que
estabeleceu onze “quase-imperadores”, que disputam entre si com agressividade
semelhante à do jogo político. Contudo,
se o empoderamento do Judiciário gerou uma Corte muitas vezes disfuncional, não
se pode esquecer que foi esse mesmo tribunal que nos protegeu dos ataques ao
processo eleitoral, antes e depois de 2022. Foi
ali, também, o palco de um inédito julgamento de políticos e generais
que se uniram para tentar sufocar a
democracia.
Lembremos
que a democracia hoje é um valor sob ameaça. No Brasil e no mundo partidos e
governos de natureza autocrática vêm ganhando espaço. Nesse cenário, é preciso
pensar com cuidado no papel do STF.
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O ataque às instituições e o risco do retrocesso
A
Constituição de 1988 traz a democracia em seu DNA, ao instituir o Estado
Democrático de Direito. A Carta Cidadã se destaca por seu perfil inclusivo, incorporando
fundamentos, objetivos e direitos que ampliaram substancialmente tanto a
participação e o acesso da população a direitos, quanto a capacidade de
contestação das decisões do Estado. ‘O enfraquecimento do Judiciário é um objeto de desejo de quem pretende esvaziar
a democracia’.
É verdade que parte considerável da alma social
do texto original da Constituição se perdeu com as reformas neoliberais
empreendidas nos mandatos de FHC, além
da destruição dos direitos trabalhistas sob Michel Temer. Porém, é
importante destacar que o enfraquecimento do Judiciário é um objeto de desejo de quem pretende esvaziar
a democracia. O método mais empregado para isso tem sido sua captura.
Nos
Estados Unidos, embora haja alternância dos partidos no poder, os conservadores
mantêm a prevalência na Suprema Corte. A composição do Judiciário é um dos
temas mais estratégicos para Donald Trump, que parte para o confronto aberto
quando suas decisões são minimamente questionadas. Os exemplos incisivos de
captura na Hungria, na Polônia e a tentativa em Israel mostram a importância
que os novos regimes autoritários dedicam ao controle dos tribunais.
Na
campanha de 2018, Jair Bolsonaro lançou como balão de ensaio a ideia de ampliar
o STF para 21 ministros. A proposta não ganhou espaço à época, mas a intenção
de controle permaneceu. Ao concluir sua
segunda nomeação, com a posse de
André Mendonça, o então presidente afirmou: “temos 2 ministros, 20% daquilo que
gostaríamos”. Seu filho, atual candidato à sucessão de Lula, se vangloria de que, caso eleito, nomearia outros cinco
ministros, contando com a vaga de Barroso (que a oposição impediu o atual governo
de ocupar) e a de Alexandre de Moraes, a quem pretende cassar.
Não é
novidade que o bolsonarismo se mobilizava para propor impeachments a ministros
do STF, sobretudo devido às condenações criminais e à prisão de Bolsonaro pelos
atos golpistas, que hoje buscam anistiar.
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O STF tem falhas, mas sua destruição é o caminho do autoritarismo
Por
mais constrangedora que tenha sido a fatídica sessão de 15 de setembro, por
menos que os ministros consigam se isolar
das pressões políticas, por mais evidente que seja a necessidade de
desinflar as competências do STF, a ideia de caos e destruição que vai se
espalhando só facilita o caminho
daqueles que pretendem governar sem limites. Temos uma institucionalidade com
inúmeras falhas – a força desproporcional do poder econômico, aliás, é um
defeito estrutural da democracia liberal. Mas é preciso ter cuidado para não
descartar o essencial ao tentar corrigir os erros. O STF pode até estar falando
mal e porcamente; mas, quando ele se cala, é a democracia que morre.
• Próximo presidente poderá redesenhar um
terço do STF
O
Supremo Tribunal Federal (STF) passará por uma mudança significativa na sua
composição nos próximos quatro anos. Três ministros da Corte atingirão no
período a idade-limite de 75 anos para aposentadoria compulsória. Há ainda uma
vaga em aberto desde o ano passado, que só deve ser preenchida após o fim do
ciclo eleitoral.
Com
quatro das 11 vagas do STF a preencher, o presidente da República escolhido
nesta eleição terá poder de influenciar a composição de um terço das vagas do
Supremo, a mais alta instância judiciária do país, com potencial de impactar
decisivamente o resultado de julgamentos e provocar alterações em
jurisprudências.
Esse
número de vagas abertas a serem preenchidas em apenas um mandato não é visto
desde o primeiro governo de Dilma Rousseff (2011-2014) e ocorre num momento
tenso para o STF, assolado por escândalos e crises internas.
Prerrogativa
do presidente da República, o poder das indicações também ganhou espaço na
campanha eleitoral, não só na disputa pelo Planalto, mas também pelas vagas no
Senado – Casa do Congresso que tem a palavra final sobre a aprovação dos nomes.
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Uma vaga em aberto e três ministros de saída até o fim de 2030
No
momento, a Corte de 11 membros conta com apenas dez ministros. O desfalque é
resultado da aposentadoria antecipada de Luís Roberto Barroso no ano passado e
a rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para a vaga em abril
deste ano. Teoricamente, o presidente Lula ainda poderia indicar um nome para a
cadeira ainda no atual mandato, mas a expectativa é que uma nova indicação –
qualquer que seja o presidente da República – só seja apreciada a partir de
fevereiro de 2027, após a votação que vai definir a nova presidência do Senado.
Além da
vaga em aberto, três ministros vão atingir a idade de aposentadoria de 75 anos
até o fim do próximo mandato presidencial, em 2030. Luiz Fux, indicado por
Dilma Rousseff em 2011, deixará o cargo até 26 de abril de 2028. Cármen Lúcia,
levada ao STF por Lula em 2006, deverá sair até 19 de abril de 2029. O nome
seguinte é Gilmar Mendes, indicado em 2002 por Fernando Henrique Cardoso. O
prazo máximo para sua saída é 30 de dezembro de 2030, no final do próximo
governo, o que pode fazer com que a escolha fique com o presidente seguinte. No
entanto, há expectativa de que Gilmar antecipe sua aposentadoria para ajudar a
costurar a indicação de um substituto e manter influência.
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A importância de emplacar indicados
Para o
candidato Flávio Bolsonaro e a extrema direita, uma vitória na eleição
presidencial pode abrir porta para ampliar o número de ministros alinhados com
seu espectro político de dois para seis, garantindo uma maioria conservadora no
STF. Já para Lula, uma vitória também abriria a oportunidade de formar maioria
com figuras mais próximas do Planalto – nenhum dos ministros de saída é
considerado especialmente próximo do petista – e possivelmente de reapresentar
a indicação de Messias. Mas a importância das indicações vai além da formação
de maioria no colegiado de 11 votos. Na última década, presidentes têm
priorizado a indicação de figuras próximas, incluindo ex-membros do governo ou
de pessoas relacionadas ao seu círculo pessoal, que podem fazer a diferença
apenas com decisões monocráticas.
Michel
Temer, em 2017, indicou Alexandre de Moraes, seu ex-ministro da Justiça, para o
Tribunal. No governo Jair Bolsonaro, o nome de Kassio Nunes Marques foi
promovido pelo filho "01" do presidente, Flávio Bolsonaro, e seu
ex-advogado Frederick Wassef. Já André Mendonça havia ocupado tanto a chefia da
Advocacia-Geral da União (AGU) quanto do Ministério da Justiça. Já Lula
emplacou no terceiro mandato Cristiano Zanin, ex-advogado que o representou
durante a Lava Jato, e Flávio Dino, que ocupou a pasta da Justiça no seu
governo. Já Messias, que foi rejeitado pelo Senado, ocupava o cargo de AGU no
governo Lula. "Com a prerrogativa de indicação sendo do presidente da
República, é óbvio que ele vai indicar aqueles que na grande maioria das vezes
tenham elementos de valores ou mesma visão de mundo ideologicamente mais
próxima", aponta Rodrigo Prando, cientista político da Universidade
Presbiteriana Mackenzie.
Essa
tendência contrastou com os anos de Dilma Rousseff, que na maioria das suas
indicações não priorizou nomes do seu círculo pessoal ou ex-membros do seu
governo. No terceiro mandato de Lula, ministros indicados pelo presidente têm
tomado decisões que reforçaram o poder do Planalto.
Em
2024, o ministro Flávio Dino, que chegou ao STF no mesmo ano, mandou suspender
a execução de diversas emendas parlamentares conhecidas como "Orçamento
Secreto", que nos últimos anos vinham diminuindo o poder de influência do
Planalto em gastos públicos.
Com uma
base estremecida e lidando com bancadas de oposição hostis, dificilmente o
governo teria conseguido convencer o Congresso a aprovar uma reforma dessas
emendas, mas a ação de apenas um ministro mudou a dinâmica. "O Orçamento
tem que estar na mão do Executivo", disse Lula em abril deste ano.
"Isso está até sendo corrigido, o [ministro do STF] Flávio Dino está até
tomando medidas corretas", completou.
Zanin,
em seu primeiro ano no STF, também tomou uma decisão que beneficiou o governo
Lula frente ao Congresso empoderado, ao suspender trechos de uma medida
aprovada pelo Congresso que havia prorrogado a desoneração da folha de empresas
e prefeituras, algo que havia provocado oposição da equipe econômica do
governo.
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O fator Senado
Cabe ao
presidente da República indicar nomes para compor o colegiado do STF. O
indicado deve ser brasileiro nato com "reputação ilibada",
"notável saber jurídico" e ter mais de 35 anos. Mas a palavra final
sobre a ascensão de um indicado ao tribunal é prerrogativa do Senado. E nos
últimos anos a câmara alta do Congresso brasileiro tem ampliado sua influência
no processo, não se contentando em simplesmente carimbar imediatamente
indicações do Planalto. "O Senado está muito mais ativo nesta questão da
sabatina e da reprovação", aponta o cientista político Rodrigo Prando.
Pelo
rito do Senado, o indicado precisa ser sabatinado pela Comissão de Constituição
e Justiça (CCJ) e, depois, aprovado pelo plenário da Casa. O caso de Messias,
que marcou a primeira rejeição de um indicado pelo Planalto em 130 anos,
demonstrou como pode ser difícil para um governo garantir os votos para a
aprovação e contornar intrigas do Senado. À época, o presidente do Senado, Davi
Alcolumbre, tinha preferência pela indicação do senador Rodrigo Pacheco para a
vaga, ainda mais depois de Lula ter emplacado dois aliados, Cristiano Zanin e
Flávio Dino, para duas vagas anteriores. Alcolumbre foi ativo na articulação
para a rejeição de Messias, que só conseguiu 34 dos 41 votos necessários.
No caso
do governo Jair Bolsonaro, a influência do Senado se fez sentir no calendário.
O Senado não decide apenas se uma indicação será aprovada ou rejeitada, mas
também o ritmo de avanço.
O
primeiro indicado de Bolsonaro, Kassio Nunes Marques, foi aprovado em 2020 sem
sobressaltos pela Casa três semanas depois de ter seu nome indicado, com 57
votos favoráveis, 10 contrários e uma abstenção. Já o segundo indicado, André
Mendonça, enfrentou mais resistência em 2021, tendo que aguardar quase cinco
meses por sua sabatina. Ele acabou aprovado pelo plenário com 47 votos
favoráveis e 32 contrários. "A agenda está nas mãos do presidente do
Senado. Se ele quiser é rápido. Se não quiser, será um processo lento",
explica o professor Prando.
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Indicações ao STF entram na campanha eleitoral - especialmente entre a direita
O tema
da crise do STF, incluindo a possibilidade de impeachment de ministros, invadiu
debates e sabatinas locais de candidatos ao Senado, tomando o lugar de pautas
estaduais. Neste ano, 54 vagas do Senado estão em disputa, duas por estado e
pelo Distrito Federal. Os eleitos se juntarão a 27 senadores já escolhidos em
2022.
A
abertura das vagas no STF tem sido especialmente explorada pela campanha do
senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, que tem usado o poder
presidencial de indicação como um fator para agitar sua base conservadora e
antipetista. "Nós não vamos permitir que o Lula indique mais quatro
Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal Federal", disse Flávio num
comício no início de setembro em São Paulo.
Além de
aprovar ou rejeitar as indicações de ministros, o Senado tem poder de remover
ministros do STF, algo expresso na Constituição de 1988.
Candidatos
de extrema direita ao Senado, especialmente nomes do PL, têm explorado nas suas
campanhas o recente desgaste da Corte e destacado que pretendem usar os
mandatos para pressionar pela saída de ministros. No mesmo comício em SP,
Flávio falou em indicar "cinco nomes", contando que o ministro
Alexandre de Moraes perca o cargo.
O
jornal Gazeta do Povo, alinhado com o bolsonarismo, elaborou uma lista de 98
candidatos ao Senado pelo país que são favoráveis ao impeachment de ministros
de STF. "Os bolsonaristas, a
direita, a extrema direita são muito mais enfáticos nessa disputa de
território, de espaço dentro do Senado do que a esquerda", avalia o
professor Prando, que vê o Senado como nova arena anti-STF, em contraste com o
governo de Jair Bolsonaro, no qual o Planalto liderou a ofensiva contra o
Judiciário.
Mais
recentemente, Lula também passou a fazer apelos para que seu eleitorado também
foque na disputa do Senado. "O que está em jogo é muito sério. Se a gente
não fizer maioria no Senado, corremos o risco desse país entrar numa crise sem
precedente", disse Lula num ato no Rio de Janeiro nesta semana.
Os
rivais bolsonaristas de Lula não têm mirado apenas o crescimento da sua
bancada, mas também o controle do Senado.
"A presidência do Senado é que tem o controle da pauta e que decide
se vai ou não pautar impeachment de um ministro do Supremo. É uma coisa que o
Davi Alcolumbre nunca se colocou para fazer, e que ele diz que não pretende
fazer enquanto for presidente", diz Prando.
Projeções
apontam que o PL do clã Bolsonaro pode ampliar seu número de senadores de 15
para 21, contando senadores já eleitos em 2022. Um número insuficiente para
aprovar o impeachment de ministros – são necessários 54 votos. Já o PT pode
passar de 9 para 11 cadeiras – a esquerda pode vir a contar com 20 cadeiras se
somadas outras legendas.
Pelas
projeções, tanto Lula quanto Flávio devem depender de negociações com eventuais
aliados, especialmente do Centrão, para conquistar 41 votos para garantir a
aprovação de indicados ao STF ou promover reformas na Corte. "Qualquer que
seja o eleito, ele vai ter que negociar. Nós temos essa questão do desenho
institucional. Não são apenas os votos necessários, a agenda está nas mãos do
presidente do Senado", conclui Prando, reforçando que a prerrogativa da
indicação é do presidente da República, mas que a palavra final está mesmo nas
mãos do Senado.
Fonte:
Por Márcia Maria Barreta Fernandes Semer e Marcelo Semer, em The Intercept/DW
Brasil

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