O
futuro da esquerda: se reinventar ou sucumbir
cenário
político brasileiro de 2026 é marcado por muitas incertezas. Tudo nos leva a
crer que a disputa presidencial que se inicia no dia 4 de outubro será ainda
mais acirrada do que foi em 2022. Obviamente, impedir o retorno do bolsonarismo
ao poder do executivo é uma tarefa histórica imprescindível, pois sabemos que a
candidatura de Flávio Bolsonaro nada mais é do que uma filial dos interesses
neocoloniais do imperialismo estadunidense em nosso continente de mãos dadas
com o Estado genocida de Israel. No entanto, mesmo dentro de um cenário
otimista de derrota do bolsonarismo, há uma pergunta indigesta da qual parte da
esquerda insiste em se esquivar: o que nos espera no day after do
lulismo?
Sejamos
duplamente honestos com duas avaliações breves: 1) a figura do Lula é a única
trincheira que nos separa da vitória da extrema direita fascista; 2) e isso é
trágico!
É
desolador que a esquerda em pleno 2026 se veja dependente de uma única figura
política que está claramente se despedindo deste cenário. É desolador que a
esquerda hoje não se mostre capaz de conquistar corações e mentes da classe
trabalhadora em torno de um projeto político-ideológico, mas sim em torno do
alto índice de rejeição do adversário.
Neste
sentido, quero refletir sobre o futuro da esquerda a partir de uma perspectiva
incrivelmente otimista (digo incrivelmente porque me parece que atualmente o
otimismo tem sido cada vez mais um luxo dos ingênuos). E esse otimismo se dá
pelo seguinte motivo: todo cenário de crise do capitalismo e de sua democracia
liberal abre portas. A esquerda precisará decidir se a atravessará ou não. Caso
optemos por não atravessar esta porta, é bem possível que em 2030 vislumbremos
duas candidaturas da extrema direita no segundo turno.
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Marx sempre esteve certo, mas parece que esquecemos
Quando
na célebre A ideologia alemã Marx e Engels afirmam que “o Estado nada
mais é do que um comitê a serviço da burguesia” parece que os dois estão
fazendo uma síntese do caso Banco Master. As promíscuas relações entre Daniel
Vorcaro, membros do STF e diversos políticos nos mostram todo o poder de
ingerência sobre o Estado brasileiro que a nossa burguesia possui. E vejam:
Vorcaro pode ser considerado um banqueiro de quinta categoria. Se ele conseguiu
colocar dentro do bolso uma parte considerável de nossa República, imaginem o
que figuras do sistema financeiro muito mais poderosas não conseguem fazer.
No
entanto, vejam só a sinuca de bico na qual a esquerda se meteu: na conjuntura
do julgamento dos golpistas, grande parte da esquerda simplesmente terceirizou
para o STF – especificamente Alexandre de Moraes – a luta contra o golpismo e a
defesa da nossa (pobre, fraca e em grande medida inexistente, dependendo da cor
de sua pele e do seu CEP) democracia. Houve uma defesa acrítica das
instituições democrático-liberais como se estas fossem nossas aliadas.
Definitivamente esquecemos o que Marx e Engels haviam escrito!
Não
sejamos ingênuos: o STF naquele momento defendeu esta parca democracia única e
exclusivamente porque se viu acuado pela trama golpista. Lembremos que havia
plano para matar ministros do Supremo. Diferentemente de 2016, não havia ali
“um grande acordo nacional com o Supremo com tudo”. Talvez se houvesse, a
postura dos ministros seria a mesma que daquela fatídica ocasião.
Vorcaro
provavelmente nunca leu Marx, mas como um bom burguês entendeu muito bem que o
Estado democrático-liberal é uma espécie de mercadoria que possui valor de uso,
mas também um valor de troca. E aí neste cenário, como fica a esquerda já que
tomamos para nós a responsabilidade de defender acriticamente essas
instituições? Maus lençóis, não?
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A extrema direita e o monopólio dos discurso antissistema
Quando
Renan Santos, numa sabatina da Globo, diz com todas as letras que, caso
seja eleito presidente, não irá respeitar decisões do STF que ele julga ilegais
(e sabe-se lá o que ele considera ser ilegal ou não), nós sabemos que por trás
desta fala existe uma ameaça autoritária típica de um regime de exceção aos
moldes de Nayib Bukele. Porém, me arrisco a dizer que grande parte da classe
trabalhadora brasileira não acompanha o que Bukele tem feito em El Salvador,
mas certamente tem acompanhado as aventuras do STF com Vorcaro. Neste cenário,
atacar o STF pode soar muito mais como uma empreitada heroica antissistema do
que um delírio golpista.
Sejamos
honestos novamente: em certa medida, a extrema direita conseguiu para si o
monopólio do discurso antissistema. E quero frisar a expressão “monopólio” para
deixar claro que grande parte da esquerda brasileira acabou se tornando refém
do polo oposto: a defesa do sistema. Atualmente a esquerda é muito mais lida
como uma gestora da ordem social do que uma força política capaz de romper com
esta ordem. Pura fantasia? A meu ver, de modo algum!
A
esquerda abdicou há muito tempo de pautar um discurso antissistema e optou por
tentar gerenciar de uma forma minimamente humana este mesmo sistema. A grande
questão é: quando nos limitamos a gerenciar de forma humana um sistema
essencialmente desumano, nós perdemos a capacidade de dar respostas concretas e
satisfatórias para o conjunto dos principais dilemas da classe trabalhadora
contemporânea. E, como sabemos, não existe espaço vazio na política. A esquerda
deixou uma lacuna; a extrema direita sabiamente viu e ocupou este lugar.
Olhem
que curioso: a esquerda foi moderando o seu discurso sob a tutela da chamada
governabilidade enquanto a ascensão da extrema direita colocou na ordem do dia
um discurso nada moderado e acabou enterrando a direita tradicional enquanto
força política nacionalmente relevante. Aliás, por questões de sobrevivência
política, muitos desta direita tradicional vieram compor a Frente Ampla e –
vide Simone Tebet em São Paulo – retornaram ao centro do embate político. Só
nos faltava essa: a esquerda contribuindo para o renascimento da direita viúva
de FHC. Será? A ver…
Peço
desculpas pelo humor satírico, mas pensem comigo: o bolsonarismo, liderado pelo
presidiário Jair Bolsonaro, conseguiu fazer algo que a esquerda infelizmente
nunca conseguiu, apesar de muito tentar: convencer uma parte razoável da
população de que a Rede Globo é uma inimiga. Obviamente sob a narrativa
fantasiosa de que se trata de um órgão midiático comunista, mas, mesmo assim,
inimiga! Quanta ironia: o bolsonarismo atacando “o sistema” em sua forma
midiática enquanto muitos de nós do campo progressista aplaudíamos as análises
desta mesma mídia quando ela tinha um mínimo de razoabilidade contrária a
extrema direita. Mas talvez esqueçamos que foi através desta mesma mídia que se
capilarizou na sociedade em 2018 a lógica da “escolha muito difícil”.
De
conciliação em conciliação, me parece que boa parte da esquerda foi perdendo um
bocado de sua identidade, originalidade e ousadia. A questão é que a classe
trabalhadora pode ser muita coisa, mas não é cega, nem burra. Ela percebe as
contradições. Temos que ser honestos uma terceira vez: o antipetismo não foi
apenas uma construção midiática alienante; foi também atravessado por
sentimentos legítimos de uma classe desesperançosa com a uma esquerda que,
repito, perdera identidade, originalidade e ousadia.
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Temos medo de sermos radicais?
No
primeiro turno das eleições presidenciais de 2018 atuei de forma incansável na
campanha de Guilherme Boulos.
Numa
panfletagem noturna pelo centro do Rio de Janeiro fui distribuir material de
campanha numa mesa onde 2 trabalhadores tomavam uma cerveja após um expediente
de trabalho. Um deles pegou o panfleto, olhou e disse: “Eu gosto desse Boulos,
mas votarei no Bolsonaro!”. Não esperava uma fala como esta. Disse que os 2
representavam campos político-ideológicos muito distintos e perguntei quais
eram os motivos dessa fala. A resposta que esse trabalhador me deu ecoou em
minha cabeça durante muito tempo. Ele disse: “Para mim o Brasil precisa de
soluções radicais. O Boulos tem um discurso radical e eu gosto disso! Mas eu
acho que o Bolsonaro tem mais!”.
Nunca
mais tive contato com esse trabalhador, mas, caso ele tenha acompanhado a
trajetória de Boulos pós-2018, certamente está frustrado.
A
questão é: há bastante tempo, uma parte considerável da esquerda vem nutrindo
certo receio com a questão da radicalidade. Há uma perspectiva hegemônica na
esquerda brasileira de que “subir o sarrafo” da luta de classes e partir para a
ofensiva no discurso e nas ações provocaria dois malefícios:
1) a governabilidade
estaria arruinada;
a
população se afastaria da esquerda.
Sobre a
questão da governabilidade, podemos dizer que grande parte da esquerda tem
adotado 2 caminhos: moderação e conciliação. E qual foi o resultado disso? Um
golpe que retirou a presidenta Dilma da presidência e abriu as portas para a
ascensão do bolsonarismo. Sobre a questão da população: penso que a esquerda
tem subestimado demais a capacidade crítica da classe trabalhadora. E me parece
também que tem subestimado a própria realidade! Sabemos que em cenários de
crise social, política, econômica e ambiental abre-se uma brecha considerável
para que discursos mais radicais sejam ouvidos com maior atenção.
Principalmente pela juventude.
Sejamos
honestos uma quarta vez: a esquerda tem perdido cada vez mais a juventude. E
perdendo para a extrema direita, a força política que, como dito antes, tem
exercido o monopólio do discurso antissistema. Mas vejam que curioso: hoje, nas
redes sociais, os comunicadores de esquerda que mais conseguem se conectar com
os jovens são justamente aqueles do campo da esquerda radical. Falar em
marxismo, socialismo, comunismo e revolução tem cumprido um papel fundamental
nas redes na disputa ideológica pelos jovens para que estes não caiam no colo
do fascismo. O fato é: o campo da esquerda que tem conseguido apresentar aos
jovens alguma perspectiva de futuro fundamentada num discurso antissistema é o
campo da esquerda radical.
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A porta está aberta: entre ou sucumba
Estou
convencido que se abriu uma porta para a esquerda brasileira. Esta porta aponta
um caminho: sua renovação e reconstrução sob um novo (ou velho!) paradigma: o
paradigma da radicalidade antissistema. Creio que após as eleições –
independentemente do resultado – todo o campo da esquerda que ainda tem sido
norteada pela lógica conciliatória e pela tática das alianças como um fim em si
mesmas e não como uma mediação sob o horizonte estratégico da luta de classes,
deveria se olhar no espelho de forma humilde e sincera.
Ao se
olhar, se perguntar: será que esta visível ascensão do fascismo no mundo,
dentre tantos motivos, não se deu também por que uma parte considerável da
esquerda mundial abdicou de sua radicalidade socialista e comunista? Caso este
olhar a si mesmo não seja pautado pela tão constante terceirização dos
problemas e sim movido por um irresistível apego às provas que a história
recente nos dá, certamente essa esquerda poderá acordar de um sono profundo e
iniciar um processo de renovação e reconstrução sob a perspectiva da luta
anticapitalista.
No
cenário brasileiro, acredito que o primeiro teste de fogo no plano imediato
seria assumir duas ofensivas classistas de enfrentamento à barbárie neoliberal:
a revogação do Arcabouço Fiscal e a revogação da autonomia do Banco Central
(BC). Não há nenhuma chance da esquerda oferecer respostas efetivas aos
principais dilemas da classe trabalhadora brasileira nos marcos de uma política
econômica neoliberal que nos impõe uma limitação absurda de gastos públicos e
um BC aparelhado pelos interesses do capital financeiro cujos objetivos se
alinham com a taxa de juros criminosa que se pratica no Brasil e que assola a
vida de milhões de brasileiros endividados. Porém, para fazer este
enfrentamento, a esquerda precisa de uma vez por todas jogar na lata de lixo da
história o famigerado mito da austeridade fiscal, cujas raízes remontam a um
projeto da burguesia dos países capitalistas centrais no intuito de aprofundar
a submissão do trabalho ao capital.
O tempo
dos moderados e conciliadores se esgotou. A conjuntura atual nos coloca frente
a uma tarefa histórica plenamente factível: nossa reinvenção pela via radical.
Caso optemos por não ultrapassar esta porta, talvez levemos um golpe tão duro
da conjuntura que será difícil levantar.
Está na
hora de decifrarmos essa esfinge da necessária reconstrução da esquerda. Ou
deciframos pela via radical, ou seremos devorados pela história.
Fonte:
Por Sandro Justo, em Jacobin Brasil

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