A
possível crise global dos alimentos
No
final de junho de 2026, os mercados internacionais de commodities alimentares
pareciam ter se recuperado do “susto” provocado pela guerra no Oriente Médio,
que, ao limitar as exportações de fertilizantes agrícolas e de hidrocarbonetos,
tinha elevado rapidamente os preços desses produtos. A diminuição dos preços, a
partir de meados de maio deste ano, apontava para a resiliência e a capacidade
dos mercados de commodities de se adaptarem a choques exógenos. O ambiente
geopolítico, embora altamente ruidoso, parecia igualmente contribuir para um
cenário de preços mais controlado e estável. Os EUA e o Irã sinalizavam estar
dispostos a negociar, e os navios já ensaiavam uma volta pelo estreito de
Ormuz. Embora as tensões geopolíticas e a volatilidade dos mercados
permanecessem elevadas, as expectativas eram de que a crise no Oriente Médio se
resolvesse, ao menos parcialmente, e de que o comportamento dos preços das
commodities alimentares se acomodasse em um patamar que reduzisse os riscos de
insegurança alimentar aguda: afinal, a safra global 2025/26 de grãos tinha sido
excelente e os estoques eram robustos.
A
sensação de conforto relativo, todavia, não durou. As negociações entre os EUA
e o Irã, que pareciam caminhar para uma solução, ainda que provisória, pararam
de avançar, e o número de navios passando pelo estreito voltou a diminuir. Com
isso, a oferta global de fertilizantes e hidrocarbonetos voltou a se tornar
mais incerta.
A
situação do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, outro ponto nevrálgico da
geopolítica alimentar global, constituía outro vetor de tensões a afetar os
mercados internacionais de alimentos. Sem avanços territoriais de um lado ou de
outro, parte do conflito se deslocou para o Mar Negro, via marítima estratégica
para o escoamento dos grãos ucranianos e russos. Ataques a infraestruturas
portuárias e a navios se tornaram mais frequentes e passaram a fazer parte da
guerra de desgaste travada pelos dois países. O que acabou afetando
negativamente as exportações de trigo e de óleo de girassol e, em menor medida,
de milho.
Para
piorar, e com impactos potenciais bem mais significativos, começaram a aparecer
os primeiros efeitos climáticos da formação de um “El Niño” de alta intensidade
sobre a produção global de alimentos. A safra de trigo europeia sofreu com a
canícula que assolou o continente nos meses de julho e agosto. A produção
norteamericana desse cereal também sofreu com o excesso de calor no verão do
hemisfério norte. A produção de milho, em particular a americana, foi
igualmente bastante afetada. Até o final de agosto, a oferta global de arroz,
de soja e açúcar, menos castigada pelo clima e pelos conflitos, mostrou-se
resiliente. Mas as próximas safras brasileira e argentina, dois dos mais
importantes players globais da oleaginosa, ainda podem apresentar resultados aquém
do esperado. Ou seja, a sensação de maior previsibilidade e calma que pairava
no cenário global no fim de junho deu lugar a um pessimismo difuso quanto à
situação alimentar global que deverá prevalecer nos próximos meses e no próximo
ano.
O
comportamento dos mercados reflete bem essa mudança de “humor” global. Do final
de junho ao primeiro dia de setembro, os preços das principais commodities
agroalimentares cresceram substancialmente: as cotações do trigo aumentaram
mais de 20%; as de soja, arroz, milho e açúcar, quase 30%; e as da carne
vermelha, 10%. Movimentos de preços dessa magnitude, em um curto espaço de
tempo, são reveladores das tensões que atravessam os mercados de alimentos e
dos temores quanto ao que isso possa causar à segurança alimentar e à ordem
social.
A
dinâmica dos mercados futuros aponta para a manutenção de uma situação
alimentar mais tensa. Nos mercados de milho, trigo e arroz, os contratos
futuros superam os preços no mercado “spot”. Essa situação, a “contango”,
reflete o custo de carregamento (cost of carry) e sinaliza expectativas de
estoques mais restritos à frente. Para as oleaginosas, o preço da soja para o
contrato corrente em Chicago (novembro de 2026) está caindo em relação ao da
safra nova (novembro de 2027), sinalizando a expectativa de uma oferta global
estável ou crescente. Por fim, o fato de os contratos futuros de carne bovina
serem negociados com valor abaixo das cotações presentes aponta para uma
restrição de animais disponíveis para abate imediato.
Esse
contexto alimentar global impõe uma série de desafios aos governos. Os países
dependentes da importação de grãos – como a região MENA (Oriente Médio e Norte
da África) ou muitos países africanos – enfrentarão custos de aquisição
elevados, gerando pressões fiscais adicionais difíceis de equacionar
politicamente. Há também riscos de inflação de alimentos mais generalizada, já
que a alta nos cereais tende a elevar os custos da ração animal no médio prazo
e a pressionar os custos de produção de proteínas (carnes/frango), mesmo que os
estoques atuais desses produtos permaneçam estáveis. Além disso, com estoques
um pouco mais estreitos, os mercados agrícolas tornam-se altamente sensíveis a
novos choques energéticos (fertilizantes e combustíveis) e a eventos
climáticos, o que eleva a volatilidade das cestas básicas nacionais.
A
momentânea recuperação dos mercados em meados de 2026 não sinalizou uma
transição para a estabilidade, mas apenas um intervalo em um sistema operando
no limite de sua resiliência. A confluência entre a instrumentalização
geopolítica das cadeias logísticas e a intensidade dos eventos climáticos
reconfigura a arquitetura da segurança alimentar global. Por um lado, os
conflitos no Oriente Médio e no Mar Negro demonstram que a beligerância opera
agora como um vetor de desestabilização da oferta de insumos e grãos,
transformando rotas comerciais em pontos de fragilidade. Por outro, a força do
“El Niño” em formação e as ondas de calor severas que afligiram o hemisfério
norte evidenciam que as mudanças climáticas consolidaram-se como um risco
estrutural que compromete a previsibilidade das safras e a viabilidade dos
atuais modelos de produção. O momento atual é, portanto, um retrato dos
principais desafios globais à segurança alimentar presente e futura.
Fonte:
Por Georges Flexor, em Outras Palavras

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