Do
bom diagnóstico à péssima execução: o leninismo entre a interpretação correta e
impotência prática
Há um
paradoxo persistente na história da esquerda brasileira: sua capacidade de
interpretar criticamente a realidade costuma ser muito superior à sua
capacidade de transformar essa interpretação em força organizada. Embora poucos
campos políticos tenham produzido no Brasil diagnósticos tão sofisticados sobre
dependência, imperialismo, concentração de renda, estrutura agrária,
financeirização, desigualdade, desindustrialização, subordinação tecnológica e
fragmentação do trabalho, a existência de uma tradição intelectual rica e capaz
de compreender com profundidade muitas das determinações fundamentais da
formação social brasileira não resolveu, por si só, o problema decisivo da
transformação política.
Uma
leitura correta da realidade não equivale, portanto, a uma estratégia capaz de
modificá-la, uma vez que entre conhecimento e transformação existe justamente o
espaço propriamente político, no qual entram organização, formação, disciplina,
planejamento, escolha de prioridades, construção de instrumentos, definição de
objetivos intermediários, capacidade de sustentar uma linha de ação no tempo e,
sobretudo, aptidão para converter intenções gerais em tarefas concretas,
articuladas e cumulativas. É nesse ponto que parte significativa da esquerda
brasileira encontra seu limite histórico, porque, de um lado, consolidou-se uma
esquerda que progressivamente confunde política com administração
institucional, convertendo a participação no Estado em horizonte quase
absoluto, enquanto, de outro, sobrevivem setores que preservam linguagem
revolucionária, denunciam corretamente os limites da conciliação, formulam
críticas estruturalmente consistentes e mantêm referências anticapitalistas,
mas permanecem incapazes de transformar sua radicalidade teórica em capacidade
material de intervenção. O resultado dessa polarização é particularmente
contraditório: uns correm o risco de adaptar-se à ordem que pretendiam
transformar, enquanto outros transformam a crítica à ordem em substituto da
própria transformação, produzindo, assim, duas formas distintas de impotência
política que se alimentam reciprocamente.
É
precisamente nesse ponto que Lênin permanece atual, não como figura destinada a
ser ritualisticamente citada ou transformada em autoridade doutrinária
abstrata, mas como formulador de um problema fundamental: a política
revolucionária exige a passagem consciente do diagnóstico à organização, da
consciência dispersa à direção, da indignação à estrutura, do conflito isolado
à experiência acumulada e do movimento espontâneo à capacidade política
permanente. A grande questão, portanto, não consiste apenas em compreender
corretamente a realidade, mas em construir força suficiente para atuar sobre
ela.
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Lênin e a crítica ao espontaneísmo
Uma das
contribuições centrais de Lênin está na recusa da ideia de que as contradições
sociais produzam automaticamente uma política revolucionária, pois a exploração
econômica existe objetivamente, mas não gera, por si mesma, consciência
revolucionária, da mesma forma que a insatisfação pode produzir revolta,
resistência, sindicalismo, reivindicação econômica, ressentimento, apatia ou
adesão a projetos políticos inteiramente distintos. Essa crítica ao
espontaneísmo é decisiva para pensar a esquerda brasileira contemporânea, na
medida em que ainda existe a expectativa recorrente de que a deterioração das
condições sociais produza, em algum momento, uma radicalização progressista
inevitável, como se crises econômicas, desemprego, precarização, endividamento
ou empobrecimento fossem capazes, quase mecanicamente, de empurrar amplos
setores sociais para posições de esquerda.
A
experiência histórica demonstra exatamente o contrário: as crises abrem
possibilidades, mas não determinam sua direção, e a consciência política, longe
de emergir pura e espontaneamente das relações econômicas, é objeto de disputa
permanente entre diferentes forças, ideologias, instituições e narrativas. A
precarização pode ser compreendida como consequência da estrutura capitalista,
mas também como fracasso individual; o desemprego pode fortalecer demandas por
proteção social ou discursos autoritários; a insegurança pode produzir
solidariedade ou ampliar o desejo por repressão; a frustração econômica pode
converter-se em mobilização coletiva ou em ressentimento social dirigido contra
grupos igualmente subalternos.
Lênin
percebeu com enorme clareza que a consciência política precisa ser trabalhada,
organizada e disputada por meio de elaboração teórica, propaganda, agitação,
formação e intervenção sistemática, razão pela qual uma esquerda incapaz de
disputar conscientemente a interpretação da experiência social não pode esperar
que a própria realidade faça esse trabalho por ela. A política começa
precisamente quando forças organizadas procuram dar sentido às contradições da
sociedade e transformá-las em orientação coletiva.
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O diagnóstico não substitui a estratégia
Outro
problema recorrente encontra-se na transformação do diagnóstico em fim
político, pois uma organização pode compreender corretamente que o Brasil ocupa
posição subordinada na divisão internacional do trabalho, que apresenta
estrutura tributária regressiva, enorme concentração patrimonial, baixa
autonomia industrial e intensa dependência financeira, e ainda assim não
possuir uma estratégia concreta capaz de atuar sobre essas determinações. É
necessário distinguir, portanto, três níveis fundamentais: o diagnóstico,
que procura compreender a situação; a estratégia, que define como essa
situação pode ser modificada; e a execução, que constrói os
instrumentos, organiza os recursos e estabelece as tarefas necessárias para que
a estratégia deixe de ser mera formulação abstrata.
A
confusão entre esses níveis produz uma deformação bastante frequente, na qual a
organização formula uma análise ampla do capitalismo brasileiro e termina com
afirmações genéricas como a necessidade de organizar a classe trabalhadora,
construir poder popular, superar o neoliberalismo, enfrentar o imperialismo ou
romper com a dependência. Essas formulações podem expressar objetivos
legítimos, mas não constituem, em si mesmas, estratégia, porque ainda falta
responder às perguntas fundamentais: como organizar, onde organizar, quem deve
ser organizado, em quais setores, com quais instrumentos, por meio de quais
instituições, em qual sequência, dentro de qual horizonte temporal, com quais
recursos e sob responsabilidade de quem. Quando essas mediações desaparecem, a
política transforma-se em sucessão de palavras de ordem, incapaz de estabelecer
a ponte entre a interpretação geral e a intervenção concreta.
Lênin
insistiu continuamente na necessidade de transformar orientação geral em
tarefas determinadas, justamente porque, para ele, o problema não consistia
apenas em afirmar que a classe trabalhadora precisava ser organizada, mas em
compreender sob quais formas, em quais espaços, em que ritmo e mediante quais
instrumentos essa organização poderia realmente avançar.
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A análise concreta da situação concreta
A
formulação leninista sobre a necessidade da análise concreta da situação
concreta tornou-se quase proverbial, mas frequentemente é repetida de maneira
ritual sem que suas consequências metodológicas sejam levadas a sério, pois ela
exige muito mais do que possuir uma teoria geral sobre o capitalismo ou repetir
categorias consagradas pelo marxismo. Trata-se de compreender cada formação
social em suas particularidades históricas, investigando instituições, classes,
frações de classe, interesses econômicos, conflitos regionais, estruturas
produtivas, formas de consciência, tradições culturais, relações de poder e
mecanismos específicos de reprodução social.
Uma
esquerda verdadeiramente materialista não pode substituir investigação por
repetição decalcada de fórmulas, nem pode tratar categorias históricas como
abstrações atemporais que dispensariam pesquisa empírica. A própria noção de
classe trabalhadora, por exemplo, só possui utilidade política quando é
concretamente conhecida, o que implica perguntar quem compõe hoje a classe
trabalhadora brasileira, como ela se distribui territorialmente, quais setores
possuem emprego formal, quais estão submetidos à informalidade, qual é o peso
do trabalho por aplicativos, como se organiza o setor de serviços, que formas
de sociabilidade predominam, que relações existem entre trabalho, religião e
identidade e que expectativas de mobilidade social atravessam esses grupos. Também
exige compreender como trabalhadores enxergam empreendedorismo, segurança,
Estado, impostos, educação, propriedade, consumo, família, mérito e ascensão
social, porque sem esse conhecimento a política corre o risco de dirigir-se a
uma classe imaginária, construída a partir de esquemas históricos que já não
correspondem às formas atuais de vida e trabalho.
Lênin
jamais tratou a teoria como sistema fechado; para ele, a teoria deveria
permitir compreender uma realidade em movimento, e justamente por isso uma
organização que apenas repete conceitos sem investigar a sociedade concreta
transforma o marxismo em linguagem litúrgica, esvaziando seu conteúdo crítico e
materialista.
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A política da conciliação e a redução da estratégia ao Estado
Um dos
polos da crise da esquerda brasileira está na transformação progressiva da
institucionalidade em centro praticamente exclusivo da ação política, ainda que
a disputa institucional, por si só, não seja antirrevolucionária nem deva ser
descartada de maneira abstrata, já que participar de eleições, ocupar
parlamentos, administrar governos e disputar políticas públicas podem
constituir dimensões importantes de uma estratégia mais ampla. O problema
aparece quando a luta institucional deixa de ser instrumento e passa a
determinar o horizonte, porque, nesse momento, a própria estrutura da
organização começa a adaptar-se às necessidades da institucionalidade, fazendo
com que a atividade seja marcada pelos calendários eleitorais, a formação
política ceda espaço à comunicação de campanha, a construção territorial perca
centralidade diante das estruturas eleitorais e a mobilização seja
frequentemente reduzida à condição de suporte para candidaturas. O Estado,
nessa lógica, deixa de ser compreendido como terreno contraditório e passa a
ser concebido como instrumento suficiente de transformação, como se a ocupação
institucional pudesse substituir a construção de capacidade social autônoma.
Uma
perspectiva leninista sugere justamente o contrário, pois o Estado deve ser
compreendido no interior de uma relação de forças mais ampla, de modo que sua
disputa só adquire densidade estratégica quando articulada à construção de
organização independente na sociedade. Uma força política pode governar,
ampliar políticas sociais, elevar renda, expandir serviços públicos e produzir
ganhos materiais significativos sem, por isso, organizar politicamente aqueles
que foram beneficiados, porque melhoria econômica não gera automaticamente
consciência, expansão do consumo não produz automaticamente hegemonia e aumento
de renda não cria, por si só, organização popular. Sem construção política
própria, conquistas governamentais podem permanecer socialmente desorganizadas
e, portanto, vulneráveis a reversões futuras. É nesse ponto que a conciliação
deixa de ser tática e se transforma em estrutura permanente, fazendo com que a
necessidade de preservar alianças institucionais passe a limitar a capacidade
de construir força própria e transformando a política em administração da
correlação existente, não em esforço consciente para modificá-la.
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O revolucionarismo sem organização
No
extremo oposto aparece uma deformação aparentemente radical, mas igualmente
incapaz de produzir transformação, na medida em que determinados setores da
esquerda, ao identificarem corretamente os limites da adaptação institucional,
respondem por meio de uma intensificação do discurso revolucionário, tornando a
linguagem mais dura, multiplicando referências históricas e ampliando a
severidade das denúncias, sem que isso corresponda a um crescimento efetivo da
capacidade material de transformações profundas. É precisamente esse tipo de
política que Lênin criticava quando combatia tendências que confundiam pureza
doutrinária com eficácia revolucionária, porque, para ele, uma política
revolucionária não era definida pela radicalidade vocabular, mas pela capacidade
de construir condições históricas para modificar a realidade. Isso exigia
compreender relações de força, ritmos históricos, contradições concretas,
possibilidades efetivas e limites objetivos, o que significa reconhecer que o
voluntarismo pode ser tão prejudicial quanto a adaptação.
Uma
organização pode declarar permanentemente sua intenção revolucionária e, ainda
assim, permanecer confinada a círculos reduzidos, incapaz de organizar setores
amplos da sociedade, construir instituições duradouras ou influenciar
efetivamente processos políticos relevantes.
A
linguagem revolucionária não compensa a ausência de inserção social, assim como
a denúncia do reformismo não produz automaticamente uma alternativa
revolucionária. Uma organização pode estar correta em sua crítica e
completamente impotente em sua prática, e por isso a pergunta decisiva continua
sendo a mesma: que força real está sendo construída?
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Organização como mediação central
Para
Lênin, a organização não era uma questão administrativa, mas propriamente
política, porque uma estratégia sem organização permanece apenas uma hipótese,
enquanto a organização é aquilo que transforma possibilidade em capacidade. Por
isso a construção de quadros, estruturas, métodos, imprensa, formação,
disciplina, redes de atuação e mecanismos de coordenação possuía importância
central em sua concepção de política. Essa questão continua profundamente
atual, sobretudo porque parte da esquerda trata a organização como atividade
secundária, considerando mais nobre produzir análise política do que
administrar recursos, formar militantes, estruturar processos internos,
consolidar comunicação própria ou criar mecanismos duradouros de inserção
social. No entanto, são exatamente essas dimensões que transformam ideias em
força material.
Uma
organização política precisa ser capaz de reproduzir a si mesma, formar novas
pessoas, desenvolver quadros intermediários, preservar memória institucional,
produzir conhecimento, garantir recursos, estabelecer canais permanentes de
comunicação e sobreviver a derrotas eleitorais, crises conjunturais e mudanças
de liderança. Se cada ciclo político obriga a organização a recomeçar do zero,
não existe acumulação histórica, porque uma força política se mede também por
sua continuidade, por sua capacidade de atravessar conjunturas desfavoráveis
sem dissolver aquilo que foi construído anteriormente.
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O problema do elo intermediário
É
possível compreender boa parte da crise da esquerda como uma falha recorrente
na passagem entre estratégia e ação concreta, já que muitas organizações
conseguem formular objetivos estratégicos amplos e também realizar ações
táticas imediatas, mas apresentam enorme dificuldade no nível intermediário,
justamente aquele que deveria transformar uma orientação geral em arquitetura
política. Afirma-se, por exemplo, que é necessário reconstruir a soberania
nacional, o que constitui um objetivo estratégico, e em seguida organiza-se uma
manifestação, publica-se um manifesto ou inicia-se uma campanha, o que pertence
ao terreno tático; o problema é que frequentemente não existe uma estrutura
intermediária capaz de demonstrar de que modo essas ações particulares contribuem
para o objetivo mais amplo.
Uma
estratégia consistente deveria definir linhas permanentes de atuação, como
formação, comunicação, organização territorial, inserção sindical, produção
intelectual, trabalho cultural, elaboração econômica e pesquisa social,
estabelecendo, para cada uma dessas linhas, objetivos operacionais claros. Na
formação, poderia significar a construção de uma escola permanente; na
comunicação, a criação de um veículo com audiência própria; na organização, o
desenvolvimento de presença territorial continuada; na inserção social, a
atuação em setores profissionais considerados estratégicos; e na produção
intelectual, a consolidação de centros capazes de acompanhar de maneira
sistemática as transformações da realidade nacional. Quando isso ocorre, as
tarefas táticas deixam de ser ações isoladas e passam a cumprir funções
precisas dentro de uma orientação maior, de modo que um curso deixa de ser
apenas um curso, uma publicação deixa de ser apenas uma publicação e uma
reunião deixa de ser apenas uma reunião, porque cada atividade passa a integrar
um processo de acumulação política.
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O combate ao culto da conjuntura
Outra
limitação importante está na obsessão pela conjuntura imediata, pois a política
cotidiana produz estímulos incessantes, como crises, declarações, votações,
escândalos, decisões judiciais, disputas parlamentares, pesquisas eleitorais e
conflitos nas redes sociais, criando a tentação de transformar a organização em
uma máquina de reação permanente. Cada acontecimento gera uma nota, cada
polêmica produz uma postagem, cada crise exige um posicionamento, e a
consequência pode ser uma enorme quantidade de atividade sem qualquer
acumulação estratégica.
Lênin
acompanhava a conjuntura com atenção obsessiva, mas jamais confundia conjuntura
com estratégia, porque, para ele, o acontecimento imediato só adquiria sentido
quando interpretado no interior de uma linha política mais ampla. Essa
diferença é fundamental, pois uma esquerda que reage a tudo corre o risco de
construir muito pouco. A pergunta relevante não é quantas atividades foram
realizadas, mas o que permaneceu depois delas: quantos novos militantes foram
incorporados, quantos quadros foram formados, que estruturas se consolidaram,
que conhecimento foi produzido, que organizações ampliaram sua presença e quais
vínculos sociais se tornaram permanentes. A política precisa produzir
sedimentos, porque sem acumulação pode existir movimento, intensidade e
visibilidade, mas não necessariamente avanço.
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Objetivos intermediários e acumulação de forças
Uma
política materialista exige objetivos intermediários porque nenhuma
transformação histórica ocorre em um salto entre a realidade presente e o
horizonte final, existindo sempre entre ambos uma cadeia de mediações que
precisa ser construída conscientemente. Fortalecer sindicatos pode ser um
objetivo intermediário, assim como criar instrumentos de formação política,
ampliar presença entre trabalhadores precarizados, construir um ecossistema
próprio de comunicação, formar pesquisadores e intelectuais orgânicos,
desenvolver organizações territoriais e consolidar instituições culturais. Esses
objetivos não substituem a estratégia; ao contrário, são aquilo que a torna
praticável.
Uma
esquerda que recusa objetivos intermediários em nome da pureza revolucionária
termina frequentemente sem revolução e sem força, ao passo que uma esquerda que
abandona o horizonte estratégico em nome de objetivos imediatos corre o risco
de converter-se em administradora permanente dos limites existentes.
O
desafio consiste justamente em articular ambos, preservando o objetivo
histórico sem perder a capacidade de agir sobre tarefas concretas e
mensuráveis. Essa é uma das lições mais importantes de Lênin: a estratégia
revolucionária exige capacidade de combinar horizonte histórico e tarefa
imediata, sem dissolver um no outro.
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A formação de quadros como questão central
Nenhuma
política de longo prazo existe sem quadros, e Lênin compreendia que organização
política exige pessoas capazes de estudar, decidir, comunicar, coordenar e
agir, razão pela qual a formação não poderia ser tratada como atividade
ocasional ou acessória.
A
esquerda brasileira frequentemente subestima esse problema, produzindo
situações em que há militância, mas pouca formação sistemática; há ativistas,
mas poucos quadros capazes de compreender o conjunto da estratégia; há
intelectuais, mas nem sempre existe integração entre elaboração teórica e
atividade organizativa.
A
formação de quadros precisa existir como processo estruturado e contínuo,
envolvendo teoria, história, conhecimento da realidade nacional, capacidade de
organização, domínio da comunicação, compreensão econômica e aprendizado
político prático. Um quadro não é apenas alguém que conhece teoria; é alguém
capaz de transformar orientação geral em ação organizada, traduzindo decisões
estratégicas em processos compreensíveis e executáveis. Essa função
intermediária é decisiva, porque sem quadros a direção permanece isolada e a
base permanece fragmentada, fazendo com que a estratégia não circule
adequadamente pela organização.
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Reconstruir capacidade política
O
problema central da esquerda brasileira talvez não esteja em descobrir uma nova
grande interpretação do país, porque a tradição crítica já produziu
contribuições extraordinárias, mas em transformar conhecimento em força
organizada. Isso exige recuperar uma concepção leninista de política que seja
concreta, investigativa, disciplinada, estratégica e profundamente preocupada
com organização, o que significa estudar a sociedade real, construir
instituições, formar quadros, definir prioridades, organizar recursos, criar
instrumentos permanentes, estabelecer objetivos intermediários, avaliar
resultados, corrigir erros e preservar continuidade.
O
marxismo não pode ser reduzido a uma linguagem destinada a demonstrar que
determinada organização possui a interpretação correta, porque sua função é
fornecer instrumentos para compreender e transformar a realidade. A diferença
entre essas duas posições é fundamental, já que uma esquerda pode estar
teoricamente certa durante décadas e continuar politicamente irrelevante.
A
história não recompensa automaticamente quem compreende melhor suas
contradições, porque ela é disputada por forças organizadas, capazes de
transformar interpretação em direção, direção em estrutura e estrutura em
capacidade social.
Esse
talvez seja o ponto mais duro da crítica leninista: não basta possuir razão; é
preciso possuir capacidade. Não basta identificar corretamente a estrutura do
capitalismo brasileiro; é necessário criar instrumentos capazes de atuar sobre
ela. Não basta denunciar a conciliação; é necessário construir alternativa. Não
basta afirmar a necessidade da revolução; é preciso construir as mediações que
tornam qualquer transformação historicamente possível.
A
esquerda brasileira encontra-se, portanto, diante de uma escolha intelectual e
organizativa: pode continuar oscilando entre adaptação institucional e
radicalismo verbal ou pode reconstruir uma política fundada na unidade entre
análise, estratégia, organização e execução. Nesse sentido, Lênin permanece
menos como resposta pronta do que como método, porque sua contribuição
fundamental está na exigência de investigar concretamente, organizar
conscientemente, definir prioridades, transformar objetivos gerais em tarefas
determinadas, construir força de maneira persistente, avaliar a correlação real
de forças e corrigir a linha quando necessário.
Uma
política incapaz de realizar essas operações pode possuir o melhor diagnóstico
possível e continuar acumulando derrotas, porque a distância entre interpretar
e transformar não é preenchida pela retórica. Ela é preenchida por organização.
E talvez essa seja a formulação mais incômoda, porém mais necessária para a
esquerda brasileira contemporânea: um diagnóstico correto que não produz
capacidade organizada permanece, do ponto de vista histórico, muito próximo da
impotência.
Fonte:
Por Guilherme Diniz, para Opera Mundi

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