O último guerreiro do bolsonarismo? André
Mendonça e as atuais expectativas da extrema direita
Entre tantas outras coisas, Junho de 2013
fixou no imaginário político contemporâneo a imagem da grande manifestação,
como uma Avenida Paulista tomada de ponta a ponta. As fotografias de milhões de
pessoas ocupando a avenida forneceram a régua com que os atos seguintes seriam
medidos: manifestações tornaram-se comparáveis pelos quilômetros percorridos ou
preenchidos e pela multidão concentrada diante do MASP. Revistas hoje, aquelas
imagens parecem vir de outro mundo. Não há nelas grandes estruturas, trios elétricos
ou bonecos infláveis; há sobretudo pessoas, cartazes e máscaras. Desde então,
porém, passamos a viver de manifestação em manifestação, e, a cada novo ato,
coisas, símbolos e aparatos foram se acumulando sobre a multidão.
Um dos itens que parece ser indispensável
para uma boa manifestação são os bonecos infláveis. Ao que parece, o primeiro
grande êxito nas manifestações foi o Pixuleco, de 2015, que consistia em um
desenho do, à época, ex-presidente Lula, com uma “roupa de presidiário”, que
foi ganhando alterações. O sucesso foi nacional, as redes ditas sociais fizeram
o boneco famoso e ele foi sendo levado para diversas cidades onde os
manifestantes ocuparam as ruas. Não passou muito tempo para que outros
revoltosos fizessem outros personagens. Ainda nos segundos anteriores ao golpe
de 2016, o Pato da Fiesp e a Pixuleca, com a imagem da então presidenta Dilma
com um nariz grande de pinóquio mentiroso e com sangue na roupa. Versões de mão
do pixuleco foram distribuídas até no congresso nacional. Um fenômeno.
O inflável gigantesco qualifica, à primeira
vista, a razão daquela manifestação, seja para quem está ali presente, para
quem o vê pela foto ou que passa desapercebido por perto. Talvez o primeiro
sujeito a ter um inflável próprio como forma de apoio tenha sido Sergio Moro,
não por acaso, era o juiz que tinha realizado aquilo que os infláveis
anteriores almejavam. Os formatos e modelos dos infláveis de Moro variavam a
depender da quantidade de dinheiro acumulada pelas vaquinhas — sim, boa parte
desses infláveis eram produzidos a partir de dinheiro doado por pequenos
empresários, e da força dos braços dos manifestantes de carregar tanto
plástico. Mas a média foi o “super Moro”, com um corpo de Superman e
cabeça do ex-juiz.
Em algum sentido, era também a primeira
figura a encarnar positivamente os anseios de mudança que vinham se acumulando
nas diversas manifestações que davam o tom da então nascente extrema direita,
entre o golpe de 2016 e a prisão de Lula. Nesse mesmo período, o então ministro
Ricardo Lewandowski e o procurador-geral da República Rodrigo Janot também
foram representados em infláveis, críticos, é claro. Depois de Moro, porém, foi
Bolsonaro quem passou a ocupar o centro desse repertório visual, multiplicando-se
em bonecos e caricaturas de diferentes formas por todo o país, se constituindo
como a representação de um “outro Brasil”, apresentado como aquele que deveria
ser batalhado. Em 2018, consolidou-se a imagem do “Bolsonaro mito”,
frequentemente acompanhada de óculos que remetiam ao meme Turn Down for
What, inseridos após alguma de suas respostas abruptas ou declarações de
efeito que viralizavam facilmente.
Os infláveis foram se repetindo, assim como
as manifestações foram se tornando rotina. Em 2021, no auge do governo
Bolsonaro, o 7 de Setembro se tornou o momento de grande mobilização para os
manifestantes de extrema direita. E quem era o grande vilão a ser derrotado
pelo projeto encabeçado pelo mito? Alexandre de Moraes, que desde 2019 — quando
deflagradas as operações da polícia federal no âmbito do inquérito das Fake
News — julgava militantes da extrema direita. É claro que com a
crescente dos acirramentos e as sequenciadas derrotas judiciais da extrema
direita, o monstro se tornou demoníaco. A coisa chega a outro nível quando
Bolsonaro é preso, fica inelegível e os envolvidos nos atos de 8 de Janeiro são
responsabilizados. Em algum sentido, eles (a militância da extrema direita) se
sentiram desassistidos. Ninguém pode segurar o Ministro. O grande sonho de
Brasil, que parecia ter tido um primeiro ensaio com a vitória de 2018,
encaminhava-se para o ocaso.
Enquanto a extrema direita demonizava
Alexandre de Moraes, a esquerda passou a tratá-lo como um lutador do
republicanismo e da democracia. Em Apocalipse nos Trópicos, de
Petra Costa, isso fica explícito quando o Ministro tem uma aparição e suas
falas insistem na defesa da democracia, e o enquadramento o apresenta como uma
espécie de bastião de um Estado que conseguiu deter as ameaças golpistas de
Jair Bolsonaro. A imagem ganha outra dimensão quando lembramos que, no 7 de
setembro de 2021, Bolsonaro, ao lado do pastor Silas Malafaia, gritava para
seus apoiadores: “Sai, Alexandre de Moraes! Deixa de ser canalha!”. A guerra em
torno de Moraes acabou produzindo uma curiosa distribuição das posições. Diante
da ameaça de ruptura, a esquerda e o progressismo foram levados a ocupar, mais
uma vez, o lugar da defesa das instituições — justamente as instituições de um
Estado cuja crise se prolonga e que há muito parece incapaz de formular e
realizar um projeto minimamente redistributivo.
Nas manifestações do 7 de setembro deste ano
os infláveis voltaram à cena. Três deles chamam atenção por não terem sido
bancados por candidatos, mas, ao que tudo indica, por vaquinhas coletivas. Um
deles é Bolsonaro — já sem a indumentária típica dos memes, sem os oclinhos e
sem a arminha feita com as mãos —, vestido com a faixa presidencial onde se lê
“MITO”, um inflável melancólico, com uma faixa sobre a boca, clamando por
mobilização: “Falem por mim”. Mas, são outros dois bonecos que talvez digam mais:
Donald Trump aparece segurando pelos cabelos um pequeno Pixuleco, enquanto, em
tamanho ainda maior, surge outro ministro do STF, André Mendonça, de braços
cruzados. É a primeira vez que um ministro tem um inflável celebrativo. Cifrado
aí, as expectativas atuais da extrema direita: de um lado, a esperança de uma
intervenção imperialista; de outro, a aposta numa batalha institucional
conduzida pelo ministro contra aquele que foi responsável pela prisão de
Bolsonaro.
Enquanto a autoridade de Moraes se sustenta
naquilo que ainda resta das instituições diante da ameaça da extrema direita; a
de Mendonça está na promessa de uma autoridade que parece vir de fora delas,
defendendo exatamente onde o movimento parecia estar desprotegido. Moraes,
guardião de uma ordem em crise, e Mendonça, o batalhador que vai dar o troco. A
contragosto, a direita mobiliza seus símbolos sem medo de ofender quem quer que
seja – ou serem acusados de entegristas por hastearem bandeiras dos Estados Unidos
de Donald Trump. O corpo individual de Mendonça, restrito às sessões do Supremo
e às imagens das telas, torna-se público, enorme e reconhecível à distância. O
ministro é inflado na mesma medida em que nele se inflam as esperanças de um
movimento acuado por derrotas eleitorais e judiciais. É essa desproporção que a
imagem torna sensível: um único ministro precisa carregar a expectativa de todo
um povo que se imagina abandonado dentro das instituições.
<><> Ministro, do supremo e da
palavra
André Mendonça é ministro em duas acepções.
Brincando de/com Agamben, o ministro existe para operar a separação da práxis
da oikonomia da glória soberana. Em outras palavras, no mais
alto escalão da teologia cristã pré-moderna, a figura do ministro surge da
necessidade de separar o ser de Deus da sua ação governamental. O poder supremo
funda-se na máxima de que o rei reina, mas não governa. Para que o mundo possa
ser regido sem que o monarca absoluto perca sua transcendência, a execução
efetiva das decisões gerais é sempre delegada a agentes subalternos. Agamben
sugere que a angelologia cristã funcionou como o primeiro grande paradigma de
uma burocracia administrativa. Os anjos foram divididos entre os que apenas
assistem e contemplam a divindade e aqueles enviados para administrar o mundo,
tendo sido criados especificamente para o exercício prático do ministério.
Progressivamente, a própria noção de ministerium (o encargo
administrativo profano) passou a se fundir com o mysterium (o
mistério sagrado), sacralizando definitivamente a hierarquia executiva.
O Estado moderno herda as duas faces do
governo divino do mundo, desdobrando-se tanto como um Estado-providência quanto
como um Estado-destino. A Providência, outrora divina, assume a forma
impessoal, legislativa e soberana da Lei, que dita regras universais, enquanto
o Destino se materializa no aparelho administrativo e judiciário que executa
minuciosamente esses ditames sobre os cidadãos. Como o Estado de direito
moderno substitui a figura de Deus e a lei não se aplica por si mesma, a
máquina governamental exige a manutenção da separação originária entre a
titularidade do poder e o seu exercício. Os juízes de uma corte suprema atuam
com os antigos anjos administradores secularizados. Eles integram a hierarquia
de executores que aplicam a providência abstrata da ordem legal aos casos
contingentes e particulares.
No ambiente evangélico, a passagem é um tanto
diferente. A soberania divina deixa de repousar na mediação objetiva e
transcendente de um sacramento para se realizar na imanência da própria vida do
ministro. Desprovido do escudo do clero medieval, o pastor é administrador
contínuo de sua própria credibilidade. Não basta apenas agir corretamente; é
preciso também corresponder, em sua própria forma de desejar, aos padrões que
legitimam essa atuação. Pastor é aquele que sustenta sua autoridade sobre o
rebanho ao demonstrar publicamente que é capaz de conciliar sua existência
particular com as exigências da fé que anuncia. O cargo de ministro do STF, a
disciplina da conduta pessoal e a reputação tornam-se, assim, elementos
centrais dessa lógica.
Mendonça é assim Ministro entre dois
sentidos. Na prática, ele não elimina a distância entre essas duas acepções de
sua atuação; ele faz dela a fonte de sua autoridade. É ministro dos homens e
ministro de Deus, ocupa o centro da instituição e fala como alguém posto à
margem, exerce poder e apresenta-se como fraco. Depois do vazamento das
conversas de Moraes, voltou a circular nas redes bolsonaristas uma de suas
pregações do ministro.
Na ocasião, afirmou: “A cova que às vezes
cavam para nós é a cova em que eles mesmos vão cair.” A frase reaparece agora
investida de uma espécie de confirmação retrospectiva. Denunciaria uma
antecipação da própria disputa no interior da Corte. Mendonça se apresenta como
alguém que não depende da “luz dos homens”. A expressão condensa uma distinção
familiar à gramática evangélica: de um lado, aquilo que pertence aos homens e
ao mundo; de outro, aquilo que vem de Deus e não se deixa medir pelos critérios
“mundanos”: “[…] às vezes sai a notícia nos jornais. O André, segundo
ministros do Supremo, não tem estofo. E eu falo sabe o quê? Glória a Deus!
Porque o meu estofo não vem dos homens. Porque à luz dos homens, eu sou o fraco
mesmo. À luz dos homens, eu sou um crente” (transcrição nossa).”
A frase é estranha porque “crente” aparece
como sinônimo de fraqueza. Mendonça não diz apenas que, apesar de fraco,
continua sendo crente. Diz que é fraco precisamente “à luz dos homens” porque
pertence a outra luz. A crítica à sua falta de estofo pode então ser recebida
como confirmação de que sua autoridade não depende daqueles que o julgam. O
ministro deixa de precisar demonstrar que possui o estofo exigido pelo Supremo:
o descrédito dos outros passa a provar a fidelidade daquele que foi escolhido
por Deus. Forma-se assim uma cena conhecida do imaginário evangélico: o homem
desacreditado, cercado por adversários e aparentemente sozinho, que justamente
por isso se torna o lugar da ação divina. Não é apesar da cova, do deserto e da
fraqueza que ele será escolhido. É por meio dessas imagens que sua escolha
poderá ser reconhecida. É nesse ponto que a condição de minoria — pelo ponto de
vista da imaginação religiosa — deixa de ser apenas uma posição de fraqueza e
passa a funcionar como prova de escolha. O escolhido precisa ser desacreditado
para que possa ser reconhecido como escolhido. “Deus escolheu os que são loucos
para o mundo a fim de envergonhar os sábios e os que são fracos para o mundo a
fim de envergonhar os fortes” (1 Coríntios 1:27. NVI) é sempre citado aí.
A indicação ao Supremo lhe forneceu o cargo,
mas foi Deus que deu o chamado. Sua presença na Corte deixa de ser explicada
pela indicação presidencial e passa a ser lida como mais um capítulo na longa
história da ação de Deus no mundo. A voz que vem do recôndito do divino e chama
os indivíduos para cumprir a sua função para o Reino. Antes de narrar a
“perseguição” que sofre, ele havia dito “A nossa vocação é estar num deserto e
ver Deus fazer um oásis. Nossa vocação é ver todos contra nós e nós sozinhos,
mas com Deus junto conosco”. Depois de dar essa afirmação geral, vem a
demonstração da sua perseguição como ministro do STF. A sua atuação no supremo
não é, então, um “trabalho qualquer”, mas sua vocação. E ela já estava inscrita
no próprio projeto de sua indicação, tal como formulado por Bolsonaro. Ao
justificar a escolha de um evangélico, o ex-presidente não falava simplesmente
da necessidade de representação de uma identidade, mas da capacidade de fazer
dessa identidade uma força política capaz de operar dentro da instituição: “Quando
falavam que tem que ter um negro, uma mulher ninguém falava nada. Quando fala
que tem que ter um evangélico… Mas não é porque é evangélico apenas, tem que
ter conhecimento de causa, tem que transitar em Brasília, conhecer gente no
Supremo, no Parlamento. Quero colocar uma pessoa lá que não é para votar certas
coisas e perder por 10 a 1, tudo. Quero que essa pessoa vote de acordo com suas
convicções, interesses dos conservadores, mas que busque maneiras de ganhar
alguma coisa lá também”.
A escolha por um “terrivelmente evangélico”
se daria pelo fato de ele ter a capacidade imaginativa de converter e convencer
os seus pares. O que Bolsonaro queria mesmo era alguém capaz de pastorear o
Supremo. E, ao pastorear o Supremo, conseguisse pastorear o Brasil. Já é
possível observar o gozo da grande mídia por vê-lo movimentar as telas e as
manchetes, como quem cavuca alguma coisa para agitar as águas da eleição; como
também entre os evangélicos que se encorajaram novamente em um lavajatismo
2.0.
<><> Divisão espiritual do
trabalho militante
Nesse mesmo 7 de setembro, Valdemiro
Santiago, pastor da Igreja Mundial do Poder de Deus (SP), exibiu para sua
congregação lotada um vídeo de apoio do então ministro Mendonça. No culto,
estavam presentes o atual candidato Flávio Bolsonaro e o governador de São
Paulo, Tarcísio de Freitas. Antes de passar o vídeo, o pastor Valdemiro disse
que alguém da membresia havia pedido que orassem pelo ministro. Na gravação,
Mendonça parabeniza a igreja por seus anos de atuação e relembra que foi
acolhido por ela no momento em que enfrentou a sabatina para ingressar no
STF. “Deus abençoe, ministro. Vá em frente!”, exclama o pastor,
diante dos aplausos. O vídeo havia sido gravado em março de 2026, por ocasião
da comemoração do aniversário da igreja. Com a reposição da figura de Mendonça
como o mais novo batalhador do Brasil a atualidade do vídeo se refez. Silas Malafaia
e Estevam Hernandes também declararam apoio ao Ministro desde o dia 3 de
setembro. Em reação a tantas mensagens e declarações, o ministro agradece o
apoio aos “irmãos e irmãs” que estão orando por ele.
Há um jogo curioso nesse movimento. Essa
imaginação religiosa em torno de Mendonça pode ampliar a legitimidade daquilo
que ele faz diante do público evangélico, o que não se traduz em mobilização
nas manifestações, vide a esvaziada Paulista deste 7/9. Mas lá onde a
imaginação religiosa pisa, nas correntes de oração, nos grupos de WhatsApp, nas
pregações dominicais, essa disputa influi no nível consciente do projeto de
Brasil da extrema direita como algo crível. Não que o apoio dessas lideranças
faraônicas ecoem tão fortemente nos recônditos campos do evangelicalismo em
todo o país, a questão é que essa é a posição das lideranças que entraram,
mesmo que somente como apoiadores não declarados, no projeto da extrema
direita. Mendonça está no centro do jogo agora.
O jogo, contudo, é feito de muitas posições,
que por vezes ganham maior e menor relevância em cada combate, mas está longe
de ser um grande plano de poder centralizado. Os termos do encontro entre André
Mendonça e Daniel Vorcaro são quase uma imagem da presença dos evangélicos no
estado. O advogado Ciro Rocha tentou realizar o encontro, vão na alfaiataria de
luxo, mas o ministro não encontra Vorcaro. Meses depois, com a mediação de
Cezinha de Madureira, o encontro acontece. Um ministro de tradição presbiteriana,
um deputado pentecostal (Cezinha) e um empresário pentecostalizado. Como vem
sugerindo há algum tempo Bruno Reikdal, uma divisão espiritual do trabalho
militante entre pentecostais e históricos que dá corpo a atuação do campo
evangélico na política. O termo é piegas, mas não despropositado. Enquanto
agentes ligados a igrejas históricas (Presbiterianas, Metodistas, Luteranas e
algumas Batistas) ocupam predominantemente posições de indicação no Executivo e
nos cargos do Judiciário, que normalmente carecem de uma formação, os
pentecostais (Assembleias de Deus, Neopentecostais) encontram maior presença no
Legislativo. E ainda os “históricos pentecostalizados” como a Igreja Batista da
Lagoinha, da qual Vorcaro é membro e seu comparsa Fabiano Zettel é pastor, e
que é um dos melhores exemplos da capacidade das igrejas de conectar interesses
pessoais e institucionais.
Sujeitos disputando sua posição dentro de uma
sociedade de classes e que encontram nessa estrutura eclesial alicerces para os
seus projetos. Se o Estado pode ser compreendido simultaneamente como destino
da ação política e como instrumento de realização de determinados fins, a
passagem entre o campo religioso, o mercado e as instituições estatais deixa de
parecer uma transgressão de fronteiras e passa a ser parte de uma mesma
racionalidade de atuação — fazer o Estado operar em favor de uma finalidade que
o antecede e que, em última instância, justifica a própria flexibilização dos
meios empregados para alcançá-la. Chamar de sociedade racket ainda diz alguma
coisa?
Assim também, uma “Dualidade Constitucional”
parece vigorar na cabeça de parte dos ministros do STF. Ora se aplica a norma
constitucional e o ordenamento jurídico, ora se distorce ou mesmo se contraria
a “letra da lei” para chegar ao seu espírito, que seria a efetividade da norma
jurídica, sua aplicação rápida à vida prática. Tanto para “pautas
progressistas” como conservadoras. Obviamente com muito mais efetividade para
as segundas, que vão desde prisões preventivas a vazamentos seletivos para que
a população saiba “o que realmente acontece no Brasil”, sendo esse expediente
usado para alegrar a torcida da vez. Quem consegue ser mais efetivo, ganha. Em
alguns momentos, os progressistas ganharam. Há mais ou menos uma semana, quem
tem levado a melhor são os bolsonaristas. De qualquer forma, fica escancarado o
limite da Constitucionalidade de 1988, sendo sua defesa apenas uma
fantasmagoria. Por outro lado, um programa político radical se abre, mais
como fardo do que como possibilidade, já que nesse mar de exceções a extrema
direita sabe nadar de braçada e tem uma estética político-teológica pronta para
tal; nós, sem povo e sem futuro, temos o presente nas mãos mas parece que nem
conseguimos segurá-lo, imagina dotá-lo de um horizonte político. Só um milagre.
Fonte: Por André Castro, André Kanasiro,
Jayder Roger, Samuel Araújo e Rilton Filho, no Blog da Boitempo



