A
engrenagem da barbárie – da escravidão ao neoliberalismo
A
história social brasileira foi frequentemente interpretada a partir de
narrativas que procuraram atenuar as fraturas constitutivas da formação
nacional. Entre elas, destaca-se a noção do “homem cordial”, formulada por
Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil (1936), posteriormente
transformada, no senso comum, na imagem de uma sociedade naturalmente
conciliadora, avessa ao conflito e marcada por relações sociais harmoniosas.
Em
outra direção, o mito da democracia racial, associado às interpretações de
Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala (1933), contribuiu para
consolidar a ideia de que a miscigenação teria produzido uma convivência
relativamente equilibrada entre diferentes grupos raciais.
Uma
leitura crítica da formação brasileira revela, entretanto, uma realidade
bastante distinta. A violência, a exploração e a desigualdade não constituem
desvios ocasionais de uma trajetória essencialmente conciliadora. Elas integram
a própria constituição histórica da sociedade brasileira. A escravidão, o
racismo, a concentração da propriedade e da riqueza e os mecanismos de controle
das populações pobres e racializadas formaram estruturas que, embora tenham
sofrido profundas transformações ao longo do tempo, não desapareceram com a
abolição formal da escravidão. É nesse sentido que o diálogo entre o conto Pai
contra Mãe, de Machado de Assis, publicado originalmente em 1896, e o filme
Quanto Vale ou é por Quilo?, de Sérgio Bianchi (2005), lançado em 2005,
adquire especial importância.
Separadas
por mais de um século, as duas obras permitem observar diferentes configurações
de uma mesma questão histórica: como uma sociedade estruturada pela
desigualdade transforma a necessidade de sobrevivência em instrumento de
dominação e, frequentemente, coloca os próprios sujeitos subalternizados em
conflito uns com os outros.
Machado
de Assis escreveu Pai contra Mãe no período posterior à abolição formal
da escravidão. Publicado originalmente em 1896 e posteriormente reunido em Relíquias
de Casa Velha (Assis, 1906), o conto está profundamente vinculado às
relações sociais produzidas pelo regime escravista.
O
protagonista, Cândido Neves, é um homem livre e pobre que não consegue
encontrar uma ocupação capaz de assegurar a subsistência de sua família. Depois
de experimentar diferentes atividades, encontra na captura de escravizados
fugitivos uma fonte de renda.
A
ironia machadiana aparece justamente na naturalidade com que essa ocupação é
apresentada. O narrador observa que ninguém se dedicava à atividade
simplesmente por prazer ou estudo; a pobreza, a necessidade e a falta de
alternativas conduziam alguns homens a esse trabalho. Cândido Neves, portanto,
não aparece como um monstro excepcional, mas como um indivíduo produzido por
uma ordem social na qual a violência contra pessoas escravizadas era uma
atividade economicamente integrada à vida cotidiana.
A
expressão “pôr ordem à desordem”, utilizada pelo narrador, revela a inversão
moral produzida pela sociedade escravista. Aquele que foge do cativeiro é
transformado em ameaça à ordem, enquanto a violência exercida para reconduzi-lo
à escravidão aparece como atividade legítima. A liberdade do escravizado é
definida como desordem; a propriedade de um ser humano, como direito.
O
desfecho do conto leva essa lógica às suas últimas consequências. Em situação
de extrema necessidade, Cândido Neves precisa garantir os recursos para manter
consigo o filho recém-nascido. É nesse momento que encontra Arminda, uma mulher
escravizada, grávida e fugitiva. Ele a captura e a entrega ao seu proprietário.
A violência provoca a perda da criança que Arminda carregava no ventre,
enquanto a recompensa recebida permite a Cândido conservar o próprio filho. A
frase final – “Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração” –constitui a
síntese da crítica social machadiana.
Para
que uma criança permaneça com o pai pobre e livre, outra criança, filha de uma
mulher escravizada, é sacrificada. Não se trata simplesmente de uma oposição
entre um indivíduo cruel e uma vítima inocente. O conto apresenta uma estrutura
social na qual a necessidade de um sujeito empobrecido é convertida em
instrumento da violência contra outro sujeito ainda mais vulnerabilizado.
É
precisamente nesse ponto que a narrativa de Machado de Assis ultrapassa a
denúncia moral e adquire uma dimensão sociológica. O conflito entre pai e mãe
não é produzido apenas pelas características individuais dos personagens. Ele
resulta de uma sociedade que organiza a sobrevivência de modo desigual e que
oferece aos despossuídos possibilidades de ação determinadas pela própria
estrutura da dominação.
Mais de
cem anos depois, Sérgio Bianchi retoma essa problemática em Quanto vale ou é
por quilo?. O filme estabelece um paralelo deliberadamente provocador entre
a escravidão e determinadas formas contemporâneas de administração da pobreza.
A narrativa alterna episódios relacionados ao período escravista com situações
envolvendo organizações não governamentais, filantropia empresarial, projetos
sociais e populações periféricas.
O que
Sérgio Bianchi coloca em questão é a transformação da miséria em objeto de
administração, mensuração e, em determinadas circunstâncias, valorização
econômica. A pobreza pode converter-se em justificativa para a captação de
recursos, construção de reputação institucional e criação de projetos que nem
sempre enfrentam as estruturas que produzem a desigualdade.
O filme
não apresenta a filantropia como uma atividade necessariamente desprovida de
valor social. Sua crítica dirige-se às situações nas quais o discurso da
solidariedade passa a funcionar como mecanismo de administração da pobreza,
substituindo a transformação das estruturas sociais pela gestão de seus
efeitos. A miséria torna-se, então, um problema que precisa ser permanentemente
administrado, e não necessariamente superado.
A
própria escolha do título – Quanto vale ou é por quilo? – remete à
lógica da mensuração e da mercantilização. O que está em jogo é a pergunta
sobre o valor econômico atribuído à pobreza, à assistência e aos próprios
sujeitos que são objeto das políticas de inclusão. A obra de Sérgio Bianchi
sugere que, em determinadas circunstâncias, a pobreza deixa de ser apenas uma
consequência da desigualdade para tornar-se também uma fonte de recursos,
contratos, empregos e legitimação institucional.
A
aproximação entre Sérgio Bianchi e Machado de Assis permite perceber uma
continuidade fundamental. No conto machadiano, a necessidade material de
Cândido Neves é mobilizada para garantir a reprodução da ordem escravista. No
filme, a pobreza contemporânea aparece inserida em circuitos institucionais nos
quais diferentes agentes podem obter recursos, reconhecimento ou poder a partir
da administração da desigualdade.
A forma
histórica mudou, mas a questão permanece: quem se beneficia quando os
indivíduos socialmente vulnerabilizados são colocados em disputa pela própria
sobrevivência? Essa pergunta pode ser aprofundada a partir de diferentes
autores do pensamento social e político. Karl Marx permite compreender a
relação entre necessidade material, exploração e reprodução das desigualdades.
A existência de uma massa de trabalhadores submetidos à insegurança econômica
reduz suas possibilidades de escolha e fortalece mecanismos de disciplinamento
social.
A
trajetória de Cândido Neves pode ser lida, nesse sentido, como expressão de uma
condição em que a necessidade restringe radicalmente as alternativas
disponíveis ao indivíduo (Marx, 2013).
Frantz
Fanon, por sua vez, ajuda a compreender a dimensão colonial da violência e seus
efeitos sobre os próprios grupos submetidos à dominação. Em Os condenados da
terra (1968), a violência colonial não se limita à relação vertical entre
colonizador e colonizado; ela pode ser deslocada para o interior dos grupos
subalternizados. Essa perspectiva permite compreender o significado mais amplo
da fórmula “pai contra mãe” e, posteriormente, “pobre contra pobre”.
Achille
Mbembe amplia essa discussão ao formular o conceito de necropolítica,
enfatizando as formas de poder que distribuem desigualmente a exposição à morte
e à violência. No contexto brasileiro, essa perspectiva permite pensar a
maneira como determinados corpos, sobretudo negros e pobres, permanecem mais
expostos à violência institucional e à precarização da vida. A aproximação com
Machado de Assis e Sérgio Bianchi não significa afirmar que a sociedade
escravista e o capitalismo contemporâneo sejam idênticos. Significa reconhecer
que diferentes formas históricas de poder podem produzir uma distribuição
profundamente desigual da proteção, da vulnerabilidade e da possibilidade de
viver.
Silvio
Almeida contribui para esse debate ao compreender o racismo como estrutural,
isto é, como dimensão constitutiva das relações econômicas, políticas e
institucionais. A abolição formal da escravidão não eliminou as hierarquias
raciais construídas ao longo de séculos. Elas foram reconfiguradas em novas
instituições e relações sociais.
Essa
continuidade também pode ser compreendida a partir da crítica de Lélia Gonzalez
à ideologia do branqueamento e às formas de negação do racismo na sociedade
brasileira. Para Lélia Gonzalez, esses mecanismos contribuem para ocultar a
permanência das hierarquias raciais e para naturalizar desigualdades que se
reproduzem no cotidiano social, cultural e institucional.
Essa
perspectiva é fundamental para compreender a relação entre Pai contra mãe
e quanto vale ou é por quilo?. No primeiro, a população negra está
submetida diretamente ao regime escravista. No segundo, a desigualdade racial
aparece em uma sociedade juridicamente livre, mas ainda marcada pela
concentração da riqueza, pela segregação territorial, pela precarização e pela
violência dirigida às populações negras e periféricas.
Jessé
Souza, ao discutir a formação de grupos submetidos a processos persistentes de
desqualificação e subcidadania, ajuda a compreender como a liberdade jurídica
pode coexistir com formas profundas de exclusão social. O problema não é apenas
possuir ou não possuir direitos formalmente reconhecidos, mas ter acesso
efetivo aos recursos econômicos, culturais e sociais que permitem exercer
plenamente esses direitos.
Clóvis
Moura acrescenta uma dimensão indispensável a essa interpretação: a resistência
negra. A história da população negra brasileira não pode ser reduzida à
história da violência sofrida. Quilombos, revoltas, fugas e diferentes formas
de organização constituíram práticas permanentes de resistência (Moura, 1994).
A perspectiva de Moura impede que os sujeitos subalternizados sejam
representados apenas como vítimas passivas da estrutura social.
Essa
observação é fundamental para compreender o sentido do “fratricídio” utilizado
neste ensaio. Dizer que o sistema produz conflitos entre os próprios pobres não
significa afirmar que os pobres sejam incapazes de solidariedade ou
resistência. Significa reconhecer que determinadas estruturas de poder procuram
justamente fragmentar essas possibilidades, transformando indivíduos que
poderiam compartilhar interesses comuns em concorrentes.
No
século XIX, Cândido Neves não vê Arminda como alguém que compartilha com ele
uma condição de vulnerabilidade. A escravidão produz uma distância social e
racial que transforma a captura da mulher fugitiva em oportunidade econômica.
No século XXI retratado por Bianchi, diferentes mecanismos institucionais
continuam a produzir situações nas quais sujeitos pertencentes às classes
populares podem ser colocados em posições antagônicas.
A
expressão “pobre contra pobre” não deve, portanto, ser interpretada como uma
descrição de uma suposta natureza conflituosa das classes populares. Trata-se
de uma relação social historicamente produzida. A escassez, a precarização, o
racismo e a insegurança podem destruir vínculos de solidariedade e fazer com
que a sobrevivência individual apareça como prioridade absoluta.
É nesse
ponto que as duas obras convergem de maneira particularmente poderosa. Em Pai
contra mãe, a sobrevivência do filho de Cândido Neves depende da destruição
da possibilidade de sobrevivência do filho de Arminda. Em Quanto vale ou é
por quilo?, a pobreza aparece inserida em uma complexa rede de
instituições, discursos e interesses que podem transformar a desigualdade em
objeto de gestão.
A
violência não desaparece quando a forma jurídica da escravidão desaparece. Ela
pode mudar de linguagem, de instituição e de instrumento. A exploração pode
deixar de assumir a forma explícita da propriedade de uma pessoa sobre outra e
passar a operar por meio da precarização do trabalho, da desigualdade racial,
da violência policial, da segregação territorial e da mercantilização da
pobreza.
Por
isso, a passagem da escravidão ao neoliberalismo não deve ser compreendida como
uma ruptura absoluta. Tampouco se trata de afirmar que nada mudou. Mudaram
profundamente as instituições, as relações jurídicas, as formas de trabalho e
os mecanismos de poder. O que permanece é a necessidade de interrogar como
essas transformações convivem com estruturas históricas de desigualdade que
continuam a organizar a vida social brasileira.
A
leitura conjunta de Machado de Assis e Sérgio Bianchi permite, assim,
desconstruir duas ilusões persistentes: a de uma formação nacional
essencialmente cordial e a de uma modernização capaz, por si mesma, de superar
as hierarquias herdadas do passado.
O
Brasil não passou simplesmente de uma sociedade escravista para uma sociedade
democrática e igualitária. A abolição representou uma ruptura histórica
fundamental, mas não foi acompanhada pela superação das estruturas econômicas e
sociais que haviam sustentado a escravidão. A modernização capitalista
incorporou populações anteriormente escravizadas e seus descendentes a uma
sociedade marcada por profundas desigualdades de raça e classe.
É nesse
sentido que Pai contra mãe continua atual. E é também por isso que Quanto
vale ou é por quilo? encontra na narrativa de Machado de Assis um
interlocutor tão poderoso. As duas obras nos obrigam a olhar para além das
aparências institucionais e perguntar quais relações de poder continuam
operando quando as formas históricas da dominação se transformam.
A
engrenagem da barbárie não permanece imóvel. Ela se adapta. Seus mecanismos são
substituídos, seus discursos são renovados e suas instituições podem adquirir
novas formas. Mas, quando a vida dos despossuídos continua submetida à
necessidade, quando a pobreza se transforma em mercadoria e quando a violência
é distribuída de maneira desigual segundo raça e classe, a questão colocada por
Machado de Assis permanece aberta.
Superar
essa engrenagem exige mais do que políticas destinadas a administrar seus
efeitos. Exige enfrentar as estruturas que produzem a desigualdade, combater o
racismo, reconstruir vínculos de solidariedade e reconhecer a capacidade de
resistência dos sujeitos historicamente subalternizados.
Entre o
pai e a mãe, entre o trabalhador e o escravizado, entre o policial e o jovem
periférico, entre aquele que administra a pobreza e aquele que dela sobrevive,
permanece a pergunta fundamental: quem ganha quando os despossuídos são levados
a disputar entre si?
Talvez
seja essa a pergunta que Machado de Assis e Sérgio Bianchi, cada um a seu modo
e em seu próprio tempo histórico, nos convidam a não esquecer.
Fonte:
Por Carlos A. P. Vasques, em A Terra é Redonda

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