A
Amazônia nas urnas
A
Amazônia não pode chegar às eleições de 2026 apenas como promessa de riqueza. A
região precisa entrar no debate pela porta da casa de quem não sabe se terá
comida suficiente até o fim do mês. Qualquer candidatura que invoque a grandeza
do território deve explicar como pretende enfrentar as privações de seus
habitantes. A relevância climática, econômica e geopolítica da floresta torna
ainda mais grave a precariedade social que atravessa parte de suas populações.
A
pergunta ganha materialidade nas estimativas para os domicílios rurais da
Região Norte calculadas pelos autores a partir da PNAD Contínua de 2024. Nesse
recorte, 43,7% dos domicílios vivenciavam algum grau de insegurança alimentar.
Em 8,8%, a situação era grave, nível em que a privação pode chegar à
experiência efetiva de fome. Esses números deveriam organizar perguntas nos
debates, compromissos nos programas e prioridades nos orçamentos.
A
crítica não depende de afirmar que nenhuma candidatura menciona a Amazônia. Seu
alvo é a insuficiência de um reconhecimento que não se converta em compromisso
com as condições de vida. Projetos políticos devem ser avaliados por suas
diferenças e consequências, inclusive ambientais. Mas todos precisam responder
a uma exigência: como garantir alimentação, renda, serviços públicos e poder de
decisão às populações amazônicas? A frequência com que se pronuncia o nome da
região não substitui essa resposta.
Uma
candidatura deve ser interrogada sobre quanto pretende investir, quais
territórios priorizará, que resultados se compromete a entregar e como os
moradores poderão cobrar sua execução. Sem essas respostas, a região corre o
risco de ser reconhecida como patrimônio nacional e administrada como periferia
social. A questão amazônica é também uma questão democrática: diz respeito a
quem consegue fazer de suas necessidades uma prioridade do Estado.
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A geografia social da privação
O
Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026 ajuda a situar essas
desigualdades. Entre os vinte municípios brasileiros com os piores resultados,
a maioria está na Região Norte, especialmente no Pará; também há municípios do
Maranhão, cuja porção oeste integra a Amazônia Legal. Calculado para os 5.570
municípios do país, o IPS reúne indicadores de condições sociais e ambientais.
Ele revela diferenças no acesso a direitos, mas não mede diretamente a
insegurança alimentar vivida nos domicílios.
A
leitura de suas dimensões permite localizar problemas de serviços básicos,
saúde, informação e educação. O componente de nutrição e cuidados médicos, por
exemplo, reúne indicadores de subnutrição, vacinação, internações e
mortalidade; o de água e saneamento considera abastecimento, esgotamento e
perdas na distribuição. Essas medidas ajudam a examinar o território, sem
substituir a experiência alimentar investigada pela PNAD Contínua.
Em uma
região com água abundante, as carências no abastecimento seguro e no
esgotamento expõem a distância entre disponibilidade do recurso e garantia do
serviço. A geografia fluvial exige soluções próprias, mas redes, equipes,
transporte e manutenção dependem de financiamento e decisões públicas
permanentes.
O
quadro tampouco se restringe aos serviços essenciais. O desmatamento acumulado
e as emissões afetam os resultados ambientais de estados da Amazônia Legal. A
precariedade da comunicação e as oportunidades desiguais de formação também
limitam o que seus habitantes podem fazer com a riqueza que o território
produz.
Entre
2023 e 2024, a proporção de domicílios brasileiros com algum grau de
insegurança alimentar caiu de 27,6% para 24,2%. Ainda assim, no meio rural do
país, alcançava 31,3%. A estimativa de 43,7% para os domicílios rurais
nortistas mostra uma desigualdade territorial que a média brasileira não
resolve. A melhora nacional torna mais necessária a pergunta sobre quem
continua ficando para trás.
Há duas
distinções indispensáveis. Insegurança alimentar inclui desde a incerteza sobre
o acesso aos alimentos e a perda de qualidade da dieta até restrições
quantitativas e fome. Portanto, 43,7% não significa que essa parcela dos
domicílios passava fome. Além disso, Região Norte e Amazônia não são recortes
idênticos: a estimativa se refere aos domicílios rurais dos sete estados
nortistas, não à totalidade do bioma ou da Amazônia Legal.
Mesmo
com essas delimitações, o retrato é contundente. Nas tabulações dos autores da
PNAD Contínua de 2024, a insegurança alimentar atingia 51,8% dos domicílios
rurais cuja pessoa de referência era mulher, diante de 39,5% daqueles cuja
pessoa de referência era homem. Nos domicílios com rendimento por pessoa de até
um quarto de salário mínimo, chegava a 63,4%. A privação acompanha posições
desiguais na estrutura social.
Essas
diferenças descrevem associações; isoladamente, não demonstram suas causas.
Como discute a cientista política Flávia Biroli, a distribuição desigual do
trabalho de cuidado e das responsabilidades familiares condiciona a autonomia
das mulheres. Essa interpretação abre uma pergunta para a política pública, sem
transformar os percentuais acima em prova de um mecanismo causal. Reduzir a
fome a uma falha de planejamento doméstico desloca para os indivíduos a
responsabilidade por uma desigualdade social.
Também
seria equivocado imaginar que morar no campo assegura alimentação adequada.
Produzir alimentos não elimina a necessidade de renda, transporte, água segura,
equipamentos e acesso à terra. Uma família pode participar do abastecimento de
outros consumidores e, ao mesmo tempo, ter dificuldades para sustentar a
própria alimentação. O problema envolve as condições em que trabalha, vende,
compra e se apropria da riqueza que ajuda a produzir.
As
grandes distâncias e a circulação fluvial em parte da região exigem políticas
ajustadas ao território. Não explicam, por si sós, por que o acesso a direitos
permanece tão desigual. Transformar características geográficas em
justificativa permanente para serviços precários naturaliza decisões sobre
financiamento, infraestrutura e presença institucional. A distância deve entrar
no cálculo do investimento público, e não funcionar como autorização para
oferecer menos cidadania.
Uma
interpretação sociológica precisa perguntar como o Estado chega e a quem sua
atuação serve. Dois instrumentos do Ministério do Desenvolvimento e Assistência
Social ajudam a organizar a discussão: o CadInsan estima o risco de insegurança
alimentar grave entre famílias inscritas no Cadastro Único; o PresSISAN examina
a presença e o funcionamento do sistema municipal de segurança alimentar e
nutricional. Eles não medem a mesma coisa que a experiência domiciliar captada
pela PNAD. Lidos em conjunto, permitem perguntar se os territórios mais
vulneráveis também dispõem de condições institucionais para responder às
necessidades de seus moradores.
Esse é
um critério mais exigente para julgar promessas de desenvolvimento. Uma obra
pode ampliar a circulação de mercadorias sem reduzir os obstáculos enfrentados
por quem precisa chegar a uma escola ou unidade de saúde. Um investimento pode
elevar o valor produzido no território sem assegurar remuneração suficiente aos
trabalhadores. A avaliação pública precisa acompanhar a distribuição dos
benefícios e dos custos, em vez de aceitar o volume de investimentos como prova
automática de melhoria social.
É nessa
distribuição que se encontra a questão do poder. Quem define a prioridade de
uma obra? Quem consegue transformar uma demanda em rubrica orçamentária? Quem
participa da escolha das atividades financiadas? Se as famílias aparecem apenas
como beneficiárias futuras, depois que as decisões centrais já foram tomadas,
sua inclusão pode se limitar ao discurso. A democracia exige que possam
influenciar os rumos do desenvolvimento e contestar projetos que ameacem suas
condições de existência.
A
pesquisa de Leonardo Avritzer sobre instituições participativas mostra que sua
efetividade depende das regras que organizam a participação e de sua relação
com o poder público. Ouvir comunidades depois de definidas as prioridades não
lhes assegura influência sobre orçamento, logística e serviços.
A
pobreza deixa de ser compreendida quando é tratada como atributo dos lugares ou
insuficiência de seus moradores. É preciso examinar as relações pelas quais
recursos, oportunidades e capacidade de decisão se distribuem desigualmente.
Sob essa perspectiva, a fragilidade social da Amazônia não decorre de uma
suposta incapacidade de seus povos para o desenvolvimento. Ela exige investigar
quais formas de desenvolvimento lhes reservam os custos e restringem sua
participação nos benefícios.
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Os limites sociais da promessa verde
A
valorização da sociobiodiversidade abre possibilidades, mas não dispensa o
exame das relações econômicas. O uso da palavra bioeconomia não informa quem
controla o processamento, negocia os contratos ou retém a maior parcela do
valor. Uma cadeia baseada em produtos da floresta pode reproduzir remunerações
baixas e dependência comercial. Para avaliar sua contribuição social, é preciso
acompanhar o que efetivamente fica com os produtores e suas organizações.
O mesmo
cuidado vale para o convite a inserir agricultores e extrativistas nos
mercados. Muitos já participam deles, sob condições desfavoráveis. Ampliar a
comercialização requer discutir preços, regularidade dos pagamentos, custos
logísticos e alternativas de compradores. Mais possibilidades de venda podem
fortalecer a autonomia quando acompanhadas de relações comerciais que permitam
negociar e sustentar os meios de vida. A simples expansão das vendas não
garante esse resultado.
Um
estudo da cadeia do açaí em Concórdia do Pará identifica a presença
predominante de atravessadores na distribuição e a atuação de cooperativas,
agroindústrias e batedores no beneficiamento. O caso torna concreta a pergunta:
produtores e suas organizações têm meios de negociar preços e participar das
etapas que agregam valor? A resposta depende de cada território; o aumento das
vendas, por si só, não a resolve.
A
proteção ambiental também perde consistência quando ignora o abastecimento.
Para uma comunidade dependente dos rios, alterações na navegabilidade podem
afetar o transporte, encarecer os alimentos e dificultar o acesso a serviços. A
preparação para esses riscos precisa incluir logística, água, conservação de
alimentos e proteção de renda. Uma política climática deve ser avaliada também
pela capacidade de impedir que um evento extremo se transforme em privação
alimentar.
Há,
portanto, uma exigência dirigida tanto ao discurso desenvolvimentista quanto às
promessas verdes: apresentar a conta social de suas propostas. Não basta
anunciar empregos futuros ou oportunidades de negócios. É necessário explicar
que trabalho será gerado, em quais condições, para quem e com quais garantias
de permanência dos benefícios no território. A urgência climática não pode
justificar que a distribuição da riqueza seja deixada para depois.
Nas
eleições de 2026, o combate à insegurança alimentar na Amazônia deveria ser
tratado como compromisso verificável de governo: metas territorializadas,
fontes de financiamento e responsabilidades de execução. A cobrança alcança a
Presidência, os governos estaduais e as candidaturas ao Legislativo, que
participam das decisões sobre orçamento e fiscalização. A complexidade
federativa não pode servir para que cada esfera transfira a responsabilidade às
demais.
Os
estudos de Marta Arretche sobre federalismo mostram que a regulação e as
transferências federais podem reduzir disparidades territoriais no acesso a
políticas públicas. Para avaliar promessas dirigidas à Amazônia, é preciso
identificar os recursos que a União garantirá e as condições com que estados e
municípios executarão as ações.
Uma
agenda consequente precisa combinar proteção de renda com condições permanentes
de abastecimento e produção. O Programa de Aquisição de Alimentos e o Programa
Nacional de Alimentação Escolar oferecem caminhos para aproximar a produção
familiar do consumo local. Sua ampliação deve considerar transporte,
armazenamento, apoio técnico e capacidade administrativa. Sem enfrentar esses
obstáculos, a abertura formal de uma compra pública pode continuar inacessível
justamente a quem mais necessita dela.
Também
são necessários serviços de água e saneamento adequados às comunidades, energia
confiável para uso doméstico e produtivo e estruturas de saúde e educação que
considerem as formas de ocupação do território. A resposta não se resume a
inaugurar equipamentos. É preciso garantir manutenção, profissionais e custeio.
Na vida de uma família, uma instalação que deixa de funcionar continua sendo um
direito interrompido.
A
escolha orçamentária é parte central dessa disputa. Uma proposta que promete
universalizar direitos deve explicitar como financiará sua continuidade. Quando
manutenção, pessoal e transporte ficam fora da conta, o anúncio de investimento
pode produzir uma presença pública episódica. Para quem depende desses
serviços, o que importa é sua regularidade. O calendário de uma escola, o
atendimento de saúde e o abastecimento de uma comunidade não podem depender do
calendário das inaugurações.
Nada
disso deve ser definido sem a participação de povos indígenas, comunidades
quilombolas, ribeirinhos, agricultores familiares, extrativistas e moradores
das periferias urbanas. Embora os dados aqui apresentados sejam rurais, a
agenda política amazônica precisa reconhecer a diversidade de suas populações e
as relações entre campo e cidade. Participar deve significar influenciar
prioridades e fiscalizar recursos, com condições efetivas para exercer esse
poder.
O
debate eleitoral precisa suportar perguntas concretas. Qual é a meta para
reduzir a insegurança alimentar rural? Como o orçamento chegará às comunidades?
Que condições permitirão aos produtores negociar melhor sua produção? Como será
assegurada a continuidade dos serviços? Candidaturas que invocam soberania e
desenvolvimento devem responder também por essas dimensões da vida nacional.
A
fragilidade social da Amazônia não é uma característica natural de seus povos.
Ela expressa desigualdades que a ação política pode reproduzir ou enfrentar. Em
2026, defender a região exige assumir responsabilidades diante de quem vive a
privação alimentar. A democracia brasileira será insuficiente enquanto
conseguir mobilizar a grandeza da floresta para pedir votos, mas não assegurar
condições dignas de vida às pessoas que a habitam.
Fonte:
Por Andre Luiz de Souza e Francisco Diétima da Silva Bezerra, em A Terra é
Redonda

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