segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Do bom diagnóstico à péssima execução: o leninismo entre a interpretação correta e impotência prática

Há um paradoxo persistente na história da esquerda brasileira: sua capacidade de interpretar criticamente a realidade costuma ser muito superior à sua capacidade de transformar essa interpretação em força organizada. Embora poucos campos políticos tenham produzido no Brasil diagnósticos tão sofisticados sobre dependência, imperialismo, concentração de renda, estrutura agrária, financeirização, desigualdade, desindustrialização, subordinação tecnológica e fragmentação do trabalho, a existência de uma tradição intelectual rica e capaz de compreender com profundidade muitas das determinações fundamentais da formação social brasileira não resolveu, por si só, o problema decisivo da transformação política.

Uma leitura correta da realidade não equivale, portanto, a uma estratégia capaz de modificá-la, uma vez que entre conhecimento e transformação existe justamente o espaço propriamente político, no qual entram organização, formação, disciplina, planejamento, escolha de prioridades, construção de instrumentos, definição de objetivos intermediários, capacidade de sustentar uma linha de ação no tempo e, sobretudo, aptidão para converter intenções gerais em tarefas concretas, articuladas e cumulativas. É nesse ponto que parte significativa da esquerda brasileira encontra seu limite histórico, porque, de um lado, consolidou-se uma esquerda que progressivamente confunde política com administração institucional, convertendo a participação no Estado em horizonte quase absoluto, enquanto, de outro, sobrevivem setores que preservam linguagem revolucionária, denunciam corretamente os limites da conciliação, formulam críticas estruturalmente consistentes e mantêm referências anticapitalistas, mas permanecem incapazes de transformar sua radicalidade teórica em capacidade material de intervenção. O resultado dessa polarização é particularmente contraditório: uns correm o risco de adaptar-se à ordem que pretendiam transformar, enquanto outros transformam a crítica à ordem em substituto da própria transformação, produzindo, assim, duas formas distintas de impotência política que se alimentam reciprocamente.

É precisamente nesse ponto que Lênin permanece atual, não como figura destinada a ser ritualisticamente citada ou transformada em autoridade doutrinária abstrata, mas como formulador de um problema fundamental: a política revolucionária exige a passagem consciente do diagnóstico à organização, da consciência dispersa à direção, da indignação à estrutura, do conflito isolado à experiência acumulada e do movimento espontâneo à capacidade política permanente. A grande questão, portanto, não consiste apenas em compreender corretamente a realidade, mas em construir força suficiente para atuar sobre ela.

<><> Lênin e a crítica ao espontaneísmo

Uma das contribuições centrais de Lênin está na recusa da ideia de que as contradições sociais produzam automaticamente uma política revolucionária, pois a exploração econômica existe objetivamente, mas não gera, por si mesma, consciência revolucionária, da mesma forma que a insatisfação pode produzir revolta, resistência, sindicalismo, reivindicação econômica, ressentimento, apatia ou adesão a projetos políticos inteiramente distintos. Essa crítica ao espontaneísmo é decisiva para pensar a esquerda brasileira contemporânea, na medida em que ainda existe a expectativa recorrente de que a deterioração das condições sociais produza, em algum momento, uma radicalização progressista inevitável, como se crises econômicas, desemprego, precarização, endividamento ou empobrecimento fossem capazes, quase mecanicamente, de empurrar amplos setores sociais para posições de esquerda.

A experiência histórica demonstra exatamente o contrário: as crises abrem possibilidades, mas não determinam sua direção, e a consciência política, longe de emergir pura e espontaneamente das relações econômicas, é objeto de disputa permanente entre diferentes forças, ideologias, instituições e narrativas. A precarização pode ser compreendida como consequência da estrutura capitalista, mas também como fracasso individual; o desemprego pode fortalecer demandas por proteção social ou discursos autoritários; a insegurança pode produzir solidariedade ou ampliar o desejo por repressão; a frustração econômica pode converter-se em mobilização coletiva ou em ressentimento social dirigido contra grupos igualmente subalternos.

Lênin percebeu com enorme clareza que a consciência política precisa ser trabalhada, organizada e disputada por meio de elaboração teórica, propaganda, agitação, formação e intervenção sistemática, razão pela qual uma esquerda incapaz de disputar conscientemente a interpretação da experiência social não pode esperar que a própria realidade faça esse trabalho por ela. A política começa precisamente quando forças organizadas procuram dar sentido às contradições da sociedade e transformá-las em orientação coletiva.

<><> O diagnóstico não substitui a estratégia

Outro problema recorrente encontra-se na transformação do diagnóstico em fim político, pois uma organização pode compreender corretamente que o Brasil ocupa posição subordinada na divisão internacional do trabalho, que apresenta estrutura tributária regressiva, enorme concentração patrimonial, baixa autonomia industrial e intensa dependência financeira, e ainda assim não possuir uma estratégia concreta capaz de atuar sobre essas determinações. É necessário distinguir, portanto, três níveis fundamentais: o diagnóstico, que procura compreender a situação; a estratégia, que define como essa situação pode ser modificada; e a execução, que constrói os instrumentos, organiza os recursos e estabelece as tarefas necessárias para que a estratégia deixe de ser mera formulação abstrata.

A confusão entre esses níveis produz uma deformação bastante frequente, na qual a organização formula uma análise ampla do capitalismo brasileiro e termina com afirmações genéricas como a necessidade de organizar a classe trabalhadora, construir poder popular, superar o neoliberalismo, enfrentar o imperialismo ou romper com a dependência. Essas formulações podem expressar objetivos legítimos, mas não constituem, em si mesmas, estratégia, porque ainda falta responder às perguntas fundamentais: como organizar, onde organizar, quem deve ser organizado, em quais setores, com quais instrumentos, por meio de quais instituições, em qual sequência, dentro de qual horizonte temporal, com quais recursos e sob responsabilidade de quem. Quando essas mediações desaparecem, a política transforma-se em sucessão de palavras de ordem, incapaz de estabelecer a ponte entre a interpretação geral e a intervenção concreta.

Lênin insistiu continuamente na necessidade de transformar orientação geral em tarefas determinadas, justamente porque, para ele, o problema não consistia apenas em afirmar que a classe trabalhadora precisava ser organizada, mas em compreender sob quais formas, em quais espaços, em que ritmo e mediante quais instrumentos essa organização poderia realmente avançar.

<><> A análise concreta da situação concreta

A formulação leninista sobre a necessidade da análise concreta da situação concreta tornou-se quase proverbial, mas frequentemente é repetida de maneira ritual sem que suas consequências metodológicas sejam levadas a sério, pois ela exige muito mais do que possuir uma teoria geral sobre o capitalismo ou repetir categorias consagradas pelo marxismo. Trata-se de compreender cada formação social em suas particularidades históricas, investigando instituições, classes, frações de classe, interesses econômicos, conflitos regionais, estruturas produtivas, formas de consciência, tradições culturais, relações de poder e mecanismos específicos de reprodução social.

Uma esquerda verdadeiramente materialista não pode substituir investigação por repetição decalcada de fórmulas, nem pode tratar categorias históricas como abstrações atemporais que dispensariam pesquisa empírica. A própria noção de classe trabalhadora, por exemplo, só possui utilidade política quando é concretamente conhecida, o que implica perguntar quem compõe hoje a classe trabalhadora brasileira, como ela se distribui territorialmente, quais setores possuem emprego formal, quais estão submetidos à informalidade, qual é o peso do trabalho por aplicativos, como se organiza o setor de serviços, que formas de sociabilidade predominam, que relações existem entre trabalho, religião e identidade e que expectativas de mobilidade social atravessam esses grupos. Também exige compreender como trabalhadores enxergam empreendedorismo, segurança, Estado, impostos, educação, propriedade, consumo, família, mérito e ascensão social, porque sem esse conhecimento a política corre o risco de dirigir-se a uma classe imaginária, construída a partir de esquemas históricos que já não correspondem às formas atuais de vida e trabalho.

Lênin jamais tratou a teoria como sistema fechado; para ele, a teoria deveria permitir compreender uma realidade em movimento, e justamente por isso uma organização que apenas repete conceitos sem investigar a sociedade concreta transforma o marxismo em linguagem litúrgica, esvaziando seu conteúdo crítico e materialista.

<><> A política da conciliação e a redução da estratégia ao Estado

Um dos polos da crise da esquerda brasileira está na transformação progressiva da institucionalidade em centro praticamente exclusivo da ação política, ainda que a disputa institucional, por si só, não seja antirrevolucionária nem deva ser descartada de maneira abstrata, já que participar de eleições, ocupar parlamentos, administrar governos e disputar políticas públicas podem constituir dimensões importantes de uma estratégia mais ampla. O problema aparece quando a luta institucional deixa de ser instrumento e passa a determinar o horizonte, porque, nesse momento, a própria estrutura da organização começa a adaptar-se às necessidades da institucionalidade, fazendo com que a atividade seja marcada pelos calendários eleitorais, a formação política ceda espaço à comunicação de campanha, a construção territorial perca centralidade diante das estruturas eleitorais e a mobilização seja frequentemente reduzida à condição de suporte para candidaturas. O Estado, nessa lógica, deixa de ser compreendido como terreno contraditório e passa a ser concebido como instrumento suficiente de transformação, como se a ocupação institucional pudesse substituir a construção de capacidade social autônoma.

Uma perspectiva leninista sugere justamente o contrário, pois o Estado deve ser compreendido no interior de uma relação de forças mais ampla, de modo que sua disputa só adquire densidade estratégica quando articulada à construção de organização independente na sociedade. Uma força política pode governar, ampliar políticas sociais, elevar renda, expandir serviços públicos e produzir ganhos materiais significativos sem, por isso, organizar politicamente aqueles que foram beneficiados, porque melhoria econômica não gera automaticamente consciência, expansão do consumo não produz automaticamente hegemonia e aumento de renda não cria, por si só, organização popular. Sem construção política própria, conquistas governamentais podem permanecer socialmente desorganizadas e, portanto, vulneráveis a reversões futuras. É nesse ponto que a conciliação deixa de ser tática e se transforma em estrutura permanente, fazendo com que a necessidade de preservar alianças institucionais passe a limitar a capacidade de construir força própria e transformando a política em administração da correlação existente, não em esforço consciente para modificá-la.

<><> O revolucionarismo sem organização

No extremo oposto aparece uma deformação aparentemente radical, mas igualmente incapaz de produzir transformação, na medida em que determinados setores da esquerda, ao identificarem corretamente os limites da adaptação institucional, respondem por meio de uma intensificação do discurso revolucionário, tornando a linguagem mais dura, multiplicando referências históricas e ampliando a severidade das denúncias, sem que isso corresponda a um crescimento efetivo da capacidade material de transformações profundas. É precisamente esse tipo de política que Lênin criticava quando combatia tendências que confundiam pureza doutrinária com eficácia revolucionária, porque, para ele, uma política revolucionária não era definida pela radicalidade vocabular, mas pela capacidade de construir condições históricas para modificar a realidade. Isso exigia compreender relações de força, ritmos históricos, contradições concretas, possibilidades efetivas e limites objetivos, o que significa reconhecer que o voluntarismo pode ser tão prejudicial quanto a adaptação.

Uma organização pode declarar permanentemente sua intenção revolucionária e, ainda assim, permanecer confinada a círculos reduzidos, incapaz de organizar setores amplos da sociedade, construir instituições duradouras ou influenciar efetivamente processos políticos relevantes.

A linguagem revolucionária não compensa a ausência de inserção social, assim como a denúncia do reformismo não produz automaticamente uma alternativa revolucionária. Uma organização pode estar correta em sua crítica e completamente impotente em sua prática, e por isso a pergunta decisiva continua sendo a mesma: que força real está sendo construída?

<><> Organização como mediação central

Para Lênin, a organização não era uma questão administrativa, mas propriamente política, porque uma estratégia sem organização permanece apenas uma hipótese, enquanto a organização é aquilo que transforma possibilidade em capacidade. Por isso a construção de quadros, estruturas, métodos, imprensa, formação, disciplina, redes de atuação e mecanismos de coordenação possuía importância central em sua concepção de política. Essa questão continua profundamente atual, sobretudo porque parte da esquerda trata a organização como atividade secundária, considerando mais nobre produzir análise política do que administrar recursos, formar militantes, estruturar processos internos, consolidar comunicação própria ou criar mecanismos duradouros de inserção social. No entanto, são exatamente essas dimensões que transformam ideias em força material.

Uma organização política precisa ser capaz de reproduzir a si mesma, formar novas pessoas, desenvolver quadros intermediários, preservar memória institucional, produzir conhecimento, garantir recursos, estabelecer canais permanentes de comunicação e sobreviver a derrotas eleitorais, crises conjunturais e mudanças de liderança. Se cada ciclo político obriga a organização a recomeçar do zero, não existe acumulação histórica, porque uma força política se mede também por sua continuidade, por sua capacidade de atravessar conjunturas desfavoráveis sem dissolver aquilo que foi construído anteriormente.

<><> O problema do elo intermediário

É possível compreender boa parte da crise da esquerda como uma falha recorrente na passagem entre estratégia e ação concreta, já que muitas organizações conseguem formular objetivos estratégicos amplos e também realizar ações táticas imediatas, mas apresentam enorme dificuldade no nível intermediário, justamente aquele que deveria transformar uma orientação geral em arquitetura política. Afirma-se, por exemplo, que é necessário reconstruir a soberania nacional, o que constitui um objetivo estratégico, e em seguida organiza-se uma manifestação, publica-se um manifesto ou inicia-se uma campanha, o que pertence ao terreno tático; o problema é que frequentemente não existe uma estrutura intermediária capaz de demonstrar de que modo essas ações particulares contribuem para o objetivo mais amplo.

Uma estratégia consistente deveria definir linhas permanentes de atuação, como formação, comunicação, organização territorial, inserção sindical, produção intelectual, trabalho cultural, elaboração econômica e pesquisa social, estabelecendo, para cada uma dessas linhas, objetivos operacionais claros. Na formação, poderia significar a construção de uma escola permanente; na comunicação, a criação de um veículo com audiência própria; na organização, o desenvolvimento de presença territorial continuada; na inserção social, a atuação em setores profissionais considerados estratégicos; e na produção intelectual, a consolidação de centros capazes de acompanhar de maneira sistemática as transformações da realidade nacional. Quando isso ocorre, as tarefas táticas deixam de ser ações isoladas e passam a cumprir funções precisas dentro de uma orientação maior, de modo que um curso deixa de ser apenas um curso, uma publicação deixa de ser apenas uma publicação e uma reunião deixa de ser apenas uma reunião, porque cada atividade passa a integrar um processo de acumulação política.

<><> O combate ao culto da conjuntura

Outra limitação importante está na obsessão pela conjuntura imediata, pois a política cotidiana produz estímulos incessantes, como crises, declarações, votações, escândalos, decisões judiciais, disputas parlamentares, pesquisas eleitorais e conflitos nas redes sociais, criando a tentação de transformar a organização em uma máquina de reação permanente. Cada acontecimento gera uma nota, cada polêmica produz uma postagem, cada crise exige um posicionamento, e a consequência pode ser uma enorme quantidade de atividade sem qualquer acumulação estratégica.

Lênin acompanhava a conjuntura com atenção obsessiva, mas jamais confundia conjuntura com estratégia, porque, para ele, o acontecimento imediato só adquiria sentido quando interpretado no interior de uma linha política mais ampla. Essa diferença é fundamental, pois uma esquerda que reage a tudo corre o risco de construir muito pouco. A pergunta relevante não é quantas atividades foram realizadas, mas o que permaneceu depois delas: quantos novos militantes foram incorporados, quantos quadros foram formados, que estruturas se consolidaram, que conhecimento foi produzido, que organizações ampliaram sua presença e quais vínculos sociais se tornaram permanentes. A política precisa produzir sedimentos, porque sem acumulação pode existir movimento, intensidade e visibilidade, mas não necessariamente avanço.

<><> Objetivos intermediários e acumulação de forças

Uma política materialista exige objetivos intermediários porque nenhuma transformação histórica ocorre em um salto entre a realidade presente e o horizonte final, existindo sempre entre ambos uma cadeia de mediações que precisa ser construída conscientemente. Fortalecer sindicatos pode ser um objetivo intermediário, assim como criar instrumentos de formação política, ampliar presença entre trabalhadores precarizados, construir um ecossistema próprio de comunicação, formar pesquisadores e intelectuais orgânicos, desenvolver organizações territoriais e consolidar instituições culturais. Esses objetivos não substituem a estratégia; ao contrário, são aquilo que a torna praticável.

Uma esquerda que recusa objetivos intermediários em nome da pureza revolucionária termina frequentemente sem revolução e sem força, ao passo que uma esquerda que abandona o horizonte estratégico em nome de objetivos imediatos corre o risco de converter-se em administradora permanente dos limites existentes.

O desafio consiste justamente em articular ambos, preservando o objetivo histórico sem perder a capacidade de agir sobre tarefas concretas e mensuráveis. Essa é uma das lições mais importantes de Lênin: a estratégia revolucionária exige capacidade de combinar horizonte histórico e tarefa imediata, sem dissolver um no outro.

<><> A formação de quadros como questão central

Nenhuma política de longo prazo existe sem quadros, e Lênin compreendia que organização política exige pessoas capazes de estudar, decidir, comunicar, coordenar e agir, razão pela qual a formação não poderia ser tratada como atividade ocasional ou acessória.

A esquerda brasileira frequentemente subestima esse problema, produzindo situações em que há militância, mas pouca formação sistemática; há ativistas, mas poucos quadros capazes de compreender o conjunto da estratégia; há intelectuais, mas nem sempre existe integração entre elaboração teórica e atividade organizativa.

A formação de quadros precisa existir como processo estruturado e contínuo, envolvendo teoria, história, conhecimento da realidade nacional, capacidade de organização, domínio da comunicação, compreensão econômica e aprendizado político prático. Um quadro não é apenas alguém que conhece teoria; é alguém capaz de transformar orientação geral em ação organizada, traduzindo decisões estratégicas em processos compreensíveis e executáveis. Essa função intermediária é decisiva, porque sem quadros a direção permanece isolada e a base permanece fragmentada, fazendo com que a estratégia não circule adequadamente pela organização.

<><> Reconstruir capacidade política

O problema central da esquerda brasileira talvez não esteja em descobrir uma nova grande interpretação do país, porque a tradição crítica já produziu contribuições extraordinárias, mas em transformar conhecimento em força organizada. Isso exige recuperar uma concepção leninista de política que seja concreta, investigativa, disciplinada, estratégica e profundamente preocupada com organização, o que significa estudar a sociedade real, construir instituições, formar quadros, definir prioridades, organizar recursos, criar instrumentos permanentes, estabelecer objetivos intermediários, avaliar resultados, corrigir erros e preservar continuidade.

O marxismo não pode ser reduzido a uma linguagem destinada a demonstrar que determinada organização possui a interpretação correta, porque sua função é fornecer instrumentos para compreender e transformar a realidade. A diferença entre essas duas posições é fundamental, já que uma esquerda pode estar teoricamente certa durante décadas e continuar politicamente irrelevante.

A história não recompensa automaticamente quem compreende melhor suas contradições, porque ela é disputada por forças organizadas, capazes de transformar interpretação em direção, direção em estrutura e estrutura em capacidade social.

Esse talvez seja o ponto mais duro da crítica leninista: não basta possuir razão; é preciso possuir capacidade. Não basta identificar corretamente a estrutura do capitalismo brasileiro; é necessário criar instrumentos capazes de atuar sobre ela. Não basta denunciar a conciliação; é necessário construir alternativa. Não basta afirmar a necessidade da revolução; é preciso construir as mediações que tornam qualquer transformação historicamente possível.

A esquerda brasileira encontra-se, portanto, diante de uma escolha intelectual e organizativa: pode continuar oscilando entre adaptação institucional e radicalismo verbal ou pode reconstruir uma política fundada na unidade entre análise, estratégia, organização e execução. Nesse sentido, Lênin permanece menos como resposta pronta do que como método, porque sua contribuição fundamental está na exigência de investigar concretamente, organizar conscientemente, definir prioridades, transformar objetivos gerais em tarefas determinadas, construir força de maneira persistente, avaliar a correlação real de forças e corrigir a linha quando necessário.

Uma política incapaz de realizar essas operações pode possuir o melhor diagnóstico possível e continuar acumulando derrotas, porque a distância entre interpretar e transformar não é preenchida pela retórica. Ela é preenchida por organização. E talvez essa seja a formulação mais incômoda, porém mais necessária para a esquerda brasileira contemporânea: um diagnóstico correto que não produz capacidade organizada permanece, do ponto de vista histórico, muito próximo da impotência.

 

Fonte: Por Guilherme Diniz, para Opera Mundi

 

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