segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Iara Vidal: ‘Moda, hiperimperialismo e o papel da China no mundo atual’

Mal começou 2026 e o mundo já acompanha o avanço agressivo de uma política externa conduzida por Donald Trump em confronto aberto com o direito internacional. A ameaça à soberania de povos e nações deixou de ser retórica e voltou a se manifestar de forma direta, sem disfarces. Fica cada vez mais claro: entramos de vez na era do hiperimperialismo.

<><> Mas o que isso tem a ver com moda?

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Talvez mais do que parece à primeira vista. Para tentar entender esse mundo em transformação — e como o poder global passou a atuar menos pela força visível e mais pela organização de regras, desejos e comportamentos — vale olhar para algo cotidiano, concreto e presente na vida de todos nós: as roupas que vestimos.

<><> Quando o império mandava até no jeito de vestir

No imperialismo clássico, dos séculos 19 e início do 20, o poder era territorial, explícito e hierárquico. Impérios dominavam outros povos por meio da ocupação militar, da colonização direta e do controle político-administrativo. Essa dominação também aparecia na forma de vestir.

O terno europeu, o vestido vitoriano e o uniforme colonial funcionavam como marcadores civilizatórios. Vestir-se “à moda do império” significava acesso à modernidade e proximidade com o poder. Já quem mantinha seus próprios modos de vestir era tratado como atrasado, exótico ou inferior.

A moda ajudava a organizar a hierarquia colonial. Era um soft power simples, visível e subordinado à força. O império vestia o dominado — e deixava claro quem mandava.

<><> Doutrina Monroe e o retorno da lógica colonial

A leitura crítica desse novo estágio do poder global não se restringe ao campo acadêmico. Ela aparece de forma explícita também na diplomacia chinesa, que tem alertado para o retorno de práticas coloniais sob novas roupagens.

Em artigo publicado pelo Ministério das Relações Exteriores da China, o analista Lu Daxin denuncia a reativação da lógica da Doutrina Monroe no século21, marcada pelo uso unilateral da força, pela relativização do direito internacional e pela tentativa de subordinar regiões inteiras a interesses estratégicos de uma única potência.

Ao afirmar que “quando a lei da selva substitui as normas internacionais, nenhum Estado soberano está seguro”, o texto sintetiza uma preocupação central do debate atual: a passagem de uma ordem baseada em regras compartilhadas para uma dinâmica em que poder, tecnologia e coerção se combinam para redefinir, de forma assimétrica, os limites da soberania nacional.

<><> Do canhão ao cardigan: quando o poder muda de roupa

Antes de seguir, vale um esclarecimento. Hiperimperialismo não é um conceito clássico da teoria política, como o imperialismo formulado no fim do século 21. Trata-se de uma ferramenta crítica, ainda em disputa, usada para compreender um mundo em que a dominação já não se dá principalmente pela ocupação de territórios, mas pela organização de sistemas, regras e fluxos globais.

A partir dessa chave, a mudança se torna visível. O poder deixa de se expressar sobretudo por canhões, fronteiras e colônias. Passa a operar de forma global, permanente e extraterritorial, organizando fluxos financeiros, cadeias produtivas, tecnologias, informação e narrativas. O controle já não depende da presença física, mas da capacidade de estruturar o funcionamento do mundo.

<><> Big techs: o novo eixo do poder

É nesse ponto que entram as big techs. Plataformas digitais deixaram de ser apenas empresas de tecnologia ou comunicação. Tornaram-se infraestruturas privadas de poder, responsáveis por organizar visibilidade, circulação de informação, consumo e desejo.

Algoritmos decidem o que aparece, o que some, o que vira tendência e o que é silenciado — tudo apresentado como conveniência, personalização e escolha. No hiperimperialismo, as big techs cumprem um papel que antes era típico do Estado imperial: ordenar o mundo sem se apresentar como poder.

<><> Moda, plataformas e a indução do desejo

A moda acompanha — e revela — essa transformação. Deixa de ser apenas símbolo e passa a funcionar como infraestrutura simbólica integrada às plataformas digitais. Já não se impõe um traje específico. O que se impõe é o desejo, mediado por telas, métricas, engajamento e dados.

A pergunta deixa de ser “o que vestir?” e passa a ser “quem você pode ser dentro desse sistema?”. O poder não proíbe: induz. Não manda: orienta. Não ocupa com tropas: ocupa o imaginário.

<><> Fast fashion e a ocupação da atenção

O fast fashion e o ultrafast fashion não são apenas modelos produtivos. São expressões diretas desse novo tipo de poder. A produção se concentra no Sul Global, enquanto o consumo é organizado por plataformas digitais que aceleram tendências, encurtam ciclos e padronizam estéticas em escala global.

Algoritmos detectam comportamento, transformam desejo em dado, dado em tendência e tendência em produção acelerada. A roupa vira conteúdo. O conteúdo vira engajamento. O engajamento vira lucro — tudo embalado pelo discurso da liberdade individual.

Não é preciso ocupar territórios. Basta ocupar a atenção.

Ao mesmo tempo, esse modelo destrói economias locais, apaga modos de vestir não rentáveis e transforma identidade em mercadoria descartável. A diversidade existe, mas dentro de limites claros: precisa ser rápida, vendável e despolitizada.

<><> A estética como fronteira política

A estética deixa de ser detalhe e vira fronteira política. A moda passa a definir quem é visto como “global”, “cool” ou “moderno” — e quem é tratado como atrasado, autoritário ou estranho.

Não é coincidência que líderes que fogem do terno ocidental sejam descritos como exóticos ou bárbaros. Nem que roupas tradicionais só sejam aceitas como folclore. Quando essas estéticas se transformam em afirmação política, passam a incomodar.

O problema quase nunca é a roupa. É o corpo político que a veste — e o projeto de mundo que ele representa.

<><> Vestir também é escolher um lado

Com isso, vestir-se fora do script deixa de ser apenas gosto pessoal. Misturar referências, valorizar símbolos locais ou recusar a neutralidade estética passa a ser forma de disputa simbólica.

No hiperimperialismo, o corpo é território. E a roupa é a linguagem da ocupação — ou da recusa.

<><> China: soberania, diversidade e a transição da ordem global

A China ocupa uma posição singular neste momento de transição da ordem internacional. No plano político e diplomático, o país tem reiterado a defesa do direito internacional, da soberania dos Estados e da coexistência entre diferentes caminhos de desenvolvimento.

Esse posicionamento está presente desde os Cinco Princípios da Coexistência Pacífica, formulados nos anos 1950, até conceitos mais recentes como o de uma “comunidade com futuro compartilhado para a humanidade”, apresentados em fóruns multilaterais.

A ideia central é que não existe um único modelo legítimo de modernidade, desenvolvimento ou organização social. Cada país deve ter o direito de seguir seu próprio caminho, inclusive no campo cultural.

No debate sobre moda e consumo, esse princípio se traduz na defesa da diversidade de expressões culturais e da rejeição à padronização simbólica imposta por um centro único de poder. Em contraste com uma lógica hiperimperial que hierarquiza gostos, estilos e modos de vida, a China afirma a legitimidade de múltiplas modernidades convivendo no sistema internacional.

Ao mesmo tempo, a China é hoje um dos principais polos da produção industrial global e desempenha papel central nas cadeias internacionais de valor, inclusive na indústria têxtil. Essa posição reflete a inserção do país em um sistema econômico global já estruturado, marcado por cadeias produtivas extensas, plataformas digitais e padrões de consumo acelerado.

Essa realidade evidencia os desafios de uma ordem internacional em transformação. A China atua dentro de um sistema herdado, ao mesmo tempo em que defende, no plano político, a necessidade de reformar as regras globais, ampliar o espaço para a soberania dos países e construir formas mais equilibradas de cooperação e desenvolvimento.

Na moda, essa transição se torna visível. O debate deixa de ser sobre quem produz e passa a ser sobre quem define os padrões, quem organiza os fluxos e quem controla os mecanismos simbólicos e tecnológicos que moldam o consumo global.

<><> O poder por trás do que vestimos

Se o imperialismo clássico se baseava na dominação territorial, o hiperimperialismo atua organizando regras, fluxos, tecnologias e desejos. As big techs são peças centrais dessa engrenagem, e a moda é uma das linguagens mais eficazes para tornar esse poder visível no cotidiano.

Entender o que vestimos — onde é produzido, por quem, sob quais regras e mediado por quais plataformas — ajuda a compreender como o mundo está sendo organizado hoje, quem define os padrões globais e por que a disputa atual é menos sobre territórios e mais sobre soberania, autonomia e futuro.

¨      Trump estendeu tapete vermelho para Xi — mas líder chinês não conseguiu tudo o que queria

As cúpulas dos presidente Xi Jinping, da China, e Donald Trump, dos Estados Unidos, costumam ter um objetivo claro.

A China acredita que os EUA estão tentando conter sua ascensão como superpotência e quer que Washington fique fora do seu caminho, principalmente no que diz respeito a comércio, tecnologia e Taiwan.

Na visita realizada esta semana, porém, apesar de Trump ter lhe estendido o tapete vermelho, o líder chinês não conseguiu tudo o que queria.

A trégua comercial que permitiu a ambos os países suspenderem uma guerra tarifária de retaliações mútuas e evitarem uma escalada ainda maior, foi prorrogada por apenas alguns meses — de novembro a janeiro. Pequim queria que fosse uma extensão de pelo menos um ano.

Isso significa que as principais disputas sobre tarifas, o domínio da China no fornecimento de terras raras e o acesso a chips avançados dos EUA estão sendo adiadas para uma futura rodada de negociações.

Isso sugere que os EUA querem que a China faça mais para cumprir sua parte do acordo antes de oferecer concessões de longo prazo.

A verdade incômoda para Xi é que sua economia doméstica está em apuros. Embora o país venda um número recorde de mercadorias em todo o mundo, os chineses estão segurando o consumo. O desemprego entre jovens permanece alto e os preços dos imóveis despencaram em um país onde 80% das pessoas possuem casa própria.

O comércio está ajudando a impulsionar o crescimento, tornando o acesso aos mercados estrangeiros mais importante do que nunca. Xi precisa proteger essas exportações das tarifas debilitantes que os EUA impuseram no ano passado.

Quanto a Taiwan, Xi deixou claro mais uma vez que Pequim considera inaceitáveis as vendas de armas americanas à ilha.

Os EUA são obrigados por lei a fornecer à ilha autogovernada os meios para se defender.

Em maio, Xi alertou Trump que uma condução inadequada da questão poderia levar os dois países a "colidirem ou até mesmo entrarem em conflito".

Trump então adiou a aprovação de um pacote de armas de US$ 14 bilhões para Taiwan, que ele classificou como uma "ótima moeda de troca" com Pequim.

Xi pode ter aproveitado essa brecha durante as negociações e provavelmente argumentou que restringir o apoio a Taiwan reduz o risco de conflito.

Na quinta-feira (24/09), ele reiterou sua esperança de que os EUA se mantivessem na "posição correta" de se opor à independência de Taiwan.

No entanto, Trump — que está sofrendo pressão bipartidária para manter o apoio dos EUA a Taiwan — ainda não se manifestou publicamente sobre os comentários do líder chinês.

Os dois líderes discutiram a inteligência artificial, embora não esteja claro se concordaram com alguma medida de segurança.

Todas as atenções estavam voltadas para a possibilidade de os dois líderes tomarem alguma decisão concreta sobre IA, como um acordo para realizar uma cúpula sobre o tema, após um artigo do CEO da Anthropic, Dario Amodei, defendendo uma desaceleração do desenvolvimento da IA para torná-la mais segura. O texto foi publicado depois que um dos principais pesquisadores de segurança da empresa alertou que havia uma "probabilidade superior a 10%" de que a IA pudesse causar a extinção da humanidade.

Mas, além de Xi ter falado sobre a importância de garantir que a IA "esteja sempre sob controle humano", não houve mais detalhes. Trump, por sua vez, descartou recentemente os temores de extinção da humanidade devido à tecnologia, classificando-os como uma "farsa".

E, claro, não podemos nos esquecer dos pandas. O presente de Ping Ping e Fu Shuang para um zoológico de Atlanta foi anunciado pela primeira vez em abril, mas Xi Jinping agora anunciou que eles chegarão em poucos dias, com a retomada da diplomacia chinesa dos pandas.

Novos anúncios ainda podem ser feitos, enquanto os dois se preparam para um encontro para tomar chá e visitar os Arquivos Nacionais nesta sexta-feira (25/09).

Mas, por ora, uma das maiores vitórias da cúpula para Pequim pode ter sido sobre sua imagem pública.

A recepção suntuosa, com cumprimentos pessoais no aeroporto e um banquete de Estado com robalo em crosta de gergelim e bok choy (uma espécie de repolho comum na China) refogado, foi muito elogiada por quem acompanhava o evento da China. Isso deve ter contribuído para reforçar a imagem de Xi, perante o público chinês, como um líder em pé de igualdade com Trump.

Memes contrastando os dois líderes se espalharam pelas redes sociais chinesas. Uma imagem popular mostra Trump fazendo careta enquanto jatos sobrevoam o local, enquanto Xi permanece impassível.

Xi Jinping encontrou uma maneira de lidar com um dos líderes mais imprevisíveis do mundo. Mas enquanto Trump fala de uma "amizade verdadeiramente grandiosa", o líder chinês está focado em algo maior: garantir o lugar da China ao lado dos Estados Unidos como uma superpotência.

Os pandas, o espetáculo e as palavras amáveis podem ajudar a suavizar essa relação. Mas, por trás de toda a pompa, a competição entre os dois países mais poderosos do mundo permanece tão acirrada como sempre.

 

Fonte: Opera Mundi/BBC News

 

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