Bets
no Brasil: o papel dos governos Temer, Bolsonaro e Lula no mercado de apostas
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresntou nesta sexta-feira (25/9)
"novas medidas de proteção às famílias e à economia popular A publicação
de algo nesse sentido era esperada em edição extra do Diário Oficial desta
sexta, ou, no máximo, na segunda (28/9), e vem na esteira das recentes críticas
que o presidente tem feito às apostas online. Nesta semana, Lula afirmou que o
Brasil "não vai tolerar" o modelo de negócios das bets, que, segundo
ele, transforma o vício em lucro e contribui para o endividamento de famílias.
Confirmada
a proibição, o anúncio ocorre em meio a pressões da sociedade: pesquisa
Atlas/Bloomberg divulgada na quarta-feira (23/9) apontou que 75% dos
brasileiros são a favor da proibição das apostas. Segundo estudo publicado pela
BBC News Brasil, as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da
atividade econômica brasileira em 2025, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1%
do PIB daquele ano.
Por
outro lado, alguns clubes de futebol afirmam que o esporte "acabará"
se as bets forem proibidas. Em manifesto divulgado na semana passada, clubes
como o Palmeiras, Santos, São Paulo, Botafogo, Flamengo e Fluminense, pediram a
regulação das apostas e o combate à ilegalidade. "O torcedor não pode
pagar essa conta. Se acabar o mercado regulado, as apostas não acabam. O
futebol é que acaba", diz o manifesto.
Embora
o assunto esteja no centro do debate hoje, a discussão sobre a legalização e
regulamentação das bets atravessa três governos. Entenda abaixo o papel de cada
um no mercado que se tornou bilionário em poucos anos.
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2018: Governo Temer, a entrada das bets nos últimos dias de governo
Em 12
de dezembro de 2018, no fim do governo de Michel Temer (MDB), o presidente
sancionou a Lei nº 13.756/2018, que criou a modalidade lotérica de "quota
fixa", sistema no qual o apostador sabe exatamente quanto vai receber se
acertar o palpite.
Essa
lei, que dispõe principalmente sobre as regras e reestruturação do Fundo
Nacional de Segurança Pública (FNSP) e sobre a destinação do produto da
arrecadação das loterias, representou o marco inicial da legalização das
apostas esportivas no Brasil. Pela legislação, havia um prazo de dois anos
(prorrogáveis por mais dois) para que o Ministério da Fazenda regulamentasse o
mercado.
Mas o
prazo expirou sem a devida tributação e fiscalização estruturada.
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Governo Bolsonaro: bets liberadas, sem regulamentação nem impostos
Em
2019, primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro (PL), o Ministério da Economia,
sob Paulo Guedes, abriu consulta pública com uma minuta de decreto que
regulamentava a modalidade. Em agosto do ano seguinte, o decreto 10.467
qualificou as apostas de quota fixa no Programa de Parcerias de Investimentos
(PPI) incluindo a modalidade no Programa Nacional de Desestatização, com o
BNDES responsável pelo processo. Mas a norma acabou revogada.
Antes
de deixar a presidência, no fim de 2022, Bolsonaro deixou um decreto de
regulamentação da lei sancionada por Temer em 2018, mas não o publicou.
Enquanto
não houvesse regulamentação, as bets operariam sem fiscalização e sem pagar
impostos. Ou seja: ficaram assim por 7 anos, até 2023.
Para
especialistas, nesse intervalo as bets colocaram em prática um arsenal de
estratégias para atrair apostadores sem nenhum tipo de controle. Com isso,
transformaram o Brasil em uma espécie de "laboratório", onde
facilidades como o uso massivo do celular e até o Pix ajudaram na
popularização.
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Governo Lula: regulamentação, impostos e endividamento
Em 29
de dezembro de 2023, no fim do primeiro ano do governo Lula, o presidente
sancionou a Lei 14.790/2023, conhecida como Lei das Bets. Lula vetou alguns
pontos, mas a nova legislação abrangeu as apostas esportivas em eventos reais e
os jogos online de quota fixa, como os cassinos virtuais tipo
"Tigrinho".
Em
2024, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) foi criada no Ministério da
Fazenda. Naquele momento, o Banco Central (Bacen) já fazia um alerta: cinco
milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família
haviam enviado dinheiro a empresas de apostas usando o Pix, segundo nota
técnica do Bacen. Os dados levaram o Supremo Tribunal Federal (STF) a
determinar a restrição ao uso de recursos de programas assistenciais para
apostas online, medida implementada neste mês de outubro pela Secretaria de
Prêmios e Apostas.
Em
documento anexado ao relatório do STF, o procurador-geral da República, Paulo
Gonet, pedia que as bets e os jogos do "Tigrinho" voltassem à
ilegalidade. Ele afirmou que a legislação vigente gerava um "quadro grave
de violação a direitos fundamentais", diante do "caráter predatório
que o mercado de apostas virtuais ostenta". Ainda em 2024, o STF aprovou
por unanimidade a suspensão da publicidade de bets dirigida a crianças e
adolescentes e mandou o governo impedir o uso de recursos do Bolsa Família e do
Benefício de Prestação Continuada (BPC) em apostas.
No ano
passado, uma projeção da consultoria internacional Regulus Partners, focada no
setor de esportes e lazer, mostrou que as empresas de apostas online faturariam
US$ 4,139 bilhões (cerca de R$ 22 bilhões) no Brasil.
O
montante posicionou o país como quinto maior mercado do mundo para o setor,
conforme mostrou reportagem da BBC News Brasil na época.
Foi a
primeira vez que o Brasil passou a ser considerado na lista de maiores mercados
da Regulus Partners, já que até 2024 não havia regulamentação para a operação
das bets no país. Segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da
Fazenda, o Brasil tem atualmente 188 bets autorizadas em operação.
O
aumento da penetração dos jogos de azar online no Brasil e a expansão do
mercado em torno deles renderam R$ 37 bilhões em receita para as empresas do
segmento no ano passado. Ao mesmo tempo, brasileiros abriram mais de 10 mil
processos contra empresas de apostas online desde que a Lei das Bets foi
sancionada, em 2023. A principal reclamação, segundo levantamento feito a
pedido da BBC News Brasil pela Predictus, é que o consumidor não consegue sacar
o prêmio.
• Deputado pede ao STF investigação sobre
suposto lucro de Flávio Bolsonaro com bets
O
deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) acionou o Supremo Tribunal Federal
(STF) para pedir uma investigação sobre uma eventual participação de Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) em negócios envolvendo casas de apostas no Rio de Janeiro.
Lindbergh
quer saber se o senador lucrava, direta ou indiretamente, com a estrutura
empresarial da RioPag S/A, companhia que detinha a exclusividade na
intermediação dos pagamentos das bets credenciadas pela Loteria do Estado do
Rio de Janeiro (Loterj). O pedido também levanta a hipótese de que a
participação teria ocorrido por meio de pessoas interpostas, os chamados
laranjas.
O
pedido foi apresentado como um aditamento a uma notícia de fato protocolada
pelo parlamentar no dia 23 de setembro. A petição original já pedia que Flávio
fosse investigado e apontava a hipótese de que o advogado Willer Tomaz de Souza
atuaria como interposta pessoa do senador. Entre os fatos novos acrescentados
ao STF está uma reportagem do Núcleo Investigativo do ICL Notícias, em parceria
com a newsletter Noites Húngaras, assinada pelos jornalistas Alice Maciel e
Paulo Motoryn. A investigação jornalística revelou que Lídia Maria Figueiredo
Mazelli passou de empregada do escritório de Willer Tomaz à dirigente de 14
empresas ligadas ao grupo. O aditamento também cita a rescisão do contrato da
RioPag pela Loterj e uma manifestação de Flávio Bolsonaro contra a proibição
das apostas esportivas no país. Os episódios ocorreram no mesmo dia em que a
reportagem sobre Lídia se tornou pública.
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Lindbergh quer identificar quem está por trás da RioPag
A
RioPag mantinha contrato com a Loterj para processar, com exclusividade,
depósitos, pagamentos e saques das casas de apostas credenciadas pelo estado. O
contrato nº 03/2023 foi inicialmente firmado com a Pixs Cobrança e Serviços em
Tecnologia, posteriormente denominada RioPag. O acordo tinha valor estimado de
R$ 32 milhões, vigência de cinco anos e previa o repasse à Loterj de 26,455% da
receita obtida com as taxas de intermediação. Segundo o aditamento, a licitação
teve duas participantes. A Idea Maker, que havia oferecido repasse de 26% da
receita, foi desclassificada por apresentar o percentual com duas casas
decimais, enquanto o edital exigia três. Com isso, a então Pixs permaneceu como
única concorrente habilitada.
A
petição também chama atenção para a rentabilidade do negócio. Segundo o
documento, as taxas cobradas chegaram a variar de 1% a 2,5% nos depósitos e de
0,5% a 1% nos saques. Em janeiro de 2024, a intermediadora teria recebido mais
de R$ 30 milhões de uma única casa de apostas, enquanto o Estado arrecadou R$
13 milhões em tributos sobre a receita líquida da mesma operadora. Um dos
pontos centrais do aditamento é descobrir quem efetivamente controlava a
empresa. Segundo a petição, Willer Tomaz chegou a admitir ser cotista do fundo
que controla a Capital Pretium S.A., dona da RioPag, sem revelar o nome do
fundo ou de seus parceiros. Posteriormente, declarou não ser sócio, cotista ou
acionista da RioPag e afirmou atuar exclusivamente como advogado da companhia.
O
documento também destaca o papel de Lídia Mazelli na estrutura empresarial. Ela
manteve vínculo formal de emprego com o escritório Willer Tomaz Advogados entre
março de 2019 e setembro de 2020. Quatro dias depois do fim desse vínculo, já
aparecia como dirigente da Jet Line Locação e Serviços Aéreos e, na mesma
época, assumiu a diretoria da WT Administração de Imóveis e Bens. Ao todo, o
levantamento jornalístico identificou Lídia na direção de 14 sociedades dos
setores imobiliário, de aviação, comunicação, mineração, investimentos e meios
de pagamento. Entre elas estão a RioPag e sua controladora, a Capital Pretium.
Após a publicação, Lídia afirmou, em nota, ser bacharel em Administração e ter
exercido efetivamente os cargos de diretora estatutária, com atos de gestão.
Ela também declarou ter trabalhado em empresas de consultoria e aviação do
grupo até junho deste ano.
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Contrato foi rescindido pela Loterj
Outro
fato levado por Lindbergh ao STF foi a rescisão do contrato da RioPag. O
episódio ocorreu após uma disputa envolvendo recursos públicos que estavam sob
custódia da empresa. Segundo o documento, a nova gestão da Loterj determinou,
em abril, a transferência imediata de um saldo acumulado de R$ 18,5 milhões.
Após ser cobrada, a RioPag alegou que os recursos haviam sido aplicados em uma
estrutura financeira de longo prazo e propôs devolvê-los de forma parcelada até
2029.
Em
julho, a Justiça determinou o bloqueio de até R$ 20,9 milhões nas contas da
companhia. Posteriormente, a RioPag transferiu R$ 16,5 milhões à Loterj e
considerou a dívida quitada, enquanto a autarquia apontou a existência de saldo
remanescente. No dia 23 de setembro, a Loterj rescindiu unilateralmente o
contrato. A autarquia apontou, entre as irregularidades, falta de
transparência, obstáculos à fiscalização e atos de gestão financeira sobre
recursos públicos sem fundamento contratual ou autorização administrativa.
A
Loterj aplicou multa de R$ 4,8 milhões e determinou a devolução de mais de R$
2,1 milhões referentes aos ganhos financeiros obtidos com os recursos retidos.
De acordo com o aditamento, a cobrança total alcança R$ 9,4 milhões. A RioPag
sustenta que não houve dívida ou retenção indevida. A empresa afirma que a
custódia foi determinada pela própria Loterj e que os recursos permaneceram
preservados e foram rentabilizados.
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Lindbergh pede quebra de sigilos
Com o
aditamento, Lindbergh pede a abertura de uma investigação para apurar a
eventual participação de Flávio Bolsonaro nos resultados econômicos da
estrutura empresarial. O deputado solicita que a Polícia Federal tenha prazo
inicial de 60 dias para realizar uma série de diligências. Entre elas estão o
afastamento dos sigilos bancário e fiscal da RioPag e da Capital Pretium, além
da identificação dos cotistas e beneficiários finais do fundo que controla a
companhia.
Lindbergh
também pede relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras
(Coaf), informações do Banco Central e o compartilhamento de elementos da
Operação Sem Desconto. O pedido alcança ainda a relação entre Flávio e Willer
Tomaz. O documento cita viagens internacionais realizadas pelos dois e o uso,
pelo senador, de imóveis e aeronaves ligados a empresas da estrutura. A petição
pede acesso a registros de aeronaves, planos de voo e manifestos de passageiros
para aprofundar essa linha de investigação.
Lindbergh
pede ainda que sejam ouvidos Lídia Mazelli, o ex-presidente da Loterj
Hazenclever Lopes Cançado e outros envolvidos nos fatos, além da apuração da
regularidade da licitação e da execução do contrato com a Loterj. A petição
aponta, em tese, possíveis crimes de lavagem de dinheiro, peculato ou
apropriação indébita, corrupção e ilícitos relacionados à licitação e à
execução de contratos administrativos. O pedido busca apurar se a estrutura
empresarial descrita no documento era utilizada para ocultar seus reais
beneficiários e se Flávio Bolsonaro figurava, direta ou indiretamente, entre
eles.
• Bets cogitam ir à Justiça e cobrar até
dano moral de Lula: 'Setor não vai acabar amanhã'
Diante
da iminente proibição das bets prometida pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT, as empresas do setor de apostas avaliam como reagir e cogitam
recorrer ao Judiciário e acionar o governo federal por danos materiais e
morais.
Representantes
da indústria sustentam que o país já possui uma das legislações mais rigorosas
do mundo e argumentam que uma eventual Medida Provisória (MP) não teria efeito
imediato sobre o funcionamento das empresas.
Segundo
representantes do segmento, um eventual decreto ou Medida Provisória assinada
pelo Palácio do Planalto não encerrará as atividades do setor do dia para a
noite.
"É
importante destacar que, ainda que tenhamos uma Medida Provisória (MP), a
conversão dela em lei dependerá de aprovação pelo Congresso Nacional. E isso
deixa claro que o setor não acaba amanhã, caso venha uma MP", disse à BBC
News Brasil o presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL),
Plínio Lemos Jorge.
Como
qualquer MP precisa ser analisada e convertida em lei pelo Congresso Nacional,
as empresas lembram que haveria um prazo legal de até 120 dias para tramitação
parlamentar.
"Haverá
ainda 120 dias para mostrarmos todos os efeitos negativos que o país terá em
acabar com esse mercado regulado, que gera empregos e impostos para o país. Mas
a forma como essa estratégia será conduzida pelas associações do setor ainda
está sendo discutida."
As
plataformas afirmam que não pretendem adotar manobras para burlar a
fiscalização ou migrar operações para domínios estrangeiros voltados ao público
brasileiro.
A
orientação do setor é cumprir as determinações oficiais do governo, embora
considerem uma eventual proibição um "equívoco econômico e
regulatório".
"Vamos
cumprir exatamente o que for determinado pelo Presidente Lula, ainda que
tenhamos a certeza do erro que ele está cometendo e que em um futuro breve ele
também terá a certeza do equívoco", afirmou ele à BBC.
"Contudo,
nós trabalharemos com respeito à legislação brasileira e com um cenário de
diálogo saudável e sempre dentro das normas de regulamentação do país, que já
possui uma das regulamentações mais avançadas e robustas do mundo."
Mas
recorrer à Justiça também seria, segundo Lemos, uma possibilidade concreta.
"Cada
uma das empresas reguladas do setor fez uma outorga de R$ 30 milhões. Esse
montante significa uma contrapartida paga pelas empresas para a exploração do
serviço de apostas de quota fixa por cinco anos no país. E também não
descartamos cobrar por danos materiais e morais."
Fonte:
BBC News Brasil

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