segunda-feira, 28 de setembro de 2026


 

Toninho Kalunga: Em defesa do Estado laico - a necessária reação católica ao projeto teocrático bolsonarista

O Brasil enfrenta uma disputa política que ultrapassa os limites das eleições. Está em curso uma tentativa de apropriação da fé cristã por um setor radicalizado do bolsonarismo, que mistura religião, poder político e projeto eleitoral para apresentar seus próprios interesses como se fossem a vontade de Deus. Esse movimento ganhou contornos ainda mais preocupantes com a declaração atribuída a Flávio Bolsonaro de que, caso seja eleito presidente da República, decretará que “o Brasil é do Senhor Jesus”.

À primeira vista, a frase pode parecer apenas uma manifestação de fé. Quando pronunciada por alguém que disputa o comando do Estado, entretanto, assume outro significado: transforma uma convicção religiosa em programa de governo. O Brasil não pertence exclusivamente aos católicos, aos evangélicos ou aos seguidores de qualquer outra religião. Também pertencem ao país os espíritas, os adeptos das religiões de matriz africana, os judeus, os muçulmanos, os povos indígenas que preservam suas tradições espirituais e os seguidores das religiões e filosofias religiosas asiáticas, como o budismo, o hinduísmo, o xintoísmo e o sikhismo.

Pertencem igualmente ao Brasil aqueles que não professam religião alguma. O Brasil pertence ao povo brasileiro. Por isso, a laicidade do Estado não representa uma ameaça ao cristianismo. Ao contrário, é justamente o Estado laico que garante a liberdade religiosa e impede que uma religião seja perseguida, controlada ou utilizada pelo poder político. A separação entre Igreja e Estado protege tanto a democracia quanto a própria fé.

Nesse contexto, causam enorme preocupação as informações sobre setores religiosos que defendem a retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil, sob o argumento de que ela representaria apenas os católicos. Mesmo que essa proposta ainda não tenha sido apresentada formalmente como programa eleitoral, sua circulação no ambiente político-religioso precisa ser levada a sério. Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma devoção particular do catolicismo. Sua imagem está profundamente ligada à história, à cultura e à identidade do povo brasileiro. Encontrada por pescadores pobres, negra e pequena, Aparecida tornou-se sinal da fé de milhões de pessoas e símbolo de um Brasil que nasce das margens, das águas e das mãos do povo trabalhador.

O respeito por Nossa Senhora Aparecida também ultrapassa as fronteiras institucionais da Igreja Católica. Há pessoas e setores evangélicos, espíritas, muçulmanos e pertencentes a outras tradições religiosas que, mesmo não compartilhando da devoção mariana, reconhecem sua importância histórica, cultural e popular. Respeitar Aparecida não significa obrigar todos os brasileiros a professarem a fé católica, mas reconhecer um símbolo que se incorporou à formação e à memória do país. Tentar criar uma competição entre Jesus Cristo e Nossa Senhora é uma falsificação teológica. Maria nunca ocupou, na fé católica, o lugar de Cristo. Toda devoção mariana conduz a Jesus. No Evangelho, a própria Maria proclama que Deus “derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias”. O problema, portanto, não é uma disputa entre Jesus e Maria.

O que existe é uma estratégia política que utiliza o nome de Jesus para dividir os cristãos, atacar a tradição católica e enfraquecer a presença pública de uma Igreja comprometida com os pobres. É por isso que a manifestação de bispos católicos em defesa do voto consciente possui tanta importância. Ao pedir que os fiéis examinem a história, os compromissos e a conduta dos candidatos, colocando a opção preferencial pelos pobres no centro do discernimento, os bispos não estão transformando a Igreja em partido político. Estão cumprindo uma responsabilidade pastoral. A Igreja não deve indicar candidaturas nem se tornar parte do Estado. Isso, porém, não significa permanecer indiferente diante da fome, da miséria, da violência, do racismo, da destruição ambiental ou dos ataques à democracia. A Doutrina Social da Igreja ensina que a política deve estar a serviço da dignidade humana e do bem comum.

A defesa dos pobres não é um acessório ideológico acrescentado ao Evangelho. É uma exigência da fé cristã. Jesus se identificou com quem tem fome, sede, está doente, preso, estrangeiro ou abandonado. Defender o Estado laico significa estabelecer uma relação de respeito e autonomia. O Estado não pode controlar a vida interna das igrejas, determinar sua doutrina ou perseguir seus fiéis. Da mesma maneira, nenhuma igreja pode se apoderar do Estado, impor seus dogmas ao conjunto da população ou transformar a máquina pública em instrumento de conversão e domínio religioso. A oração do Pai-Nosso nos ajuda a compreender essa diferença.

Quando rezamos “venha a nós o vosso Reino” e “seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”, não estamos declarando uma pertença política nem reivindicando que o Estado pertença exclusivamente aos cristãos. Estamos reconhecendo que a justiça de Deus é maior do que a justiça humana. A realização do Reino não pode ser reduzida à vontade de um governante, de um partido, de uma denominação religiosa ou mesmo de uma maioria eleitoral. Ela nasce do amor do Pai e do seu desejo de que exista, também aqui na Terra, um mundo justo, fraterno e solidário, como acreditamos existir no Céu. A vontade de Deus não se confunde com o projeto pessoal de quem ocupa o poder. Também não autoriza ninguém a falar em nome de Deus para dominar os outros. Ao rezar o Pai-Nosso, o cristão não pede que sua religião governe o país. Pede que a humanidade seja transformada pela justiça, pela misericórdia, pela partilha e pelo amor. Por isso, o Reino de Deus não é implantado por decreto presidencial. Não nasce de uma eleição nem pode ser confundido com um governo. Para os cristãos, ele começa a se manifestar quando a justiça vence a opressão, quando o faminto é alimentado, quando o estrangeiro é acolhido, quando o doente é cuidado e quando a dignidade dos últimos é respeitada.

Um projeto que divide a sociedade entre “povo de Deus” e “inimigos de Deus”, que se apresenta como representante exclusivo de Jesus e transforma adversários políticos em adversários espirituais não fortalece a fé. Produz fanatismo, intolerância e alienação religiosa. O bolsonarismo religioso precisa ser compreendido, portanto, não apenas como uma corrente eleitoral, mas como um projeto de poder que instrumentaliza símbolos cristãos. Em sua expressão mais radicalizada, torna-se anticatólico e contradiz o próprio Evangelho que afirma defender. A Igreja Católica precisa reagir — não para conquistar privilégios, mas para defender a liberdade religiosa, o Estado democrático e o direito de todas as pessoas viverem conforme sua consciência. Precisa também impedir que o silêncio permita a consolidação de uma teocracia disfarçada de defesa da fé. Nas próximas eleições, os cristãos devem observar não apenas as palavras religiosas pronunciadas pelos candidatos, mas sobretudo os frutos de suas ações. Devem perguntar quem defende a democracia, quem combate a fome, quem promove a paz, quem protege os pobres e quem respeita a diversidade religiosa do povo brasileiro. O voto consciente não é aquele orientado pelo candidato que mais repete o nome de Deus. É aquele discernido à luz do Evangelho, da solidariedade, da justiça social e do compromisso com o bem comum. Jesus Cristo não precisa ser decretado Senhor do Brasil. Precisa ser reconhecido na vida e na dignidade dos brasileiros, especialmente dos mais pobres e abandonados.

•        Uchôa cobra Flávio Bolsonaro após declaração sobre “Brasil de Jesus Cristo”

O jurista Marcelo Uchôa questionou nesta sexta-feira (25) se a declaração do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) de que pretende “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” teria relação política com um antigo projeto que buscava restringir aos católicos o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira.

Em publicação na rede social X, Uchôa, que é doutor em Direito Constitucional, associou os dois episódios em forma de questionamento. “Ôpa, entendi direito? O interesse de Flávio Bolsonaro em declarar o Brasil como país do Senhor Jesus Cristo é fazer média com antigo Projeto de Lei da bancada evangélica que rebaixava Nossa Senhora Aparecida de Padroeira do Brasil a padroeira dos católicos? Caramba!”, escreveu.

Não há vínculo documentado entre Flávio Bolsonaro e a proposta legislativa, que a Câmara dos Deputados arquivou em 2008, mas a discussão remete a uma declaração do senador fez em 23 de agosto, quando explicou sua ausência no primeiro debate presidencial de 2026, promovido pela Band.

Em vídeo publicado nas redes sociais, o senador afirmou que desejava confrontar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e declarou que, caso vença a eleição, “um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

A declaração voltou ao centro do debate nesta semana, após manifestações de integrantes da Igreja Católica sobre soberania, democracia e participação eleitoral. Bispos da Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que reúne dioceses do Amazonas e de Roraima, publicaram um vídeo com orientações para as eleições. A gravação não mencionou Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato.

Os religiosos defenderam a soberania brasileira, pediram participação dos eleitores e alertaram para o uso da religião na busca por votos. Dom Guilherme Werlang afirmou na gravação: “Atenção à manipulação religiosa que pede votos em nome de Deus. As igrejas não são currais eleitorais”.

O arcebispo emérito de Aparecida, dom Orlando Brandes, também tratou de soberania e eleições durante uma missa no Santuário Nacional em 7 de setembro. Na celebração, ele chamou Nossa Senhora Aparecida de “padroeira do Brasil” e pediu aos eleitores que considerassem o bem comum ao escolher seus representantes.

<><> Projeto de 2007 queria mudar título previsto em lei

O projeto citado na discussão existe, mas não tramita no Congresso. O então deputado Professor Victório Galli (PMDB-MT) apresentou o Projeto de Lei 2.623/2007 em dezembro de 2007. Os registros da Câmara atribuem a proposta individualmente a Galli e não registram Flávio Bolsonaro como autor, coautor ou participante da iniciativa.

O texto pretendia alterar a Lei 6.802, de 1980, que estabelece o feriado nacional de 12 de outubro em homenagem a Nossa Senhora Aparecida. Galli propôs trocar a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta também preservava o feriado nacional.

Na justificativa do projeto, Galli argumentou que o caráter laico do Estado brasileiro não permitiria atribuir oficialmente uma padroeira ao país. A Comissão de Educação e Cultura rejeitou o mérito da iniciativa, e a Câmara arquivou o texto em 22 de agosto de 2008.

A própria Câmara voltou ao assunto em 2018, quando informações sobre a proposta voltaram a circular nas redes sociais. Na ocasião, a Casa esclareceu que o PL 2.623/2007 permanecia arquivado desde 2008 e não integrava a pauta legislativa.

•        O destronar da padroeira do Brasil? Por Jacqueline Muniz

Destronar Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil não é uma promessa escondida qualquer no bastidor oculto de campanha. É golpe baixo com as pessoas de fé e uma afronta a um símbolo religioso e cultural do país. Sou afilhada de batismo e crisma de Santo Antônio e Nossa Senhora.

Hoje, o ataque covarde é aos católicos, pois já faz tempo que o sagrado das religiões de matriz africana é atacado. O bolsonarismo é uma seita política que quer aparelhar as nossas crenças, que são o primeiro lugar de nossa identidade e existência.

Eles querem ser os novos deuses “acima de tudo” e o governo totalitário “acima de todos”. Precisam criar sempre novos inimigos entre nós para matar o coletivo, a cooperação e a empatia. Precisam nos manter permanentemente amedrontados e alvos dos pânicos morais fabricados a partir de nossa insegurança real, também estimulada.

A santíssima trindade bolsonariana combina o profeta do caos, o senhor da guerra e o mercador da proteção. Eles são os arquitetos do regime da esculachocracia que quer nos destituir, minando nossa vida coletiva e minerando nossas riquezas.

Eles precisam que nós nos sintamos sozinhos, intimidados, abandonados e esquecidos.

•        Boato sobre padroeira gera críticas a Flávio Bolsonaro e favorece PT nas redes, diz estudo

O boato sobre a retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida gerou uma repercussão predominantemente negativa para o senador Flávio Bolsonaro (PL) e favoreceu o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas redes sociais, segundo levantamento da Palver divulgado pela CNN Brasil. A informação falsa vinculou o candidato à Presidência a uma proposta de outro parlamentar, arquivada em 2008.

As críticas representaram 73% das manifestações sobre Flávio nas redes, contra 27% de apoio, quando excluídas as publicações neutras. No WhatsApp e no Telegram, a distribuição foi de 60% de mensagens contrárias ao candidato e 40% favoráveis.

O monitoramento também identificou uma diferença entre a circulação do boato e a resposta do senador. Cerca de 37% das mensagens analisadas apresentaram a informação falsa como verdadeira. Já o desmentido e as publicações em defesa de Flávio corresponderam a 16% do conteúdo.

A discussão chegou a 735 menções a cada 100 mil mensagens nesta sexta-feira (25). Até quarta-feira (23), o assunto aparecia entre 40 e 80 vezes no mesmo universo de publicações.

Segundo a Palver, empresa de tecnologia e inteligência de dados, perfis de esquerda tiveram protagonismo na disseminação do conteúdo e alcançaram elevado engajamento. O relatório classificou Flávio como “o ator político mais prejudicado” e apontou o PT e o campo governista como “os principais beneficiados pela narrativa”.

A análise considera que o episódio pode provocar uma “erosão do apoio católico” à candidatura do senador. Essa avaliação, porém, se refere aos possíveis efeitos da repercussão: o levantamento acompanha o debate digital e não mede intenção de voto.

A associação de Flávio ao tema partiu de um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli. A proposta pretendia trocar a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos”. Além de não ter sido apresentada pelo senador, a iniciativa foi arquivada no ano seguinte.

O canal de televisão que divulgou a informação se retratou e pediu desculpas. Flávio publicou um vídeo para negar qualquer articulação nesse sentido e voltou a abordar o assunto durante uma agenda no Rio de Janeiro nesta sexta-feira.

“É uma mentira que eu teria apoiado algum projeto que fosse retirar Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Jamais faria isso”, declarou.

O candidato atribuiu a disseminação da informação falsa à “milícia do PT”. O material apresentado não traz comprovação dessa acusação. O predomínio de perfis de esquerda na distribuição do conteúdo, identificado pelo monitoramento, não estabelece a autoria do boato.

“Eu sempre respeitei todas as religiões. Todos sabem que sou cristão, que sou evangélico, mas que respeito todas as religiões”, acrescentou Flávio.

O vice-presidente e candidato à reeleição, Geraldo Alckmin, também se pronunciou. Ele afirmou ter recebido mensagens de católicos preocupados com as notícias em circulação e disse que o governo preservará as tradições religiosas.

“Preciso esclarecer que, enquanto o presidente Lula e eu estivermos governando este país, as tradições religiosas, tão sagradas para as famílias brasileiras, estarão protegidas e preservadas”, afirmou Alckmin.

A disputa pelo eleitorado religioso aparece nos resultados do Datafolha divulgados na quinta-feira (24). Entre os católicos, Lula registrou 45% das intenções de voto, contra 33% de Flávio. Entre os evangélicos, o senador alcançou 47%, enquanto o presidente teve 27%. Os indecisos somaram 2% em cada segmento.

Nesta semana, bispos do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgaram um vídeo em defesa da democracia, do voto consciente e do combate à manipulação religiosa. “As igrejas não são currais eleitorais”, afirmaram os religiosos.

 

Fonte: Brasil 247


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