Iara
Vidal: ‘Moda, hiperimperialismo e o papel da China no mundo atual’
Mal
começou 2026 e o mundo já acompanha o avanço agressivo de uma política externa
conduzida por Donald Trump em confronto aberto com o direito internacional. A
ameaça à soberania de povos e nações deixou de ser retórica e voltou a se
manifestar de forma direta, sem disfarces. Fica cada vez mais claro: entramos
de vez na era do hiperimperialismo.
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Mas o que isso tem a ver com moda?
Tudo
que a grande mídia não mostra, do seu jeito.
Talvez
mais do que parece à primeira vista. Para tentar entender esse mundo em
transformação — e como o poder global passou a atuar menos pela força visível e
mais pela organização de regras, desejos e comportamentos — vale olhar para
algo cotidiano, concreto e presente na vida de todos nós: as roupas que
vestimos.
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Quando o império mandava até no jeito de vestir
No
imperialismo clássico, dos séculos 19 e início do 20, o poder era territorial,
explícito e hierárquico. Impérios dominavam outros povos por meio da ocupação
militar, da colonização direta e do controle político-administrativo. Essa
dominação também aparecia na forma de vestir.
O terno
europeu, o vestido vitoriano e o uniforme colonial funcionavam como marcadores
civilizatórios. Vestir-se “à moda do império” significava acesso à modernidade
e proximidade com o poder. Já quem mantinha seus próprios modos de vestir era
tratado como atrasado, exótico ou inferior.
A moda
ajudava a organizar a hierarquia colonial. Era um soft power simples, visível e
subordinado à força. O império vestia o dominado — e deixava claro quem
mandava.
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Doutrina Monroe e o retorno da lógica colonial
A
leitura crítica desse novo estágio do poder global não se restringe ao campo
acadêmico. Ela aparece de forma explícita também na diplomacia chinesa, que tem
alertado para o retorno de práticas coloniais sob novas roupagens.
Em artigo publicado
pelo Ministério das Relações Exteriores da China, o analista Lu Daxin
denuncia a reativação da lógica da Doutrina Monroe no século21, marcada pelo
uso unilateral da força, pela relativização do direito internacional e pela
tentativa de subordinar regiões inteiras a interesses estratégicos de uma única
potência.
Ao
afirmar que “quando a lei da selva substitui as normas internacionais, nenhum
Estado soberano está seguro”, o texto sintetiza uma preocupação central do
debate atual: a passagem de uma ordem baseada em regras compartilhadas para uma
dinâmica em que poder, tecnologia e coerção se combinam para redefinir, de
forma assimétrica, os limites da soberania nacional.
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Do canhão ao cardigan: quando o poder muda de roupa
Antes
de seguir, vale um esclarecimento. Hiperimperialismo não é um conceito
clássico da teoria política, como o imperialismo formulado no fim do século 21.
Trata-se de uma ferramenta crítica, ainda em disputa, usada para compreender um
mundo em que a dominação já não se dá principalmente pela ocupação de territórios,
mas pela organização de sistemas, regras e fluxos globais.
A
partir dessa chave, a mudança se torna visível. O poder deixa de se expressar
sobretudo por canhões, fronteiras e colônias. Passa a operar de forma global,
permanente e extraterritorial, organizando fluxos financeiros, cadeias
produtivas, tecnologias, informação e narrativas. O controle já não depende da
presença física, mas da capacidade de estruturar o funcionamento do mundo.
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Big techs: o novo eixo do poder
É nesse
ponto que entram as big techs. Plataformas digitais deixaram de ser apenas
empresas de tecnologia ou comunicação. Tornaram-se infraestruturas privadas de
poder, responsáveis por organizar visibilidade, circulação de informação,
consumo e desejo.
Algoritmos
decidem o que aparece, o que some, o que vira tendência e o que é silenciado —
tudo apresentado como conveniência, personalização e escolha. No
hiperimperialismo, as big techs cumprem um papel que antes era típico do Estado
imperial: ordenar o mundo sem se apresentar como poder.
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Moda, plataformas e a indução do desejo
A moda
acompanha — e revela — essa transformação. Deixa de ser apenas símbolo e passa
a funcionar como infraestrutura simbólica integrada às plataformas digitais. Já
não se impõe um traje específico. O que se impõe é o desejo, mediado por telas,
métricas, engajamento e dados.
A
pergunta deixa de ser “o que vestir?” e passa a ser “quem você pode ser dentro
desse sistema?”. O poder não proíbe: induz. Não manda: orienta. Não ocupa com
tropas: ocupa o imaginário.
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Fast fashion e a ocupação da atenção
O fast
fashion e o ultrafast fashion não são apenas modelos produtivos. São expressões
diretas desse novo tipo de poder. A produção se concentra no Sul Global,
enquanto o consumo é organizado por plataformas digitais que aceleram
tendências, encurtam ciclos e padronizam estéticas em escala global.
Algoritmos
detectam comportamento, transformam desejo em dado, dado em tendência e
tendência em produção acelerada. A roupa vira conteúdo. O conteúdo vira
engajamento. O engajamento vira lucro — tudo embalado pelo discurso da
liberdade individual.
Não é
preciso ocupar territórios. Basta ocupar a atenção.
Ao
mesmo tempo, esse modelo destrói economias locais, apaga modos de vestir não
rentáveis e transforma identidade em mercadoria descartável. A diversidade
existe, mas dentro de limites claros: precisa ser rápida, vendável e
despolitizada.
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A estética como fronteira política
A
estética deixa de ser detalhe e vira fronteira política. A moda passa a definir
quem é visto como “global”, “cool” ou “moderno” — e quem é tratado como
atrasado, autoritário ou estranho.
Não é
coincidência que líderes que fogem do terno ocidental sejam descritos como
exóticos ou bárbaros. Nem que roupas tradicionais só sejam aceitas como
folclore. Quando essas estéticas se transformam em afirmação política, passam a
incomodar.
O
problema quase nunca é a roupa. É o corpo político que a veste — e o projeto de
mundo que ele representa.
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Vestir também é escolher um lado
Com
isso, vestir-se fora do script deixa de ser apenas gosto pessoal. Misturar
referências, valorizar símbolos locais ou recusar a neutralidade estética passa
a ser forma de disputa simbólica.
No
hiperimperialismo, o corpo é território. E a roupa é a linguagem da ocupação —
ou da recusa.
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China: soberania, diversidade e a transição da ordem global
A China
ocupa uma posição singular neste momento de transição da ordem internacional.
No plano político e diplomático, o país tem reiterado a defesa do direito
internacional, da soberania dos Estados e da coexistência entre diferentes
caminhos de desenvolvimento.
Esse
posicionamento está presente desde os Cinco Princípios da
Coexistência Pacífica,
formulados nos anos 1950, até conceitos mais recentes como o de uma “comunidade com
futuro compartilhado para a humanidade”, apresentados em fóruns multilaterais.
A ideia
central é que não existe um único modelo legítimo de modernidade,
desenvolvimento ou organização social. Cada país deve ter o direito de seguir
seu próprio caminho, inclusive no campo cultural.
No
debate sobre moda e consumo, esse princípio se traduz na defesa da diversidade
de expressões culturais e da rejeição à padronização simbólica imposta por um
centro único de poder. Em contraste com uma lógica hiperimperial que
hierarquiza gostos, estilos e modos de vida, a China afirma a legitimidade de
múltiplas modernidades convivendo no sistema internacional.
Ao
mesmo tempo, a China é hoje um dos principais polos da produção industrial
global e desempenha papel central nas cadeias internacionais de valor,
inclusive na indústria têxtil. Essa posição reflete a inserção do país em um
sistema econômico global já estruturado, marcado por cadeias produtivas
extensas, plataformas digitais e padrões de consumo acelerado.
Essa
realidade evidencia os desafios de uma ordem internacional em transformação. A
China atua dentro de um sistema herdado, ao mesmo tempo em que defende, no
plano político, a necessidade de reformar as regras globais, ampliar o espaço
para a soberania dos países e construir formas mais equilibradas de cooperação
e desenvolvimento.
Na
moda, essa transição se torna visível. O debate deixa de ser sobre quem produz
e passa a ser sobre quem define os padrões, quem organiza os fluxos e quem
controla os mecanismos simbólicos e tecnológicos que moldam o consumo global.
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O poder por trás do que vestimos
Se o
imperialismo clássico se baseava na dominação territorial, o hiperimperialismo
atua organizando regras, fluxos, tecnologias e desejos. As big techs são peças
centrais dessa engrenagem, e a moda é uma das linguagens mais eficazes para
tornar esse poder visível no cotidiano.
Entender
o que vestimos — onde é produzido, por quem, sob quais regras e mediado por
quais plataformas — ajuda a compreender como o mundo está sendo organizado
hoje, quem define os padrões globais e por que a disputa atual é menos sobre
territórios e mais sobre soberania, autonomia e futuro.
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Trump estendeu tapete vermelho para Xi — mas líder chinês
não conseguiu tudo o que queria
As cúpulas dos presidente Xi Jinping, da
China, e Donald Trump, dos Estados Unidos, costumam ter um objetivo claro.
A China acredita que os EUA estão
tentando conter sua ascensão como superpotência e quer que Washington fique
fora do seu caminho, principalmente no que diz respeito a comércio, tecnologia
e Taiwan.
Na
visita realizada esta semana, porém, apesar de Trump ter lhe estendido o tapete
vermelho, o líder chinês não conseguiu tudo o que queria.
A
trégua comercial que permitiu a ambos os países suspenderem uma guerra
tarifária de retaliações mútuas e evitarem uma escalada ainda maior, foi
prorrogada por apenas alguns meses — de novembro a janeiro. Pequim queria que
fosse uma extensão de pelo menos um ano.
Isso
significa que as principais disputas sobre tarifas, o domínio da China no
fornecimento de terras raras e o acesso a chips avançados dos EUA estão sendo
adiadas para uma futura rodada de negociações.
Isso
sugere que os EUA querem que a China faça mais para cumprir sua parte do acordo
antes de oferecer concessões de longo prazo.
A
verdade incômoda para Xi é que sua economia doméstica está em apuros. Embora o
país venda um número recorde de mercadorias em todo o mundo, os chineses estão
segurando o consumo. O desemprego entre jovens permanece alto e os preços dos
imóveis despencaram em um país onde 80% das pessoas possuem casa própria.
O
comércio está ajudando a impulsionar o crescimento, tornando o acesso aos
mercados estrangeiros mais importante do que nunca. Xi precisa proteger essas
exportações das tarifas debilitantes que os EUA impuseram no ano passado.
Quanto
a Taiwan, Xi deixou claro mais uma vez que Pequim considera inaceitáveis as
vendas de armas americanas à ilha.
Os EUA
são obrigados por lei a fornecer à ilha autogovernada os meios para se
defender.
Em
maio, Xi alertou Trump que uma condução inadequada da questão poderia levar os
dois países a "colidirem ou até mesmo entrarem em conflito".
Trump
então adiou a aprovação de um pacote de armas de US$ 14 bilhões para Taiwan,
que ele classificou como uma "ótima moeda de troca" com Pequim.
Xi pode
ter aproveitado essa brecha durante as negociações e provavelmente argumentou
que restringir o apoio a Taiwan reduz o risco de conflito.
Na
quinta-feira (24/09), ele reiterou sua esperança de que os EUA se mantivessem
na "posição correta" de se opor à independência de Taiwan.
No
entanto, Trump — que está sofrendo pressão bipartidária para manter o apoio dos
EUA a Taiwan — ainda não se manifestou publicamente sobre os comentários do
líder chinês.
Os dois
líderes discutiram a inteligência artificial, embora não esteja claro se
concordaram com alguma medida de segurança.
Todas
as atenções estavam voltadas para a possibilidade de os dois líderes tomarem
alguma decisão concreta sobre IA, como um acordo para realizar uma cúpula sobre
o tema, após um artigo do CEO da Anthropic, Dario Amodei, defendendo uma
desaceleração do desenvolvimento da IA para torná-la mais segura. O texto foi
publicado depois que um dos principais pesquisadores de segurança da empresa
alertou que havia uma "probabilidade superior a 10%" de que a IA
pudesse causar a extinção da humanidade.
Mas,
além de Xi ter falado sobre a importância de garantir que a IA "esteja
sempre sob controle humano", não houve mais detalhes. Trump, por sua vez,
descartou recentemente os temores de extinção da humanidade devido à
tecnologia, classificando-os como uma "farsa".
E,
claro, não podemos nos esquecer dos pandas. O presente de Ping Ping e Fu Shuang
para um zoológico de Atlanta foi anunciado pela primeira vez em abril, mas Xi
Jinping agora anunciou que eles chegarão em poucos dias, com a retomada da
diplomacia chinesa dos pandas.
Novos
anúncios ainda podem ser feitos, enquanto os dois se preparam para um encontro
para tomar chá e visitar os Arquivos Nacionais nesta sexta-feira (25/09).
Mas,
por ora, uma das maiores vitórias da cúpula para Pequim pode ter sido sobre sua
imagem pública.
A
recepção suntuosa, com cumprimentos pessoais no aeroporto e um banquete de
Estado com robalo em crosta de gergelim e bok choy (uma espécie de repolho
comum na China) refogado, foi muito elogiada por quem acompanhava o evento da
China. Isso deve ter contribuído para reforçar a imagem de Xi, perante o
público chinês, como um líder em pé de igualdade com Trump.
Memes
contrastando os dois líderes se espalharam pelas redes sociais chinesas. Uma
imagem popular mostra Trump fazendo careta enquanto
jatos sobrevoam o local, enquanto Xi permanece impassível.
Xi
Jinping encontrou uma maneira de lidar com um dos líderes mais imprevisíveis do
mundo. Mas enquanto Trump fala de uma "amizade verdadeiramente
grandiosa", o líder chinês está focado em algo maior: garantir o lugar da
China ao lado dos Estados Unidos como uma superpotência.
Os
pandas, o espetáculo e as palavras amáveis podem ajudar a suavizar essa
relação. Mas, por trás de toda a pompa, a competição entre os dois países mais
poderosos do mundo permanece tão acirrada como sempre.
Fonte: Opera
Mundi/BBC News

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