Toninho
Kalunga: Em defesa do Estado laico - a necessária reação católica ao projeto
teocrático bolsonarista
O
Brasil enfrenta uma disputa política que ultrapassa os limites das eleições.
Está em curso uma tentativa de apropriação da fé cristã por um setor
radicalizado do bolsonarismo, que mistura religião, poder político e projeto
eleitoral para apresentar seus próprios interesses como se fossem a vontade de
Deus. Esse movimento ganhou contornos ainda mais preocupantes com a declaração
atribuída a Flávio Bolsonaro de que, caso seja eleito presidente da República,
decretará que “o Brasil é do Senhor Jesus”.
À
primeira vista, a frase pode parecer apenas uma manifestação de fé. Quando
pronunciada por alguém que disputa o comando do Estado, entretanto, assume
outro significado: transforma uma convicção religiosa em programa de governo. O
Brasil não pertence exclusivamente aos católicos, aos evangélicos ou aos
seguidores de qualquer outra religião. Também pertencem ao país os espíritas,
os adeptos das religiões de matriz africana, os judeus, os muçulmanos, os povos
indígenas que preservam suas tradições espirituais e os seguidores das
religiões e filosofias religiosas asiáticas, como o budismo, o hinduísmo, o
xintoísmo e o sikhismo.
Pertencem
igualmente ao Brasil aqueles que não professam religião alguma. O Brasil
pertence ao povo brasileiro. Por isso, a laicidade do Estado não representa uma
ameaça ao cristianismo. Ao contrário, é justamente o Estado laico que garante a
liberdade religiosa e impede que uma religião seja perseguida, controlada ou
utilizada pelo poder político. A separação entre Igreja e Estado protege tanto
a democracia quanto a própria fé.
Nesse
contexto, causam enorme preocupação as informações sobre setores religiosos que
defendem a retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do
Brasil, sob o argumento de que ela representaria apenas os católicos. Mesmo que
essa proposta ainda não tenha sido apresentada formalmente como programa
eleitoral, sua circulação no ambiente político-religioso precisa ser levada a
sério. Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma devoção particular do
catolicismo. Sua imagem está profundamente ligada à história, à cultura e à
identidade do povo brasileiro. Encontrada por pescadores pobres, negra e
pequena, Aparecida tornou-se sinal da fé de milhões de pessoas e símbolo de um
Brasil que nasce das margens, das águas e das mãos do povo trabalhador.
O
respeito por Nossa Senhora Aparecida também ultrapassa as fronteiras
institucionais da Igreja Católica. Há pessoas e setores evangélicos, espíritas,
muçulmanos e pertencentes a outras tradições religiosas que, mesmo não
compartilhando da devoção mariana, reconhecem sua importância histórica,
cultural e popular. Respeitar Aparecida não significa obrigar todos os
brasileiros a professarem a fé católica, mas reconhecer um símbolo que se
incorporou à formação e à memória do país. Tentar criar uma competição entre
Jesus Cristo e Nossa Senhora é uma falsificação teológica. Maria nunca ocupou,
na fé católica, o lugar de Cristo. Toda devoção mariana conduz a Jesus. No
Evangelho, a própria Maria proclama que Deus “derruba do trono os poderosos e
eleva os humildes; enche de bens os famintos e despede os ricos de mãos
vazias”. O problema, portanto, não é uma disputa entre Jesus e Maria.
O que
existe é uma estratégia política que utiliza o nome de Jesus para dividir os
cristãos, atacar a tradição católica e enfraquecer a presença pública de uma
Igreja comprometida com os pobres. É por isso que a manifestação de bispos
católicos em defesa do voto consciente possui tanta importância. Ao pedir que
os fiéis examinem a história, os compromissos e a conduta dos candidatos,
colocando a opção preferencial pelos pobres no centro do discernimento, os
bispos não estão transformando a Igreja em partido político. Estão cumprindo
uma responsabilidade pastoral. A Igreja não deve indicar candidaturas nem se
tornar parte do Estado. Isso, porém, não significa permanecer indiferente
diante da fome, da miséria, da violência, do racismo, da destruição ambiental
ou dos ataques à democracia. A Doutrina Social da Igreja ensina que a política
deve estar a serviço da dignidade humana e do bem comum.
A
defesa dos pobres não é um acessório ideológico acrescentado ao Evangelho. É
uma exigência da fé cristã. Jesus se identificou com quem tem fome, sede, está
doente, preso, estrangeiro ou abandonado. Defender o Estado laico significa
estabelecer uma relação de respeito e autonomia. O Estado não pode controlar a
vida interna das igrejas, determinar sua doutrina ou perseguir seus fiéis. Da
mesma maneira, nenhuma igreja pode se apoderar do Estado, impor seus dogmas ao
conjunto da população ou transformar a máquina pública em instrumento de
conversão e domínio religioso. A oração do Pai-Nosso nos ajuda a compreender
essa diferença.
Quando
rezamos “venha a nós o vosso Reino” e “seja feita a vossa vontade, assim na
terra como no céu”, não estamos declarando uma pertença política nem
reivindicando que o Estado pertença exclusivamente aos cristãos. Estamos
reconhecendo que a justiça de Deus é maior do que a justiça humana. A
realização do Reino não pode ser reduzida à vontade de um governante, de um
partido, de uma denominação religiosa ou mesmo de uma maioria eleitoral. Ela
nasce do amor do Pai e do seu desejo de que exista, também aqui na Terra, um
mundo justo, fraterno e solidário, como acreditamos existir no Céu. A vontade
de Deus não se confunde com o projeto pessoal de quem ocupa o poder. Também não
autoriza ninguém a falar em nome de Deus para dominar os outros. Ao rezar o
Pai-Nosso, o cristão não pede que sua religião governe o país. Pede que a
humanidade seja transformada pela justiça, pela misericórdia, pela partilha e
pelo amor. Por isso, o Reino de Deus não é implantado por decreto presidencial.
Não nasce de uma eleição nem pode ser confundido com um governo. Para os
cristãos, ele começa a se manifestar quando a justiça vence a opressão, quando
o faminto é alimentado, quando o estrangeiro é acolhido, quando o doente é
cuidado e quando a dignidade dos últimos é respeitada.
Um
projeto que divide a sociedade entre “povo de Deus” e “inimigos de Deus”, que
se apresenta como representante exclusivo de Jesus e transforma adversários
políticos em adversários espirituais não fortalece a fé. Produz fanatismo,
intolerância e alienação religiosa. O bolsonarismo religioso precisa ser
compreendido, portanto, não apenas como uma corrente eleitoral, mas como um
projeto de poder que instrumentaliza símbolos cristãos. Em sua expressão mais
radicalizada, torna-se anticatólico e contradiz o próprio Evangelho que afirma
defender. A Igreja Católica precisa reagir — não para conquistar privilégios,
mas para defender a liberdade religiosa, o Estado democrático e o direito de
todas as pessoas viverem conforme sua consciência. Precisa também impedir que o
silêncio permita a consolidação de uma teocracia disfarçada de defesa da fé.
Nas próximas eleições, os cristãos devem observar não apenas as palavras
religiosas pronunciadas pelos candidatos, mas sobretudo os frutos de suas
ações. Devem perguntar quem defende a democracia, quem combate a fome, quem
promove a paz, quem protege os pobres e quem respeita a diversidade religiosa
do povo brasileiro. O voto consciente não é aquele orientado pelo candidato que
mais repete o nome de Deus. É aquele discernido à luz do Evangelho, da
solidariedade, da justiça social e do compromisso com o bem comum. Jesus Cristo
não precisa ser decretado Senhor do Brasil. Precisa ser reconhecido na vida e
na dignidade dos brasileiros, especialmente dos mais pobres e abandonados.
• Uchôa cobra Flávio Bolsonaro após
declaração sobre “Brasil de Jesus Cristo”
O
jurista Marcelo Uchôa questionou nesta sexta-feira (25) se a declaração do
candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) de que pretende “decretar que o
Brasil é do Senhor Jesus Cristo” teria relação política com um antigo projeto
que buscava restringir aos católicos o título de Nossa Senhora Aparecida como
padroeira.
Em
publicação na rede social X, Uchôa, que é doutor em Direito Constitucional,
associou os dois episódios em forma de questionamento. “Ôpa, entendi direito? O
interesse de Flávio Bolsonaro em declarar o Brasil como país do Senhor Jesus
Cristo é fazer média com antigo Projeto de Lei da bancada evangélica que
rebaixava Nossa Senhora Aparecida de Padroeira do Brasil a padroeira dos
católicos? Caramba!”, escreveu.
Não há
vínculo documentado entre Flávio Bolsonaro e a proposta legislativa, que a
Câmara dos Deputados arquivou em 2008, mas a discussão remete a uma declaração
do senador fez em 23 de agosto, quando explicou sua ausência no primeiro debate
presidencial de 2026, promovido pela Band.
Em
vídeo publicado nas redes sociais, o senador afirmou que desejava confrontar o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e declarou que, caso vença a eleição,
“um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus
Cristo”.
A
declaração voltou ao centro do debate nesta semana, após manifestações de
integrantes da Igreja Católica sobre soberania, democracia e participação
eleitoral. Bispos da Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB), que reúne dioceses do Amazonas e de Roraima, publicaram um vídeo
com orientações para as eleições. A gravação não mencionou Lula, Flávio
Bolsonaro ou qualquer outro candidato.
Os
religiosos defenderam a soberania brasileira, pediram participação dos
eleitores e alertaram para o uso da religião na busca por votos. Dom Guilherme
Werlang afirmou na gravação: “Atenção à manipulação religiosa que pede votos em
nome de Deus. As igrejas não são currais eleitorais”.
O
arcebispo emérito de Aparecida, dom Orlando Brandes, também tratou de soberania
e eleições durante uma missa no Santuário Nacional em 7 de setembro. Na
celebração, ele chamou Nossa Senhora Aparecida de “padroeira do Brasil” e pediu
aos eleitores que considerassem o bem comum ao escolher seus representantes.
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Projeto de 2007 queria mudar título previsto em lei
O
projeto citado na discussão existe, mas não tramita no Congresso. O então
deputado Professor Victório Galli (PMDB-MT) apresentou o Projeto de Lei
2.623/2007 em dezembro de 2007. Os registros da Câmara atribuem a proposta
individualmente a Galli e não registram Flávio Bolsonaro como autor, coautor ou
participante da iniciativa.
O texto
pretendia alterar a Lei 6.802, de 1980, que estabelece o feriado nacional de 12
de outubro em homenagem a Nossa Senhora Aparecida. Galli propôs trocar a
expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos
apostólicos romanos”. A proposta também preservava o feriado nacional.
Na
justificativa do projeto, Galli argumentou que o caráter laico do Estado
brasileiro não permitiria atribuir oficialmente uma padroeira ao país. A
Comissão de Educação e Cultura rejeitou o mérito da iniciativa, e a Câmara
arquivou o texto em 22 de agosto de 2008.
A
própria Câmara voltou ao assunto em 2018, quando informações sobre a proposta
voltaram a circular nas redes sociais. Na ocasião, a Casa esclareceu que o PL
2.623/2007 permanecia arquivado desde 2008 e não integrava a pauta legislativa.
• O destronar da padroeira do Brasil? Por
Jacqueline Muniz
Destronar
Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil não é uma promessa escondida
qualquer no bastidor oculto de campanha. É golpe baixo com as pessoas de fé e
uma afronta a um símbolo religioso e cultural do país. Sou afilhada de batismo
e crisma de Santo Antônio e Nossa Senhora.
Hoje, o
ataque covarde é aos católicos, pois já faz tempo que o sagrado das religiões
de matriz africana é atacado. O bolsonarismo é uma seita política que quer
aparelhar as nossas crenças, que são o primeiro lugar de nossa identidade e
existência.
Eles
querem ser os novos deuses “acima de tudo” e o governo totalitário “acima de
todos”. Precisam criar sempre novos inimigos entre nós para matar o coletivo, a
cooperação e a empatia. Precisam nos manter permanentemente amedrontados e
alvos dos pânicos morais fabricados a partir de nossa insegurança real, também
estimulada.
A
santíssima trindade bolsonariana combina o profeta do caos, o senhor da guerra
e o mercador da proteção. Eles são os arquitetos do regime da esculachocracia
que quer nos destituir, minando nossa vida coletiva e minerando nossas
riquezas.
Eles
precisam que nós nos sintamos sozinhos, intimidados, abandonados e esquecidos.
• Boato sobre padroeira gera críticas a
Flávio Bolsonaro e favorece PT nas redes, diz estudo
O boato
sobre a retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida
gerou uma repercussão predominantemente negativa para o senador Flávio
Bolsonaro (PL) e favoreceu o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
nas redes sociais, segundo levantamento da Palver divulgado pela CNN Brasil. A
informação falsa vinculou o candidato à Presidência a uma proposta de outro
parlamentar, arquivada em 2008.
As
críticas representaram 73% das manifestações sobre Flávio nas redes, contra 27%
de apoio, quando excluídas as publicações neutras. No WhatsApp e no Telegram, a
distribuição foi de 60% de mensagens contrárias ao candidato e 40% favoráveis.
O
monitoramento também identificou uma diferença entre a circulação do boato e a
resposta do senador. Cerca de 37% das mensagens analisadas apresentaram a
informação falsa como verdadeira. Já o desmentido e as publicações em defesa de
Flávio corresponderam a 16% do conteúdo.
A
discussão chegou a 735 menções a cada 100 mil mensagens nesta sexta-feira (25).
Até quarta-feira (23), o assunto aparecia entre 40 e 80 vezes no mesmo universo
de publicações.
Segundo
a Palver, empresa de tecnologia e inteligência de dados, perfis de esquerda
tiveram protagonismo na disseminação do conteúdo e alcançaram elevado
engajamento. O relatório classificou Flávio como “o ator político mais
prejudicado” e apontou o PT e o campo governista como “os principais
beneficiados pela narrativa”.
A
análise considera que o episódio pode provocar uma “erosão do apoio católico” à
candidatura do senador. Essa avaliação, porém, se refere aos possíveis efeitos
da repercussão: o levantamento acompanha o debate digital e não mede intenção
de voto.
A
associação de Flávio ao tema partiu de um projeto apresentado em 2007 pelo
então deputado Victorio Galli. A proposta pretendia trocar a expressão
“Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos”. Além de não
ter sido apresentada pelo senador, a iniciativa foi arquivada no ano seguinte.
O canal
de televisão que divulgou a informação se retratou e pediu desculpas. Flávio
publicou um vídeo para negar qualquer articulação nesse sentido e voltou a
abordar o assunto durante uma agenda no Rio de Janeiro nesta sexta-feira.
“É uma
mentira que eu teria apoiado algum projeto que fosse retirar Nossa Senhora
Aparecida como padroeira do Brasil. Jamais faria isso”, declarou.
O
candidato atribuiu a disseminação da informação falsa à “milícia do PT”. O
material apresentado não traz comprovação dessa acusação. O predomínio de
perfis de esquerda na distribuição do conteúdo, identificado pelo
monitoramento, não estabelece a autoria do boato.
“Eu
sempre respeitei todas as religiões. Todos sabem que sou cristão, que sou
evangélico, mas que respeito todas as religiões”, acrescentou Flávio.
O
vice-presidente e candidato à reeleição, Geraldo Alckmin, também se pronunciou.
Ele afirmou ter recebido mensagens de católicos preocupados com as notícias em
circulação e disse que o governo preservará as tradições religiosas.
“Preciso
esclarecer que, enquanto o presidente Lula e eu estivermos governando este
país, as tradições religiosas, tão sagradas para as famílias brasileiras,
estarão protegidas e preservadas”, afirmou Alckmin.
A
disputa pelo eleitorado religioso aparece nos resultados do Datafolha
divulgados na quinta-feira (24). Entre os católicos, Lula registrou 45% das
intenções de voto, contra 33% de Flávio. Entre os evangélicos, o senador
alcançou 47%, enquanto o presidente teve 27%. Os indecisos somaram 2% em cada
segmento.
Nesta
semana, bispos do Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB) divulgaram um vídeo em defesa da democracia, do voto consciente e do
combate à manipulação religiosa. “As igrejas não são currais eleitorais”,
afirmaram os religiosos.
Fonte:
Brasil 247

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