segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

'Inaceitável' e 'desrespeito aos direitos fundamentais': o que disse Brasil sobre algemados em voo de deportação dos EUA

O governo brasileiro disse no sábado (25/1) que cidadãos brasileiros foram algemados em um voo de deportação de imigrantes ilegais nos Estados Unidos. Com a posse do novo presidente, Donald Trump, esta semana os EUA começaram a deportar imigrantes que não têm permissão de estar no país — uma das principais promessas de campanha de Trump durante a eleição do ano passado.

Na noite de sexta-feira, um voo vindo dos EUA chegou à Manaus com 88 brasileiros a bordo. Também estavam no voo 16 agentes americanos e 8 membros da tripulação. A aeronave tinha como destino a cidade de Belo Horizonte, mas apresentou um problema técnico e precisou pousar em Manaus.

Segundo o governo do Brasil, alguns brasileiros chegaram algemados no voo e foram imediatamente liberados das algemas pela Polícia Federal.

Neste domingo (26/1), o governo brasileiro soltou outra nota em que diz que "considera inaceitável que as condições acordadas com o governo norte-americano não sejam respeitadas".

Segundo a nota, "o Brasil concordou com a realização de voos de repatriação, a partir de 2018, para abreviar o tempo de permanência desses nacionais em centros de detenção norte-americanos, por imigração irregular e já sem possibilidade de recurso".

"O uso indiscriminado de algemas e correntes viola os termos de acordo com os EUA, que prevê o tratamento digno, respeitoso e humano dos repatriados."

A Polícia Federal proibiu que os brasileiros fossem novamente detidos pelas autoridades americanas.

O governo disse ainda que os passageiros foram acolhidos e acomodados na área restrita do aeroporto e que receberam bebida, comida, colchões e foram disponibilizados banheiros com chuveiros.

"As autoridades brasileiras não autorizaram o seguimento do voo fretado para Belo Horizonte na noite de sexta-feira, em função do uso das algemas e correntes, do mau estado da aeronave, com sistema de ar condicionado em pane, entre outros problemas, e da revolta dos 88 nacionais a bordo pelo tratamento indigno recebido. O grupo pernoitou em Manaus e embarcou na tarde de ontem em voo da Força Aérea Brasileira até a capital mineira."

O Brasil destacou uma aeronave KC-30 da Força Aérea Brasileira (FAB) para completar a viagem dos 88 brasileiros até Belo Horizonte. Essa aeronave chegou ao aeroporto de Confins às 21h10 de sábado.

Alguns passageiros relataram ao site G1 que foram agredidos pelos agentes americanos durante o voo, e que o avião estava em condições precárias e ainda teve outra parada técnica no Panamá.

O que disse o governo brasileiro?

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, disse que o incidente é um "flagrante desrespeito aos direitos fundamentais dos cidadãos brasileiros".

A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, recepcionou os brasileiros na sua chegada em Belo Horizonte.

"Bem-vindos ao nosso país, bem-vindos a Minas Gerais. Estou aqui a pedido do presidente Lula para acompanhar o desembarque de vocês, para fazer essa recepção. O nosso posicionamento é que os países podem ter suas políticas imigratórias, mas nunca violar os direitos humanos de ninguém e, especialmente, eu tenho um olhar para as crianças. Então eu queria pedir que as famílias com crianças tenham prioridade aqui nesse desembarque", afirmou a ministra dentro da aeronave, segundo o governo brasileiro.

·        Leia a íntegra da nota do governo brasileiro.

“Na manhã deste sábado (25), o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, informou o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sobre uma tentativa de autoridades dos Estados Unidos de manter cidadãos brasileiros algemados durante o voo de deportação para o Brasil. A situação foi comunicada pelo diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues.

O voo, que tinha como destino o Aeroporto Internacional de Confins, em Belo Horizonte, precisou fazer um pouso de emergência, na noite desta sexta-feira (24), em Manaus (AM), devido a problemas técnicos.

Por orientação de Lewandowski, a Polícia Federal recepcionou os brasileiros e determinou às autoridades e representantes do governo norte-americano a imediata retirada das algemas.

O ministro destacou ao presidente o flagrante desrespeito aos direitos fundamentais dos cidadãos brasileiros.

Ao tomar conhecimento da situação, o Presidente Lula determinou que uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) fosse mobilizada para transportar os brasileiros até o destino final, de modo a garantir que possam completar a viagem com dignidade e segurança.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública enfatiza que a dignidade da pessoa humana é um princípio basilar da Constituição Federal e um dos pilares do Estado Democrático de Direito, configurando valores inegociáveis.”

·        O que disse o governo americano?

O governo americano não se manifestou oficialmente sobre o assunto.

A BBC News Brasil pediu uma posição à agência de Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE, na sigla em inglês) — o departamento americano responsável por imigração — e recebeu uma resposta automática informando que algum integrante do departamento vai responder o mais rápido possível.

No site do departamento, há duas notícias sobre prisões ocorridas esta semana de imigrantes ilegais.

Esta semana, o ex-agente da patrulha de fronteira dos Estados Unidos, Tom Homan foi encarregado por Donald Trump de cumprir a promessa de realizar a maior campanha de deportação da história do país.

Como 'czar da fronteira' do novo governo, Homan afirmou já ter dado início às operações da ICE em busca de imigrantes ilegais.

"Eles sabem exatamente quem eles estão procurando. Eles sabem muito bem onde encontrá-los", disse em entrevista à emissora americana CNN.

A imprensa americana noticiou outras deportações realizadas pelos EUA esta semana.

Dois aviões militares pousaram na Guatemala na sexta-feira transportando migrantes deportados de Tucson, no Arizona, e El Paso, no Texas, de acordo com autoridades locais de migração e a Embaixada Americana na Guatemala.

Outra medida contra a imigração tomada por Trump no seu primeiro dia de governo foi a assinatura de uma ordem executiva em que determina o fim do direito à cidadania automática a filhos de estrangeiros nascidos nos EUA.

·        O que acontece agora?

O Ministério das Relações Exteriores disse que pedirá explicações ao governo americano pelo "tratamento degradante dispensado aos passageiros do voo que partiu dos Estados Unidos".

"A decisão ocorreu após reunião do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, com o delegado Sávio Pinzón, superintendente interino da Polícia Federal no Amazonas, e com o major-brigadeiro Ramiro Pinheiro, comandante do 7º Comando Aéreo Regional", diz uma nota do governo brasileiro.

"Na ocasião, Vieira ouviu relato detalhado sobre os incidentes no aeroporto Eduardo Gomes [em Manaus] envolvendo os cidadãos brasileiros deportados."

No domingo, o governo disse que "segue atento às mudanças nas políticas migratórias naquele país, de modo a garantir a proteção, segurança e dignidade dos brasileiros ali residentes".

 

¨      Quem é o 'czar da fronteira' de Trump que comanda deportações em massa

Ex-agente da patrulha de fronteira dos Estados Unidos, Tom Homan foi encarregado por Donald Trump de cumprir a promessa de realizar a maior campanha de deportação da história do país.

Como 'czar da fronteira' do novo governo, Homan afirmou já ter dado início às operações da agência de Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE, na sigla em inglês) em busca de imigrantes ilegais.

"Eles sabem exatamente quem eles estão procurando. Eles sabem muito bem onde encontrá-los", disse em entrevista à emissora americana CNN.

Segundo o oficial, as operações têm como foco inicial imigrantes ilegais com condenações criminais, mas pode haver prisões "colaterais" de pessoas indocumentadas, mas que não possuem passagem pela polícia.

"O que está acontecendo na nossa fronteira é a maior vulnerabilidade de segurança nacional que já vi na minha carreira, e faço isso há mais de 35 anos", disse Tom Homan em uma de suas primeiras entrevistas após assumir o cargo oficialmente.

"Vamos fechar essa fronteira e controlar esse problema."

Homan disse ainda à emissora Fox News que, apenas na terça-feira (21/1), a ICE prendeu 308 criminosos graves na terça-feira.

Para efeito de comparação, em setembro de 2024, o último mês para o qual há dados disponíveis, o ICE prendeu 282 migrantes por dia.

'Czar da fronteira' parece ser o título oficial de Homan. Ele é o primeiro a servir em tal cargo, já que esse papel não existia durante o primeiro mandato de Trump na Casa Branca.

Mas o americano de 63 anos não é desconhecido da atual administração republicano. Homan atuou no primeiro governo Trump, como diretor interino da ICE. Antes disso, foi agente da patrulha de fronteira e começou sua carreira como policial no estado de Nova York.

"Eu era um agente da patrulha de fronteira. Eu vesti o uniforme", disse ele em uma entrevista à Fox no final do ano passado. "Tenho orgulhoso de ter usado o uniforme... Eu fui o primeiro diretor do ICE a subir na hierarquia."

Mas segundo a imprensa americana, Homan passou muitos dos seus últimos anos como agente imigratório frustrado, já que muitas de suas visões e ideias eram consideradas linha-dura demais.

Quando foi abordado pela primeira vez sobre fazer parte de segundo governo Trump, Homan teria dito a Trump que estava tão irritado com a situação na fronteira que "voltaria de graça", de acordo com o jornal The New York Times.

<><> 'Choque e pavor'

Em novembro, antes de assumir seu cargo atual, Tom Homan disse que o público poderia esperar "choque e pavor" no primeiro dia do novo governo Trump.

Durante a Convenção Nacional Republicana, em julho do ano passado, ele ainda se dirigiu diretamente aos imigrantes ilegais: "É melhor vocês começarem a fazer as malas agora", afirmou.

Mas muitos detalhes sobre a atuação de Homan e da ICE nos próximos anos ainda não foram revelados.

Durante o governo de Joe Biden, a agência de Imigração e Fiscalização Aduaneira foi instruída a se concentrar na deportação de criminosos graves, ameaças à segurança nacional e pessoas que cruzaram a fronteira recentemente.

Mas as declarações dadas pelo novo governo até o momento apontam para uma reversão dessa política, com imigrantes indocumentados que vivem nos EUA e não cometeram crimes também na mira das forças policiais.

Em entrevistas na terça-feira, o 'czar da fronteira' detalhou parte dos esforços iniciais. Segundo ele, a ICE já realizou investigações para localizar criminosos que estão no país sem documentos e estão agindo para prendê-los.

Segundo Homan explicou à CNN, trata-se de uma "operação de execução direcionada". Os ilegais detidos durante o processo serão processados e colocados em centros de detenções, antes de serem deportados para seus países de origem, disse.

O oficial afirmou que, em regiões onde esses imigrantes receberem proteção, os agentes da ICE serão obrigados a fazer buscas e prisões em suas casas ou trabalhos, o que pode também levar à detenção de outros ilegais no local.

Homan se referiu especialmente às chamadas "cidades santuário", jurisdições que têm políticas projetadas para limitar a cooperação ou o envolvimento em ações federais de fiscalização da imigração.

"Nós vamos nos concentrar em ameaças à segurança pública", disse. "Mas nas cidades santuários, onde não nos deixarem levar essas ameaças sob custódia na segurança de uma prisão, nós vamos atrás delas. E se eles [os imigrantes] estiveres com outros que estão no país ilegalmente, ICE não vai virar as costas para isso."

<><> Deportação de famílias e reversão de políticas

Homan desempenhou um papel importante na controversa política de "tolerância zero" de Trump, que separou milhares de crianças migrantes de seus pais durante o primeiro mandato do republicano.

A política gerou reação negativa quando famílias foram separadas durante o processamento de seus casos.

Acredita-se que entre 2017 e 2021, o governo do ex-presidente Donald Trump tenha separado pelo menos 3,9 mil crianças — algumas com apenas alguns meses de vida — dos pais ao longo da fronteira dos EUA com o México.

A política tinha como objetivo desencorajar migrantes de entrar nos Estados Unidos e permitia que o Departamento de Justiça processasse e deportasse adultos que cruzassem a fronteira ilegalmente, colocando seus filhos sob custódia do governo.

Homan disse que não escreveu o memorando em que a política se baseava e que levou às separações, mas admitiu foi um dos três funcionários que o assinaram. Ele disse que assinou "na esperança de salvar vidas".

Nesse novo governo, Homan indicou que não tentaria restabelecer a política de "tolerância zero". Em vez disso, ao ser questionado sobre o caso, ele disse que famílias poderiam ser "deportadas juntas".

Na terça-feira, o Departamento de Segurança Interna também anunciou o fim de uma política que restringia a capacidade dos agentes de Imigração e Alfândega de prender imigrantes ilegais considerados sensíveis, como igrejas, escolas e hospitais. A restrição estava em vigor desde o governo Barack Obama.

Homan já havia adiantado essa possibilidade em entrevistas durante 2024. O 'czar da fronteira' também apontou para a retomada das prisões em massa de imigrantes em locais de trabalho — que Biden descontinuou em 2021.

"Vamos ter a maior operação de deportação que este país já viu", disse Homan em uma entrevista de dezembro, concedida ao comentarista conservador Benny Johnson. "E não vou me desculpar por isso."

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Guerras Culturais e a ilusão da Política sem Cultura

Muitos enxergam a guerra cultural – termo popularizado para descrever disputas ideológicas que se manifestam em valores, costumes e narrativas sociais -, como algo superficial, um truque, uma distração que desvia a atenção da sociedade das chamadas “questões reais” — econômicas e institucionais. Contudo, essa perspectiva chega com um vício subjacente: subestima o papel central da cultura na disputa pelo poder. A cultura nunca foi um detalhe: ela estrutura os valores de uma sociedade, delimita o que é aceitável e enquadra o que deve ser combatido. Em toda disputa política, a cultura é o ponto de partida e o terreno onde as percepções de realidade são definidas, elaboradas, reelaboradas e questionadas.

A guerra cultural não se resume a um embate de ideias; ela é um método projetado para desarticular o debate público. Seu objetivo não é persuadir pelo argumento, mas transformar discordâncias em ameaças existenciais. Nesse contexto, a identidade ocupa o lugar do pensamento crítico, e o ódio substitui a argumentação. Nada disso ocorre por acaso: trata-se de uma estratégia deliberada, que prospera na radicalização e na simplificação dos problemas, inviabilizando qualquer possibilidade de mediação.

Mais do que um ruído periférico da política, a guerra cultural é um mecanismo cuidadosamente estruturado para reorganizar o poder. Grupos conservadores compreenderam que a cultura não é apenas uma expressão da sociedade, mas um campo ativo de disputa, onde significados são produzidos, valores negociados e relações de poder naturalizadas. Ao deslocarem suas batalhas das urnas e dos tribunais para o campo cultural, trataram a cultura como um território estratégico para consolidar hegemonias e reconfigurar a percepção pública.

Compreender esse fenômeno exige ir além da superfície das manchetes ou dos embates cotidianos. É necessário investigar suas raízes históricas, seus métodos e suas estratégias para revelar como a guerra cultural transforma as prioridades políticas e reconfigura o próprio exercício do poder. Somente com essa compreensão será possível construir respostas que ultrapassem o imediatismo e enfrentem a centralidade da cultura no jogo político. Vamos tentar.

·        A tradição das Guerras Culturais

As disputas culturais atravessam os séculos, assumindo diferentes formas e intensidades, mas sempre refletindo os embates mais profundos de uma sociedade. Embora o termo “guerra cultural” pareça recente, suas raízes remontam a momentos históricos muito anteriores à sua formalização como conceito sociológico. No século XIX, por exemplo, a Alemanha vivenciou o Kulturkampf, um conflito entre o Estado prussiano e a Igreja Católica pelo controle da educação, da moral e da identidade nacional. Essa disputa demonstrou que a cultura não é apenas um reflexo passivo da sociedade, mas um campo dinâmico de poder e conflito.

O Kulturkampf evidenciou que, desde o século XIX, a cultura já era tratada como um espaço central de poder. Essa lógica foi intensificada nos Estados Unidos, especialmente a partir dos anos 1960. O avanço dos direitos civis, do feminismo e da contracultura foi percebido por setores conservadores como uma ameaça à estabilidade da ordem social. Em resposta, estruturou-se uma ofensiva moral que não apenas resistia às transformações sociais, mas buscava ativamente reverter os avanços conquistados.

Nos anos 1990, o sociólogo James Davison Hunter consolidou a noção de guerra cultural em sua obra Culture Wars: The Struggle to Define America. Inserido em uma tradição sociológica que explora as transformações culturais como arenas de disputa política e de poder, Hunter argumentou que a guerra cultural não era apenas um embate ideológico, mas uma luta entre visões de mundo incompatíveis. Ele demonstrou como esses conflitos moldavam legislações, direcionavam o sistema educacional e influenciavam decisões judiciais, transformando a cultura em um campo estratégico para redefinir hegemonias.

Andrew Hartman, em A War for the Soul of America, deu continuidade a essa análise ao situar os conflitos culturais dos anos 2010 como parte de um ciclo histórico contínuo de disputas ideológicas nos Estados Unidos. Hartman destacou que, ao deslocar o foco para questões de moralidade e costumes, as guerras culturais funcionavam como mecanismos para obscurecer crises estruturais mais amplas, como as do modelo econômico, permitindo que hegemonias conservadoras em declínio encontrassem novas bases de sustentação. Essa tradição sociológica, especialmente influente nos Estados Unidos, se desenvolveu em um contexto marcado pela pluralidade de valores em uma sociedade multicultural e pelas crescentes divisões políticas e ideológicas.

Wendy Brown, em Undoing the Demos, argumenta que o neoliberalismo não apenas reconfigura economias, mas também transforma profundamente a cultura e a política, submetendo-as à lógica do mercado. Nesse cenário, as guerras culturais desempenham um papel estratégico: ao mobilizar pautas identitárias e morais, muitas vezes urgentes e legítimas, o neoliberalismo desloca o debate público de questões estruturais, como desigualdades econômicas, para conflitos culturais que fragmentam solidariedades coletivas. Essas disputas não são desvios do projeto neoliberal, mas parte integrante de sua dinâmica, pois enfraquecem a organização de resistências e criam um ambiente em que o individualismo e a competição prevalecem. Assim, as guerras culturais não apenas refletem conflitos ideológicos, mas também operam como mecanismos que reforçam as desigualdades e limitam as possibilidades de transformação social.

Enquanto nos Estados Unidos as guerras culturais emergiram como reação a transformações sociais e à crise da hegemonia conservadora, no Brasil elas foram concebidas deliberadamente como estratégia política. Como destaca João Cezar de Castro Rocha em sua obra Guerra Cultural e Retórica do Ódio: Crônicas de um Brasil Pós-Político, a guerra cultural brasileira não emergiu espontaneamente, mas foi estruturada como uma ferramenta de mobilização de setores conservadores. Seu objetivo era reconfigurar o debate público, deslocando-o para temas culturais e morais, como forma de consolidar um projeto de poder. Dessa forma, a guerra cultural no Brasil tornou-se um instrumento central para deslocar o debate público e minar a construção de uma sociedade democrática, ao instrumentalizar questões morais como ferramentas de controle político.

·        A disputa cultural no Brasil: construção e estratégias

Nos Estados Unidos, a guerra cultural emergiu como uma reação aos avanços dos direitos civis e das pautas progressistas, marcando um momento de crise para hegemonias conservadoras. No Brasil, no entanto, essa dinâmica não foi apenas uma adaptação local do fenômeno norte-americano. Seu surgimento deve ser entendido no contexto das transformações políticas, sociais e econômicas que se intensificaram a partir da primeira década do século XXI, marcadas pela polarização ideológica e pela crise de legitimidade das instituições democráticas.

Com o avanço das redes sociais e o impacto global de movimentos conservadores, setores da direita brasileira passaram a adotar estratégias de guerra cultural para reorientar o debate público e criar inimigos internos. Além disso, o desgaste do sistema político tradicional, agravado pelos protestos de 2013 e pela Operação Lava Jato, forneceu o terreno fértil para a emergência de narrativas que deslocavam o foco das questões estruturais para disputas culturais e morais. Nesse cenário, como aponta Castro Rocha em seu Guerra Cultural e Retórica do Ódio, consolidou-se um movimento coordenado para transformar a guerra cultural em uma estratégia deliberada de poder, voltada a minar instituições de conhecimento e fortalecer uma hegemonia conservadora.

Olavo de Carvalho (1947–2022) tornou-se uma figura central na articulação da guerra cultural no Brasil, especialmente a partir dos anos 2000. Inicialmente conhecido nos círculos intelectuais conservadores como ensaísta e crítico da modernidade, Olavo ganhou maior projeção pública com a ascensão das redes sociais e o fortalecimento de movimentos de direita. Nos anos 1990, seus textos já abordavam temas como a crítica ao marxismo cultural, mas foi na década seguinte, com o uso massivo do YouTube e a disseminação de suas ideias em comunidades digitais, que se consolidou como o principal ideólogo da nova direita brasileira.

Seu discurso, profundamente anti-intelectualista e conspiracionista, rejeitava a academia tradicional, que acusava de estar dominada por uma “hegemonia marxista”. Inspirado por autores conservadores como Roger Scruton e Eric Voegelin, Olavo desenvolveu uma narrativa que combinava referências filosóficas e religiosas para atacar as bases do pensamento progressista. Seus escritos e vídeos serviram como ponto de encontro ideológico para grupos conservadores, apresentando professores, jornalistas e artistas como agentes de uma suposta revolução cultural de esquerda. Esse discurso foi instrumental para moldar o imaginário de uma nova geração de lideranças políticas e militantes digitais.

O impacto desse discurso foi amplificado por estruturas digitais sofisticadas. Isabela Kalil, em O Ódio como Política: A Reinvenção das Direitas no Brasil, destaca como a segmentação comunicacional foi usada de forma estratégica, combinando microtargeting digital e discursos inflamados contra supostos “inimigos internos”. Redes sociais como WhatsApp, Facebook e YouTube desempenharam um papel central ao mobilizar diferentes grupos — de militares e religiosos a empresários — em torno de narrativas comuns.

Outro elemento central nesse cenário foi a produção audiovisual revisionista, que teve na produtora Brasil Paralelo, fundada em 2016, um de seus principais pilares. Seus conteúdos reinterpretam a história brasileira sob uma perspectiva conservadora e conspiracionista, frequentemente simplificando debates complexos para reforçar uma narrativa alinhada à guerra cultural. Como destacam Salgado e Jorge, no artigo publicado na Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais, essa estratégia não apenas descredibiliza instituições como a mídia e a academia, mas também busca moldar a memória coletiva em torno de versões distorcidas do passado, como no documentário 1964: O Brasil entre armas e livros, que minimiza os crimes da ditadura militar.

Essa estratégia também incluiu uma revisão da memória nacional sobre a ditadura militar. Rodrigo Patto Sá Motta, em A Construção da Verdade Autoritária: A Ditadura Militar Brasileira e a Formação da Memória Social, analisa como essas narrativas revisionistas ressignificaram o regime, promovendo uma visão segundo a qual os militares “salvaram” o país do comunismo. Essa reinterpretação tornou-se dominante em determinados círculos conservadores, contribuindo para a reabilitação simbólica do regime e de figuras como Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Apesar de a moralidade ocupar um lugar central nesse processo, Frederico Rios observa em Neoliberalismo como Tragédia e Farsa: Crônicas da Guerra Cultural no Brasil que a guerra cultural brasileira não se limitou a questões religiosas ou de costumes. Ela também incorporou um forte viés econômico e corporativo, com empresários e grupos de mídia conservadores investindo na construção de narrativas que vinculam o “livre mercado” à modernização do país, enquanto demonizam movimentos sociais e acadêmicos como inimigos da sociedade.

A guerra cultural no Brasil avançou não apenas pela força do discurso conservador, mas também pela ausência de uma estratégia articulada por parte dos setores progressistas. Como Antonio Gramsci aponta em Cadernos do Cárcere, o poder não se mantém apenas pelo controle do Estado, mas também pela ocupação de espaços culturais e pelo convencimento das massas. A direita compreendeu essa lógica e investiu maciçamente em redes sociais, influenciadores digitais e plataformas audiovisuais, enquanto a esquerda concentrou suas energias na política institucional.

A virada digital da guerra cultural transformou o embate político ao favorecer discursos polarizados e conspiratórios. Plataformas como YouTube e Twitter fortaleceram bolhas informativas que alimentam ressentimentos e criam inimigos fictícios, sequestrando o debate público com narrativas simplificadas. Nesse ambiente, qualquer discordância é tratada como uma ameaça existencial.

Enfrentar a guerra cultural exige mais do que reações pontuais ou denúncias das estratégias da direita. É necessário compreender a cultura como um terreno central de disputa, onde valores e símbolos moldam o imaginário coletivo e a percepção da realidade. Apenas uma estratégia propositiva e de longo prazo, que combine ação política e ocupação cultural, será capaz de reverter os avanços dessa hegemonia conservadora e criar novas possibilidades para um debate público mais democrático.

·        A cultura como território de disputa

A cultura sempre foi um campo central de embate político, estruturando valores, identidades e percepções de poder. No debate público, ela é frequentemente relegada a um papel periférico, tratada como um reflexo das relações econômicas ou como mera expressão simbólica, sem impacto estrutural. Essa visão desconsidera que é na cultura que os significados são gerados, as relações de poder se tornam naturais e as subjetividades políticas são construídas.

A guerra cultural não criou essa dinâmica — apenas evidenciou sua raiz estrutural. Raymond Williams, em Marxism and Literature, demonstrou que a cultura não é um reflexo passivo das estruturas sociais, mas um espaço onde as ideologias disputam hegemonia. Com seu conceito de Materialismo Cultural, Williams rompeu com a visão tradicional de que a cultura seria apenas um subproduto da economia, mostrando como ela organiza a experiência vivida e orienta o que pode ser legitimado ou excluído. Essa perspectiva foi enriquecida pelo historiador E. P. Thompson, em sua obra clássica A Formação da Classe Operária Inglesa, na qual revelou que as classes sociais não emergem apenas das condições materiais, mas também da forma como experiências históricas e narrativas coletivas conferem sentido à identidade política.

Stuart Hall, em textos como The Hard Road to Renewal: Thatcherism and the Crisis of the Left, dialogou com essas ideias ao explorar como a hegemonia é construída através do consenso cultural antes de se consolidar no poder institucional. Para Hall, quando uma ideia se torna senso comum, significa que a batalha cultural já foi vencida, mesmo sem mudanças explícitas nas estruturas políticas. Essa interação entre o simbólico e o estrutural torna a cultura não apenas um reflexo, mas um campo de contestação e transformação, onde as visões de mundo são negociadas e naturalizadas.

Compreender a centralidade da cultura na disputa pelo poder exige considerar sua relação com as estruturas de controle e legitimidade. É nesse ponto que as ideias de Antonio Gramsci se tornam fundamentais. Gramsci, ao tratar da hegemonia em seus Cadernos do Cárcere, destacou que o poder não se sustenta apenas pela coerção estatal, mas pelo convencimento. Esse convencimento ocorre principalmente no campo cultural, onde valores e crenças são internalizados e naturalizados, tornando-se aparentemente neutros e incontestáveis.

Essa lógica é visível no Brasil contemporâneo, onde a guerra cultural reorganiza os marcos da legitimidade, redefine quais discursos são aceitáveis e desloca o debate público para questões conservadoras que consolidam novas hegemonias. A disputa pela hegemonia cultural pode ser observada na reinterpretação da história nacional, na reabilitação simbólica da ditadura militar e no embate sobre o papel da educação na formação crítica dos cidadãos. O que está em jogo não é apenas o controle de narrativas, mas a construção de uma visão de mundo dominante que configura o imaginário político.

O problema, então, não é que a guerra cultural tenha esvaziado a cultura como campo de disputa — ao contrário, ela a tornou ainda mais central, mas sob a lógica da direita. Enquanto a esquerda concentrou seus esforços na política institucional e econômica, a direita investiu na cultura como espaço estratégico, compreendendo que é ali que se consolidam valores, se reorientam percepções e se estabelecem os limites do que pode ou não ser contestado. Ao transformar a guerra cultural em uma estratégia de hegemonia, a direita redirecionou o debate público para suas pautas, consolidando sua agenda sem depender exclusivamente de vitórias eleitorais.

A virada digital da guerra cultural amplificou ainda mais seu alcance e alterou profundamente seu funcionamento. Com as redes sociais, a guerra cultural deixou de depender dos veículos tradicionais e passou a operar em ciclos de viralização instantânea. O engajamento algorítmico favorece discursos polarizados, transformando indignação em capital político. No Brasil, a guerra cultural digital consolidou-se com a ascensão de influenciadores políticos e o uso massivo de fake news para manipular narrativas e mobilizar eleitores.

A cultura não é um elemento acessório na luta política; ela é o campo onde se constroem as bases da hegemonia. Quem controla a cultura não apenas domina narrativas, mas define os limites do possível, orienta valores e molda a percepção da realidade. Enfrentar a guerra cultural, portanto, exige mais do que reação ou denúncia: é necessário um esforço estratégico e de longo prazo que trate a cultura como o principal território de disputa política. Apenas ao disputar a cultura de forma propositiva e estruturada será possível reverter a hegemonia conservadora e resgatar a capacidade de a cultura funcionar como uma ferramenta crítica, capaz de ampliar os horizontes do debate público e transformar a sociedade.

·        Conclusão

A guerra cultural não é um desvio da política real, mas uma de suas formas mais sofisticadas de disputa pelo poder. Ela opera no longo prazo, reconfigurando percepções, deslocando os termos do debate público e redefinindo o que é socialmente aceitável ou inaceitável. Enquanto a direita utilizou esse mecanismo para consolidar sua influência, a esquerda demorou a reconhecer a cultura como um território central na luta política.

O resultado é um cenário onde o debate público foi capturado por discursos que naturalizam desigualdades, reforçam hierarquias e deslegitimam o pensamento crítico. Nesse ambiente, toda oposição é transformada em inimiga e todo questionamento, em ameaça. O apelo moral, frequentemente mobilizado, não se apresenta apenas como uma justificativa conservadora, mas como um recurso eficaz para interditar debates, deslocar o foco de questões estruturais e fortalecer narrativas reacionárias. A guerra cultural não se limita ao enfrentamento direto de ideias políticas; ela transforma valores e comportamentos em campos de batalha permanentes, onde o que está em disputa não é apenas a argumentação, mas os próprios limites do que pode ser imaginado, dito e aceito na sociedade.

Se a guerra cultural consegue deslocar a política para onde lhe convém, enfrentá-la exige mais do que reações pontuais ou denúncias. É necessário ocupar o campo cultural de maneira propositiva e estrutural, disputando valores, símbolos e espaços de influência. Isso demanda pensar a longo prazo, evitando o imediatismo que apenas responde às condições impostas pela própria guerra cultural.

A força da guerra cultural não reside apenas no que ela impõe, mas no que ela torna invisível ou impensável. Ela não precisa censurar ideias diretamente — basta torná-las irrelevantes, ridículas ou impossíveis de serem levadas a sério. Seu impacto não se mede apenas pelo que é dito, mas também pelo que é silenciado.

A política não acontece exclusivamente no parlamento ou nas urnas. Ela se constrói na cultura, nos afetos, nas memórias e na forma como as pessoas percebem o mundo ao seu redor. Como a hegemonia se consolida na cultura, qualquer resistência efetiva deve emergir a partir dela. O erro da esquerda foi tratar a cultura como algo secundário, permitindo que a direita ocupasse esse espaço estratégico.

 

Fonte: Por Ricardo Queiroz Pinheiro, em Outras Palavras 

 

José Luís Fiori: A América do Sul à beira do futuro

Às vezes de forma mais lenta, às vezes mais acelerada, algumas mudanças vêm acontecendo no panorama geopolítico e geoeconômico da América do Sul. Em alguns casos, reforçando velhos caminhos e “vocações” do continente; em outros, abrindo novas perspectivas e oportunidades que poderão ou não ser aproveitadas pelos 12 países que convivem lado a lado dentro desse território recortado por tantas barreiras geográficas, e tão próximo dos Estados Unidos. Destacamos em seguida quatro mudanças que deverão pesar decisivamente sobre o futuro continental:

<><> I) O aumento da assimetria sul-americana

Em 1950, os dois países mais ricos da América do Sul – Brasil e Argentina – tinham mais ou menos o mesmo PIB, apesar de que os argentinos tivessem uma renda per capita, homogeneidade social, nível educacional e qualidade de vida extraordinariamente superiores em relação aos brasileiros. Hoje, setenta anos depois, a situação mudou radicalmente: se o PIB dos dois países girava em torno de US$ 80 bilhões em 1950, 70 anos depois, o PIB brasileiro multiplicou 23 vezes e é hoje de cerca de US$ 2,17 trilhões, enquanto o argentino multiplicou-se apenas oito vezes no mesmo período, sendo hoje de 640 bilhões de dólares. Uma assimetria entre os dois países que tende a aumentar exponencialmente nos próximos anos, e muito mais ainda entre o Brasil e os demais países sul-americanos. Hoje, o Brasil já possui metade da população e do produto sul-americano, e é o único país da região que tem alguma presença no tabuleiro geopolítico internacional.

Depois do Golpe de Estado de 2016, entretanto, e até 2022, dois sucessivos governos de direita alteraram radicalmente a política externa, afastando o Brasil de todas as iniciativas integracionistas na América do Sul, ao mesmo tempo que se alinhava aos Estados Unidos e à OTAN, frente aos conflitos internacionais fora do continente. Em 2023, entretanto, o país retomou o rumo anterior de sua política externa e vem assumindo posições cada vez mais ativas no campo internacional, no grupo do BRICS, na presidência rotativa do G20 e na liderança mundial da luta pela sustentabilidade e controle das mudanças climáticas. No seu próprio continente, entretanto, o Brasil vem encontrando grandes resistências, que muito têm a ver com o aumento da assimetria regional, em que o Brasil aparece hoje como uma espécie de “elefante no meio da sala”.

<><> ii) A expansão da presença chinesa

A segunda grande transformação da América do Sul, nas primeiras décadas do século XXI, foram o surgimento e a expansão acelerada do papel da China no desenvolvimento econômico do continente. Em apenas três décadas, o fluxo comercial entre América do Sul e China cresceu de US$ 15 bilhões em 2001, para cerca de US$ 300 bilhões em 2019. E o fluxo dos investimentos diretos chineses na região cresceu e se manteve em torno de US$ 10 bilhões anuais, em média, entre 2011 e 2018. Brasil, Peru e Argentina receberam a maior parcela desses investimentos até 2022, ficando o Brasil com 22% deste total, incluindo a fabricação de veículos elétricos, aquisição de ativos de lítio, expansão da Huawei e de outras empresas chinesas de data centers, computação em nuvem e tecnologia 5G, e em grande quantidade de infraestrutura elétrica.

Nas duas primeiras décadas do século XXI, a China também dobrou sua participação nas importações realizadas pelos países sul-americanos, cujo valor bruto cresceu mais de 700%, enquanto as exportações brasileiras para a América do Sul, por exemplo, no mesmo período, cresceram menos de 40% do crescimento chinês. Mesmo durante a crise econômica de 2008, a participação brasileira no mercado argentino recuou de 42% para 31,5%, enquanto a participação chinesa subiu de 21,5% para 30,5%. E o mesmo aconteceu na Venezuela, onde a participação chinesa subiu de 4,4% em 2008, para 11,5% nos quatro primeiros meses de 2009.

Hoje, a China é o maior parceiro comercial do Brasil, do Chile e do Peru na América do Sul, e está entre os três maiores parceiros comerciais de todos os países do continente. Só no caso brasileiro, 30,6% de suas exportações em 2023 foram para a China, que foi ao mesmo tempo o maior fornecedor de bens importados pelo Brasil. E oito países sul-americanos já fazem parte da iniciativa da Belt and Road chinesa: Argentina, Peru, Bolívia, Chile, Guiana, Suriname, Uruguai e Venezuela.

Na linguagem estruturalista clássica, pode-se afirmar que nesse período a China se transformou no novo “centro cíclico principal” da economia sul-americana. E hoje, como no passado, o principal interesse dos chineses na América do Sul segue sendo seus recursos naturais e minerais, apesar de também estarem participando das grandes licitações governamentais da região. E o cenário para os próximos anos promete uma oferta excedente de produtos e capitais chineses, que deve derrubar barreiras e constituir um imenso desafio competitivo para os capitais norte-americanos e brasileiros.

<><> iii) A nova estratégia norte-americana de “polarização mundial”

A terceira grande mudança aconteceu no campo das relações da América do Sul com os Estados Unidos, que nunca abandonaram sua Doutrina Monroe, formulada em 1823 com o objetivo de combater e expulsar a influência europeia do continente sul-americano. A diferença é que, no século XIX, esse discurso era contrário aos interesses das potências coloniais europeias, e favorável à independência de suas colônias sul-americanas. Na primeira metade do século XX, entretanto, a mesma doutrina legitimou a intervenção norte-americana na América Central e Caribe, para mudar governos e regimes que eles consideravam contrários aos seus interesses. E na segunda metade do século, ela voltou a ser utilizada para “proteger” os países da América do Sul, só que agora contra a “ameaça comunista”, que justificou o apoio norte-americano a uma sucessão de golpes e regimes militares que liquidaram a democracia no continente, destruindo ao mesmo tempo sua soberania e seus projetos autônomos de futuro.

No início do século XXI, durante a sua “guerra global ao terrorismo”, os Estados Unidos reduziram seu grau de envolvimento político com os assuntos sul-americanos. Um “déficit de atenção” que durou até o “desembarque” econômico dos chineses na América do Sul na segunda década do século, e até o início do conflito entre os Estados Unidos e a Rússia, na Ucrânia, após o golpe de Estado de 2014.

Desde então, os Estados Unidos vêm se propondo “repolarizar o mundo” no estilo da Guerra Fria do século XX, de maneira que os demais países do sistema internacional, e também da América do Sul, teriam que se posicionar de um lado ou de outro da “linha vermelha” estabelecida por eles e seus aliado europeus.

<><> iv) O declínio do projeto de integração sul-americano

A maioria dos países sul-americanos superou o impacto da crise de 2008 mais rapidamente do que no resto do mundo, graças à grande demanda de seus produtos de exportação por parte das economias asiáticas, da China em particular, que sustentaram as quantidades e os preços das commodities sul-americanas num nível extremamente elevado. Mas este sucesso de curto prazo provocou um efeito inesperado em toda a América do Sul, ao aprofundar, de forma paradoxal, as velhas dificuldades enfrentadas desde sempre pelo projeto de integração econômica da América do Sul. Basta dizer que, na América do Norte, o comércio intrarregional é da ordem de 40% do seu comércio global; na Ásia, de 58%; e na Europa, de 68%; enquanto na América do Sul, mal chega aos 18%.

·        Os caminhos do futuro

Dividida em blocos, e com a maior parte dos países separados ou distantes do Brasil, por conta do contencioso venezuelano, a América do Sul deverá se manter na sua condição tradicional de periferia econômica do sistema internacional, mesmo diversificando e ampliando seus mercados na direção da Ásia. Para não ser assim, o Brasil terá que assumir a “liderança material” do continente, construindo uma estrutura produtiva que combine indústrias de alto valor agregado e tecnologias de ponta, com a produção de alimentos e commodities de alta produtividade, mantendo sua condição de grande produtor de energia tradicional e “energia limpa”. Neste caso, o Brasil poderá mudar o rumo da região, transformando-se na sua “locomotiva econômica”, por cima das divergências políticas e ideológicas que hoje dividem e imobilizam um continente que – sem o Brasil – não tem a menor relevância geopolítica dentro do Sistema Mundial.

Neste ponto, entretanto, não há como enganar-se: o Brasil enfrentará nos próximos anos uma concorrência acirrada e um boicote explicito do governo de Donald Trump que considera que a única relevância da América do Sul é pertencer ao “quintal dos Estados Unidos”.

 

¨      Dentro e fora dos portões de Davos. Por Sergio Ferrari

O Fórum Econômico de Davos foi aberto na segunda-feira, 20 de janeiro, quase paralelamente à posse, em Washington, de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. Os 6.700 quilômetros que separam a capital dos Estados Unidos dessa cidade suíça também marcaram distâncias conceituais fundamentais entre o projeto protecionista do novo presidente dos Estados Unidos –exposto em seu discurso inaugural na Casa Branca– e o compromisso ainda atual do Fórum de Davos com o livre mercado e a globalização.

Apesar da distância quilométrica e das nuances que diferenciam as duas visões –nuances de um modelo hegemônico que compartilham– Trump foi uma das referências dessa edição do Fórum. Na quinta-feira, 23, ele se tornou a grande estrela do conclave com um discurso digital no qual reiterou as linhas gerais de seu pensamento hegemônico de “América primeiro” já antecipado em sua campanha eleitoral e na cerimônia de posse.

·        Davos 2025

Essa 55ª edição do Fórum Econômico (conhecido como WEF, por sua sigla em inglês), realizado entre os dias 20 e 24 de janeiro, reuniu mais de 2.500 representantes dos setores econômico, político, científico e cultural de 130 países, além de cerca de sessenta chefes de Estado e de Governo.

presença política da América Latina foi relativamente escassa. Em diversos debates ou com discursos públicos em nível presidencial estavam presentes o argentino Javier Milei; sua colega Dina Boluarte, do Peru, e José Raúl Mulino, do Panamá. Também Ilan Goldfajn, chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento, além de ministros de outros países, entre outros: Maisa Rojas Corradi e Alberto van Klaveren, do Chile; Alicia Bárcena e Marcelo Ebrard, do México, e Víctor Bisonó Haza, da República Dominicana.

Da Europa, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia; o chanceler alemão Olaf Scholz e seu homólogo espanhol, Pedro Sánchez; Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu e os primeiros-ministros da Bélgica, da Irlanda, dos Países Baixos e da Suécia, juntamente com os presidentes da Polônia, da Sérvia e da Ucrânia.

·        Inteligência artificial

“Colaboração para a era inteligente” foi o tema central de Davos. De acordo com Klaus Schwab, diretor do evento, “as tecnologias convergentes estão transformando rapidamente o mundo, empurrando-nos para um ponto de inflexão” e marcando “uma era que vai muito além da tecnologia…. é uma revolução social, que tem o poder de elevar a humanidade, ou mesmo fraturá-la”.

Daí as grandes questões que surgiram nesse evento: como garantir a colaboração em uma era de tecnologias convergentes e hiperinteligência? Como evitar a fragmentação e construir um futuro mais inteligente? Como a inovação pode lidar com certas crises, como as mudanças climáticas e o uso indevido da tecnologia? A ação coletiva e a liderança responsável promoverão a igualdade, a sustentabilidade e a colaboração, ou aprofundarão as divisões existentes?

Nesse contexto, as conferências, painéis e debates se concentraram em cinco áreas temáticas: Reimaginar o crescimento com a perspectiva de construir economias mais fortes e resilientes; As indústrias na era inteligente, ou seja, como os líderes empresariais capitalistas podem encontrar um equilíbrio entre metas de curto prazo e os imperativos de longo prazo na transformação de suas indústrias; Investir nas pessoas, o que significa levar em consideração as mudanças geoeconômicas, a transição ecológica e os avanços tecnológicos. Fatores que afetam tudo, desde o emprego até a distribuição da riqueza, incluindo saúde, educação e serviços públicos. E isso levanta uma questão adicional: como os setores público e privado podem investir no desenvolvimento do capital humano e em empregos de qualidade que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade moderna e resiliente? Os outros dois blocos temáticos foram: Salvaguardar o Planeta e Reconstruir a Confiança. Tudo isso, segundo Davos, “em um mundo cada vez mais complexo e em mudança, [onde] as divisões sociais se aprofundaram, a geopolítica é multipolar e as políticas estão se voltando para o protecionismo, o que dificulta tanto o comércio quanto o investimento”.

·        Protestos, apesar da militarização

Como acontece todos os anos nessa data, a cidade alpina de Davos, a 1.560 metros acima do nível do mar e, portanto, a mais alta da Europa, foi transformada em uma verdadeira fortaleza murada. Seus organizadores alocaram cerca de US$ 10 milhões para segurança, uma quantia que não inclui o custo adicional da grande mobilização de mais de 4.000 soldados do exército para reforçar o esquema defensivo, incluindo o controle especial do espaço aéreo ao longo da semana. Despesas formidáveis pagas diretamente do orçamento militar anual da Confederação, como nos anos anteriores (cerca de US$ 26 milhões em 2023 e quase US$ 30 milhões em 2024), com cifras semelhantes para o Fórum de 2025.

Esse esquema de segurança ostensivo, no entanto, não conseguiu impedir protestos de cidadãos em várias partes da Suíça desde o fim de semana anterior ao início do Fórum. No sábado, 18 de janeiro, uma manifestação de várias centenas, a maioria jovens, marchou pelas ruas da capital, Berna, para protestar contra a reunião de Davos. Usando o conceito esportivo Smash WEF (Leilão Contra o Fórum) como slogan, eles defenderam que se deve “Acabar com o jogo dos poderosos e alcançar uma vida digna para todos”. Os manifestantes argumentaram que esse conclave “é um símbolo do capitalismo e da crise climática, das guerras, das crises econômicas, da discriminação e da opressão” e que, paradoxalmente, em Davos “os participantes [do Fórum] discutem as crises que eles mesmos causaram”.

Um dia depois, cerca de 300 manifestantes chegaram aos portões desse famoso destino turístico nos Alpes para exigir o fim do Fórum Econômico Mundial. As consignas dos cartazes contra os protagonistas do evento eram contundentes: “Cale a boca e pague impostos!”, “Ataquem, ataquem, o Fórum é uma m….!” e “Taxem os ricos!”, entre muitos outros da mesma natureza.

No contexto do protesto “anti-Davos”, na quarta-feira, dia 22, foi anunciada a constituição de uma nova Aliança de Organizações da Sociedade Civil sob o nome de #TaxTheSuperRich for people and planet (Taxem os superricos para ajudar as pessoas e o planeta). Em uma declaração conjunta, as ONGs Greenpeace, Oxfam, Confederação Sindical Mundial e outras organizações igualmente ativas na proteção ambiental e nos direitos humanos exigiram que tanto os indivíduos quanto as empresas mais ricas do planeta paguem impostos para impor limites à riqueza extrema e fortalecer a cooperação internacional em vista de uma tributação mais justa.

Momentos antes de anunciar essa nova aliança cidadã, ativistas ambientais do Greenpeace confiscaram simbolicamente vários jatos particulares no aeroporto de Engadine, em Samedan, a menos de 70 quilômetros de Davos, onde muitos dos magnatas e personalidades que participaram do Fórum chegaram. Dias antes, ativistas ocuparam o heliporto de Davos para exigir “um imposto justo sobre os mais ricos, a fim de financiar a proteção ambiental e investir em um futuro justo e sustentável para a humanidade”. E na segunda-feira de abertura do Fórum, outros ativistas pintaram de verde o pavilhão da Amazon na rua principal da cidade-sede.

Todos esses protestos tinham argumentos estatísticos, como foi evidenciado por uma reportagem divulgada no mesmo dia da abertura do Fórum. Somente em 2024, a riqueza dos bilionários aumentou US$ 2 trilhões, o equivalente a cerca de US$ 5,7 bilhões por dia, e a uma taxa três vezes mais rápida do que no ano anterior. Dito de outra forma, uma média de quase quatro novos bilionários surgia a cada semana. Enquanto isso, o número de pessoas que vivem na pobreza quase não mudou desde 1990. De acordo com Takers, Not Makers (Fruto do saqueio, não do esforço), o relatório recém-publicado pela Oxfam International na terceira semana de janeiro, o número de bilionários no mundo passou de 2.565, em 2023, para 2.769, em 2024. Sua riqueza aumentou no mesmo período de US$ 13 trilhões para US$ 15 trilhões. De acordo com a Oxfam, “o segundo maior aumento anual na riqueza bilionária desde o início dos registros”. Enquanto isso, a riqueza dos dez indivíduos mais ricos do mundo cresceu em média quase 100 milhões de dólares por dia.

O paradoxo reina, a surpresa é ilimitada: mesmo que esses bilionários perdessem 99% de sua riqueza da noite para o dia, eles ainda seriam bilionários. Quando o ilógico se torna sistêmico, até mesmo os Alpes pacíficos chamam ao protesto.

 

Fonte: Outras Palavras