Cannabrava:
Um país de devedores
O
Brasil tornou-se um país de devedores. São 83,9 milhões de brasileiros com
dívidas. Desses, 54,15 milhões estão em atraso com o sistema financeiro. O dado
é importante porque uma coisa é estar endividado; outra é estar inadimplente. O
problema se torna ainda mais grave diante do elevado comprometimento da renda
das famílias: depois de pagar contas básicas, prestações, financiamentos e
dívidas, sobra muito pouco — e, para muitos, não sobra nada.
Em
julho, 8,92 milhões de brasileiros estavam inadimplentes com instituições
financeiras. E há uma novidade nesse quadro: já não se deve apenas aos bancos
tradicionais. Agora se deve também às fintechs. Nos últimos seis anos, o número
de consumidores com dívidas negativadas simultaneamente em bancos e fintechs
mais que quadruplicou, com crescimento de 355,1% em relação a dezembro de 2019.
Essa
transformação está relacionada também à extraordinária bancarização ocorrida no
país. O Pix, desenvolvido pelo Banco Central, facilitou enormemente a entrada
de milhões de pessoas no sistema financeiro, enquanto as fintechs popularizaram
o acesso ao crédito. São avanços importantes, mas carregam uma contradição:
crédito não é renda. Empréstimo não significa dinheiro fácil. É renda futura
antecipada, que terá de ser devolvida — e com juros.
Quando
a renda já está comprometida, um novo empréstimo pode parecer a solução para
pagar a conta de hoje, mas frequentemente cria a conta de amanhã. Forma-se um
círculo perverso: toma-se crédito para cobrir uma dívida, compromete-se a renda
futura e depois se busca novo crédito para cobrir o compromisso anterior. Não
se trata simplesmente de perguntar por que o brasileiro não paga. Muitos não
pagam porque a renda não dá para pagar.
E há
ainda uma sangria relativamente nova no orçamento familiar: as bets. As apostas
pela internet penetraram profundamente na sociedade brasileira, facilitadas
pelo telefone celular e pelo pagamento instantâneo. Para muita gente, aquilo
que começa como distração termina em compulsão. O dinheiro que deveria pagar
comida, aluguel, luz ou uma prestação acaba transferido para as plataformas de
apostas.
Nesse
ponto, já não estamos tratando apenas de economia. Quando a aposta se
transforma em compulsão, destrói o orçamento, provoca conflitos familiares e
leva pessoas a se endividarem para continuar jogando, torna-se também um
problema de saúde pública. A intervenção do Estado, portanto, não é apenas
justificável: é necessária.
É nesse
contexto que deve ser compreendida a medida provisória editada pelo presidente
Lula, proibindo as bets e estabelecendo também um plano para os devedores.
Cannabrava
| O problema não é a dívida. É o custo da dívida para os devedores
São
duas faces de um mesmo problema: de um lado, impedir que as apostas continuem
drenando a renda das famílias; de outro, criar condições para que milhões de
brasileiros já soterrados pelas dívidas possam renegociar seus compromissos e
recuperar sua capacidade econômica.
Um país
em que dezenas de milhões de pessoas trabalham apenas para pagar contas, juros
e prestações não consegue construir um mercado interno vigoroso nem oferecer
qualidade de vida à sua população.
Resolver
o endividamento não é premiar o caloteiro. É reconhecer que, quando a renda de
milhões não consegue mais pagar os compromissos assumidos, o problema deixou de
ser individual e passou a ser econômico, social e político.
Fonte:
Por Paulo Cannabrava Filho, em Diálogos do Sul Global

Nenhum comentário:
Postar um comentário