segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Rede de vice dos EUA planejou financiar mídia e iniciativas conservadoras no Brasil, diz jornal

A Rockbridge Network, organização privada norte-americana fundada em 2019 pelo atual vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, iniciou articulações para estabelecer uma estrutura de atuação no Brasil. Documentos obtidos pela Folha de S.Paulo mostram que o projeto previa apoio a veículos de comunicação conservadores, financiamento de iniciativas de formação de jovens e fornecimento de pesquisas e dados a parlamentares de direita. A organização afirma que a iniciativa brasileira não avançou e que a entidade registrada para viabilizá-la nunca entrou em operação.

A aproximação ocorreu em meio às articulações de grupos conservadores dos Estados Unidos com empresários e políticos brasileiros, às vésperas das eleições de 2026. A Rockbridge ganhou destaque no debate público após acusações de que integrantes da rede estariam ligados à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). Os envolvidos negam o financiamento estrangeiro da candidatura, e não há confirmação pública de que recursos da organização tenham sido destinados à campanha.

Segundo a reportagem publicada pela Folha nesta sexta-feira (25/09), representantes da Rockbridge mantiveram contatos com empresários e políticos brasileiros. Entre os nomes que teriam conhecido integrantes da rede estão Flávio Bolsonaro e Romeu Zema, além dos empresários Joesley Batista, da J&F, e André Esteves, do BTG Pactual. Os dois empresários e os políticos citados não comentaram o assunto à publicação.

<><> Projeto previa financiamento de iniciativas conservadoras

Em sua apresentação, a Rockbridge Brasil descrevia a sua iniciativa como uma estrutura de investimento na infraestrutura política e social do país. O material afirmava que havia espaço para organizar e financiar setores nos quais, segundo seus autores, os conservadores tinham menor presença.

A proposta previa três frentes de atuação. Mídia, com apoio e organização de veículos de comunicação conservadores; formação de jovens, com financiamento de movimentos e iniciativas em ambientes universitários e atuação legislativa a partir da produção e fornecimento de dados e pesquisas para parlamentares de direita.

Os documentos obtidos pela Folha também previam encontros reservados entre integrantes, reuniões periódicas e participação de investidores na definição de prioridades. Uma das modalidades de adesão, aponta a apuração do jornal, denominada Keystone, previa contribuição anual de US$ 500 mil (cerca de R$ 2,585 milhões). Outra, chamada Visionary, estabelecia contribuição de US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,2 milhões) e acesso a um conselho estratégico.

A documentação também menciona a criação de um conselho de tecnologia para reunir empresários, investidores e executivos brasileiros e estrangeiros. Um dos objetivos apresentados era ampliar a participação de empresas norte-americanas em setores estratégicos da economia brasileira, incluindo tecnologia, energia e mineração, em um contexto de disputa econômica e tecnológica entre os Estados Unidos e a China.

O material estima que a iniciativa poderia gerar mais de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 517 bilhões) em impactos econômicos ao longo de dez anos e mais de 500 mil empregos. Esses números eram projeções apresentadas no documento, e não resultados de investimentos realizados.

A Rockbridge informou à Folha que o projeto empresarial foi rejeitado e que a organização nunca recebeu recursos nem realizou atividades no Brasil. Também afirmou que documentos que atribuíam à entidade objetivos de atuação política foram produzidos sem seu conhecimento.

<><> Relação com J.D. Vance e investidores conservadores dos EUA

A Rockbridge Network foi criada por J.D. Vance e pelo empresário e investidor Chris Buskirk. A rede reúne empresários, investidores, doadores e integrantes do meio político conservador norte-americano. Sua formação está associada à aproximação entre setores do Vale do Silício, grandes fortunas e o movimento político alinhado ao presidente Donald Trump.

Vance, que assumiu a vice-Presidência dos Estados Unidos em janeiro de 2025, mantém vínculos com esse círculo político e empresarial. Reportagem da Reuters publicada em agosto de 2024 descreveu a Rockbridge como uma rede de financiamento de iniciativas políticas conservadoras, com atuação em mobilização eleitoral, comunicação, pesquisas e organizações religiosas. A agência informou que a estrutura reunia diferentes grupos e recebia apoio de investidores ligados ao setor de tecnologia.

Entre os nomes associados ao ambiente de investidores da Rockbridge está Peter Thiel, empresário e cofundador do PayPal e Palantir, que também investiu na trajetória política de Vance. Thiel participou da aproximação entre Vance e Buskirk, segundo reportagem da Folha. A rede também mantém conexões com empresários e investidores conservadores interessados em ampliar a influência de suas posições na política e nas instituições norte-americanas.

<><> Conselho de tecnologia e aproximação com Flávio Bolsonaro

Entre os documentos relacionados ao projeto brasileiro está uma apresentação intitulada “Conselho de Tecnologia — O Atalho para a Prosperidade e Soberania Nacional”, datada de abril de 2026 e dirigida ao então pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, conforme a apuração do jornal.

O material propunha reunir 23 integrantes, dos quais 19 seriam estrangeiros ligados à tecnologia, aos investimentos e a outros setores empresariais. Entre os brasileiros mencionados estavam Talles Gomes, fundador da Easy Taxi e da G4 Educação; Mario Araripe, fundador da Casa dos Ventos; David Peixoto, fundador da Pax AI; e Pedro Sang, apresentado no documento como CEO da Rockbridge Brasil.

A assessoria da Pax AI afirmou à Folha que Peixoto não recebeu convite para integrar o conselho e nunca participou de iniciativa ligada à Rockbridge Network Brasil. Gomes declarou que a proposta do conselho de tecnologia não avançou e que o grupo nunca chegou a ser constituído ou reunido. Pedro Sang, por sua vez, afirmou que não teve vínculo formal com a organização.

André Marinho, candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo Novo, também aparece nas articulações. Ele afirmou que o projeto não evoluiu, mas negou ter produzido os documentos com as metas de atuação e os termos de adesão. Também declarou que o material não foi apresentado por ele à campanha de Flávio Bolsonaro nem a autoridades ou organizações norte-americanas.

A Rockbridge sustentou que a proposta era criar um fórum empresarial e que não havia intenção de participar da política brasileira. A organização afirmou ainda que brasileiros fizeram declarações falsas sobre sua relação com o grupo e produziram documentos sem autorização.

<><> Pedido de investigação no STF

A possível relação entre a Rockbridge e a campanha de Flávio Bolsonaro motivou iniciativas no Supremo Tribunal Federal (STF). Neste mês de setembro, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) apresentou uma notícia de fato à Corte. Na sequência, o Partido dos Trabalhadores (PT) protocolou um pedido para que fosse aberto inquérito policial para apurar a suspeita de financiamento estrangeiro da campanha presidencial.

As iniciativas foram motivadas por declarações do candidato à Presidência Renan Santos (Missão), que acusou pessoas ligadas à rede de atuar em favor da campanha de Flávio Bolsonaro. Santos também mencionou possíveis interesses empresariais relacionados à exploração de terras raras no Brasil. Os citados contestaram as acusações.

A legislação eleitoral brasileira proíbe o recebimento de recursos de origem estrangeira por partidos e candidaturas. As regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também estabelecem exigências para a arrecadação, a movimentação financeira e a prestação de contas das campanhas.

•        Exército simula defesa cibernética no Brasil às vésperas da eleição

O Exército brasileiro coordenou, entre os dias 21 e 25 de setembro, a oitava edição do evento Guardião Cibernético às vésperas da eleição presidencial. A ação veio em meio aos alertas, tanto de especialistas, quanto da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), para possíveis interferências estrangeiras no pleito brasileiro.

O evento do Exército reuniu 1,3 mil participantes em Brasília e outras seis capitais do país, como São Paulo, Recife, Curitiba e Manaus. A simulação contou com cerca de 300 organizações e representantes de 14 países.

Classificado como “um dos mais abrangentes treinamentos de defesa cibernética do Hemisfério Sul”, o encontro simulou ameaças digitais com objetivo de treinar a cooperação entre instituições públicas e privadas para casos de ataques cibernéticos que possam afetar serviços essenciais à população.

“Durante o exercício, foram reproduzidos cenários de ataques cibernéticos complexos e coordenados, permitindo testar procedimentos, aperfeiçoar planos de contingência e identificar soluções para ampliar a resiliência nacional”, afirmou o Exército, em nota.

A iniciativa reuniu, além das Forças Armadas, órgãos governamentais, entidades reguladoras e operadores de infraestruturas críticas dos setores de energia, abastecimento de água, telecomunicações, finanças, entre outros.

<><> Riscos de ciberataques

Na semana passada, um relatório da Abin divulgado pela Folha de São Paulo, e confirmado pela TV Brasil, alertou para risco de influência ou interferência dos Estados Unidos (EUA) nas eleições brasileiras de 2026.

Elaborado em agosto deste ano, o documento classifica a possibilidade de interferência externa com um “nível de criticidade” e contextualiza o problema dizendo que “a reafirmação da hegemonia dos EUA na América Latina” é prioridade do segundo governo do presidente norte-americano Donald Trump.

Analistas consultados pela Agência Brasil têm alertado para o risco de ação cibernética dos EUA ou de bigtechs com objetivo de influenciar as eleições gerais de outubro, o que poderia desestabilizar sistemas informáticos e computacionais.

No dia 12 de agosto, a Casa Branca publicou memorando prevendo parceria com empresas privadas para ações que envolvem “acesso a tais sistemas de informação sem autorização do proprietário ou operador ou excedendo o acesso autorizado”.

Nesta semana, a Austrália denunciou uma invasão em site com estatísticas de saúde pública do país pela Open IA, dona do ChatGPT, uma das principais companhias de Inteligência Artificial do mundo.

 

Fonte: Opera Mundi

 

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