segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Álcool na adolescência pode afetar comportamento na vida adulta, diz estudo

O consumo excessivo de álcool durante a adolescência pode deixar efeitos no comportamento que duram até a vida adulta. Realizando testes com camundongos, os pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) observaram que animais expostos a altas doses da substância enquanto o cérebro ainda estava em desenvolvimento passaram a tomar decisões mais arriscadas depois de adultos, podendo causar prejuízos. Em parte dos animais, a exposição também esteve associada ao aumento do consumo de álcool na fase adulta.

A pesquisa, realizada na Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp) com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), deu origem a dois artigos científicos publicados nas revistas Alcohol Clinical and Experimental Research e Physiology & Behavior.

Para investigar os efeitos do álcool nessa fase da vida, os pesquisadores aplicaram doses da substância em camundongos durante a adolescência. O protocolo buscou reproduzir episódios de consumo excessivo, conhecido como binge drinking, caracterizado pela ingestão de grandes quantidades de álcool em um curto período.

Cada animal recebeu quatro aplicações ao longo da adolescência. Segundo a coordenadora do estudo, Karina Possa Abrahão, professora do Departamento de Fisiologia da EPM-Unifesp, a quantidade foi ajustada à duração da vida dos animais. Em humanos, a exposição seria comparável a cerca de duas intoxicações por mês durante toda a adolescência.

Os resultados variaram conforme o sexo dos animais e o momento da exposição. Quando receberam álcool no início da adolescência, os camundongos machos apresentaram maior tendência a tomar decisões arriscadas na fase adulta. Entre as fêmeas, os pesquisadores não observaram o mesmo efeito, mas aquelas expostas precocemente passaram a consumir mais álcool quando tiveram acesso à substância depois de adultas.

Quando a exposição ocorreu no fim da adolescência, tanto machos quanto fêmeas apresentaram alterações na avaliação de riscos na vida adulta. Para os pesquisadores, os resultados sugerem que o consumo excessivo de álcool nessa etapa pode interferir no processo de amadurecimento cerebral.

<><> Cérebro ainda está em desenvolvimento

Segundo o estudo, a adolescência é um período de maior vulnerabilidade aos efeitos do álcool porque o cérebro ainda não completou seu desenvolvimento. Uma das áreas que amadurecem mais tarde é o córtex pré-frontal, região ligada à tomada de decisões e ao controle dos impulsos. Em humanos, esse processo continua até aproximadamente os 25 anos.

“O álcool pode causar um prejuízo da maturação final do cérebro, tornando aquele indivíduo adolescente por muito mais tempo, talvez a vida toda. Ele sempre vai ficar se colocando em risco. O adolescente se colocar em risco é normal, mas o adulto continuar fazendo isso é problemático”, afirma Karina.

A equipe também investigou se as diferenças observadas entre machos e fêmeas poderiam estar relacionadas ao ritmo de desenvolvimento cerebral. A hipótese inicial considerava que a maturação mais precoce nas fêmeas poderia protegê-las dos efeitos da exposição no começo da adolescência. Os resultados da exposição mais tardia, no entanto, mostraram alterações em ambos os sexos, indicando que outros fatores podem estar envolvidos.

Os pesquisadores encontraram efeitos semelhantes ao analisar camundongos em uma idade equivalente a cerca de 20 anos em humanos. Segundo Abrahão, estudos anteriores indicam que os impactos do consumo excessivo tendem a diminuir conforme o cérebro amadurece, embora também possam ocorrer prejuízos cognitivos em adultos.

No Brasil, a venda e o fornecimento de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos são proibidos. Segundo dados do 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira mostram que 5% dos adolescentes de 12 a 17 anos tiveram ao menos um episódio de consumo excessivo de álcool em um período de 30 dias. Entre jovens de 18 a 24 anos, a proporção chegou a 20,5%.

•        Alcoolismo entre jovens cresce e desafia a ideia de beber por diversão

"Eu sentia que o álcool era uma bola de boliche que passava e derrubava todos os pinos da minha vida que eu estava conseguindo equilibrar." A metáfora é da digital influencer Giulia Albuquerque, de 24 anos, para descrever a força destrutiva que a dependência alcoólica exerceu sobre a vida dela.

Ao contrário do imaginário popular, o alcoolista — termo que substitui o antigo "alcoólatra" — não é necessariamente uma pessoa mais velha que convive com a bebida há décadas. A dependência pode surgir na adolescência ou nos primeiros anos da vida adulta, muitas vezes mascarada por hábitos socialmente aceitos e pela ideia de que beber faz parte da juventude.

A psicóloga infantojuvenil Luisa Borges Linhares explica que os transtornos relacionados ao uso de substâncias podem começar especialmente na adolescência. Segundo ela, nessa fase o cérebro ainda está em desenvolvimento, o que aumenta a vulnerabilidade aos efeitos do álcool e ao risco de dependência.

Foi nesse contexto da adolescência que Giulia começou a consumir bebidas alcoólicas. O primeiro contato com o álcool aconteceu por volta dos 12 anos. Sozinha em casa, pegou uma garrafa de vodca e colocou um pouco em uma xícara para experimentar. "Queria saber qual era o gosto, por que todo mundo dizia que aquilo era tão bom e por que todos os adultos bebiam", diz. A curiosidade, no entanto, logo deu lugar à decepção. "Pensei: 'Meu Deus, que coisa horrorosa! Tem gosto de álcool etílico. Como as pessoas bebem isso?'"

Porém foi por volta dos 15 anos quando ela passou a beber com mais frequência, mas ainda de forma social. "Era aquela época dos 14, 15 anos, das festinhas. Todo mundo começou a beber, mas eu tinha um pouco de medo", relembra. Aos 16 anos, Giulia realizou um intercâmbio na Austrália, onde criou o hábito de beber vinho com os amigos e viveu o primeiro episódio de embriaguez.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) mostram que o consumo de álcool entre adolescentes brasileiros é elevado. Segundo o levantamento, 63,3% dos jovens experimentaram bebidas alcoólicas, enquanto 28,1% consumiram álcool nos 30 dias anteriores à pesquisa. Outros 34,6% afirmaram ter ingerido quatro ou mais doses em uma única ocasião, padrão associado ao consumo excessivo.

No Distrito Federal, os indicadores são mais preocupantes. Segundo a PeNSE, 67,4% dos adolescentes experimentaram bebidas alcoólicas, percentual superior à média nacional. Outros 31% relataram consumo nos 30 dias anteriores ao levantamento, e 42,3% afirmaram ter ingerido quatro ou mais doses em um único dia.

FR ( o entrevistado preferiu não se identificar), de 51 anos, membro dos Alcoólicos Anônimos (AA) de Brasília, afirma que, por sua experiência de décadas nos mais diversos grupos, grande parte dos integrantes começou a beber ainda na adolescência. Segundo ele, a instituição não produz estatísticas sobre seus participantes, mas estima que cerca de 90% tenham iniciado o consumo nessa fase.

"Tivemos um integrante que entrou para o grupo com 12 anos, porque começou a beber aos 9 e seu irmão entrou aos 16", relata. "Atualmente, não são tantos os jovens que procuram o grupo, e menos ainda os que permanecem. Acredito que isso aconteça por conta da negação. Mas a maioria dos mais velhos começou a enfrentar problemas com o álcool ainda muito jovem", lamenta.

Segundo a psicóloga Luisa Borges, a experimentação é favorecida pela própria fase da adolescência e pela relação cultural da sociedade com o álcool. Desde cedo, crianças observam adultos consumindo bebidas em celebrações, momentos de lazer e até como forma de lidar com dificuldades.

"Essa atratividade representa uma apropriação de algo do universo adulto, amplamente aceito e naturalizado pela sociedade. Além disso, hoje vivemos um fenômeno de adultização, em que crianças e adolescentes têm contato com comportamentos e experiências típicos da vida adulta cada vez mais cedo. Isso faz com que o acesso ao álcool também aconteça precocemente", afirma.

No entanto, após as primeiras experiências, o adolescente rapidamente percebe os efeitos da bebida. "Ele pode sentir que o álcool diminui a timidez, alivia o estresse, a ansiedade, as frustrações e as angústias, mas estamos falando de um cérebro em desenvolvimento, que  não possui os mesmos recursos de autorregulação e tomada de decisão de um cérebro adulto. Por isso, é mais vulnerável aos efeitos do álcool e às consequências que esse consumo pode trazer para o seu desenvolvimento", afirma.

<><> "Álcool sempre ganha"

A relação de Giulia com o álcool ganhou novos contornos aos 18 anos, quando se mudou para Portugal. Morando sozinha e sem conseguir se adaptar ao país, passou a beber vinho em casa, com frequência. "Foi aí que o álcool começou a mexer comigo de uma forma muito mais profunda", relembra. Segundo ela, a bebida deixou de estar associada apenas aos momentos de celebração e passou a ser uma tentativa de aliviar a tristeza e a solidão. "Eu bebia em casa sozinha, chorava e, no dia seguinte, esquecia."

Giulia retornou ao Brasil aos 20 anos, no período de reabertura após a pandemia. O que começou como diversão, segundo ela, aos poucos "se transformou em um pesadelo". Ao longo de 2023, aos 22 anos, a situação se agravou. Giulia conta que passava os três primeiros dias da semana de ressaca vomitando e voltava a beber na quinta-feira. "O alcoolista não precisa beber todos os dias. O problema está muito mais na relação que você tem com o álcool do que na frequência", ressalta.

O ponto de virada ocorreu após uma discussão com as amigas, depois de uma noite de bebedeira. "Foi a primeira vez que pedi socorro aos meus pais por causa do álcool", afirma. A partir daquele episódio, iniciou o tratamento com apoio da família e das amigas. Também procurou os Alcoólicos Anônimos e conseguiu ficar aproximadamente cinco meses sem beber. "Foi um período maravilhoso. Parecia que finalmente estava voltando a ser quem eu era", declara.

A recaída veio durante a época de seu aniversário. Convencida de que havia aprendido a controlar o consumo, Giulia voltou a beber. "Foi a pior decisão que eu poderia ter tomado. Porque, quando você abre essa porta de novo, fechá-la depois é muito mais difícil."

Ao retornar à psiquiatra, Giulia recebeu o diagnóstico de alcoolismo. A partir dali, passou a compreender a dependência como uma condição que exige acompanhamento contínuo. "Foi quando aprendi que, para quem é alcoolista, não existe dose segura. Hoje eu tenho uma certeza: o álcool sempre ganha."

<><> A doença

O médico psiquiatra Raphael Boechat, professor de medicina do Centro Universitário Uniceplac, explica que o alcoolismo, ou transtorno por uso de álcool, é uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e classificada na Classificação Internacional de Doenças (CID). "Trata-se de uma condição que afeta todo o organismo, embora um dos principais impactos ocorra no cérebro", declara.

Segundo Boechat, o diagnóstico entre adolescentes e jovens pode ser mais difícil porque o consumo de álcool nessa faixa etária ainda é amplamente naturalizado. Comportamentos de risco podem ser vistos apenas como "coisa de adolescente", enquanto os danos físicos do consumo prolongado costumam aparecer depois de anos.

A principal diferença entre o consumo recreativo e o uso abusivo, explica o psiquiatra, está na capacidade de controlar a bebida. No uso recreativo, a pessoa consegue estabelecer limites de quantidade e frequência e manter o álcool sem interferências significativas na rotina. No uso abusivo, começa a perder esse controle, consumindo mais ou com maior frequência do que havia planejado.

Outro sinal de alerta é o surgimento de prejuízos na vida cotidiana. O álcool pode afetar o desempenho nos estudos e no trabalho, comprometer relacionamentos e aumentar a irritabilidade, a impulsividade e o envolvimento em conflitos.

FR, membro do AA de Brasília, começou a beber aos 15 anos, durante uma festa de debutante. Segundo ele, o primeiro contato provocou uma mudança imediata em seu comportamento. "Quando eu tive acesso ao álcool pela primeira vez, eu me perdi. Eu não sei explicar, mas foi transformador na minha vida. Ninguém me reconhecia, porque na noite anterior eu era uma pessoa e, a partir do momento em que eu dei meu primeiro gole de álcool, minha cabeça se transformou e, cada vez, eu queria mais", conta.

De primeira, o consumo entrou para a rotina. "A partir dos 15 anos de idade, eu bebia desenfreadamente. Não conseguia mais parar. Mas era apenas aos sábados." Quando começou a trabalhar, aos 22 anos, a relação com a bebida se intensificou. "Eu transformei toda a minha renda em bebida. Aos 36, eu já estava derrotado moralmente."

Foi então que decidiu pedir ajuda. Segundo FR, a dificuldade em reconhecer o problema também fez parte de sua trajetória. "A negação era muito forte. Quando falavam 'você é alcoólatra', você nega, mas isso faz parte da doença."

Inicialmente, recusou a sugestão de procurar os Alcoólicos Anônimos porque acreditava que a entidade era destinada a pessoas em situação de rua ou completamente dependentes. A percepção mudou quando participou de um evento da irmandade."Percebi que o alcoolismo não tem cara, não tem idade, não tem gênero.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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