Expectativas
para 4 de outubro de 2026: civilização ou barbárie!
Estamos
a poucos dias das eleições e o futuro do país e dos brasileiros está impregnado
de inseguranças sobre os rumos da nação, que dependerá da escolha de quem irá
presidir a República a partir de 2027. As expectativas giram em torno da
contradição: civilização ou barbárie. As pesquisas de intenção de voto apontam,
até o momento, empate técnico no segundo turno entre os dois candidatos que
lideram a disputa e representam projetos abissalmente distintos para o Brasil,
cujas consequências poderão empurrar o país de volta à antiga condição
colonial, agora sem caravelas, mas com a soberania submetida aos interesses
econômicos e geopolíticos dos Estados Unidos.
No polo
da absoluta insensatez e surrealidade de parte expressiva do eleitorado está
Flávio Bolsonaro (PL), homenageador mor de vários milicianos e contraventores,
relações com políticos ligados ao Comando Vermelho, a exemplo de Rodrigo
Bacelar e TH Joias que certamente foram seus cabos eleitorais na cidade do Rio
de Janeiro. Como se não bastasse, atualmente investigado pela Polícia Federal
no Caso Master/Dark Horse por graves suspeitas de corrupção, lavagem de
dinheiro e evasão de divisas. Com um histórico político abjeto circunscrito em
torno de práticas e controvérsias que, em qualquer democracia minimamente
exigente, deveriam impor ao menos um escrutínio rigoroso antes que alguém se
apresentasse como candidato à Presidência da República.
Diante
dos graves riscos que o país está correndo caso essa candidatura continue em
ascensão apesar das fartas evidencias de sua aproximação ao subterrâneo do
crime, já seria inacreditável que pudesse sequer chegar ao segundo turno. No
entanto, a possibilidade apontada por vários institutos de pesquisa revela o
quanto metade da sociedade brasileira está profundamente adoecida e o quanto a
memória política e o senso crítico desses eleitores é inexistente.
Desde o
famoso escândalo das chamadas “rachadinhas”, envolvendo Flávio Bolsonaro
enquanto deputado estadual na Alerj, essa situação já se apresentava como uma
das muitas obscuridades que cercam sua trajetória política. A investigação
conduzida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro reuniu elementos
financeiros e testemunhais que apontavam para a suspeita de que assessores
devolviam parte de seus salários ao então deputado. O MP também indicava que
parte desse dinheiro teria sido lavada por meio de uma franquia de loja de
chocolates da qual Flávio Bolsonaro era sócio. Embora houvesse um conjunto
expressivo de elementos reunidos pela investigação, o caso não chegou a um
julgamento de mérito que pudesse declarar Flávio Bolsonaro culpado ou inocente.
Isso ocorreu porque as principais provas financeiras foram consideradas
inválidas no curso do processo, após decisões do STF que restringiram o
compartilhamento de dados do Coaf com o Ministério Público e determinaram a
observância de requisitos específicos para esse procedimento. Com isso, o
processo acabou inviabilizado antes que as acusações pudessem ser efetivamente
apreciadas em um julgamento de mérito. Flávio, portanto, não foi absolvido das
acusações após um julgamento que examinasse o conteúdo das provas. O que
ocorreu foi outra coisa, o caso não chegou a ser julgado no mérito.
A
enxurrada de escândalos envolvendo o filho 01 de Jair despenca sobre o público
em um fluxo ininterrupto, denunciando um rastro de obscuridades que o
noticiário mal dá conta de divulgar. Na terça-feira dessa semana a Revista
Piauí acrescentou novos elementos às relações de Flávio Bolsonaro com
personagens envolvidos em diferentes investigações. Em 2023, o senador destinou
quase R$ 200 mil em emenda parlamentar a um projeto esportivo na Taquara, no
Rio, após o pedido de Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, apontado nas
investigações do caso Marielle Franco como elo entre os executores e os
mandantes e posteriormente condenado por integrar a organização criminosa
ligada aos irmãos Brazão.
A
revista também revelou que Daniel Vorcaro repassou mais US$ 1,6 milhão, em
setembro de 2025, para financiar o filme Dark Horse, dias depois de Flávio
cobrar parcelas atrasadas, informação que contradiz a afirmação anterior do
senador de que os pagamentos haviam terminado meses antes. Com esse novo
repasse, o financiamento de Vorcaro ao filme chegou a US$ 12,3 milhões.
Ainda
neste mês, vieram à tona informações pela imprensa da participação de Flávio,
em março de 2025, em um safári na África do Sul ao lado do advogado Willer
Tomaz (apontado pela imprensa como possível sócio de negócios de Flávio) e do
senador Weverton Rocha, ambos investigados no caso das fraudes contra
aposentados do INSS. A Polícia Federal considera Tomaz peça central do esquema
e possível operador financeiro, com movimentações atípicas de cerca de R$ 45,5
milhões em 2021. A ligação entre ele e Flávio se evidencia também pelo fato de
o senador ter utilizado, na campanha presidencial de 2026, um imóvel de empresa
ligada ao advogado, apartamento de alto padrão em São Paulo que, antes de
pertencer a Tomaz, havia sido de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro
de Daniel Vorcaro, pelas ao menos cinco viagens internacionais que os dois
realizaram juntos em 2025 (incluindo a Flórida de jatinho) e pela declaração
pública de Flávio, em 2021, chamando-o de “meu amigo”. Tomaz e os envolvidos
negam irregularidades e afirmam que as relações são apenas pessoais.
Na
quinta-feira desta semana, o jornal Estadão revelou que dados extraídos pela PF
do celular de Daniel Vorcaro mostram que Flávio Bolsonaro manteve contatos
diários e frequentes insistências de ligação com o empresário nos quatro dias
que antecederam a prisão do ex banqueiro do Master. PF investiga se a estrutura
do filme Dark Horse foi utilizada para lavagem de dinheiro ou triangulação de
capitais. Será que essa sucessão de impropérios envolvendo Flávio Bolsonaro,
ainda tecnicamente empatado com o presidente Lula, será suficiente para
despertar quase metade do eleitorado?
Com
esse passado e presente intensamente turvos, o filho 01 de Jair chama a atenção
pela distância entre o personagem que procura vender e sua real trajetória
política. Apresenta-se como um candidato probo, religioso e virtuoso,
apropriando-se da fé e da boa-fé de seus seguidores evangélicos para construir
uma imagem que seus próprios antecedentes colocam em xeque. Ao mesmo tempo em
que se reveste falsamente de boas qualidades que não correspondem a sua
verdadeira trajetória, inverte essa realidade para acusar adversários
justamente dos seus desvios que aponta nos outros.
É a
velha fórmula do enganador e mentiroso contumaz de transformar a própria
incongruência em virtude e a acusação em arma política. Uma fórmula que lembra
o método de Donald Trump, que, na abertura da Assembleia Geral da ONU, voltou a
apresentar seu governo como um extraordinário caso de sucesso, enquanto a
realidade insiste em desmentir sua propaganda. O discurso acumulou afirmações
grandiosas sobre a economia, a segurança e os resultados de seu governo, ao
mesmo tempo em que os Estados Unidos enfrentam o peso do custo de vida, a alta
dos combustíveis e os efeitos econômicos da guerra com o Irã. Enquanto Trump
vende a imagem de um país próspero sob seu comando, sua aprovação caiu a 32%, o
menor índice de seu mandato. É a propaganda enganosa tentando ocupar o lugar
dos fatos e a realidade. Quanto mais os fatos desmentem o discurso, mais
exuberante se torna a propaganda. Exalta resultados que não se sustentam,
fabrica virtudes onde não há evidências que as respaldem e atribui ao
adversário sua própria má conduta. Trata-se de um velho mantra ao estilo
nazista de Joseph Goebbels de fazer política na qual a repetição da mentira
passa a ocupar o lugar da verdade.
Com um
currículo político estarrecedor, o candidato Flávio pretende chegar à
Presidência oferecendo ao país um engodo econômico por meio de uma proposta
ultraliberal grotescamente empacotada para acenar ao mercado financeiro,
copiada do modelo trágico do desiquilibrado Javier Milei. Na política externa,
a vassalagem canina de Flávio ao governo Trump envergonha a nação. O que se
reveste de projeto de governo nada mais é do que a liquidação aberta da nossa
soberania em troca do alinhamento cego a interesses geopolíticos e econômicos
de um império que esperneia diante da perda inevitável de sua hegemonia global.
Conforme
revelou uma carta do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, Flávio
Bolsonaro chegou a oferecer aos Estados Unidos uma equipe de transição para um
eventual governo seu. Isto é de uma gravidade política assustadora. É uma
aberração democrática que alguém com um histórico tão nocivo dispute o comando
do país em pé de igualdade com o atual presidente. Entregar o destino da nação
a esse tipo de aventura não seria apenas uma escolha equivocada seria a
assinatura formal do nosso próprio colapso.
Em
contrapartida à entrega de bandeja das riquezas do país aos EUA pelo candidato
Flávio Bolsonaro, vilipendiando o que há de mais valioso para uma nação, que é
a sua soberania, o presidente Lula (PT) reitera a autonomia e a soberania do
país em seu discurso de abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral da ONU,
afirmando-o em alto e bom som: “Na América Latina e Caribe, a proximidade
geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo, num
contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no
quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que
fomente o desenvolvimento”. Como a maior potência da América Latina, o Brasil é
referência em economia verde, é autossuficiente em petróleo, e em riquezas
naturais.
Para
além dos indicadores concretos de um governo bem-sucedido, Lula evidencia uma
dimensão estrutural que ultrapassa os números, com a afirmação intransigente da
soberania nacional. O presidente tem mantido a altivez da diplomacia brasileira
diante de pressões do governo Trump, recusando-se a submeter as riquezas
naturais, a política industrial e as decisões estratégicas do país à tutela de
qualquer potência ou aos humores de governos estrangeiros. O contraste não
poderia ser mais revelador. Enquanto setores alinhados a Flávio Bolsonaro
flertam com o servilismo geopolítico e carregam um passivo de ilicitudes que
mancha a vida pública, o reconhecimento da liderança de Lula atravessa
fronteiras e consolida sua posição como referência do Sul Global.
Nesse
mesmo discurso na ONU, o presidente deu um recado claro e estratégico à
prepotência unilateralista de Trump: “Somos chamados a optar entre o
multilateralismo e o unilateralismo; democracia ou extremismo; soberania ou
subordinação. Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de
objetivos. Isso é o que se espera de um estadista”. Ao defender uma atuação
equilibrada, rejeitar decisões unilaterais frequentemente associadas a
políticas tarifárias e ao isolacionismo e afirmar que “o Brasil não cabe no
quintal de ninguém”, Lula reafirmou a autonomia diplomática brasileira. Essa
postura fortalece a posição do país no Sul Global, ao priorizar a cooperação
entre as nações, a reforma da governança internacional e a construção da paz,
em contraponto a tentativas de divisão do mundo em zonas de influência.
Tanto a
atuação de Lula na Assembleia Geral da ONU quanto a condução de sua política
externa reafirmam a abissal distância que o separa de Flávio e dos demais
candidatos. Não podemos esquecer que Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury
prometeram anistiar Jair Bolsonaro. Desprovido de densidade ética, moral e
política, Flávio Bolsonaro, a exemplo do pai, não possui mínimas condições para
o exercício da Presidência da República, assombrado por um histórico obscuro
que o revela, por seu caráter mentiroso e pelas investigações por suspeitas de
crimes graves. Enquanto Lula se consolida como estadista, reconhecido
internacionalmente pela defesa intransigente da soberania nacional, do
multilateralismo e da autonomia brasileira, Flávio expõe, em mais de duas décadas
de vida pública, uma irrelevância legislativa gritante. Em sete anos de Senado,
aprovação quase nula de projetos (nenhum transformado em lei de sua autoria
principal e nenhum voltado à segurança pública, sua grande bandeira), aliada a
um histórico de baixa produtividade e frequentes ausências em votações
cruciais.
O
descompasso entre o discurso e a prática é evidente, embora se promova como
combatente implacável do crime organizado, a ponto de apelar externamente para
que facções como PCC e Comando Vermelho fossem classificadas como organizações
terroristas, Flávio omitiu-se quando a pauta tramitou no próprio Senado em
2025, não defendendo, nem votando favoravelmente à medida. Em contrapartida,
sua trajetória é marcada pela proximidade com milicianos de alta
periculosidade, inclusive com os assassinos de Marielle Franco, por relações
com investigados pela Polícia Federal e por um círculo de conexões íntimas e
suspeitas, como no caso Vorcaro. Mais que inépcia legislativa, a conduta de
Flávio demonstra a desfaçatez perfeita do oportunista capaz de inventar
mentiras esfarrapadas que não resistem a uma perícia de celular, rasteiro no
uso político da violência e incapaz de sustentar a própria palavra.
Confrontar
a projeção global de Lula com o vácuo de liderança de Flávio é expor a
indigência intelectual de uma figura sem peso, sem projeto e rigorosamente sem
substância. Diante destas constatações, podemos afirmar que entre civilização
ou barbárie, não há meio-termo. O Brasil que queremos e o Brasil que
sobreviverá dependerá exclusivamente da lucidez com que o eleitorado enfrentar
essa encruzilhada.
Fonte:
Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

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