“Classe
C”: o que ainda falta ver
Um
dirigente petista de alto coturno e muito próximo de Lula disse no início do
ano que Lula estava perplexo com a avaliação pouco favorável que parte
significativa dos brasileiros fazia de sua gestão. Para ele, este seu terceiro
governo era o que mais entregava serviços, obras e otimismo.
O
relato, se fiel ao que ocorre, revela uma dificuldade de percepção da mudança
de perfil daqueles que se beneficiaram com as políticas sociais e econômicas
dos governos Lula 1 e 2, realizados durante a primeira década deste
século.
O livro
escrito por Renato Meirelles “Brasil da Maioria” (Record, 2026) dá a pista para
Lula.
Antes
de expor suas principais teses e informações, faço duas observações sobre Lula
e o PT de 2026.
A
primeira observação é que possivelmente, o Lula neste final de terceiro mandato
presidencial, está sofrendo de um gap geracional. Lula adotou hábitos mais
reclusos e, na adjetivação que ouvi de pessoas próximas a ele, mais
“imperiais”. É sabido que com o tempo criamos estruturas mentais mais rígidas.
Daí a dificuldade, com a idade, de se aprender muitas línguas estrangeiras.
Vícios de comportamento e rotinas mais previsíveis povoam a vida dos mais
idosos. No caso de Lula, ele passou a tomar decisões sem grandes consultas como
fazia no passado. O gap geracional envolve os atuais ministros. Nenhum deles,
como disse Fernando Morais quando lançou o segundo volume da biografia de Lula,
possui coragem suficiente para dizer “não” ao presidente. Não há quem esteve
ombreando Lula quando da criação do PT ou da CUT. Todos, ao seu jeito, o Todos,
ao seu jeito, o veneram ou respeitam com certo decoro.
A
segunda observação é o envelhecimento do PT e a ruptura com a dinâmica social
das ruas. Nas eleições deste ano, 4% dos candidatos petistas têm menos de 30
anos de idade. No período próximo ao do impeachment da presidente Dilma
Rousseff, o número de filiados do PT com até 34 anos de idade despencou. De
2011 a 2015, a proporção desta faixa etária na sigla caiu de 25,7% do total da
militância para 19,2%. Durante este terceiro mandato de Lula, voltou a subir,
mas permaneceu abaixo de 20% do total. Há, ainda, uma forte desconexão do
partido em relação ao cotidiano de quem foi sempre seu eleitor. O partido
enrijeceu, ficou mais burocratizado. Seus dirigentes nacionais passaram a
receber proventos que os joga na faixa dos 1% mais ricos do país. Lembremos que
famílias com renda mensal superior a R$ 33 mil integram o seleto grupo dos 1%
mais rico do país.
As
estruturas de base perderam poder decisório. A burocratização atingiu o
processo de escolha de seus dirigentes, o PED (Processo de Eleição Direta). A
cada processo de eleição interna, multiplicam-se as denúncias de práticas de
aliciamento o que faz a corrente majoritária atingir percentuais
estratosféricos de votos de filiados, mesmo quando seus candidatos não são
carismáticos ou conhecidos e reconhecidos pela maioria da militância petista.
Dito
isto, vamos aos dados do livro que citei.
Esses
dados são importantes porque são beneficiários das políticas lulistas
implementadas no início do século. Muitos saíram de uma vida precária para
atingir uma renda intermediária que alavancou seu consumo e segurança familiar.
Trata-se do segmento da população com renda familiar mensal per capita entre R$
610,00 e R$ 2.150,00.
Em 25
anos, este segmento social se tornou mais escolarizado, mais empreendedora
(buscando autonomia financeira frente à falta de empregos tradicionais) e mais
exigente com o mercado (exige respeito) e com o Estado (exige serviços que
funcionem).
Mais de
dois terços (68%) da classe C acreditam ter hoje mais acesso a bens materiais
do que seus pais tiveram; 75% afirmam ser mais escolarizados, e pouco mais da
metade (55%) avalia que sua vida profissional é melhor que a da geração
anterior.
O
consumo é a chave de compreensão da maneira como este segmento social pensa,
age e vota.
Passou
da Era da Euforia para a frustração que se abateu a partir de 2010. O crédito
farto do período da euforia se transformou em dívida e perda de poder de compra
o que, em consequência, diminuiu falta de perspectiva. É nesta transição que
entrou o empreendedorismo como elemento de autoconfiança e esperança de
melhoria futura.
E é
desta mudança de perspectiva futura que se consolidou seu comportamento
pendular e pragmático. Se já não havia antes identidade ideológica, agora há
grande desconfiança de quem se pauta por discursos genéricos.
Vejamos
mais de perto este percurso.
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Do crédito farto ao dono do seu nariz
Entre
2003 e 2008, a concessão total de crédito no país para os setores público e
privado cresceu cerca de 220%. Só o crédito privado oferecido às pessoas
físicas cresceu 372%. O parcelamento passou a ser o canto da sereia para
mudança de patamar de vida.
A
“década do otimismo” terminou para valer em 2013. O que Lula e parte de seu
staff parece desconhecer é que os recém-chegados na classe C, B e A passaram a
ter novos gastos, como a escola particular dos filhos ou o plano de saúde. E, a
partir de 2013, a conta não fechou mais.
O
Estado que era percebido como garantidor de renda mínimo via programas sociais
passa criar incômodos com impostos e regulações impedem o
empreendedorismo.
E,
possivelmente, este é o motivo para certo afastamento da juventude em relação
ao engajamento petista de antes. Metade das pessoas nesse estrato de renda tem
menos de 34 anos.
A
família passou a ser refúgio em meio ao cenário mais inóspito. Renato Meirelles
ressalta que as mulheres da classe C dedicam 22 horas semanais às tarefas
domésticas e de cuidado. Os preços com supermercado, escolas e investimentos
nos filhos são mais presentes nas suas vidas e percepção sobre a economia. 77%
da classe C consideram que só é possível ser feliz ao lado de uma família.
Basta juntar os pontos: a família é o esteio da classe C que, por sua vez, tem
nas mulheres seu pilar de sustentação.
Por
este motivo, 54% dos entrevistados mencionam seu papel na família – “sou mãe”,
“sou pai de duas meninas”, “sou avó da Juliana” – ao se identificar. A condição
financeira aparece em sétimo lugar nesse ranking, atrás de critérios como
idade, gênero, profissão, religião e até gosto musical.
De
certa maneira, um dos motivos de Lula ser mais popular que petistas é porque
seu discurso se conecta o tempo todo com a figura de sua mãe e a defesa de sua
família. Isto agrada a Classe C.
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O sonho de consumo
Uma
característica muito comum dos bairros periféricos brasileiros são casas
precárias por fora, com tijolos aparentes porque faltou dinheiro para fazer o
revestimento externo, mas impecáveis por dentro, com piso novo, móveis
planejados na cozinha, painel de madeira na sala e decoração em cada canto. As
mulheres da classe C consideram indispensável manter a casa limpa, bonita e
organizada, afirma Meirelles.
Receber
vizinhos em sua casa é motivo de orgulho para este segmento: 59% destacam que
recebem frequentes vizinhos em sua casa. O índice de quem é classe A é de 44%.
Prosperidade
para esses brasileiros é comprar a casa própria para a mãe, é ajudar um parente
ou um vizinha na hora do aperto, é receber os amigos com uma mesa farta.
A
educação mudou de patamar na escala de importância para a classe C nesses 25
anos. No começo dos anos 2000 ingressar numa faculdade, sobretudo uma
instituição de prestígio, era um sonho distante para os brasileiros de renda
média e baixa. Em seguida, houve um acesso impressionante de filhos da classe C
às universidades. A expectativa era de se obter vantagem econômica e status
social. Não era o ensino profissionalizante que traria este objetivo, mas a
universidade, segundo respondem nas pesquisas.
Instituto
Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) revelou que 64% dos “filhos” do
Bolsa Família deixaram o programa na vida adulta. O programa rompeu o ciclo de
pobreza entre gerações.
Na
classe C, 70% dos jovens estudaram mais do que seus pais. Apesar de cada ano a
mais de estudo representar um incremento médio de 15% no salário, o diploma não
garantiu mais o acesso automático a bons empregos, bons salários e certa
estabilidade. Além disso, a distância salarial entre quem tem muita e pouca
escolaridade vem diminuindo.
Assim,
nos últimos anos, o ensino superior foi sendo entendido pelos jovens de classe
C como uma via longa demais para o resultado que entrega.
Meirelles
destaca que o Brasil vive um cenário de quase pleno emprego, mas só 4 em 10
brasileiros está realmente satisfeitos com sua vida profissional.
No
começo dos anos 2000, a carteira assinada era um dos grandes sonhos da classe C
e da população de baixa renda de forma geral. Isso foi mudando ao longo da
década posterior. Há relação com a reforma trabalhista aprovada em 2017, e com
a reforma da Previdência de 2019, que eliminaram ou relativizaram algumas das
garantias tradicionalmente associadas ao emprego formal.
Esta
mudança de perspectiva é muito importante para compreender o gap geracional de
Lula e do PT. Ambos se fizeram politicamente a partir do emprego assalariado,
principalmente do setor privado, ofertado por grandes plantas industriais onde
milhares de trabalhadores se encontravam diariamente. Esta identidade de massas
evaporou a partir da segunda década deste século. Ora, a leitura sobre a classe
trabalhadora que os dirigentes históricos do PT fazem é a do século
passado.
Há uma
ou duas décadas, o autônomo era vista como um desprestigiado, como aquele que
ainda não conseguiu um emprego formal. Hoje ele tem orgulho em dizer que é
empreendedor. Esta foi a pergunta que Lula fez a sociólogos quando de sua
visita, após sua libertação, à Belo Horizonte, num encontro fechado num hotel
próximo do bairro da Savassi. Perguntava o que era, afinal, o empreendedor.
Nada mais revelador do gap geracional que estou mencionando.
Meirelles
diz que a briga não é só por salário, é por agenda. “O tempo é a única moeda
que não pode ser parcelada”, sustenta.
O gap
geracional petista desconhece que os trabalhadores autônomos são o segundo
grupo mais realizado profissionalmente: 41% deles se declaram muito satisfeitos
com sua ocupação, à frente dos empregados na indústria (27% de satisfação) e
atrás somente dos funcionários públicos (47%).
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Mudou o consumo
Segundo
Meirelles, nas classe C, D e E, o consumo é, inicialmente, sinônimo de
pertencimento, de afirmação de identidade. Para ele, consumir é uma das
maneiras de se garantir dignidade. Nesse sentido, o consumo é um passaporte e
um espelhamento das expectativas sociais, do seu vínculo mais íntimo, mas
também do que imagina que a sociedade considera digno ou marcador de sucesso.
Não por
outro motivo, a “família típica da classe C do período é aquela que financiou o
primeiro carro zero, instalou internet de banda larga, comprou uma TV de LCD,
reformou a casa ou comprou móveis novos, passou a jantar fora mais vezes, viu o
filho entrar na faculdade, talvez até tenha feito sua primeira viagem de avião.
A mãe passou a frequentar mais vezes o salão de beleza e teve acesso a produtos
cosméticos melhores. O pai experimentou marcas importadas de cerveja que antes
não eram encontradas nos supermercados comuns. Nos churrascos e nos
aniversários, sobre a mesa agora havia uma garrafa de Coca-Cola, não do
refrigerante mais barato” (p. 87)
Após
2010, a renda parou de crescer e as dívidas se acumularam. O filho que fez
faculdade está insatisfeito com a carreira porque não conseguiu um bom emprego
na área. A maioria (63%) desse público afirma que controla mais seu orçamento
pessoal hoje do que há dez ano. Neste segmento consumidor, hoje o pai usa um
xampu mais simples, mas compra o melhor para a filha; a mãe lava toalhas e
panos de prato com um sabão em pó “tipo B”, mas usa a marca líder para lavar as
roupas da família. Por aqui é possível entender uma certa mágoa ou
ressentimento em relação ao futuro que se descortinou na primeira década deste
século e que não se revelou sustentável no período seguinte. Ora, se o consumo
foi uma comprovação de seu sucesso pessoal, a estagnação e o acúmulo de dívidas
significa fracasso ou que se precipitou naquele momento. De qualquer maneira, o
símbolo social que o consumo trouxe não tem mais a função de passaporte.
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O papel da política na “volta para o futuro”
Mais de
um quinto da classe C afirma que nunca teve posição política. Outros 14%
afirmam que já tiveram posição política, mas hoje não têm mais. Somente 36% da
população declara compreender direito o que é “direita” e “esquerda”.
Num
livro publicado em 2013, Walquíria Leão Rego e Alessandro Pinzani registraram
opinião similar de mulheres que viviam na pobreza e passaram a receber o Bolsa
Família. Em “Vozes do Bolsa Família” aparecem entrevistas realizadas entre 2006
e 2011 com mulheres tão pragmáticas quanto a classe C nos dias de hoje. Naquele
momento, afirmavam que todos os políticos são corruptos, mas confessavam que
havia votado em Lula para a Presidência da República. Para justificar o voto,
diziam que Lula teria apenas uma distinção em relação aos demais: foi pobre e
passou fome no passado. Essa identidade existencial ou de classe criaria alguma
expectativa positiva, embora frágil. Há uma linha de pensamento que une essas
histórias e que a militância partidária parece desconhecer ou classificar de
maneira apressada.
Daí se
depreende a relação com a política e com o Estado brasileiro.
A
maioria da classe C (65%) considera que cabe ao Estado proteger as liberdades
individuais, e 56% também acreditam que o empreendedorismo é o melhor caminho
para subir na vida. Mas essa mesma classe C tem uma visão favorável do Estado
como regulador da economia: quase metade (45%) defende que o governo deve
aumentar investimentos públicos para gerar crescimento.
As
pesquisas realizadas pelo Instituto Locomotiva exibem este mosaico ou
bricolagem como Ginsburg revelou com seu livro “O Queijo e os Vermes”. Uma
visão de mundo não linear como, ademais, foi sua própria vida.
A
classe C usa e reconhece a importância dos serviços públicos. Ela considera
alguns bons, a maioria ruim, mas quase todos necessários.
Nos
costumes, também revela um ziguezague em relação a temas polêmicos. A classe C,
ao falar de aborto sustenta que deveria ser considerado crime (42%), mas a
maioria não é favorável a prender uma mulher que abortou. 47% dizem que não
fariam nada se soubessem que uma pessoa conhecida realizou aborto. Em outras
palavras, há uma improvável conciliação de sua declaração conservadora com uma
postura empática com quem, teoricamente, pratica um pecado ou crime.
A
maioria da classe C se diz a favor da família tradicional, formada por um
homem, uma mulher e seus descendentes, e 57% declaram ser contrários à educação
sexual nas escolas. Contudo, 30% da classe C concordam que mulheres trans devem
ter os mesmos direitos que as mulheres cis.
O
otimismo é uma marca de relação com o mundo. Uma afirmação de sua autonomia e
capacidade de reinventar a vida. De prosperar a partir de seu esforço.
Só 2%
da classe C dizem ter já alcançado todos os seus objetivos de vida. Outros 20%
afirmam ter alcançado a maioria desses objetivos. O sonho de comprar, reformar
ou quitar a casa própria, citado por 21% dos entrevistados, continua sendo o
símbolo máximo de vitória para a classe C.
Os
cinco principais sonhos registrados há dez anos giram em torno dos mesmo temas
de hoje: casa própria, estabilidade financeira, carro, bens de consumo, viagens
e, o tema onipresente: renda.
A
palavra que explica a leitura atual sobre como conquistar renda e estabilidade
é autonomia ou independência em relação aos governos e favores tradicionais.
Hoje, quase metade dos brasileiros da classe C (48%) sonha em ter um negócio
próprio.
Nada
menos que 65% da classe C acreditam que vão realizar seus sonhos nos próximos
cinco anos. E conquistarão por esforço próprio, segundo sua avaliação.
Quando
questionados sobre qual pessoa ou instituição é a principal responsável por
fazer seus sonhos virarem realidade, a resposta vem na lata: “Eu mesmo”. Uma
inusitada confiança pessoal e na rede de apoio mais próximo.
90% da
classe C afirmam que as elites não as escutam. Uma ilustração desta ausência de
escuta é descrita por Meirelles a partir de uma conversa entre um política e
uma mulher empreendedora da periferia. O político dizia: “criaremos um programa
especialmente para vocês, com cursos profissionalizantes para as
microempresárias da comunidade”. Eis que a empreendedora retruca: “mas eu não
quero um curso profissionalizante. Prefiro uma mentoria com uma empreendedora
como eu, alguém que já passou por isso, que sabe o que é segurar o caixa no
vermelho e virar o jogo”.
Essa
passagem deveria cair como um raio na militância tradicional progressista e,
principalmente lulista. Não se trata de conflito ou alienação. Trata-se de uma
nova perspectiva de quem não acreditava em política, passou a ter esperança de
uma vida melhor com políticas sociais inclusivas e, agora, que continuar
progredindo e se vê quase sozinho. Um outro país. Um fosso entre a primeira
década e a segunda década deste século.
Fonte: Por
Rudá Ricci, em Outras Palavras

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