segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A possível crise global dos alimentos

No final de junho de 2026, os mercados internacionais de commodities alimentares pareciam ter se recuperado do “susto” provocado pela guerra no Oriente Médio, que, ao limitar as exportações de fertilizantes agrícolas e de hidrocarbonetos, tinha elevado rapidamente os preços desses produtos. A diminuição dos preços, a partir de meados de maio deste ano, apontava para a resiliência e a capacidade dos mercados de commodities de se adaptarem a choques exógenos. O ambiente geopolítico, embora altamente ruidoso, parecia igualmente contribuir para um cenário de preços mais controlado e estável. Os EUA e o Irã sinalizavam estar dispostos a negociar, e os navios já ensaiavam uma volta pelo estreito de Ormuz. Embora as tensões geopolíticas e a volatilidade dos mercados permanecessem elevadas, as expectativas eram de que a crise no Oriente Médio se resolvesse, ao menos parcialmente, e de que o comportamento dos preços das commodities alimentares se acomodasse em um patamar que reduzisse os riscos de insegurança alimentar aguda: afinal, a safra global 2025/26 de grãos tinha sido excelente e os estoques eram robustos.

A sensação de conforto relativo, todavia, não durou. As negociações entre os EUA e o Irã, que pareciam caminhar para uma solução, ainda que provisória, pararam de avançar, e o número de navios passando pelo estreito voltou a diminuir. Com isso, a oferta global de fertilizantes e hidrocarbonetos voltou a se tornar mais incerta.

A situação do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, outro ponto nevrálgico da geopolítica alimentar global, constituía outro vetor de tensões a afetar os mercados internacionais de alimentos. Sem avanços territoriais de um lado ou de outro, parte do conflito se deslocou para o Mar Negro, via marítima estratégica para o escoamento dos grãos ucranianos e russos. Ataques a infraestruturas portuárias e a navios se tornaram mais frequentes e passaram a fazer parte da guerra de desgaste travada pelos dois países. O que acabou afetando negativamente as exportações de trigo e de óleo de girassol e, em menor medida, de milho.

Para piorar, e com impactos potenciais bem mais significativos, começaram a aparecer os primeiros efeitos climáticos da formação de um “El Niño” de alta intensidade sobre a produção global de alimentos. A safra de trigo europeia sofreu com a canícula que assolou o continente nos meses de julho e agosto. A produção norteamericana desse cereal também sofreu com o excesso de calor no verão do hemisfério norte. A produção de milho, em particular a americana, foi igualmente bastante afetada. Até o final de agosto, a oferta global de arroz, de soja e açúcar, menos castigada pelo clima e pelos conflitos, mostrou-se resiliente. Mas as próximas safras brasileira e argentina, dois dos mais importantes players globais da oleaginosa, ainda podem apresentar resultados aquém do esperado. Ou seja, a sensação de maior previsibilidade e calma que pairava no cenário global no fim de junho deu lugar a um pessimismo difuso quanto à situação alimentar global que deverá prevalecer nos próximos meses e no próximo ano.

O comportamento dos mercados reflete bem essa mudança de “humor” global. Do final de junho ao primeiro dia de setembro, os preços das principais commodities agroalimentares cresceram substancialmente: as cotações do trigo aumentaram mais de 20%; as de soja, arroz, milho e açúcar, quase 30%; e as da carne vermelha, 10%. Movimentos de preços dessa magnitude, em um curto espaço de tempo, são reveladores das tensões que atravessam os mercados de alimentos e dos temores quanto ao que isso possa causar à segurança alimentar e à ordem social.

A dinâmica dos mercados futuros aponta para a manutenção de uma situação alimentar mais tensa. Nos mercados de milho, trigo e arroz, os contratos futuros superam os preços no mercado “spot”. Essa situação, a “contango”, reflete o custo de carregamento (cost of carry) e sinaliza expectativas de estoques mais restritos à frente. Para as oleaginosas, o preço da soja para o contrato corrente em Chicago (novembro de 2026) está caindo em relação ao da safra nova (novembro de 2027), sinalizando a expectativa de uma oferta global estável ou crescente. Por fim, o fato de os contratos futuros de carne bovina serem negociados com valor abaixo das cotações presentes aponta para uma restrição de animais disponíveis para abate imediato.

Esse contexto alimentar global impõe uma série de desafios aos governos. Os países dependentes da importação de grãos – como a região MENA (Oriente Médio e Norte da África) ou muitos países africanos – enfrentarão custos de aquisição elevados, gerando pressões fiscais adicionais difíceis de equacionar politicamente. Há também riscos de inflação de alimentos mais generalizada, já que a alta nos cereais tende a elevar os custos da ração animal no médio prazo e a pressionar os custos de produção de proteínas (carnes/frango), mesmo que os estoques atuais desses produtos permaneçam estáveis. Além disso, com estoques um pouco mais estreitos, os mercados agrícolas tornam-se altamente sensíveis a novos choques energéticos (fertilizantes e combustíveis) e a eventos climáticos, o que eleva a volatilidade das cestas básicas nacionais.

A momentânea recuperação dos mercados em meados de 2026 não sinalizou uma transição para a estabilidade, mas apenas um intervalo em um sistema operando no limite de sua resiliência. A confluência entre a instrumentalização geopolítica das cadeias logísticas e a intensidade dos eventos climáticos reconfigura a arquitetura da segurança alimentar global. Por um lado, os conflitos no Oriente Médio e no Mar Negro demonstram que a beligerância opera agora como um vetor de desestabilização da oferta de insumos e grãos, transformando rotas comerciais em pontos de fragilidade. Por outro, a força do “El Niño” em formação e as ondas de calor severas que afligiram o hemisfério norte evidenciam que as mudanças climáticas consolidaram-se como um risco estrutural que compromete a previsibilidade das safras e a viabilidade dos atuais modelos de produção. O momento atual é, portanto, um retrato dos principais desafios globais à segurança alimentar presente e futura.

 

Fonte: Por Georges Flexor, em Outras Palavras

 

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