terça-feira, 15 de setembro de 2026

O último guerreiro do bolsonarismo? André Mendonça e as atuais expectativas da extrema direita

Entre tantas outras coisas, Junho de 2013 fixou no imaginário político contemporâneo a imagem da grande manifestação, como uma Avenida Paulista tomada de ponta a ponta. As fotografias de milhões de pessoas ocupando a avenida forneceram a régua com que os atos seguintes seriam medidos: manifestações tornaram-se comparáveis pelos quilômetros percorridos ou preenchidos e pela multidão concentrada diante do MASP. Revistas hoje, aquelas imagens parecem vir de outro mundo. Não há nelas grandes estruturas, trios elétricos ou bonecos infláveis; há sobretudo pessoas, cartazes e máscaras. Desde então, porém, passamos a viver de manifestação em manifestação, e, a cada novo ato, coisas, símbolos e aparatos foram se acumulando sobre a multidão.

Um dos itens que parece ser indispensável para uma boa manifestação são os bonecos infláveis. Ao que parece, o primeiro grande êxito nas manifestações foi o Pixuleco, de 2015, que consistia em um desenho do, à época, ex-presidente Lula, com uma “roupa de presidiário”, que foi ganhando alterações. O sucesso foi nacional, as redes ditas sociais fizeram o boneco famoso e ele foi sendo levado para diversas cidades onde os manifestantes ocuparam as ruas. Não passou muito tempo para que outros revoltosos fizessem outros personagens. Ainda nos segundos anteriores ao golpe de 2016, o Pato da Fiesp e a Pixuleca, com a imagem da então presidenta Dilma com um nariz grande de pinóquio mentiroso e com sangue na roupa. Versões de mão do pixuleco foram distribuídas até no congresso nacional. Um fenômeno.

O inflável gigantesco qualifica, à primeira vista, a razão daquela manifestação, seja para quem está ali presente, para quem o vê pela foto ou que passa desapercebido por perto. Talvez o primeiro sujeito a ter um inflável próprio como forma de apoio tenha sido Sergio Moro, não por acaso, era o juiz que tinha realizado aquilo que os infláveis anteriores almejavam. Os formatos e modelos dos infláveis de Moro variavam a depender da quantidade de dinheiro acumulada pelas vaquinhas — sim, boa parte desses infláveis eram produzidos a partir de dinheiro doado por pequenos empresários, e da força dos braços dos manifestantes de carregar tanto plástico. Mas a média foi o “super Moro”, com um corpo de Superman e cabeça do ex-juiz.

Em algum sentido, era também a primeira figura a encarnar positivamente os anseios de mudança que vinham se acumulando nas diversas manifestações que davam o tom da então nascente extrema direita, entre o golpe de 2016 e a prisão de Lula. Nesse mesmo período, o então ministro Ricardo Lewandowski e o procurador-geral da República Rodrigo Janot também foram representados em infláveis, críticos, é claro. Depois de Moro, porém, foi Bolsonaro quem passou a ocupar o centro desse repertório visual, multiplicando-se em bonecos e caricaturas de diferentes formas por todo o país, se constituindo como a representação de um “outro Brasil”, apresentado como aquele que deveria ser batalhado. Em 2018, consolidou-se a imagem do “Bolsonaro mito”, frequentemente acompanhada de óculos que remetiam ao meme Turn Down for What, inseridos após alguma de suas respostas abruptas ou declarações de efeito que viralizavam facilmente.

Os infláveis foram se repetindo, assim como as manifestações foram se tornando rotina. Em 2021, no auge do governo Bolsonaro, o 7 de Setembro se tornou o momento de grande mobilização para os manifestantes de extrema direita. E quem era o grande vilão a ser derrotado pelo projeto encabeçado pelo mito? Alexandre de Moraes, que desde 2019 — quando deflagradas as operações da polícia federal no âmbito do inquérito das Fake News — julgava militantes da extrema direita. É claro que com a crescente dos acirramentos e as sequenciadas derrotas judiciais da extrema direita, o monstro se tornou demoníaco. A coisa chega a outro nível quando Bolsonaro é preso, fica inelegível e os envolvidos nos atos de 8 de Janeiro são responsabilizados. Em algum sentido, eles (a militância da extrema direita) se sentiram desassistidos. Ninguém pode segurar o Ministro. O grande sonho de Brasil, que parecia ter tido um primeiro ensaio com a vitória de 2018, encaminhava-se para o ocaso.

Enquanto a extrema direita demonizava Alexandre de Moraes, a esquerda passou a tratá-lo como um lutador do republicanismo e da democracia. Em Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa, isso fica explícito quando o Ministro tem uma aparição e suas falas insistem na defesa da democracia, e o enquadramento o apresenta como uma espécie de bastião de um Estado que conseguiu deter as ameaças golpistas de Jair Bolsonaro. A imagem ganha outra dimensão quando lembramos que, no 7 de setembro de 2021, Bolsonaro, ao lado do pastor Silas Malafaia, gritava para seus apoiadores: “Sai, Alexandre de Moraes! Deixa de ser canalha!”. A guerra em torno de Moraes acabou produzindo uma curiosa distribuição das posições. Diante da ameaça de ruptura, a esquerda e o progressismo foram levados a ocupar, mais uma vez, o lugar da defesa das instituições — justamente as instituições de um Estado cuja crise se prolonga e que há muito parece incapaz de formular e realizar um projeto minimamente redistributivo.

Nas manifestações do 7 de setembro deste ano os infláveis voltaram à cena. Três deles chamam atenção por não terem sido bancados por candidatos, mas, ao que tudo indica, por vaquinhas coletivas. Um deles é Bolsonaro — já sem a indumentária típica dos memes, sem os oclinhos e sem a arminha feita com as mãos —, vestido com a faixa presidencial onde se lê “MITO”, um inflável melancólico, com uma faixa sobre a boca, clamando por mobilização: “Falem por mim”. Mas, são outros dois bonecos que talvez digam mais: Donald Trump aparece segurando pelos cabelos um pequeno Pixuleco, enquanto, em tamanho ainda maior, surge outro ministro do STF, André Mendonça, de braços cruzados. É a primeira vez que um ministro tem um inflável celebrativo. Cifrado aí, as expectativas atuais da extrema direita: de um lado, a esperança de uma intervenção imperialista; de outro, a aposta numa batalha institucional conduzida pelo ministro contra aquele que foi responsável pela prisão de Bolsonaro.

Enquanto a autoridade de Moraes se sustenta naquilo que ainda resta das instituições diante da ameaça da extrema direita; a de Mendonça está na promessa de uma autoridade que parece vir de fora delas, defendendo exatamente onde o movimento parecia estar desprotegido. Moraes, guardião de uma ordem em crise, e Mendonça, o batalhador que vai dar o troco. A contragosto, a direita mobiliza seus símbolos sem medo de ofender quem quer que seja – ou serem acusados de entegristas por hastearem bandeiras dos Estados Unidos de Donald Trump. O corpo individual de Mendonça, restrito às sessões do Supremo e às imagens das telas, torna-se público, enorme e reconhecível à distância. O ministro é inflado na mesma medida em que nele se inflam as esperanças de um movimento acuado por derrotas eleitorais e judiciais. É essa desproporção que a imagem torna sensível: um único ministro precisa carregar a expectativa de todo um povo que se imagina abandonado dentro das instituições.

<><> Ministro, do supremo e da palavra

André Mendonça é ministro em duas acepções. Brincando de/com Agamben, o ministro existe para operar a separação da práxis da oikonomia da glória soberana. Em outras palavras, no mais alto escalão da teologia cristã pré-moderna, a figura do ministro surge da necessidade de separar o ser de Deus da sua ação governamental. O poder supremo funda-se na máxima de que o rei reina, mas não governa. Para que o mundo possa ser regido sem que o monarca absoluto perca sua transcendência, a execução efetiva das decisões gerais é sempre delegada a agentes subalternos. Agamben sugere que a angelologia cristã funcionou como o primeiro grande paradigma de uma burocracia administrativa. Os anjos foram divididos entre os que apenas assistem e contemplam a divindade e aqueles enviados para administrar o mundo, tendo sido criados especificamente para o exercício prático do ministério. Progressivamente, a própria noção de ministerium (o encargo administrativo profano) passou a se fundir com o mysterium (o mistério sagrado), sacralizando definitivamente a hierarquia executiva.

O Estado moderno herda as duas faces do governo divino do mundo, desdobrando-se tanto como um Estado-providência quanto como um Estado-destino. A Providência, outrora divina, assume a forma impessoal, legislativa e soberana da Lei, que dita regras universais, enquanto o Destino se materializa no aparelho administrativo e judiciário que executa minuciosamente esses ditames sobre os cidadãos. Como o Estado de direito moderno substitui a figura de Deus e a lei não se aplica por si mesma, a máquina governamental exige a manutenção da separação originária entre a titularidade do poder e o seu exercício. Os juízes de uma corte suprema atuam com os antigos anjos administradores secularizados. Eles integram a hierarquia de executores que aplicam a providência abstrata da ordem legal aos casos contingentes e particulares.

No ambiente evangélico, a passagem é um tanto diferente. A soberania divina deixa de repousar na mediação objetiva e transcendente de um sacramento para se realizar na imanência da própria vida do ministro. Desprovido do escudo do clero medieval, o pastor é administrador contínuo de sua própria credibilidade. Não basta apenas agir corretamente; é preciso também corresponder, em sua própria forma de desejar, aos padrões que legitimam essa atuação. Pastor é aquele que sustenta sua autoridade sobre o rebanho ao demonstrar publicamente que é capaz de conciliar sua existência particular com as exigências da fé que anuncia. O cargo de ministro do STF, a disciplina da conduta pessoal e a reputação tornam-se, assim, elementos centrais dessa lógica.

Mendonça é assim Ministro entre dois sentidos. Na prática, ele não elimina a distância entre essas duas acepções de sua atuação; ele faz dela a fonte de sua autoridade. É ministro dos homens e ministro de Deus, ocupa o centro da instituição e fala como alguém posto à margem, exerce poder e apresenta-se como fraco. Depois do vazamento das conversas de Moraes, voltou a circular nas redes bolsonaristas uma de suas pregações do ministro.

Na ocasião, afirmou: “A cova que às vezes cavam para nós é a cova em que eles mesmos vão cair.” A frase reaparece agora investida de uma espécie de confirmação retrospectiva. Denunciaria uma antecipação da própria disputa no interior da Corte. Mendonça se apresenta como alguém que não depende da “luz dos homens”. A expressão condensa uma distinção familiar à gramática evangélica: de um lado, aquilo que pertence aos homens e ao mundo; de outro, aquilo que vem de Deus e não se deixa medir pelos critérios “mundanos”: “[…] às vezes sai a notícia nos jornais. O André, segundo ministros do Supremo, não tem estofo. E eu falo sabe o quê? Glória a Deus! Porque o meu estofo não vem dos homens. Porque à luz dos homens, eu sou o fraco mesmo. À luz dos homens, eu sou um crente” (transcrição nossa).”

A frase é estranha porque “crente” aparece como sinônimo de fraqueza. Mendonça não diz apenas que, apesar de fraco, continua sendo crente. Diz que é fraco precisamente “à luz dos homens” porque pertence a outra luz. A crítica à sua falta de estofo pode então ser recebida como confirmação de que sua autoridade não depende daqueles que o julgam. O ministro deixa de precisar demonstrar que possui o estofo exigido pelo Supremo: o descrédito dos outros passa a provar a fidelidade daquele que foi escolhido por Deus. Forma-se assim uma cena conhecida do imaginário evangélico: o homem desacreditado, cercado por adversários e aparentemente sozinho, que justamente por isso se torna o lugar da ação divina. Não é apesar da cova, do deserto e da fraqueza que ele será escolhido. É por meio dessas imagens que sua escolha poderá ser reconhecida. É nesse ponto que a condição de minoria — pelo ponto de vista da imaginação religiosa — deixa de ser apenas uma posição de fraqueza e passa a funcionar como prova de escolha. O escolhido precisa ser desacreditado para que possa ser reconhecido como escolhido. “Deus escolheu os que são loucos para o mundo a fim de envergonhar os sábios e os que são fracos para o mundo a fim de envergonhar os fortes” (1 Coríntios 1:27. NVI) é sempre citado aí.

A indicação ao Supremo lhe forneceu o cargo, mas foi Deus que deu o chamado. Sua presença na Corte deixa de ser explicada pela indicação presidencial e passa a ser lida como mais um capítulo na longa história da ação de Deus no mundo. A voz que vem do recôndito do divino e chama os indivíduos para cumprir a sua função para o Reino. Antes de narrar a “perseguição” que sofre, ele havia dito “A nossa vocação é estar num deserto e ver Deus fazer um oásis. Nossa vocação é ver todos contra nós e nós sozinhos, mas com Deus junto conosco”. Depois de dar essa afirmação geral, vem a demonstração da sua perseguição como ministro do STF. A sua atuação no supremo não é, então, um “trabalho qualquer”, mas sua vocação. E ela já estava inscrita no próprio projeto de sua indicação, tal como formulado por Bolsonaro. Ao justificar a escolha de um evangélico, o ex-presidente não falava simplesmente da necessidade de representação de uma identidade, mas da capacidade de fazer dessa identidade uma força política capaz de operar dentro da instituição: “Quando falavam que tem que ter um negro, uma mulher ninguém falava nada. Quando fala que tem que ter um evangélico… Mas não é porque é evangélico apenas, tem que ter conhecimento de causa, tem que transitar em Brasília, conhecer gente no Supremo, no Parlamento. Quero colocar uma pessoa lá que não é para votar certas coisas e perder por 10 a 1, tudo. Quero que essa pessoa vote de acordo com suas convicções, interesses dos conservadores, mas que busque maneiras de ganhar alguma coisa lá também”.

A escolha por um “terrivelmente evangélico” se daria pelo fato de ele ter a capacidade imaginativa de converter e convencer os seus pares. O que Bolsonaro queria mesmo era alguém capaz de pastorear o Supremo. E, ao pastorear o Supremo, conseguisse pastorear o Brasil. Já é possível observar o gozo da grande mídia por vê-lo movimentar as telas e as manchetes, como quem cavuca alguma coisa para agitar as águas da eleição; como também entre os evangélicos que se encorajaram novamente em um lavajatismo 2.0.

<><> Divisão espiritual do trabalho militante

Nesse mesmo 7 de setembro, Valdemiro Santiago, pastor da Igreja Mundial do Poder de Deus (SP), exibiu para sua congregação lotada um vídeo de apoio do então ministro Mendonça. No culto, estavam presentes o atual candidato Flávio Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Antes de passar o vídeo, o pastor Valdemiro disse que alguém da membresia havia pedido que orassem pelo ministro. Na gravação, Mendonça parabeniza a igreja por seus anos de atuação e relembra que foi acolhido por ela no momento em que enfrentou a sabatina para ingressar no STF. “Deus abençoe, ministro. Vá em frente!”, exclama o pastor, diante dos aplausos. O vídeo havia sido gravado em março de 2026, por ocasião da comemoração do aniversário da igreja. Com a reposição da figura de Mendonça como o mais novo batalhador do Brasil a atualidade do vídeo se refez. Silas Malafaia e Estevam Hernandes  também declararam apoio ao Ministro desde o dia 3 de setembro. Em reação a tantas mensagens e declarações, o ministro agradece o apoio aos “irmãos e irmãs” que estão orando por ele.

Há um jogo curioso nesse movimento. Essa imaginação religiosa em torno de Mendonça pode ampliar a legitimidade daquilo que ele faz diante do público evangélico, o que não se traduz em mobilização nas manifestações, vide a esvaziada Paulista deste 7/9. Mas lá onde a imaginação religiosa pisa, nas correntes de oração, nos grupos de WhatsApp, nas pregações dominicais, essa disputa influi no nível consciente do projeto de Brasil da extrema direita como algo crível. Não que o apoio dessas lideranças faraônicas ecoem tão fortemente nos recônditos campos do evangelicalismo em todo o país, a questão é que essa é a posição das lideranças que entraram, mesmo que somente como apoiadores não declarados, no projeto da extrema direita. Mendonça está no centro do jogo agora.

O jogo, contudo, é feito de muitas posições, que por vezes ganham maior e menor relevância em cada combate, mas está longe de ser um grande plano de poder centralizado. Os termos do encontro entre André Mendonça e Daniel Vorcaro são quase uma imagem da presença dos evangélicos no estado. O advogado Ciro Rocha tentou realizar o encontro, vão na alfaiataria de luxo, mas o ministro não encontra Vorcaro. Meses depois, com a mediação de Cezinha de Madureira, o encontro acontece. Um ministro de tradição presbiteriana, um deputado pentecostal (Cezinha) e um empresário pentecostalizado. Como vem sugerindo há algum tempo Bruno Reikdal, uma divisão espiritual do trabalho militante entre pentecostais e históricos que dá corpo a atuação do campo evangélico na política. O termo é piegas, mas não despropositado. Enquanto agentes ligados a igrejas históricas (Presbiterianas, Metodistas, Luteranas e algumas Batistas) ocupam predominantemente posições de indicação no Executivo e nos cargos do Judiciário, que normalmente carecem de uma formação, os pentecostais (Assembleias de Deus, Neopentecostais) encontram maior presença no Legislativo. E ainda os “históricos pentecostalizados” como a Igreja Batista da Lagoinha, da qual Vorcaro é membro e seu comparsa Fabiano Zettel é pastor, e que é um dos melhores exemplos da capacidade das igrejas de conectar interesses pessoais e institucionais.

Sujeitos disputando sua posição dentro de uma sociedade de classes e que encontram nessa estrutura eclesial alicerces para os seus projetos. Se o Estado pode ser compreendido simultaneamente como destino da ação política e como instrumento de realização de determinados fins, a passagem entre o campo religioso, o mercado e as instituições estatais deixa de parecer uma transgressão de fronteiras e passa a ser parte de uma mesma racionalidade de atuação — fazer o Estado operar em favor de uma finalidade que o antecede e que, em última instância, justifica a própria flexibilização dos meios empregados para alcançá-la. Chamar de sociedade racket ainda diz alguma coisa?

Assim também, uma “Dualidade Constitucional” parece vigorar na cabeça de parte dos ministros do STF. Ora se aplica a norma constitucional e o ordenamento jurídico, ora se distorce ou mesmo se contraria a “letra da lei” para chegar ao seu espírito, que seria a efetividade da norma jurídica, sua aplicação rápida à vida prática. Tanto para “pautas progressistas” como conservadoras. Obviamente com muito mais efetividade para as segundas, que vão desde prisões preventivas a vazamentos seletivos para que a população saiba “o que realmente acontece no Brasil”, sendo esse expediente usado para alegrar a torcida da vez. Quem consegue ser mais efetivo, ganha. Em alguns momentos, os progressistas ganharam. Há mais ou menos uma semana, quem tem levado a melhor são os bolsonaristas. De qualquer forma, fica escancarado o limite da Constitucionalidade de 1988, sendo sua defesa apenas uma fantasmagoria. Por outro lado, um programa político radical se abre, mais como fardo do que como possibilidade, já que nesse mar de exceções a extrema direita sabe nadar de braçada e tem uma estética político-teológica pronta para tal; nós, sem povo e sem futuro, temos o presente nas mãos mas parece que nem conseguimos segurá-lo, imagina dotá-lo de um horizonte político. Só um milagre.

 

Fonte: Por André Castro, André Kanasiro, Jayder Roger, Samuel Araújo e Rilton Filho, no Blog da Boitempo

 

Marcia Carmo: hora de olhar para ‘espelho’ da extrema-direita na Argentina e no Chile

A poucos dias do primeiro turno da eleição presidencial no Brasil, governos, analistas e opinião pública da América Latina (e além dela também) observam com muita atenção a campanha para o Palácio do Planalto. O Brasil é o maior país da América Latina. E hoje vários países da região são governados pela extrema-direita, aliada de Trump e unida no chamado ‘Escudo das Américas’, que envolve políticas de segurança para a América Latina, a América Central e o Caribe. Mas qual é hoje a situação econômica e social dos países governados pela extrema-direita na nossa região? Qual é a realidade, por exemplo, na Argentina e no Chile?

<><> ‘Bolsonaros’, Milei, Kast

Os Bolsonaro dialogam com os líderes da extrema-direita da região e apoiaram as eleições de Milei, na Argentina, Kast, no Chile, e também de Abelardo de la Espriella, na Colômbia. Em muitos pontos, eles demonstram sintonia, como na defesa do Estado mínimo e na relação sem freios com os Estados Unidos. No Chile, o chanceler ressalvou que a aliança não significa, porém, aceitar ingerências e que o país tem sua própria autonomia. Ou seja, nada de cheque em branco. Na Argentina, Milei respalda todas as políticas de Trump. “Ele é um funcionário de Trump na região”, disse o ex-embaixador da Argentina na China, Sabino Vaca Narvaja, em entrevista ao Brasil 247.

<><> Realidade da Argentina

Desde novembro de 2023, um mês antes de Javier Milei tomar posse na Casa Rosada, mais de 31 mil empresas (31.342) fecharam as portas na Argentina, segundo levantamento da consultoria econômica CEPA, a partir de dados oficiais do Ministério de Capital Humano. Nos bastidores do governo, reconhecem que o consumo não decola e que a queda no índice oficial de inflação é insuficiente para melhorar a qualidade de vida dos argentinos. Atualmente, as pesquisas apontam que o índice de rejeição contra Milei supera 60% e que sua aprovação está na casa dos 30% e 35%. O estilo presidencial, de disparar sua metralhadora de insultos (como fez com Lula no palanque de Flávio Bolsonaro), gerou cansaço em muitos eleitores. O país realiza eleição presidencial no ano que vem, 2027. A oposição continua fragmentada. “Não suporto Milei. A Argentina merece mais. Porém, não há um opositor que me convença hoje”, disse um motorista de aplicativo numa viagem entre os bairros de Palermo e Recoleta.

<><> Realidade do Chile

Do outro lado dos Andes, no Chile, o presidente José Antonio Kast completou seis meses de mandato com uma coleção de números negativos. Atualmente, somente 35% dos chilenos aprovam sua gestão e 65% a reprovam, de acordo com o último levantamento da empresa de pesquisas Cadem, de Santiago. O retrato ocorre apesar de alguns dados positivos, como a queda de 17% no número de homicídios e de 13% nos roubos violentos no país andino. Mas a realidade econômica fala forte e, naturalmente, resulta em impopularidade. A inflação anual chegou a 4,1% em agosto e era de menos de 3% antes de Kast chegar ao Palácio presidencial La Moneda. Segundo o Banco Central do Chile, o crescimento econômico deste ano deve ficar entre 0,25% e -0,75%. Em março, a instituição previa expansão entre 1,5% e 2,5%. O desemprego chegou a 9,5% na era Kast, o índice mais alto desde 2021. A desocupação é ainda mais alta entre as mulheres, superando 10%. Neste momento, ao Brasil convém olhar para a vizinhança.

¨      Ordem Executiva 14373: entenda mecanismo dos EUA para tentar controlar recursos da Venezuela

Dona das maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela vem experimentando uma recuperação de sua indústria energética. Após anos sob sanções dos Estados Unidos, foi justamente por meio de acordos com o país norte-americano que a produção no país saiu de cerca de 900 mil barris por dia em janeiro para mais de 1,2 milhão em junho, o número mais alto desde 2019.

Agora, após o acordo assinado entre Caracas e Washington, o país projeta um crescimento ainda maior. Isso porque o pacto assinado pelos governos de Delcy Rodríguez e Donald Trump permitiu o acesso de empresas estrangeiras à exploração de reservas de petróleo estimadas em 65 bilhões de barris.

No entanto, existe um obstáculo legal que estabelece um ferrolho financeiro sobre as receitas do país: a Ordem Executiva 14373.

A medida, decretada pelo Departamento do Tesouro dos EUA em 9 de janeiro de 2026 sob a justificativa de “salvaguardar os ativos e a estabilidade da região”, determina que todos os fundos do governo venezuelano e de suas agências, como a estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), derivados da venda de recursos naturais ou diluentes, fiquem retidos em contas custodiadas por Washington, sendo repassados ao governo venezuelano após autorização ou licença especial.

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A ordem foi imposta pelo governo estadunidense apenas seis dias após a agressão militar contra Caracas, em 3 de janeiro de 2026, que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores.

<><> Qual é o problema?

O avanço na normalização comercial com os EUA sob tais condições preocupa especialistas venezuelanos ouvidos pelo Brasil de Fato. Para o economista especializado em petróleo Carlos Mendoza Potella, uma parceria estratégica com os Estados Unidos nas condições atuais “significa praticamente o livre acesso do capital internacional para se servir da mesa petrolífera e da mesa mineradora, estabelecendo as suas próprias condições”.

Potellá lembra que, logo após o bombardeio dos Estados Unidos à Venezuela, Trump recebeu executivos de empresas petroleiras na Casa Branca, de quem ouviu reclamações sobre a “ausência de segurança jurídica” para investimentos no setor petroleiro venezuelano.

“Queriam ter clareza e segurança para entrar com garantias legais, como pedia a Exxon Mobil a Trump em sua primeira intervenção lá no Capitólio, na Casa Branca, onde ele dizia: ‘Bom, agora podemos entrar, mas que segurança temos?’ Trump está fazendo isso, definindo precisamente os termos da segurança de que necessitam as corporações petrolíferas internacionais”, avalia.

Em conferência realizada pelo Centro de Estudos para a Democracia Socialista (Cedes) no final de agosto, o premiado escritor venezuelano Luis Britto Garcia também mostrou preocupação com as relações comerciais entre os países e classificou o pacto firmado por Delcy e Trump como “o pior acordo petrolífero da história”.

“Efetivamente, na Ordem Executiva 14373, reconhece-se que esses bens depositados ali são propriedade da Venezuela, mas a Venezuela não pode usar, gozar nem dispor deles. […] Se você não pode usar, gozar nem dispor de algo, é porque não é proprietário”, pontuou o escritor.

Britto García ainda mencionou uma reportagem publicada pelo jornal britânico Financial Times, na qual a revista detalha que o governo dos Estados Unidos não teria repassado os recursos provenientes da venda do petróleo venezuelano no primeiro semestre de 2026, que teria chegado aos US$ 13 bilhões (cerca de R$ 66 bilhões).

A reportagem do jornal britânico, publicada no dia 22 de julho com o título “The US has collected about $13bn of Venezuela’s oil money. Where is it?” (Os Estados Unidos arrecadaram cerca de US$ 13 bilhões do dinheiro do petróleo da Venezuela. Onde está esse dinheiro? — em tradução livre), afirma que Washington apresentou versões contraditórias sobre o destino dos recursos, mas que o próprio presidente dos Estados Unidos teria afirmado que “os EUA estavam ‘ganhando muito dinheiro’ com o petróleo venezuelano” e que as receitas “seriam controladas por ele”.

A reportagem ainda menciona que altos funcionários do governo estadunidense e parlamentares democratas e republicanos teriam dito à publicação em condição de anonimato que Trump utiliza os recursos “para exercer pressão sobre Rodríguez”, como uma espécie de “chantagem”.

<><> O que diz o governo da Venezuela?

Desde o início do ano, quando Caracas e Wahsington inciaram essa relação de proximidade após os ataques do 3 de janeiro, o governo venezuelano tem reforçado que os contatos ocorrem nos marcos de negociações livres entre dois Estados soberanos.

“Abordamos uma agenda de trabalho bilateral em benefício dos nossos dois países”, disse Rodríguez no dia 14 de janeiro, após o primeiro contato público entre ela e Trump após o sequestro de Maduro. Ainda em janeiro, a mandatária anunciou a criação de dois fundos, o Fundo Soberano de Proteção Social e o Fundo Soberano de Infraestrutura, para onde seriam destinados todos os recursos provenientes de novas vendas de petróleo.

A ideia, segundo a presidenta interina, era “melhorar os salários dos trabalhadores, para que as divisas vão diretamente aos hospitais, escolas, alimentação e moradia”.

No final de janeiro, a Venezuela aprovou uma reforma na Lei de Hidrocarbonetos, que reduziu de 30% para 15% o mínimo de royalties pagos ao Estado venezuelano pelas empresas privadas em razão da exploração de petróleo e retirou a obrigatoriedade de participação da empresa estatal PDVSA nos empreendimentos privados. A nova lei ainda prevê que eventuais litígios relacionados ao setor poderão ser resolvidos em arbitragem internacional.

Já em março, quando o republicano elogiou Delcy e disse, sem especificar, que o petróleo “começava a escoar”, a presidenta interina agradeceu o líder de extrema direita pela disposição em trabalhar pela “cooperação binacional”.

Os terremotos que assolaram o país em junho e deixaram mais de 6 mil mortos, no entanto, afetaram o discurso do governo em relação aos recursos petroleiros. No dia 8 de julho, Rodríguez prometeu vincular as receitas petroleiras ao plano de reconstrução do país. “Uma Venezuela potência energética é o nosso objetivo, e aqui também haverá recursos para a recuperação e a reconstrução da nossa pátria após o duplo abalo sísmico de 24 de junho”, disse.

Em agosto, com a assinatura do acordo petroleiro, o governo venezuelano celebrou o documento. Durante coletiva de imprensa por ocasião da visita do secretário de Energia de Donald Trump, Chris Wright, no final de agosto, Rodríguez enfatizou que os benefícios econômicos serão sentidos rapidamente pela população por meio da criação de novos empregos.

“Com cada emprego que for criado, e isso será muito rápido, estarei respondendo à Venezuela sobre os benefícios que isso traz para o nosso país”, declarou. “Onde hoje há uma grande savana sem nenhum tipo de desenvolvimento, ali veremos vias, eletricidade, água e infraestrutura”, prometeu, afirmando ainda que trabalha junto ao governo dos Estados Unidos para que as sanções contra o país sejam eliminadas.

“Seguimos trabalhando com as autoridades para que definitivamente se levante o sistema de sanções e a economia venezuelana, o desenvolvimento social da Venezuela, possa ocorrer sem nenhuma dificuldade”, disse.

Lançado ainda no mês de janeiro, um site criado pelo governo venezuelano serve para rastrear os recursos que ingressam nos dois fundos soberanos, mas, até o momento, consta apenas um registro de transferência no valor de US$ 300 milhões, realizada no dia 13 de março.

O Brasil de Fato entrou em contato com o Executivo venezuelano questionando sobre os impactos atuais da Ordem Executiva 14373, os níveis de ingressos ao Tesouro Nacional e as perspectivas de mudanças nas relações, bem como a ausência de atualização de novos registros no site dedicado à transparência dos recursos, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

Fontes do governo da Venezuela afirmam que há uma expectativa de que a Ordem Executiva 14373 seja suspensa, bem como a maior parte das sanções econômicas que ainda pesam sobre a economia do país.

¨      O que novo presidente da Colômbia pretende com polêmicas imagens caminhando entre cadáveres

Durante sua campanha eleitoral, o presidente colombiano Abelardo de la Espriella prometeu uma postura firme contra o crime.

Essas promessas foram consideradas por vários analistas como um dos fatores que contribuíram para a vitória dele nas eleições de junho.

Mas imagens compartilhadas por Espriella, nas quais ele aparece caminhando entre os corpos de supostos guerrilheiros mortos em uma operação militar, geraram debate e fortes críticas.

O vídeo causou controvérsia em uma nação traumatizada por décadas de conflito armado e atrocidades cometidas tanto por insurgentes quanto por membros do exército e paramilitares.

Na última quinta-feira (10/09), um juiz em Bogotá ordenou que o presidente ocultasse temporariamente essas publicações, segundo a agência de notícias AFP, que obteve o documento.

Uma das pessoas que condenaram essas imagens foi a Defensora do Povo (cargo ligado ao Ministério Público da Colômbia), Iris Marín.

"O Estado e o Governo não podem competir para ver quem consegue ser o mais cruel", disse ela na rede social X.

"Mesmo em tempos de guerra, há limites, e a dignidade humana não desaparece com a morte. As imagens e os símbolos do poder público também importam."

É precisamente no que essas imagens e símbolos comunicam que pode estar o que Espriella busca com sua estratégia de segurança.

<><> Força e intimidação

O presidente divulgou um primeiro vídeo após uma operação das forças militares colombianas em Guaviare, na qual 23 supostos membros dissidentes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e dois menores de idade foram mortos.

O momento em que ele aparece caminhando entre os cadáveres faz parte de um vídeo mais longo, com pouco mais de sete minutos, no qual ele detalha as operações militares e informações sobre os insurgentes capturados e mortos.

Dois dias depois, Espriella publicou novas imagens nas quais aparece perto de cadáveres após uma operação em La Guajira, no norte do país, na qual Naín Andrés Pérez Toncel (vulgo Bendito Menor), sua companheira Angélica Tarazona (vulgo La Bebecita) e outras duas pessoas foram mortas.

"Mostrar isso transmite uma mensagem de força e intimidação", afirma o cientista político Carlos Cortés.

O analista vê nas imagens uma coerência com a postura linha-dura que Espriella disse que adotaria em relação à segurança.

O atual presidente se distancia, assim, da estratégia de seu antecessor, Gustavo Petro, que optou por negociar com os grupos armados para pôr fim ao conflito.

Elizabeth Dickinson, analista do International Crisis Group, concorda que o presidente colombiano busca "enfatizar uma narrativa ofensiva".

"As imagens mostram o controle do Estado sobre os criminosos", destaca a especialista.

Segundo pesquisas de opinião, para uma parcela significativa dos colombianos, a principal preocupação está na segurança e na ordem pública.

Desde o lançamento de sua campanha presidencial, Espriella tem aparecido em eventos públicos vestindo um colete à prova de balas, atrás de púlpitos blindados e entoando slogans contra o que ele chama de "narcoterrorismo".

Catalina Suárez, estrategista política, acredita que essa performance nunca foi acidental: "Ele usa símbolos para mostrar que não se intimida".

Sua caminhada entre cadáveres reforça a imagem de homem forte com a qual venceu a eleição e que agora quer manter no governo.

<><> Debate na Colômbia

Muitos de seus apoiadores ficaram satisfeitos com as imagens, como demonstram inúmeras mensagens que o presidente recebeu nas redes sociais.

Mas muitos outros cidadãos e figuras da oposição as criticaram duramente.

"Estamos testemunhando uma necrofilia midiática", disse a senadora María José Pizarro, do Pacto Histórico, partido de Petro.

Claudia López, ex-prefeita de Bogotá e ex-candidata à presidência, abordou a controvérsia, afirmando que "o autoritarismo mafioso não respeita nem a vida nem a morte".

O debate ganhou outra dimensão quando a Defensora do Povo se manifestou, pedindo que o Estado não competisse para demonstrar crueldade.

A posição dela foi contestada pelo ministro do Interior, Rodrigo Lara Restrepo — filho de Rodrigo Lara Bonilla, ministro da Justiça morto a tiros em um crime atribuído ao Cartel de Medellín em tempos de Pablo Escobar.

"Lamentamos (...) o que consideramos um triste erro: equiparar o Estado a gangues narcoterroristas, como se estivessem competindo em crueldade (...) O Estado cumpre um dever constitucional de combater criminosos que perpetram o terror", escreveu o ministro.

Dickinson afirmou que esse tipo de demonstração de autoridade não é novidade na Colômbia.

"Durante a luta contra Escobar e os cartéis, imagens circularam. A famosa foto de Escobar morto perto de policiais foi amplamente divulgada."

<><> Tendência regional

A demonstração de autoridade e o uso da força são respostas recorrentes de governos nas Américas a problemas de segurança.

O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, frequentemente exibe imagens de supostos membros de gangues presos e subjugados.

O presidente americano Donald Trump também compartilhou vídeos de ataques de militares americanos contra embarcações supostamente ligadas ao narcotráfico em águas do Caribe e do Pacífico.

"A campanha dos EUA, na qual eles essencialmente executam extrajudicialmente supostos traficantes de drogas, abre caminho, acredito, para outros comportamentos que estão se repetindo na região", afirma Dickinson.

"Se os EUA se comportam dessa maneira, rebaixam os padrões para o resto dos países."

No caso da Colômbia, onde conflitos armados ferem a nação há mais de 60 anos, Dickinson alerta para o outro lado da demonstração de poder.

"Nas comunidades afetadas pelo conflito, as imagens de Espriella são arrepiantes porque transmitem uma mensagem que enfatiza o número de mortos", destaca.

A analista lembra que amplificar essa mensagem já levou, no passado, à morte de civis inocentes e ao aumento da violência estatal.

"Não estou dizendo que isso esteja acontecendo agora, mas poderia ter o mesmo impacto no contexto colombiano", esclarece.

 

Fonte: Brasil 247/Opera Mundi/BBC News Mundo

 

A Engenharia do Real: quem decide o que é verdade na crise do STF?

A crise no STF revelou algo maior que uma disputa entre ministros. Na era dos grandes acervos digitais, a verdade não chega pronta à sociedade. Ela é extraída, indexada, pesquisada, selecionada, interpretada, publicada e, por fim, lançada em arquiteturas algorítmicas que disputam atenção e relevância. O caso Banco Master permite observar, quase por dentro, como um fragmento autêntico atravessa sucessivas camadas de mediação até adquirir força política. A nova guerra informacional pode não precisar fabricar a realidade. Basta disputar quais partes dela terão o poder de se tornar visíveis.

<><> O celular não fala

A crise que atravessa o Supremo já não gira apenas em torno do que Daniel Vorcaro fez, disse ou escreveu. Ela alcançou uma questão anterior: quem teve acesso a quê para formar sua própria versão dos fatos. Às vésperas da sessão extraordinária marcada para 15 de setembro, Cristiano Zanin pediu acesso à íntegra do material extraído do celular do ex-controlador do Banco Master. A Procuradoria-Geral da República fez o mesmo e advertiu que um “acesso assimétrico ao acervo informativo” comprometeria a paridade entre os ministros. O conflito parece jurídico. Não é apenas. Por baixo dele existe uma questão de poder que a era digital tornou incontornável: quando nenhuma pessoa é capaz de observar sozinha toda a massa de informação disponível, quem define a parcela do real a partir da qual cada decisão será tomada?

O celular apreendido pela Polícia Federal em 18 de novembro de 2025 oferece uma resposta incômoda. Ele não revelou diretamente ao país aquilo que passou a circular meses depois. Primeiro, seu conteúdo foi extraído por ferramentas forenses e preservado com um valor de hash destinado a permitir a verificação de integridade. Depois, diante de uma requisição do ministro André Mendonça, investigadores receberam 72 horas para apresentar informações sobre pessoas mencionadas em registros já localizados no aparelho. O relatório produzido em 27 de agosto reconhece expressamente que a análise não era exaustiva e que novos relatórios poderiam surgir caso dados inicialmente considerados sem relevância adquirissem significado no decorrer da investigação.

Essa distinção é decisiva. O relatório não é o celular. Tampouco é uma reprodução neutra e integral de tudo o que existia nele. É um produto analítico construído sobre um acervo muito maior. Para responder à pergunta recebida, a PF trabalhou sobre dados previamente processados, categorizados e indexados, utilizando ferramentas que permitiam filtrar arquivos e realizar buscas por palavras-chave sem varrer exaustivamente todo o conteúdo. Nada disso, por si, indica manipulação ou irregularidade. É justamente assim que grandes volumes digitais se tornam operacionalmente inteligíveis. O problema começa quando a sociedade confunde o resultado de uma busca com a totalidade do universo pesquisado.

É aí que o celular de Vorcaro deixa de ser apenas uma peça de investigação e se transforma numa janela para o poder contemporâneo. Entre aquilo que aconteceu e aquilo que conseguimos conhecer existem instrumentos, critérios, perguntas e escolhas de relevância. O dispositivo armazena vestígios. Não produz sozinho seu significado. Para que um dado se torne evidência, uma evidência se torne relatório e um relatório se torne realidade pública, uma infraestrutura inteira precisa entrar em movimento. O celular não fala. Alguém precisa fazê-lo falar. E a primeira disputa pelo real começa exatamente aí.

<><> A máquina que transforma informação em relevância

O problema começa quando a quantidade de informação supera a capacidade humana de observá-la diretamente. Um celular contemporâneo pode concentrar anos de mensagens, imagens, documentos, registros de localização, arquivos temporários e metadados. Nenhum investigador lê esse universo como quem percorre um caderno. Para torná-lo inteligível, é preciso transformá-lo em estrutura pesquisável. No caso Vorcaro, a Polícia Federal trabalhou com ferramentas como o IPED e o Cellebrite Reader, capazes de organizar, indexar e filtrar grandes massas de dados. A tecnologia não cria os vestígios, mas determina as condições técnicas pelas quais eles poderão ser encontrados.

Essa distinção é fundamental. Integridade e visibilidade não são a mesma coisa. Um arquivo pode permanecer perfeitamente preservado e, ainda assim, jamais aparecer numa determinada análise porque nenhuma busca o alcançou, nenhuma categoria o destacou ou nenhuma relação tornou sua importância perceptível naquele momento. O próprio relatório da PF reconhece essa possibilidade ao registrar que elementos inicialmente considerados sem relevância poderiam adquirir significado posteriormente. O dado existe antes de ser relevante. A relevância nasce de uma relação entre o acervo, a pergunta e o método utilizado para procurá-lo.

É nesse ponto que a tecnologia deixa de ser apenas instrumento e passa a integrar a produção do conhecimento institucional. Não porque o software pense no lugar do investigador, mas porque grandes acervos só se tornam cognitivamente manejáveis depois de serem organizados por sistemas que definem formas de busca, agrupamento e recuperação. Toda investigação digital contemporânea depende dessa redução de complexidade. Sem ela, a abundância de dados produziria cegueira, não conhecimento.

Isso não transforma uma ferramenta forense em árbitro da verdade. Tampouco reduz uma investigação a comandos de pesquisa. O investigador interpreta, compara, testa hipóteses e pode retornar ao corpus inúmeras vezes. Mas existe uma consequência política difícil de ignorar: num mundo de informação excessiva, aquilo que não se torna encontrável corre o risco de permanecer socialmente inexistente.

A crise no STF começa a revelar exatamente esse deslocamento. Antes de uma prova entrar num processo, antes de um documento chegar à imprensa e muito antes de uma sociedade formar convicção sobre ele, existe uma etapa silenciosa na qual o real precisa ser convertido em relevância. É ali, na passagem entre tudo o que está armazenado e aquilo que será efetivamente visto, que começa a engenharia do real.

<><> Quando o fragmento vira realidade

Quando o sigilo da Petição 16.662 foi levantado, em 1º de setembro, o relatório deixou de pertencer apenas ao circuito investigativo e entrou numa segunda máquina de seleção: o espaço público. O documento era o mesmo. O que mudou foi a pergunta. Para a investigação, interessava identificar relações, registros e possíveis conexões. Para o jornalismo, era necessário decidir quais elementos mereciam manchete, quais personagens deveriam ocupar o centro da narrativa e qual sequência permitiria ao leitor compreender centenas de páginas em poucos minutos.

Foi então que um único acervo começou a produzir realidades públicas distintas. Uma cobertura destacou os encontros de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes. Outra concentrou atenção nas referências ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Outras organizaram mensagens, ofertas, pedidos e deslocamentos numa cronologia capaz de transformar registros dispersos em uma história inteligível. Nenhuma dessas operações exige falsificação. Exige escolha. E toda escolha de relevância ilumina uma parte do documento enquanto necessariamente deixa outras na sombra.

Esse mecanismo é constitutivo do jornalismo. Nenhuma redação publica um universo documental inteiro em sua complexidade original. Investigar, editar e narrar significa selecionar. O problema surge quando o produto final da seleção passa a ser percebido como se fosse a própria totalidade da realidade que lhe deu origem. Um fragmento verdadeiro pode ser perfeitamente autêntico e ainda assim representar apenas uma pequena região de um conjunto muito maior. A verdade de uma parte não a transforma automaticamente na verdade do todo.

Há aqui uma mudança de natureza. No relatório, um registro existe ao lado de dezenas ou milhares de outros elementos. Na manchete, ele adquire hierarquia. Recebe título, contexto, imagem, posição e repetição. Torna-se saliente. Depois, entra num ambiente ainda mais competitivo, formado por buscadores, redes sociais, agregadores, sistemas de recomendação, comentários e reações políticas. O jornalismo decide o que publicar. A plataforma participa de decidir o que circulará, em que ordem e diante de quais públicos. O cidadão recebe o resultado dessa sucessão de escolhas sem enxergar a maior parte delas.

Não há evidência pública suficiente para afirmar que determinado conteúdo do caso Master tenha sido artificialmente privilegiado por um algoritmo específico, e seria irresponsável fazê-lo. A questão é estrutural. Hoje, praticamente toda informação de grande repercussão entra em ecossistemas cuja distribuição é mediada por sistemas computacionais orientados por critérios de relevância, interesse e engajamento. A seleção humana encontra a seleção algorítmica, e a realidade pública passa a ser produzida na interação entre ambas.

É nesse ponto que o caso deixa de ser apenas uma crise do Supremo. O que estava armazenado num telefone foi extraído, tornado pesquisável, selecionado, interpretado e publicado. Agora passa a competir por atenção. Cada etapa reduz um universo maior a um conjunto menor de elementos visíveis. O fragmento não precisa ser falso para reorganizar a percepção. Basta tornar-se mais presente que o restante da realidade da qual foi retirado.

<><> A guerra que não precisa mentir

Durante anos, o debate público sobre guerra informacional foi reduzido à oposição entre verdade e mentira. Fake news, boatos, montagens, perfis falsos e narrativas fabricadas passaram a ocupar o centro das políticas de enfrentamento à manipulação. O problema é que essa lente enxerga apenas a forma mais rudimentar da disputa. Uma operação de influência não precisa inventar um fato quando pode selecionar um fato verdadeiro, retirá-lo de um universo maior, lançá-lo no momento de maior vulnerabilidade e fazê-lo ocupar sozinho o campo de visão.

A autenticidade pode aumentar a potência de uma mensagem. Um documento oficial, uma conversa real, uma fotografia legítima ou um registro extraído de um aparelho carregam uma autoridade que a mentira precisa simular. O conflito se desloca então da fabricação para a administração da relevância. O que aparece primeiro, o que se repete, o que recebe contexto, o que perde contexto, o que permanece invisível e aquilo que passa a representar o conjunto tornam-se variáveis de poder. A batalha não ocorre necessariamente sobre a existência do fato. O objeto da disputa passa a ser seu significado político.

É por isso que o caso Banco Master exige uma leitura mais sofisticada do que a velha gramática da desinformação. Não existe, até aqui, base documental para afirmar que a divulgação do material de Daniel Vorcaro componha uma operação psicológica coordenada. Fazer essa afirmação seria substituir investigação por especulação. O que o caso revela é outra coisa, mais estrutural e talvez mais importante: uma arquitetura na qual fragmentos autênticos podem atravessar sucessivas máquinas de seleção até adquirir capacidade de reorganizar reputações, instituições e correlações de força.

Essa lógica pertence ao terreno das operações psicológicas contemporâneas porque seu alvo último não é simplesmente a informação. É a percepção. O objetivo estratégico não precisa ser convencer milhões de pessoas de uma mentira específica. Pode consistir em alterar aquilo que elas percebem como urgente, suspeito, ameaçador ou relevante. A eficácia está menos em determinar uma conclusão do que em organizar o ambiente dentro do qual certas conclusões se tornam mais plausíveis que outras. O poder atua sobre probabilidades.

É nesse ponto que guerra híbrida e psicologia algorítmica se encontram. Plataformas não precisam ordenar que alguém pense de determinada maneira. Instituições não precisam controlar todas as narrativas. Jornalistas não precisam participar de qualquer conspiração. Basta que sistemas diferentes, movidos por objetivos distintos, produzam sucessivamente seleção, hierarquia e repetição. O resultado pode ser um ambiente cognitivo no qual uma parte verdadeira da realidade ocupa tamanho espaço que todo o restante se torna difícil de perceber.

A forma mais avançada da guerra informacional talvez não seja aquela que fabrica uma realidade falsa. É aquela capaz de disputar, dentro da própria realidade, qual verdade terá força suficiente para representar todas as outras.

<><> Quem decide o que é verdade?

A pergunta do título parece pedir um nome. Um ministro, uma instituição, uma redação, uma plataforma. Mas essa é justamente a armadilha. Na arquitetura contemporânea da informação, raramente existe um único centro capaz de decidir sozinho o que uma sociedade reconhecerá como verdade. O poder está distribuído pelas estruturas que transformam existência em visibilidade, visibilidade em relevância e relevância em percepção.

Um software estrutura as possibilidades de pesquisa de um acervo. Um investigador formula perguntas. Uma instituição estabelece acesso, sigilo e publicidade. Um jornalista escolhe o que merece manchete. Uma plataforma organiza circulação e atenção. O cidadão interpreta aquilo que finalmente chega até ele. Nenhum desses atores controla sozinho o processo. Mas todos participam da produção da realidade pública.

É isso que torna a crise do STF maior que seus personagens. A disputa atual não envolve apenas o conteúdo encontrado no celular de Daniel Vorcaro. Ela expõe uma questão própria de sociedades governadas por volumes de informação que nenhum indivíduo consegue dominar integralmente. Quanto mais dados existem, maior se torna a dependência de sistemas capazes de selecionar aquilo que será visto. E quanto maior essa dependência, mais estratégica se torna a capacidade de definir os critérios da seleção.

Para países do Sul Global, essa questão toca diretamente a soberania. Não basta possuir bancos de dados, servidores ou legislação nacional se as condições materiais de acesso, interpretação e circulação da informação permanecem submetidas a infraestruturas que a sociedade pouco compreende ou controla. Soberania informacional significa também conservar capacidade política, técnica e cognitiva para saber como uma realidade foi organizada antes de chegar ao debate público.

Esse problema não se resolve substituindo uma autoridade por outra. Tampouco pela fantasia de uma informação sem mediação. Toda sociedade seleciona, interpreta e hierarquiza. A questão democrática é outra: quem participa dessas escolhas, sob quais regras, com quais possibilidades de auditoria e com que grau de consciência sobre seus efeitos.

O celular de Vorcaro talvez desapareça em breve do centro da conjuntura. Outros escândalos surgirão. Outros arquivos serão extraídos, outras mensagens serão publicadas, outras crises ocuparão as telas. A estrutura permanecerá.

Na era algorítmica, o poder não pertence apenas a quem possui a informação. Pertence também a quem participa das máquinas que decidem o que, entre tudo aquilo que existe, conseguirá adquirir relevância suficiente para se tornar realidade política.

A disputa decisiva do nosso tempo talvez não seja apenas entre verdade e mentira. Ela começa antes, na fronteira silenciosa entre tudo aquilo que é real e aquilo que teremos condições de enxergar.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em <Código Aberto>  

 

Jorge Folena: Só Lula pode vencer o crime organizado

A desordem institucional promovida por André Mendonça, ministro do STF (nomeado pelo ex-presidente condenado por graves crimes contra a ordem democrática) traz ao debate a necessidade imperiosa de enfrentamento ao crime organizado, que se infiltrou em atividades empresariais a partir do governo da liberdade econômica, que esteve à frente do país entre 2019-2022.

Daniel Vorcaro é um dos frutos podres da árvore plantada no governo anterior, que assumiu um banco pequeno e conseguiu, por meio da corrupção, conquistar vasto espaço e poder no sistema financeiro e político do país.

Empregando as velhas práticas mafiosas, Vorcaro atuou como um polvo, espalhando seus tentáculos por quase toda a estrutura política do país, contratando prepostos para trabalhar em seu banco de fachada, financiando viagens de luxo, refeições caras, degustação de charutos e uísque e vinhos de safras exclusivas e, como se não bastasse, organizando festas luxuosas para os moralistas no discurso, mas que gostam de orgias e bacanais com jovens meninas; aliás, uma técnica muito semelhante à utilizada por Eppstein. Porém, aqui no Brasil do Banco Master, ainda não veio à tona, em profusão, o que  rolou nas festinhas.

O ex-dono do Banco Master distribuía milhões de reais para corromper servidores do Banco Central, de governos estaduais e municipais e até mesmo magistrados, como está sendo revelado pela retirada de sigilo das investigações, que estava sendo imposto a qualquer custo pelo ministro André Mendonça, para proteger pessoas próximas ao seu círculo político, como alguns integrantes da família Bolsonaro, que receberam repasses de milhões de reais sob a alegação de colaboração para o filme do ex-presidente.

O caso Master é emblemático para se observar como o crime organizado se espalhou e ganhou força, a partir do governo de Bolsonaro, e porque há tanto esforço da classe dominante do país para tentar impedir a reeleição do presidente Lula.

Como tenho comentado ao longo do último ano, no Brasil, desde o início do século passado, já tinham sido identificadas as forças que conspiram contra o país, que são o imperialismo, o latifúndio e o fascismo. A partir da operação Carbono Oculto, em agosto de 2025, foi possível identificar, com mais evidência, que o crime organizado, que está estruturado em diversas atividades econômicas e financeiras, também integra estas forças que conspiram contra o desenvolvimento brasileiro.

Não quero parecer ufanista, mas é inegável que foi sob a liderança do presidente Lula, neste seu terceiro mandato, que a Polícia Federal iniciou um sério enfrentamento ao crime organizado, que sempre contou com a omissão e o apoio de governos locais (como no Rio de Janeiro) para atuar livremente e sem qualquer repressão. Os governos estaduais, que são constitucionalmente responsáveis pela garantia da segurança pública, apenas direcionavam suas ações contra a população preta e pobre das periferias das grandes cidades, como se nesses locais estivessem os verdadeiros chefes do crime.

O presidente Lula, com uma coragem impressionante, escolheu meter a mão nesse vespeiro e encaminhou uma proposta de emenda constitucional para que a Polícia Federal se tornasse  responsável pelo enfrentamento ao crime organizado, às milícias privadas e aos crimes ambientais. O curioso é que quem mais combateu esta proposta de emenda constitucional foram os governadores bolsonaristas Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Jorginho de Melo e Cláudio Castro. Inclusive, este grupo de governadores, com apoio da família Bolsonaro, abraçou Cláudio Castro em uma manifestação arrevesada de solidariedade, quando, no final de outubro de 2025, a polícia do Rio de Janeiro matou mais de cento e vinte uma pessoas, numa única incursão no Complexo do Alemão.

Como desdobramento desta matança, promovida pelo dublê de cantor religioso e governador cassado  Cláudio Castro, o ministro Alexandre de Moraes do STF, nos autos do processo da ADPF das favelas, determinou a prisão de várias autoridades ligadas ao governo de Castro e ao comando vermelho, pessoas que tinham também forte relação política e pessoal com o candidato Flávio Bolsonaro.

Em consequência do caso do Banco Master, a mídia empresarial tentou construir a tese de que toda a política brasileira estaria contaminada pela corrupção, porém esquecendo de informar – como de costume – que o mencionado banco também foi um dos grandes patrocinadores desses veículos e que o dinheiro de Vorcaro é oriundo de práticas delituosas contra o sistema financeiro e de corrupção promovida em diversos fundos de servidores públicos de estados e municípios.

De fato, o dinheiro da corrupção de DV se espalhou pela vida política e empresarial do país e foi utilizado para satisfazer os desejos de muita gente.

Porém, o único que não tem nada a ver com as falcatruas do Banco Master é o presidente Lula, que em seu terceiro mandato compreendeu a necessidade de se enfrentar o crime organizado, que se associou ao fascismo, ao imperialismo e ao latifúndio para tentar derrotá-lo eleitoralmente, mas cujas intenções finais são ainda mais tenebrosas do que a intervenção nas eleições de um país.

Os desdobramentos da crise instalada no STF vão deixando evidente a importância da liderança do presidente Lula, que já se manifestou de modo contundente em defesa da soberania e do direito cada país de determinar seu próprio futuro.

Por tudo isto, o processo eleitoral que atravessamos é crucial para o futuro do país, assim como a reeleição do Presidente Lula, pois fora da hipótese da vitória das forças progressistas só existe a certeza da barbárie.

•        Lula rebate mentiras da extrema direita sobre INSS e Master: ‘verdade tarda, mas não falha’

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou neste sábado (12), durante ato de campanha em Curitiba (PR), que a abertura dos inquéritos relacionados aos casos do Banco Master e das fraudes no INSS permitirá que a população tenha acesso mais amplo às informações investigadas.

Segundo Lula, ele havia defendido ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, a divulgação integral dos processos para evitar que informações fossem apresentadas de forma parcial. “Eu pedi pra liberar todo o processo, vamos deixar nu pra saber quem é que está por trás disso”, afirmou.

Na avaliação do presidente, a divulgação dos documentos permitirá identificar os responsáveis pelos crimes investigados. “E vamos deixar às claras, para ver quem é ladrão e corrupto nesse país. Estou feliz que o povo brasileiro vai saber a verdade, quem fez o quê nesse país”, disse.

Durante o ato, Lula também mencionou reportagens publicadas na sexta-feira (11) sobre uma relação imobiliária entre empresas ligadas ao senador Flávio Bolsonaro e ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.

“Ontem saiu matéria de que o tal do ‘Careca’ está no mesmo prédio que o Flávio Bolsonaro”, disse o presidente.

<><> Fraudes no INSS

Ao abordar as fraudes contra aposentados e pensionistas, Lula afirmou que as investigações avançaram durante seu governo graças à atuação da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Polícia Federal.

“Nós descobrimos, em dois anos, a maior quadrilha montada para roubar aposentados e pensionistas nesse país. Foram a Controladoria-Geral da União (CGU) e a Polícia Federal, no meu governo, que descobriram uma quadrilha montada no governo Bolsonaro”, declarou.

Lula também afirmou que o governo decidiu ressarcir os aposentados enquanto os processos seguem em andamento. De acordo com ele, bens e valores apreendidos dos investigados serão utilizados para recuperar recursos desviados.

“Nós descobrimos a quadrilha, vários deles já estão na cadeia, já apreendemos R$ 6 bilhões de patrimônio deles e já devolvemos R$ 3,5 bilhões aos aposentados. Todos receberam de volta”, declarou.

<><> Banco Master

Sobre o Banco Master, Lula lembrou que havia pedido a abertura dos inquéritos relacionados ao caso ainda na quarta-feira (9), antes da decisão do STF de retirar o sigilo das investigações. O presidente afirmou que o banco foi criado durante o governo de Jair Bolsonaro e associou à sua gestão as investigações e a prisão de Daniel Vorcaro.

“Em 2019, eles pegaram um agiota e transformaram em banqueiro, o tal do Banco Master, que tem esse Vorcaro que corrompeu muita gente na República. E nós prendemos esse banqueiro. Eles abriram um banco e nós fechamos esse banco. E ele deu um golpe de R$ 60 bilhões nesse país”, afirmou.

Lula também criticou a atuação da oposição diante das investigações e acusou integrantes da extrema direita de utilizar o Congresso para produzir conteúdo político nas redes sociais.

“Eu disse a vocês que este ano a verdade vai vencer a mentira. Eles passam o ano inteiro fazendo filme, lá no Senado e na Câmara. Quando a extrema direita vai interrogar um ministro, nem ouvem a resposta. Vão lá, fazem uma pergunta cretina e saem correndo pra lacrar na internet”, afirmou.

<><> “Ninguém pode ser protegido”

O presidente ainda afirmou que qualquer pessoa suspeita de cometer irregularidades deve ser investigada, inclusive integrantes de sua própria família e ministros do STF.

“Quando começaram a falar do meu filho, eu disse que meu filho não será protegido. Ele nasceu pra fazer as coisas certas, e eu acredito na inocência dele, mas se ele cometeu um erro, ele terá que pagar pelo erro que ele cometeu”, completou.

Lula afirmou que o mesmo princípio deve valer para qualquer cidadão e também para integrantes da Suprema Corte.

“Isso vale pra mim, isso vale pro meu filho, isso vale pra qualquer ministro da Suprema Corte. Ninguém pode ser ministro da Suprema Corte pra ficar rico, aquilo é um sacerdócio. As pessoas têm que se dedicar, porque é a Corte Suprema, quando ela toma uma decisão, ninguém pode mudar. Então as pessoas têm que ter um padrão de comportamento acima da média da sociedade”, disse o presidente.

•        Eduardo mira Itamaraty e sinaliza guinada pró-EUA caso Flávio Bolsonaro seja eleito

O ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro pretende assumir o Ministério das Relações Exteriores caso seu irmão, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), vença a eleição de outubro, destaca o jornalista Lauro Jardim em sua coluna no jornal O Globo. A movimentação colocaria no comando da diplomacia brasileira um dos principais articuladores da aproximação do bolsonarismo com o governo de Donald Trump e abriria caminho para uma profunda mudança na posição internacional do Brasil.

 A eventual escolha de Eduardo para o Itamaraty ganha dimensão especial porque a política externa se transformou em uma das principais linhas divisórias da eleição presidencial de 2026. Mais do que uma simples escolha ministerial, sua chegada ao Palácio Itamaraty representaria a possibilidade de substituir a estratégia de autonomia, multilateralismo e aproximação com o Sul Global adotada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por uma política significativamente mais próxima de Washington.

<><> Eduardo no centro da articulação com Washington

A trajetória recente de Eduardo Bolsonaro torna a hipótese particularmente sensível. O ex-deputado construiu canais políticos com integrantes do campo trumpista nos Estados Unidos e participou da campanha internacional contra autoridades brasileiras. O ex-parlamentar reside atualmente nos EUA.

Em junho deste ano, Eduardo foi condenado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) a quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação no curso do processo. Segundo o Ministério Público Federal, ele atuou na articulação de sanções dos Estados Unidos contra o Brasil e ministros do Supremo com o objetivo de influenciar o julgamento relacionado à trama golpista.

Na sexta-feira (11), Eduardo anunciou que pretende viajar novamente a Washington para discutir a possibilidade de retomada de sanções da Lei Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Essa trajetória coloca uma questão central para um eventual governo Flávio Bolsonaro: Eduardo deixaria de atuar como interlocutor informal de setores da extrema direita brasileira em Washington para ocupar justamente o cargo responsável por formular e executar institucionalmente a política externa do Estado brasileiro.

<><> Política externa de Flávio aponta mudança de eixo

A possível nomeação também precisa ser observada à luz das posições internacionais defendidas pelo próprio Flávio Bolsonaro.

Embora seu programa eleitoral procure apresentar uma diplomacia baseada em “profissionalismo” e “pragmatismo”, declarações públicas do candidato apontam para mudanças profundas na inserção internacional brasileira.

Flávio já afirmou que pretende reavaliar a permanência do Brasil no BRICS, criticou iniciativas destinadas a reduzir a utilização do dólar no comércio internacional e defendeu maior aproximação estratégica com os Estados Unidos. Também sustenta uma parceria preferencial com Washington na exploração de minerais críticos brasileiros.

O senador defende ainda a flexibilização do Mercosul para permitir um acordo bilateral entre Brasil e Estados Unidos e propõe uma aproximação mais intensa com Israel. Entre suas propostas está a transferência da Embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém.

O conjunto dessas posições indicaria uma ruptura significativa em relação à política externa atualmente conduzida pelo governo Lula (PT).

<><> China seria o maior teste

A China provavelmente seria o ponto mais delicado dessa guinada.

A China  ocupa posição central no comércio exterior brasileiro e tornou-se um parceiro decisivo para setores como agronegócio, mineração, energia, infraestrutura e indústria, sendo o maior parceiro comercial do Brasil. Ao mesmo tempo, a rivalidade entre China e Estados Unidos se tornou um dos elementos estruturantes da ordem internacional.

Uma diplomacia fortemente alinhada a Washington colocaria o Brasil diante de pressões para reduzir sua participação em mecanismos impulsionados pelos chineses e limitar a presença de empresas chinesas em setores considerados estratégicos.

O próprio Flávio Bolsonaro  já declarou que o Brasil deveria abandonar aquilo que classifica como “submissão à China”. Apesar disso, seu programa eleitoral tenta transmitir uma posição mais cautelosa, afirmando que um eventual governo negociaria tanto com Estados Unidos quanto com China, União Europeia e mercados asiáticos.

Eduardo, por sua vez, adotou recentemente um discurso público mais moderado. Em artigo publicado neste mês, defendeu preservar oportunidades econômicas com a China, ao mesmo tempo em que propôs reduzir dependências e avaliar com maior rigor investimentos chineses em setores estratégicos.

A contradição entre esse discurso recente e sua atuação política junto ao trumpismo seria um dos principais desafios de sua eventual passagem pelo Itamaraty.

<><> Brics pode virar ponto de ruptura

Outra transformação potencial estaria na relação brasileira com o Brics.

Sob Lula, o bloco se tornou um dos pilares da estratégia brasileira de fortalecimento do Sul Global e de defesa de uma ordem internacional multipolar. O Brasil também utiliza o grupo como instrumento para ampliar relações econômicas e políticas para além do eixo tradicional Estados Unidos-Europa.

Flávio Bolsonaro, porém, afirmou que avaliaria retirar o país do Brics por considerar que o grupo passou a assumir uma orientação ideológica contrária aos Estados Unidos. O candidato também critica iniciativas para ampliar transações internacionais em moedas diferentes do dólar.

Uma eventual saída brasileira representaria uma alteração histórica na estratégia internacional do país e reduziria um dos principais espaços multilaterais em que Brasília exerce influência ao lado de China, Índia, Rússia, África do Sul e outras potências emergentes.

Também aproximaria o Brasil da estratégia de Washington de limitar a expansão de mecanismos internacionais capazes de reduzir a centralidade econômica e financeira estadunidense.

<><> Itamaraty sob pressão

A eventual indicação de Eduardo também teria repercussões dentro do próprio Ministério das Relações Exteriores.

O Itamaraty possui uma burocracia diplomática profissional e uma tradição histórica de buscar margem de autonomia para o Brasil mesmo quando governos adotam diferentes orientações ideológicas. A chegada de um ministro identificado diretamente com o trumpismo poderia produzir tensões entre essa tradição institucional e um projeto de forte realinhamento político.

Essas tensões não são apenas hipotéticas.

Em maio, declarações de Eduardo Bolsonaro contra o Itamaraty já provocaram preocupação entre diplomatas. Depois de dificuldades envolvendo a realização de uma entrevista coletiva durante uma viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, Eduardo ameaçou promover mudanças profundas no ministério em um eventual governo do irmão.

<><> Soberania entraria no centro da disputa

É justamente nesse ponto que a escolha ganharia sua maior dimensão política.

A diplomacia brasileira deixaria de ser apenas mais uma área de divergência entre Lula e o bolsonarismo para se transformar em parte central da disputa sobre soberania nacional.

O governo Lula procura construir sua política internacional sobre três pilares: fortalecimento do Brics e do Sul Global, diversificação das relações econômicas e manutenção de autonomia diante das grandes potências.

Um eventual governo Flávio Bolsonaro com Eduardo no Itamaraty apontaria para direção distinta: aproximação estratégica com Washington, revisão da relação com o Brics, maior desconfiança diante da China e alinhamento político mais intenso com governos conservadores.

A diferença é particularmente relevante diante da atual política de Donald Trump. Washington tem pressionado países parceiros em temas que envolvem minerais críticos, empresas de tecnologia, segurança regional e relações econômicas com Pequim.

Para o Brasil, potência continental, grande produtor de alimentos e energia e detentor de algumas das maiores reservas minerais estratégicas do planeta, escolher um alinhamento automático significaria abrir mão de parte da capacidade de negociar simultaneamente com diferentes polos de poder.

 

Fonte: Brasil 247