segunda-feira, 28 de setembro de 2026

“Classe C”: o que ainda falta ver

Um dirigente petista de alto coturno e muito próximo de Lula disse no início do ano que Lula estava perplexo com a avaliação pouco favorável que parte significativa dos brasileiros fazia de sua gestão. Para ele, este seu terceiro governo era o que mais entregava serviços, obras e otimismo. 

O relato, se fiel ao que ocorre, revela uma dificuldade de percepção da mudança de perfil daqueles que se beneficiaram com as políticas sociais e econômicas dos governos Lula 1 e 2, realizados durante a primeira década deste século. 

O livro escrito por Renato Meirelles “Brasil da Maioria” (Record, 2026) dá a pista para Lula. 

Antes de expor suas principais teses e informações, faço duas observações sobre Lula e o PT de 2026. 

A primeira observação é que possivelmente, o Lula neste final de terceiro mandato presidencial, está sofrendo de um gap geracional. Lula adotou hábitos mais reclusos e, na adjetivação que ouvi de pessoas próximas a ele, mais “imperiais”. É sabido que com o tempo criamos estruturas mentais mais rígidas. Daí a dificuldade, com a idade, de se aprender muitas línguas estrangeiras. Vícios de comportamento e rotinas mais previsíveis povoam a vida dos mais idosos. No caso de Lula, ele passou a tomar decisões sem grandes consultas como fazia no passado. O gap geracional envolve os atuais ministros. Nenhum deles, como disse Fernando Morais quando lançou o segundo volume da biografia de Lula, possui coragem suficiente para dizer “não” ao presidente. Não há quem esteve ombreando Lula quando da criação do PT ou da CUT. Todos, ao seu jeito, o Todos, ao seu jeito, o veneram ou respeitam com certo decoro. 

A segunda observação é o envelhecimento do PT e a ruptura com a dinâmica social das ruas. Nas eleições deste ano, 4% dos candidatos petistas têm menos de 30 anos de idade. No período próximo ao do impeachment da presidente Dilma Rousseff, o número de filiados do PT com até 34 anos de idade despencou. De 2011 a 2015, a proporção desta faixa etária na sigla caiu de 25,7% do total da militância para 19,2%. Durante este terceiro mandato de Lula, voltou a subir, mas permaneceu abaixo de 20% do total. Há, ainda, uma forte desconexão do partido em relação ao cotidiano de quem foi sempre seu eleitor. O partido enrijeceu, ficou mais burocratizado. Seus dirigentes nacionais passaram a receber proventos que os joga na faixa dos 1% mais ricos do país. Lembremos que famílias com renda mensal superior a R$ 33 mil integram o seleto grupo dos 1% mais rico do país.

As estruturas de base perderam poder decisório. A burocratização atingiu o processo de escolha de seus dirigentes, o PED (Processo de Eleição Direta). A cada processo de eleição interna, multiplicam-se as denúncias de práticas de aliciamento o que faz a corrente majoritária atingir percentuais estratosféricos de votos de filiados, mesmo quando seus candidatos não são carismáticos ou conhecidos e reconhecidos pela maioria da militância petista.

Dito isto, vamos aos dados do livro que citei. 

Esses dados são importantes porque são beneficiários das políticas lulistas implementadas no início do século. Muitos saíram de uma vida precária para atingir uma renda intermediária que alavancou seu consumo e segurança familiar. Trata-se do segmento da população com renda familiar mensal per capita entre R$ 610,00 e R$ 2.150,00.

Em 25 anos, este segmento social se tornou mais escolarizado, mais empreendedora (buscando autonomia financeira frente à falta de empregos tradicionais) e mais exigente com o mercado (exige respeito) e com o Estado (exige serviços que funcionem).

Mais de dois terços (68%) da classe C acreditam ter hoje mais acesso a bens materiais do que seus pais tiveram; 75% afirmam ser mais escolarizados, e pouco mais da metade (55%) avalia que sua vida profissional é melhor que a da geração anterior.

O consumo é a chave de compreensão da maneira como este segmento social pensa, age e vota. 

Passou da Era da Euforia para a frustração que se abateu a partir de 2010. O crédito farto do período da euforia se transformou em dívida e perda de poder de compra o que, em consequência, diminuiu falta de perspectiva. É nesta transição que entrou o empreendedorismo como elemento de autoconfiança e esperança de melhoria futura. 

E é desta mudança de perspectiva futura que se consolidou seu comportamento pendular e pragmático. Se já não havia antes identidade ideológica, agora há grande desconfiança de quem se pauta por discursos genéricos. 

Vejamos mais de perto este percurso.

<><> Do crédito farto ao dono do seu nariz

Entre 2003 e 2008, a concessão total de crédito no país para os setores público e privado cresceu cerca de 220%. Só o crédito privado oferecido às pessoas físicas cresceu 372%. O parcelamento passou a ser o canto da sereia para mudança de patamar de vida.

A “década do otimismo” terminou para valer em 2013. O que Lula e parte de seu staff parece desconhecer é que os recém-chegados na classe C, B e A passaram a ter novos gastos, como a escola particular dos filhos ou o plano de saúde. E, a partir de 2013, a conta não fechou mais. 

O Estado que era percebido como garantidor de renda mínimo via programas sociais passa criar incômodos com impostos e regulações impedem o empreendedorismo. 

E, possivelmente, este é o motivo para certo afastamento da juventude em relação ao engajamento petista de antes. Metade das pessoas nesse estrato de renda tem menos de 34 anos. 

A família passou a ser refúgio em meio ao cenário mais inóspito. Renato Meirelles ressalta que as mulheres da classe C dedicam 22 horas semanais às tarefas domésticas e de cuidado. Os preços com supermercado, escolas e investimentos nos filhos são mais presentes nas suas vidas e percepção sobre a economia. 77% da classe C consideram que só é possível ser feliz ao lado de uma família. Basta juntar os pontos: a família é o esteio da classe C que, por sua vez, tem nas mulheres seu pilar de sustentação.

Por este motivo, 54% dos entrevistados mencionam seu papel na família – “sou mãe”, “sou pai de duas meninas”, “sou avó da Juliana” – ao se identificar. A condição financeira aparece em sétimo lugar nesse ranking, atrás de critérios como idade, gênero, profissão, religião e até gosto musical.

De certa maneira, um dos motivos de Lula ser mais popular que petistas é porque seu discurso se conecta o tempo todo com a figura de sua mãe e a defesa de sua família. Isto agrada a Classe C.

<><> O sonho de consumo

Uma característica muito comum dos bairros periféricos brasileiros são casas precárias por fora, com tijolos aparentes porque faltou dinheiro para fazer o revestimento externo, mas impecáveis por dentro, com piso novo, móveis planejados na cozinha, painel de madeira na sala e decoração em cada canto. As mulheres da classe C consideram indispensável manter a casa limpa, bonita e organizada, afirma Meirelles.

Receber vizinhos em sua casa é motivo de orgulho para este segmento: 59% destacam que recebem frequentes vizinhos em sua casa. O índice de quem é classe A é de 44%.

Prosperidade para esses brasileiros é comprar a casa própria para a mãe, é ajudar um parente ou um vizinha na hora do aperto, é receber os amigos com uma mesa farta.

A educação mudou de patamar na escala de importância para a classe C nesses 25 anos. No começo dos anos 2000 ingressar numa faculdade, sobretudo uma instituição de prestígio, era um sonho distante para os brasileiros de renda média e baixa. Em seguida, houve um acesso impressionante de filhos da classe C às universidades. A expectativa era de se obter vantagem econômica e status social. Não era o ensino profissionalizante que traria este objetivo, mas a universidade, segundo respondem nas pesquisas.

Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) revelou que 64% dos “filhos” do Bolsa Família deixaram o programa na vida adulta. O programa rompeu o ciclo de pobreza entre gerações.

Na classe C, 70% dos jovens estudaram mais do que seus pais. Apesar de cada ano a mais de estudo representar um incremento médio de 15% no salário, o diploma não garantiu mais o acesso automático a bons empregos, bons salários e certa estabilidade. Além disso, a distância salarial entre quem tem muita e pouca escolaridade vem diminuindo.

Assim, nos últimos anos, o ensino superior foi sendo entendido pelos jovens de classe C como uma via longa demais para o resultado que entrega.

Meirelles destaca que o Brasil vive um cenário de quase pleno emprego, mas só 4 em 10 brasileiros está realmente satisfeitos com sua vida profissional. 

No começo dos anos 2000, a carteira assinada era um dos grandes sonhos da classe C e da população de baixa renda de forma geral. Isso foi mudando ao longo da década posterior. Há relação com a reforma trabalhista aprovada em 2017, e com a reforma da Previdência de 2019, que eliminaram ou relativizaram algumas das garantias tradicionalmente associadas ao emprego formal. 

Esta mudança de perspectiva é muito importante para compreender o gap geracional de Lula e do PT. Ambos se fizeram politicamente a partir do emprego assalariado, principalmente do setor privado, ofertado por grandes plantas industriais onde milhares de trabalhadores se encontravam diariamente. Esta identidade de massas evaporou a partir da segunda década deste século. Ora, a leitura sobre a classe trabalhadora que os dirigentes históricos do PT fazem é a do século passado. 

Há uma ou duas décadas, o autônomo era vista como um desprestigiado, como aquele que ainda não conseguiu um emprego formal. Hoje ele tem orgulho em dizer que é empreendedor. Esta foi a pergunta que Lula fez a sociólogos quando de sua visita, após sua libertação, à Belo Horizonte, num encontro fechado num hotel próximo do bairro da Savassi. Perguntava o que era, afinal, o empreendedor. Nada mais revelador do gap geracional que estou mencionando. 

Meirelles diz que a briga não é só por salário, é por agenda. “O tempo é a única moeda que não pode ser parcelada”, sustenta. 

O gap geracional petista desconhece que os trabalhadores autônomos são o segundo grupo mais realizado profissionalmente: 41% deles se declaram muito satisfeitos com sua ocupação, à frente dos empregados na indústria (27% de satisfação) e atrás somente dos funcionários públicos (47%). 

<><> Mudou o consumo

Segundo Meirelles, nas classe C, D e E, o consumo é, inicialmente, sinônimo de pertencimento, de afirmação de identidade. Para ele, consumir é uma das maneiras de se garantir dignidade. Nesse sentido, o consumo é um passaporte e um espelhamento das expectativas sociais, do seu vínculo mais íntimo, mas também do que imagina que a sociedade considera digno ou marcador de sucesso.

Não por outro motivo, a “família típica da classe C do período é aquela que financiou o primeiro carro zero, instalou internet de banda larga, comprou uma TV de LCD, reformou a casa ou comprou móveis novos, passou a jantar fora mais vezes, viu o filho entrar na faculdade, talvez até tenha feito sua primeira viagem de avião. A mãe passou a frequentar mais vezes o salão de beleza e teve acesso a produtos cosméticos melhores. O pai experimentou marcas importadas de cerveja que antes não eram encontradas nos supermercados comuns. Nos churrascos e nos aniversários, sobre a mesa agora havia uma garrafa de Coca-Cola, não do refrigerante mais barato” (p. 87)

Após 2010, a renda parou de crescer e as dívidas se acumularam. O filho que fez faculdade está insatisfeito com a carreira porque não conseguiu um bom emprego na área. A maioria (63%) desse público afirma que controla mais seu orçamento pessoal hoje do que há dez ano. Neste segmento consumidor, hoje o pai usa um xampu mais simples, mas compra o melhor para a filha; a mãe lava toalhas e panos de prato com um sabão em pó “tipo B”, mas usa a marca líder para lavar as roupas da família. Por aqui é possível entender uma certa mágoa ou ressentimento em relação ao futuro que se descortinou na primeira década deste século e que não se revelou sustentável no período seguinte. Ora, se o consumo foi uma comprovação de seu sucesso pessoal, a estagnação e o acúmulo de dívidas significa fracasso ou que se precipitou naquele momento. De qualquer maneira, o símbolo social que o consumo trouxe não tem mais a função de passaporte. 

<><> O papel da política na “volta para o futuro”

Mais de um quinto da classe C afirma que nunca teve posição política. Outros 14% afirmam que já tiveram posição política, mas hoje não têm mais. Somente 36% da população declara compreender direito o que é “direita” e “esquerda”.

Num livro publicado em 2013, Walquíria Leão Rego e Alessandro Pinzani registraram opinião similar de mulheres que viviam na pobreza e passaram a receber o Bolsa Família. Em “Vozes do Bolsa Família” aparecem entrevistas realizadas entre 2006 e 2011 com mulheres tão pragmáticas quanto a classe C nos dias de hoje. Naquele momento, afirmavam que todos os políticos são corruptos, mas confessavam que havia votado em Lula para a Presidência da República. Para justificar o voto, diziam que Lula teria apenas uma distinção em relação aos demais: foi pobre e passou fome no passado. Essa identidade existencial ou de classe criaria alguma expectativa positiva, embora frágil. Há uma linha de pensamento que une essas histórias e que a militância partidária parece desconhecer ou classificar de maneira apressada. 

Daí se depreende a relação com a política e com o Estado brasileiro.

A maioria da classe C (65%) considera que cabe ao Estado proteger as liberdades individuais, e 56% também acreditam que o empreendedorismo é o melhor caminho para subir na vida. Mas essa mesma classe C tem uma visão favorável do Estado como regulador da economia: quase metade (45%) defende que o governo deve aumentar investimentos públicos para gerar crescimento. 

As pesquisas realizadas pelo Instituto Locomotiva exibem este mosaico ou bricolagem como Ginsburg revelou com seu livro “O Queijo e os Vermes”. Uma visão de mundo não linear como, ademais, foi sua própria vida. 

A classe C usa e reconhece a importância dos serviços públicos. Ela considera alguns bons, a maioria ruim, mas quase todos necessários.

Nos costumes, também revela um ziguezague em relação a temas polêmicos. A classe C, ao falar de aborto sustenta que deveria ser considerado crime (42%), mas a maioria não é favorável a prender uma mulher que abortou. 47% dizem que não fariam nada se soubessem que uma pessoa conhecida realizou aborto. Em outras palavras, há uma improvável conciliação de sua declaração conservadora com uma postura empática com quem, teoricamente, pratica um pecado ou crime.

A maioria da classe C se diz a favor da família tradicional, formada por um homem, uma mulher e seus descendentes, e 57% declaram ser contrários à educação sexual nas escolas. Contudo, 30% da classe C concordam que mulheres trans devem ter os mesmos direitos que as mulheres cis. 

O otimismo é uma marca de relação com o mundo. Uma afirmação de sua autonomia e capacidade de reinventar a vida. De prosperar a partir de seu esforço. 

Só 2% da classe C dizem ter já alcançado todos os seus objetivos de vida. Outros 20% afirmam ter alcançado a maioria desses objetivos. O sonho de comprar, reformar ou quitar a casa própria, citado por 21% dos entrevistados, continua sendo o símbolo máximo de vitória para a classe C.

Os cinco principais sonhos registrados há dez anos giram em torno dos mesmo temas de hoje: casa própria, estabilidade financeira, carro, bens de consumo, viagens e, o tema onipresente: renda. 

A palavra que explica a leitura atual sobre como conquistar renda e estabilidade é autonomia ou independência em relação aos governos e favores tradicionais. Hoje, quase metade dos brasileiros da classe C (48%) sonha em ter um negócio próprio.

Nada menos que 65% da classe C acreditam que vão realizar seus sonhos nos próximos cinco anos. E conquistarão por esforço próprio, segundo sua avaliação. 

Quando questionados sobre qual pessoa ou instituição é a principal responsável por fazer seus sonhos virarem realidade, a resposta vem na lata: “Eu mesmo”. Uma inusitada confiança pessoal e na rede de apoio mais próximo. 

90% da classe C afirmam que as elites não as escutam. Uma ilustração desta ausência de escuta é descrita por Meirelles a partir de uma conversa entre um política e uma mulher empreendedora da periferia. O político dizia: “criaremos um programa especialmente para vocês, com cursos profissionalizantes para as microempresárias da comunidade”. Eis que a empreendedora retruca: “mas eu não quero um curso profissionalizante. Prefiro uma mentoria com uma empreendedora como eu, alguém que já passou por isso, que sabe o que é segurar o caixa no vermelho e virar o jogo”.

Essa passagem deveria cair como um raio na militância tradicional progressista e, principalmente lulista. Não se trata de conflito ou alienação. Trata-se de uma nova perspectiva de quem não acreditava em política, passou a ter esperança de uma vida melhor com políticas sociais inclusivas e, agora, que continuar progredindo e se vê quase sozinho. Um outro país. Um fosso entre a primeira década e a segunda década deste século.

 

Fonte: Por Rudá Ricci, em Outras Palavras

 

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