O
voto na direita e a frustração com a educação
Hoje há
uma grande frustração em relação aos estudos. A formação de diplomados sem
emprego aumentou e muitos buscaram outras opções para ganhar a vida. Uns foram
trabalhar no transporte por aplicativo e outros buscaram o caminho do
empreendimento. “Alguns dados nos ajudam a compreender melhor o problema.
Aproximadamente 2 em cada 10 formados no Ensino Superior conseguem encontrar
uma vaga de trabalho equivalente à sua qualificação. Mais especificamente, 78%
dos egressos do Ensino Superior estão em vagas que não exigem diploma
universitário”.
Por
ironia do destino, o acesso maior à escola contribuiu para o fortalecimento da
mentalidade neoliberal. Isso porque o sistema não conseguiu absorver todos
aqueles que se formaram, de modo que estes tiveram que ganhar a vida através do
microempreendedorismo. A jornalista Maëlle Mariette e o sociólogo Franck
Poupeau, mostram, para o caso da Bolívia, sob o governo do MAS, que “a
quantidade de empregos qualificados não acompanhou” a expansão do número de
diplomas. “Desde a pandemia, cerca de quatro em cada dez diplomados abandonaram
sua especialidade para voltar-se a outras atividades, muitas vezes informais.
Em um país em que cargos de engenheiros e técnicos qualificados são escassos e
os cursos de comércio, marketing e comunicação oferecem poucas saídas assalariadas,
o horizonte profissional desloca-se para a microempresa. As redes sociais, com
o TikTok à frente, estão cheias de tutoriais mostrando como é fácil abrir uma
lanchonete de frango frito ou iniciar um negócio de importação e exportação de
produtos chineses adaptados à demanda local”. Esta é uma realidade que pode ser
averiguada em vários países.
Esse
grupo de “diplomados frustrados” contribuiu para o descrédito da educação como
forma de mudança de vida, o que abriu caminho para se pensar a ascensão social
por meio da empresa.
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O nascimento de um sonho
Esta
situação pariu uma multidão defensora dos interesses empresariais (fim dos
direitos trabalhistas, redução drástica dos impostos, corte de gastos etc.) que
está convencida de que, no Brasil, há muitos empecilhos que impedem o
empresário de crescer.
Tal
ideia é defendida há décadas pelas classes dominantes que, por sua vez, sempre
controlou a política nacional, mas precisa mobilizar as massas para obter
legitimidade e, assim, criar, a partir do consenso, leis que ampliem sua margem
de lucro.
A
burguesia vem se aproveitando de um ressentimento cada vez mais popular: “Não
consegui a vaga que queria, não pude seguir a profissão para a qual estudei,
trabalhei muito e não prosperei como esperava, minha opinião já não é recebida
da mesma forma…”.
Para
entender esse ressentimento precisamos compreender como surgiu o projeto de
dominação ideológica capitalista: o sonho do oprimido em se tornar opressor.
O
educador Paulo Freire observou esse constructo mental e constatou que os
oprimidos são invadidos pela consciência do opressor, e “na medida em que os
invadidos vão reconhecendo-se ‘inferiores’ necessariamente irão reconhecendo a
‘superioridade’ dos invasores. Os valores destes passam a ser a pauta dos
invadidos. Quanto mais se acentua a invasão, alienando o ser da cultura e o ser
dos invadidos, mais estes quererão parecer aqueles: andar como aqueles, vestir
à sua maneira, falar a seu modo”.
Mas
onde podemos encontrar o germe desse raciocínio?
As
sociedades anteriores não tinham a mobilidade social como característica.
Contudo, a ascensão da burguesia e a transformação na concepção de tempo, que
se deu ao longo dos séculos XVI e XVIII, promoveram uma nova racionalidade
econômica.
O medo
do fim dos tempos foi perdendo o sentido já que o Dia do Juízo não chegava
nunca. Deste modo, a Igreja vai perdendo o monopólio sobre o tempo futuro para
as previsões da astrologia, da matemática etc.. Os Últimos Dias foram ficando
cada vez mais distantes do presente, o que permitiu o nascimento do conceito de
progresso e aperfeiçoamento da vida terrena. Essa nova racionalidade abriu a
possibilidade de fazer planos. “A novidade era a seguinte: as expectativas para
o futuro se desvincularam de tudo quanto as antigas experiências haviam sido
capazes de oferecer”. Quer se viver melhor. Já que o Apocalipse estava bem
longe, por que não acumular riqueza e melhorar de vida?
A ideia
de progresso cria uma aceleração do tempo, pois se deseja chegar a um patamar
superior em relação ao passado o mais rápido possível. Esse é o momento do
esplendor das ideias iluministas e da ascensão da burguesia.
No
limiar dessa modernidade acreditava-se que a educação seria fundamental para
prosperar nesse novíssimo mundo. A utopia dos filósofos iluministas era uma
sociedade esclarecida, livre da ignorância. Assim se atingiria o progresso e o
aperfeiçoamento humano.
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A contradição burguesa
A
burguesia, quando assumiu o poder, utilizou-se dos princípios iluministas
universais, como o de Fraternidade, Igualdade e Liberdade, para contestar os
privilégios do Antigo Regime. Mas a sociedade que ajuda a edificar torna esses
princípios inviáveis, pois a concorrência é fundamental para a dinâmica do modo
de produção capitalista. A liberdade obliterou todos os outros valores. Por
isso que Milton Friedman destacou que “como liberais, consideramos a liberdade
do indivíduo, ou talvez da família, como o objetivo último no julgamento das
organizações sociais”.
O
investimento do capital – desde a Revolução Industrial – nas tecnologias da
informação e comunicação (TICs), nunca teve o objetivo de levar o conhecimento
esclarecido para todos (como sonhavam os iluministas), mas de reduzir a zero o
tempo de circulação do capital, isto é, fazer com que a mercadoria saia da
produção e chegue até o consumidor o mais rápido possível.
O que
se pode constatar desse processo é que essa sociedade da informação não é a do
conhecimento filosófico-científico, mas da publicidade (do conhecimento sobre a
mercadoria), que mais tardiamente se tornará a sociedade do espetáculo.
Para
lidar com esse problema ético (entre os princípios universais que dizia
defender e a prática capitalista), a burguesia desenvolveu uma subjetividade
específica que irá disseminar através de um árduo processo de convencimento
marcado por muita resistência por parte dos oprimidos. A “frieza”, irá dizer
Adorno, se torna “o princípio fundamental da subjetividade burguesa”.
A ordem
burguesa “estabeleceu, pela primeira vez, em um sentido geral, a possibilidade
de uma vida boa para todos”. Isso se dá pela ideologia da escolha racional. O
indivíduo deve pensar e agir em termos do custo-benefício, o que promove o
“novo princípio de decisões próprias nos assuntos econômicos”. Ou seja, o
sujeito é pobre porque não soube administrar bem economicamente a sua vida.
Esse fenômeno legitima a indiferença para com os pobres. E é a partir desse
raciocínio que Hockeheimer constata que “destes fatos resulta a indiferença
como categoria antropológica” da sociedade capitalista.
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A lógica do empresário de si
Ao
longo das últimas décadas do século XX, uma ideologia vai penetrando no debate
popular, e passa a ser debatida no almoço de família, nas conversas de bar
etc.. A lógica econômica que vai sendo impregnada na mente dos que vivem dos
destroços deixados pelo Estado de bem-estar social é a do “indivíduo-empresa”
ou “empresário de si”.
“Ser
empresário de si significa lançar uma visão empreendedora sobre sua vida e
assumir-se como o único responsável pelo seu sucesso ou pelo seu fracasso”,
explica a professora Kamila Lockmann, partindo de uma vasta bibliografia.
Há, sem
dúvida, uma máquina que age através da biopolítica que, valorizando o ethos de
empreendedor, do homo economicus, busca conduzir o comportamento das pessoas
que sonham um dia alcançar o sucesso. É a forma racional que a burguesia
encontrou, alimentada por seus ideólogos da Escola de Chicago, para legitimar o
seu domínio e reforçar a expectativa do oprimido em um dia se tornar opressor.
Ignora-se
“os comportamentos moralmente desagradáveis que a ética meritocrática promove
[…] Entre os vencedores, gera arrogância; entre os perdedores, humilhação e
ressentimento”. É uma imoralidade (pois contradiz valores que ainda defendemos,
como compaixão, igualdade, etc.) que se justifica pela racionalidade do
mercado. “Essa situação imoral adentra a racionalidade que se apresenta como o
princípio de realidade no modo de conduzir a vida”. É um raciocínio tão frio,
que nos EUA, “ajudou a sedimentar a concepção de que a escravidão não havia
causado um dano social tão grave, uma vez que só dependia do empenho de cada um
a superação dessa questão histórica”.
Emana
daí uma subjetividade calculista e individualista na qual se entende que o
governo não deve gastar em políticas sociais, mas diminuir os impostos e os
direitos trabalhistas para que a empresa possa crescer. A mídia corrobora essa
ideia colocando o “equilíbrio das contas” no centro do debate econômico.
O
pequeno empreendedor (que não se enxerga como classe trabalhadora, mas como um
grupo impedido de crescer por culpa do governo) acredita que um dia poderá ser
detentor de uma grande cadeia de lojas, como o “véio da Havan” ou um outro
milionário qualquer. É triste saber que muitos têm Elon Musk como referência.
É essa
racionalidade neoliberal, marcada pela ideia do empreendedor de si, que
legitima a luta pelo enriquecimento a qualquer custo. É uma ação racional, que
faz sentido, e que é até mesmo necessária para se adaptar à sociedade
capitalista. É daí que surge o desprezo pela coletividade, o ódio à
diversidade, ou como prefere o jurista Rubens Casara, a idiossubjetivação. “A
‘idiotice’ é a postura, por excelência, do sujeito neoliberal que atua
egoisticamente a partir de cálculos de interesse que visam exclusivamente o
lucro ou a obtenção de alguma vantagem pessoal”.
Friedrich
A. Hayek, um dos pilares do neoliberalismo, acredita que o individualismo é um
dos elementos mais importantes da civilização ocidental. Por isso, segundo o
economista austríaco, o socialismo representaria “a etapa final da destruição
da civilização construída pelo homem moderno a partir da Renascença e que era,
acima de tudo, uma civilização individualista”.
Ou
seja, não se trata de moralidade – embora os veículos de comunicação sustentem
uma guerra cultural nestes termos. Pode até ser que o trabalhador vote na
extrema direita por uma questão moral, mas a razão que sustenta esse voto é uma
linguagem política defendida pela direita já há algumas décadas.
Quando
a educação não é percebida como um caminho para transformar o oprimido em um
opressor (principal objetivo do indivíduo no mundo capitalista) ela perde sua
funcionalidade. A frustração como a promessa pedagógica de emancipação é
totalmente previsível em uma sociedade que prioriza o crescimento individual e
não a convivência social fraterna. O “princípio de realidade” (eu preciso de
dinheiro para viver), a necessidade da autopreservação através da concorrência,
é contraproducente com a ideia de educar para projetos comunitários. Logo as
pessoas iriam perceber, e perceberam… Essa ideologia “descarta a necessidade de
existência dos direitos sociais e políticos, os quais, no programa neoliberal e
neoconservador, só serviram para difundir um certo clima social de acomodação e
desrespeito pelo esforço e pelo mérito individual”. Na racionalidade
neoliberal, acredita-se que se um indivíduo se esforçar devidamente terá
dinheiro suficiente para pagar por educação, saúde, moradia etc. Sendo assim,
não há necessidade de garantia de direitos. Os indivíduos que não conseguem
pagar por sua própria existência são “fracassados”, ineptos na administração
econômica de sua própria vida.
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Os tecnoutópicos foram enganados!
Esse
projeto individualista ganhou ainda mais força nas últimas décadas por conta
das redes sociais. Intelectuais como Pierre Lévy, Henry Jenkins, Helber
Faggion, Dan Gilmor e outros acreditavam numa espécie de “tecnoutopia liberal”
na qual uma democracia eletrônica promoveria um “processo de democratização da
informação, com páginas virtuais servindo de veículos para a formação de uma
sociedade portadora de uma consciência cívica maior”.
Mas
eles foram enganados pela burguesia tal como o foram os iluministas de outrora.
Isso porque as condições materiais de existência, forjadas pelas exigências do
capital, impedem qualquer utopia humanitária de se realizar. Como explica
Andreas Gruschka, na sociedade burguesa, “a exigência de mais espírito
comunitário é impedida devido à estrutura da sociedade. Na verdade, a busca do
próprio interesse particular à custa do interesse geral é protegida pela ordem
burguesa”.
O que
aconteceu foi que muitos observaram pessoas prosperando (no sentido capitalista
do termo), a partir de negócios simples, provenientes de investimentos em
marketing, publicidade etc. Um novo consenso emana desta realidade
comunicacional: é possível crescer vendendo um produto, nem que seja você
mesmo.
Nesse
universo comunicacional, devido à velocidade da informação, o desenvolvimento
do conhecimento filosófico-científico é impraticável por exigir tempo, debate,
crítica etc. Por outro lado, a publicidade, isto é, a exposição de uma marca
(que pode ser você mesmo), encontra um terreno extremamente fértil. Não há como
a educação ter mais valor que os mecanismos que facilitam a venda de um
produto, já que o valor de troca é o centro gravitacional de um mundo que exige
dinheiro para a autopreservação e para o crescimento individual.
Mas é
certo que essa ideologia baseada no enriquecimento individual a qualquer custo
também irá perecer, assim como a ideologia de que o estudo levaria a ascensão
social. Até porque uma sociedade formada somente por empreendedores seria
insuportável. O que virá depois que a frustração chegar? Certamente a burguesia
poderá manipular os meios de comunicação de massa e formular novos sonhos. Ou
será que as propostas humanitárias ocuparão o vácuo deixado?
Fonte:
Por Raphael Fagundes, no Le Monde

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