segunda-feira, 28 de setembro de 2026

'Uma clã tão radical quanto disfuncional': o que diz a reportagem do Financial Times sobre a família Bolsonaro

A família Bolsonaro é o tema de reportagem de capa da revista de fim de semana do Financial Times, um dos jornais de economia mais influentes do mundo. Com o título "Escândalo e sucessão na Casa dos Bolsonaro", o texto, assinado pelo chefe do escritório do jornal no Brasil, Michael Pooler, descreve o clã como uma família "tão radical quanto disfuncional", que pode estar à beira de um retorno ao poder com a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência.

Segundo o FT, os Bolsonaro oscilam entre o conservadorismo e o caos e praticam um estilo paranoico de política. O jornal os compara à família Trump, afirmando que ambas encarnam o espírito político dos anos 2020, com a fusão entre celebridade, redes sociais e busca pelo poder.

<><> A briga com Michelle

A reportagem abre com um episódio de junho, pouco antes de um jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo. Em um vídeo no Instagram, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro acusou o enteado Flávio de humilhá-la em uma disputa interna do partido, e chamou a atitude dele de "uma facada nas costas".

Para o FT, os detalhes da briga, sobre alianças e candidaturas regionais, importavam pouco. O que chamou atenção foi a hostilidade aberta, que expôs uma fissura no centro da principal família da direita brasileira justamente quando ela planejava voltar ao poder.

Segundo um assessor da campanha ouvido pelo jornal, naquele momento a equipe de Flávio chegou a achar que estava tudo acabado.

Madrasta e enteado só fizeram as pazes publicamente em meados de agosto, depois de semanas de mediação de aliados. O jornal registra que a reconciliação, com orações e abraços, não convenceu todo mundo.

O pastor Silas Malafaia, aliado próximo da família e que celebrou o casamento de Jair e Michelle, disse ao FT que a disputa é sobre herança política. "A briga é sobre quem vai carregar o nome", afirmou.

<><> O patriarca e os filhos

O jornal descreve Jair Bolsonaro como um "rei-sol em declínio", em torno do qual orbitam a mulher e os três filhos mais velhos. Condenado a 27 anos de prisão por tramar a permanência ilegal no poder, ele cumpre prisão domiciliar em Brasília, com visitas restritas e proibido de se comunicar publicamente.

Dentro da família, segundo o FT, Jair inspira reverência. Uma pessoa que conviveu com os Bolsonaro disse ao jornal que os filhos tinham medo do pai: "Ele é como um deus para eles". A reportagem lembra que o ex-presidente, que é ex-militar, chama os filhos por números para não confundir os nomes: Flávio é o "01", Carlos o "02" e Eduardo o "03".

Flávio, 45 anos, é apresentado como o "moderado autodeclarado" da família, alguém que se definiu como um "Bolsonaro vacinado". Pessoas próximas o descrevem ao jornal como o filho "mais normal", tranquilo e que não guarda rancor. Em entrevista ao FT no início do ano, ele admitiu não chegar aos pés do pai: "Como comparar o filho do Pelé com o próprio Pelé?".

O jornal conta que, na convenção do PL em julho, Jair apareceu no telão na forma de um avatar criado por inteligência artificial para apresentar Flávio como seu sucessor, e que o filho enxugou uma lágrima no palco.

Carlos, 43 anos, é descrito como o estrategista das redes sociais creditado pela vitória de 2018, chamado pelo próprio pai e pelo irmão de "pit bull da família". Já Eduardo, 42, é o que mais se parece com Jair no estilo, segundo o FT. Morando no Texas desde 2025, ele teve o mandato de deputado cassado e foi condenado à revelia em junho por pressionar autoridades americanas a interferir no julgamento do pai.

<><> Michelle, a 'arma secreta'

O FT dedica boa parte da reportagem à ascensão de Michelle, que o jornal aponta como possível "arma secreta" dos Bolsonaro nesta eleição. Evangélica, 27 anos mais jovem que o marido e um ano mais nova que Flávio, ela deixou de ser uma primeira-dama discreta para se tornar, segundo uma pesquisa citada pelo jornal, a mulher mais poderosa do país.

A reportagem lembra que pesquisas do ano passado chegaram a mostrar Michelle com mais chances de derrotar Lula do que Flávio ou Eduardo, o que alimentou a rivalidade com os enteados. Hoje ela é candidata ao Senado pelo Distrito Federal, a pedido do marido.

<><> Escândalos e a eleição

O jornal relata uma série de tropeços de Flávio Bolsonaro em 2026. Em maio, um áudio vazado mostrou o senador pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, cuja quebra, segundo o FT, soma cerca de US$ 10 bilhões. O dinheiro seria para financiar Dark Horse, filme em inglês sobre a trajetória do pai, estrelado pelo ator americano Jim Caviezel, de A Paixão de Cristo. De acordo com o jornal, o projeto recebeu ao menos US$ 12,3 milhões de Vorcaro, que está preso e é o centro de um amplo escândalo de corrupção em Brasília.

Flávio nega irregularidades e afirma que se tratava de um acordo privado. O FT acrescenta que a polícia investiga se parte do dinheiro bancou a estadia de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, o que os irmãos negam.

Ainda assim, escreve o jornal, os ventos agora sopram a favor de Flávio. A maioria das pesquisas mostra Lula ligeiramente à frente no primeiro turno, marcado para 4 de outubro, mas aponta empate técnico num eventual segundo turno. Segundo o FT, os mercados de apostas já dão ao candidato do PL mais chances de vencer do que ao presidente.

O jornal aponta uma ironia: o ministro Alexandre de Moraes, que conduziu o julgamento de Jair, pode acabar ajudando a família, já que o escândalo bancário atingiu o próprio Supremo Tribunal Federal após revelações sobre supostas relações impróprias entre Moraes e o dono do banco. Ambos negam irregularidades.

<><> Os cenários

Se Flávio vencer, segundo o FT, os Bolsonaro se consolidarão como uma dinastia política, e não como uma anomalia passageira. O jornal afirma que ele pressionaria imediatamente o Congresso por uma anistia ampla aos condenados pela trama golpista e pelo 8 de janeiro, o que poderia provocar uma crise constitucional com o Supremo. O deputado Lindbergh Farias (PT) disse ao jornal que uma vitória de Flávio seria "quase a transformação do Brasil numa colônia americana".

Se Flávio perder, o cenário é outro. Uma pessoa próxima de Jair contou ao FT que o ex-presidente disse que, nesse caso, "a era Bolsonaro acabou". O jornal avalia que uma derrota poderia abrir espaço para uma direita mais moderada, como a do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Há ainda um terceiro cenário: se Flávio e Carlos perderem e Michelle for eleita senadora, a madrasta passará a ser a Bolsonaro com o mandato nacional mais importante. Os filhos não gostariam, escreve o FT, mas a candidatura dela pode manter vivo o negócio da família.

A reportagem termina com uma frase do ex-chanceler Ernesto Araújo, para quem Bolsonaro "não é só um homem, é uma ideia".

•        Flávio Bolsonaro quer usar padre em direito de resposta sobre Nossa Senhora Aparecida

O senador Flávio Bolsonaro (PL) pretende escalar um padre para atuar como porta-voz em um direito de resposta contra perfis que divulgaram a afirmação de que ele planejava retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A estratégia foi revelada neste sábado (26) pela coluna de Igor Gadelha, do Metrópoles. Flávio exerce mandato pelo Rio de Janeiro no Senado e integra o PL.

Segundo a apuração, a equipe de marketing do senador já preparou um texto para servir de base à gravação do religioso. A intenção é que o padre destaque na mensagem que questões relacionadas à fé não devem ser utilizadas como instrumento político para enganar eleitores.

A campanha afirma que é falsa a associação entre Flávio e uma iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de Padroeira do Brasil. O senador disputa a Presidência da República pelo PL em chapa com Alfredo Gaspar, candidatura já validada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A controvérsia ganhou força depois de uma declaração da jornalista Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico, durante participação na GloboNews. Ela mencionou “um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos” relacionado a uma tentativa de retirar de Aparecida a condição de padroeira. O conteúdo passou a circular nas redes e foi associado a Flávio.

A GloboNews fez uma retratação horas depois. A emissora esclareceu que a informação estava baseada em um projeto apresentado quase duas décadas atrás e que a proposta já havia sido arquivada pela Câmara dos Deputados.

O texto citado é o Projeto de Lei 2.623/2007, apresentado pelo então deputado Professor Victorio Galli (PMDB-MT) em dezembro de 2007. A proposta pretendia substituir na Lei 6.802/1980 a expressão “Padroeira do Brasil” por uma referência a Nossa Senhora Aparecida como padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos.

A Câmara registra que o projeto foi arquivado em 22 de agosto de 2008, depois de ser rejeitado quanto ao mérito na comissão responsável por analisá-lo. A proposta, portanto, não está em tramitação no Congresso.

O Metrópoles também registra que Galli atuou posteriormente como assessor especial da Presidência durante o governo de Jair Bolsonaro. A existência desse projeto antigo passou a integrar a controvérsia depois que o conteúdo voltou a circular durante a campanha eleitoral de 2026.

<><> TSE determinou retirada de publicações

O ministro André Mendonça, do TSE, determinou na sexta-feira (25) a remoção de publicações que apresentavam como verdadeira a afirmação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Na decisão provisória, o conteúdo foi tratado como “notoriamente inverídico”.

A decisão também determinou que as plataformas atuassem preventivamente contra a repetição da alegação. A ordem judicial foi proferida um dia antes da divulgação da estratégia da campanha de recorrer a um padre como porta-voz no direito de resposta.

•        Lula relaciona Flávio Bolsonaro a casos Master e INSS

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) associou o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) a escândalos de corrupção e criticou o empresário Daniel Vorcaro durante um ato de campanha neste sábado (26), em São Miguel Paulista, na zona leste da capital paulista. Lula também defendeu a soberania nacional durante o pronunciamento. Lula e Flávio tiveram suas candidaturas presidenciais validadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

No discurso, Lula atribuiu ao adversário uma relação com Vorcaro, ligado ao Banco Master, e mencionou investigações relacionadas ao sistema financeiro e apurações no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). As referências foram apresentadas pelo presidente como parte de suas críticas ao candidato do PL.

“Ele [Vorcaro] deu o maior golpe financeiro na história desse país”, afirmou Lula. Na mesma declaração, o presidente fez outras acusações contra o empresário e contra políticos que não identificou nominalmente.

Lula também ironizou acusações feitas anteriormente contra integrantes de sua família e afirmou que Flávio Bolsonaro mantinha escritório no mesmo local usado por pessoas investigadas em apurações envolvendo a autarquia previdenciária. A afirmação foi feita durante o discurso de campanha.

A atividade registrou tumulto no início da caminhada. Segundo o relato do evento, o deslocamento de militantes no entorno do veículo provocou empurrões e quedas de apoiadores antes da dispersão pelas vias do bairro.

O evento reuniu o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad e as candidatas ao Senado Marina Silva e Simone Tebet. O grupo percorreu vias do bairro e discursou de um carro de som a oito dias do primeiro turno das eleições.

Depois do ato político, a comitiva seguiu para compromissos oficiais na capital paulista. A programação incluía visitas às obras do campus da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e de uma unidade do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia.

O primeiro turno das eleições de 2026 será realizado em 4 de outubro. O eventual segundo turno para as disputas de presidente da República e governador está marcado para 25 de outubro, segundo o calendário do TSE.

•        Simone Tebet dispara contra Flávio Bolsonaro: “não vamos deixar a milícia subir a rampa do Planalto”

Durante comício realizado neste sábado (26) na Zona Leste de São Paulo, a candidata ao Senado Simone Tebet (PSB) proferiu um discurso incisivo em defesa da democracia, da soberania nacional e da reeleição do presidente Lula (PT), atacando duramente os bolsonaristas ao afirmar que o campo progressista não permitirá que a milícia tenha acesso ao poder central do país.

O evento contou com a presença do presidente Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), do candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), e de Marina Silva (Rede), que também disputa uma vaga no Senado. Em sua fala, Simone Tebet enfatizou que a única alternativa para quem ama São Paulo e o Brasil é salvar o país por meio da reeleição de Lula. A candidata ressaltou avanços e pautas centrais para a classe trabalhadora, questionando o público sobre o fim da escala 6×1, o reajuste do salário mínimo acima da inflação e a valorização do Bolsa Família como garantias de dignidade para a população.

Tebet também destacou o compromisso do presidente com o combate à violência contra a mulher e ao feminicídio, apontando a atuação ao lado da primeira-dama, Janja da Silva. Ao convocar os militantes a votarem no número 13 no dia 4 de outubro, a candidata alertou para a necessidade de empenho total até o dia da votação, destacando que não há “eleição ganha” e que a vitória depende do diálogo constante nas redes sociais, de bairro em bairro e de porta em porta, sobretudo com quem pensa diferente e ainda se encontra indeciso.

No âmbito estadual, Simone Tebet defendeu enfaticamente a eleição de Fernando Haddad para o governo de São Paulo, classificando-o como o maior ministro da Educação da história do Brasil e garantindo que sua chegada ao Palácio dos Bandeirantes trará dignidade aos professores e professoras paulistas. Apontando a especificidade da disputa ao Senado, onde é possível votar em dois nomes, Tebet propôs uma dobradinha com Marina Silva, ressaltando que o voto em uma representa o voto na outra e destacando a importância de enviar duas mulheres “competentes, corajosas, de caráter e ficha limpa” para defender os trabalhadores e a população de São Paulo.

Ao tratar do cenário político nacional, Tebet advertiu para os graves riscos que ameaçam a democracia e a soberania do país, afirmando que o Brasil pertence exclusivamente aos brasileiros e brasileiras e não pode ser tratado como quintal de ninguém. Ela criticou as alianças do bolsonarismo e fez um alerta contra a entrada do crime organizado no estado, declarando que não permitirá a presença do Comando Vermelho em São Paulo, da mesma forma que impedirá a ascensão da milícia à rampa do Palácio do Planalto.

 

Fonte: BBC News Brasil/Brasil 247

 

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