sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Atentados a políticos, falha global cibernética e Olimpíada controversa: como 2024 ficou na memória?

Mais um ano chega ao fim e se torna história. Relembre com a Sputnik os maiores acontecimentos, captados por câmera, que de mês a mês foram se formando um caleidoscópio único de 2024.

O ano de 2024 foi repleto de eventos chocantes, notícias urgentes e momentos emocionantes: enchentes desastrosas no Brasil e na Espanha, alarmante escalada de tensões nos conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, atentados a políticos de alto nível e atos terroristas contra pessoas comuns, protestos e manifestações em vários cantos do mundo.

As tragédias e a dor dos outros naturalmente atraem nossa atenção. Mas vale lembrar que, apesar de 2024 não carecer de tais episódios, houve espaço para a humanidade e misericórdia, sucessos de diplomacia, momentos de unidade e até casos milagrosos de sobrevivência. Veja nesta galeria de fotos as imagens mais marcantes do ano cessante.

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Terremoto de magnitude 7,1 atingiu o Japão no início de janeiro de 2024. Na foto, as pessoas tentam sair de um prédio colapsado após sismos na cidade de Wajima.

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Vladimir Putin, presidente da Rússia, dá entrevista ao jornalista norte-americano Tucker Carlson em Moscou, em 6 de fevereiro de 2024. Essa foi a primeira entrevista que o líder russo deu a um jornalista ocidental desde o início da operação russa na Ucrânia.

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Em 17 de fevereiro de 2024, Sergei Shoigu, então ministro da Defesa russo, relatou a Vladimir Putin a tomada total da cidade de Avdeevka, na república de Donetsk, pelas tropas russas. A importância de Avdeevka para a Ucrânia residia no fato de ser um grande entroncamento ferroviário e um poderoso centro industrial. A captura da tela de um vídeo da Defesa russa mostra as ruas destruídas da cidade como resultado de combates intensos.

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Cerimônia de hasteamento de bandeira sueca na sede da OTAN, em 11 de março de 2024, que marca a entrada da Suécia na Aliança Atlântica.

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Sala de concertos Crocus City Hall em chamas, na região de Moscou, em 22 de março de 2024, onde ocorreu um dos maiores ataques terroristas na história moderna da Rússia. O tiroteio massivo e múltiplas explosões, efetuados por radicais islâmicos antes de um show, ocasionaram a morte de 145 pessoas.

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O primeiro na história do Cosmódromo de Vostochny, foguete portador funcional Angara-A5 russo foi lançado em 11 de abril de 2024 e levou à órbita o rebocador espacial Orion com uma carga útil. O foguete tem o potencial avançado e baixos custos ambientais.

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Enchentes no estado brasileiro do Rio Grande do Sul que ocorreram entre abril e início de maio de 2024 se tornaram "a maior catástrofe climática" da história do estado, segundo autoridades gaúchas. Na foto, o Estádio Beira-Rio inundado, em Porto Alegre, no dia 7 de maio de 2024.

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Vladimir Putin durante sua posse no Kremlin, em 7 de maio de 2024, após ter sido reeleito à Presidência da Rússia pela quinta vez.

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Em 15 de maio de 2024, o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, sofreu um atentado enquanto realizava um discurso público na cidade de Handlova. O político foi atingido por dois disparos, um no peito e outro na barriga, e às pressas foi transportado de helicóptero para um hospital. Na foto, a equipe de resgate leva o premiê para o hospital em Banska Bystrica. O autor do atentado, Juraj Cintula, escritor eslovaco de 71 anos e apoiador do partido pró-ocidental, foi detido.

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Em 19 de maio de 2024, caiu um helicóptero em uma floresta com o presidente do Irã, Ebrahim Raisi, e sua comitiva, inclusive o chanceler do país, Hossein Amir-Abdollahian. Ninguém sobreviveu. Segundo os resultados da investigação do desastre, a aeronave caiu devido a nevoeiro e colisão com uma montanha no noroeste do Irã. Foto mostra a equipe de resgate que encontrou os destroços do helicóptero no dia seguinte após o acidente.

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O ano de 2024 foi marcado por uma onda de protestos universitários pró-Palestina em campi dos Estados Unidos. Na foto, estudantes da Universidade George Washington durante manifestação contra as ações de Israel em Gaza, apoiadas pelo governo norte-americano, em 19 de maio de 2024.

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Durante a visita do presidente russo à Coreia do Norte, em 19 de junho de 2024, Vladimir Putin dá carona a Kim Jong-un no novo carro Aurus russo, dado como presente ao líder norte-coreano.

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Em 24 de junho de 2024, Julian Assange, jornalista australiano e fundador do WikiLeaks, deixou a prisão no Reino Unido, após cinco anos de detenção. O ativista realizou um acordo com o Departamento de Justiça dos EUA e foi liberto sob fiança. Na foto de 26 de junho, Assange chega ao Aeroporto de Camberra, na Austrália, sua pátria.

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Em 5 de julho de 2024, os iranianos foram às urnas para eleger novo presidente do país após o falecimento de Ebrahim Raisi na queda de helicóptero. Na foto Masoud Pezeshkian, novo líder de Estado, após dar seu voto.

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Donald Trump, após tentativa de assassinato durante comício em Butler, estado norte-americano de Pensilvânia, em 13 de julho de 2024. O atirador Thomas Matthew Crooks disparou vários tiros, deixando um morto, três feridos e atingindo só a parte superior da orelha direita de Trump.

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No dia 19 de julho de 2024, uma falha da Microsoft causou queda de sistemas cibernéticos em todo o mundo. Uma atualização errônea do software de segurança CrowdStrike paralisou o funcionamento de bancos, aeroportos, empresas de TV, supermercados e outras empresas de serviço. A falha foi nomeada a maior na história de TI, cujos danos são avaliados em ao menos US$ 10 bilhões. O incidente faz com que as máquinas que usavam o sistema operacional Windows mostrassem uma tela azul da morte, como na foto no aeroporto de Chicago.

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De 26 da julho a 11 de agosto, Paris acolheu os Jogos Olímpicos de Verão de 2024. O Brasil conquistou três medalhas de ouro, sete de prata e dez de bronze, ocupando o 20º lugar no quadro de medalhas. Vale notar que várias questões controversas foram relacionadas às Olimpíadas na França, incluindo preocupações ambientais e qualidade da água no rio Sena, condição dos atletas na Vila Olímpica, a cerimônia de abertura, entre outros. A cena musical durante a abertura do evento de um banquete envolveu artistas drags e dançarinos, o que provocou polêmica entre alguns cristãos, que viram nela uma paródia da obra "A Última Ceia" de Leonardo Da Vinci. Na foto o blogger Andrew Tate protesta na frente da embaixada da França em Bucareste, Romênia, contra a performance.

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Em 1º de agosto de 2024, uma troca de 26 prisioneiros ocorreu entre a Rússia, Belarus e uma série de países ocidentais, a maior dos últimos anos. A troca ocorreu no aeroporto de Ancara, capital turca, com a mediação da Organização Nacional Turca de Inteligência. No âmbito da troca, a Rússia liberou o repórter do The Wall Street Journal Evan Gershkovich e o ex-fuzileiro dos EUA Paul Whelan.

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No começo de agosto de 2024, as Forças Armadas da Ucrânia invadiram a região fronteiriça de Kursk, o que marcou a agressão mais significativa de Kiev contra a Rússia desde fevereiro de 2022. A foto mostra as consequências de um dos bombardeios ucranianos na cidade russa, durante o qual um míssil caiu sobre um prédio residencial, causando um incêndio.

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Em 24 de agosto de 2024, Pavel Durov, fundador do aplicativo Telegram, foi preso em um aeroporto em Paris. Durov, que tem dupla nacionalidade russa e francesa, foi detido sob acusações de que seu aplicativo estaria sendo usado para cometer vários crimes, incluindo terrorismo, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Na foto de 28 de agosto, Durov é solto após pagamento de fiança e proibido de deixar a França enquanto o julgamento não for concluído.

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Ismail Haniya, líder do gabinete político do Hamas, foi morto em Teerã em 31 de agosto de 2024. O ocorrido, classificado pela maioria dos países como "assassinato político", provocou uma onda de manifestações no Irã. A investigação da causa da morte ainda está em andamento.

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Em nova escalada de tensões no Oriente Médio, Israel intensificou, em setembro de 2024, ataques contra o Líbano, afirmando que luta contra o movimento Hezbollah. Na foto, um dos ataques israelenses contra o sul de Beirute, em 28 de setembro de 2024.

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No dia 1º de outubro de 2024, o Irã lançou um ataque massivo de mísseis contra Israel, chamando-o de ato de autodefesa e citando os assassinatos de Ismail Haniya em Teerã e Hassan Nasrallah. Na foto, os palestinos observam os destroços de um míssil iraniano interceptado por Israel na Cisjordânia.

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Eclipse solar em 2 de outubro de 2024, visto na Argentina.

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No final de outubro de 2024, devido a chuvas torrenciais, várias regiões no sudeste da Espanha, principalmente as províncias de Valência, Castela-Mancha e Andaluzia, ficaram inundadas. No dia 29 de outubro, em apenas oito horas caiu o volume de precipitação equivalente ao anual. As enchentes levaram a vida de mais de 200 pessoas. Na foto, as pessoas limpam as ruas de lama após enchentes na cidade de Paiporta, em 2 de novembro.

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Onda de protestos na Geórgia começou no final de outubro, após a vitória do partido governista Sonho Georgiano nas eleições parlamentares. Os partidos de oposição não reconheceram o resultado da votação e chamaram os apoiadores a sair às ruas e protestar. Em 28 de novembro, o premiê Irakly Kobakhidze anunciou a decisão de suspender as negociações sobre a adesão da Geórgia à União Europeia. Os manifestantes foram dispersados com o uso de gás lacrimogêneo, mas os protestos não pararam.

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Donald Trump com sua esposa Melania após a vitória nas eleições presidenciais nos EUA em 5 de novembro, na noite de apuração dos votos no Centro de Convenções do Condado de Palm Beach, na Flórida.

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Presidente russo Vladimir Putin profere discurso durante recepção dos convidados de alto nível na 16ª Cúpula do BRICS, organizada na cidade russa de Kazan de 22 a 24 de novembro. O evento ocorreu pela primeira vez em formato extenso, com a participação de novos membros da sigla.

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Líderes mundiais se reúnem para foto de família durante a Cúpula do G20 no Rio de Janeiro, Brasil, em 19 de novembro de 2024.

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Em 3 de dezembro de 2024, o presidente sul-coreano Yoon Suk-yeol anunciou a lei marcial no país após o partido de oposição apoiar o projeto de lei sobre redução do orçamento e solicitar impeachment de vários funcionários. A medida causou confrontos entre as tropas de governo e deputados de oposição no parlamento. Em 14 de dezembro, com 204 votos a favor, a Assembleia sul-coreana votou pelo impeachment de Yoon. Na foto, os sul-coreanos seguram velas durante vigília contra o presidente em Seul, em 4 de dezembro.

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Em 27 de novembro de 2024, os grupos armados de oposição na Síria, liderados pela organização Hayat Tahrir al-Sham, começaram investida contra as forças governamentais no país. Em 2 de dezembro, eles tomaram Aleppo, a maior cidade síria, e em 8 de dezembro, assumiram o controle sobre a capital Damasco. Bashar al-Assad renunciou ao cargo de presidente e saiu para a Rússia. Na foto, os militantes da oposição removem a bandeira síria de um prédio oficial na província de Hama.

 

Fonte: Sputnik Brasil

Leo Vidigal: O agro e a fome - dilema brasileiro

A fome é o maior dilema brasileiro. Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, até o fim do ano de 2023, pouco mais de 4% da população do país estava em estado de insegurança alimentar grave. Em números absolutos, 3,2 milhões de pessoas. Bem menos que os 19,1 milhões que sofreram de insegurança alimentar grave em 2020, durante a pandemia da covid-19. Ainda assim, continuamos no Mapa da Fome da ONU (2024), e o contingente de 21,6 milhões (27,6%) de brasileiros sob algum tipo de insegurança alimentar em 2023 é imenso. 

Por outro lado, entre janeiro e outubro de 2024, as exportações do agronegócio brasileiro somaram US$ 140,02 bilhões, representando 49,2% da pauta exportadora total brasileira no período. No livro Direito econômico e soberania alimentar, procuro contribuir para o diagnóstico e a solução desse dilema histórico: somos uma potência na produção agrícola e alimentar convivendo com o drama da fome e dos altos preços dos alimentos. Tal situação não é aceitável. Somos e devemos ser melhores do que isso. Podemos alimentar o mundo, mas devemos alimentar os brasileiros. 

A fome é inescapável à história. Josué de Castro demonstra que o problema atinge os continentes de forma desigual, determinando a organização da vida humana de modo variado, a depender da região geográfica, do meio ambiente, dos modos de vida. Em suas palavras: a fome é uma "praga fabricada pelo homem". 

Desde a fome ideologicamente apresentada como "fenômeno natural" e ferramenta do equilíbrio populacional (Malthus) à expansão colonial europeia do século 19, impulsionada pela necessidade de alimentos; até as greves de fome das mulheres inglesas pelo direito de votar no início do século 20, ou de Gandhi na luta pela independência da Índia; a fome é relacionada ao poder. O livro pretende estudar e ofertar soluções a esse dilema. Imaginar e propor soluções para o Brasil que queremos. 

Para desvelar a estruturação social da produção e distribuição de alimentos, temos que discutir as noções de direito humano à alimentação, segurança alimentar, soberania alimentar e soberania sobre os recursos naturais, que implicam distintas perspectivas políticas e econômicas, com formas jurídicas diversas. As relações entre Estados nacionais e a conformação do sistema alimentar mundial a partir das suas estratégias de soberania alimentar devem ser conhecidas, pois a organização e o controle da produção e comércio alimentar ocorrem no âmbito do "sistema alimentar mundial", em que os Estados centrais e suas corporações ocupam e disputam constantemente posições de soberania e poder. 

 Os países desenvolvidos mobilizam diversos e consideráveis recursos visando à garantia de abastecimento alimentar, preços adequados aos produtores agrícolas, controle de tecnologias estratégicas e mercados internacionais para a diversificada gama de produtos agrícolas, que vão desde commodities até insumos (sementes e fertilizantes) e equipamentos de alta complexidade. 

O comando da Organização Mundial do Comércio (OMC) na regulação do comércio internacional, instrumental aos interesses dos países centrais e suas corporações produtivas e financeiras, bem como a crise da hegemonia norte-americana frente à China, são processos a serem desvendados. As tensões distributivas entre centro e periferia e internas a cada país expressam o exercício do poder em condições sociais determinadas e apenas podem ser apreendidas por análises específicas: a teoria do subdesenvolvimento de Celso Furtado nos permite decifrar as questões agrária e agrícola brasileiras, cuja solução permanece inacabada, como demonstra o complexo produtivo da soja. Para resolver nossos problemas, temos que pensar com a própria cabeça.

O direito é uma arena central dessa disputa de poder: a ordem econômica brasileira, com seus comandos finalísticos de desenvolvimento, soberania, erradicação da pobreza e redução das desigualdades sociais e regionais, determina a política agrária, agrícola e alimentar, enfatizando a simultânea dimensão ecológica e tecnológica do desenvolvimento. Os deveres com a alimentação da população pertencem e obrigam a todos os entes da federação, em cooperação. Não é aceitável haver fome em uma potência agrário-exportadora. O Brasil dará o passo político para superar esse atraso e será a generosa nação sonhada pelo fundador de Brasília, Juscelino Kubitschek. 


Samara Oliveira: Complexidade, política e desinformação - as barreiras para falar de mudanças climáticas

Discutir mudanças climáticas é uma tarefa complexa, não apenas pelos aspectos técnicos ou científicos envolvidos, mas também pela série de obstáculos que dificultam uma abordagem clara e abrangente do tema. Em uma sociedade cada vez mais polarizada e suscetível à desinformação, esse desafio se intensifica. Apesar da vasta quantidade de dados científicos e evidências visíveis do aquecimento global, o debate ainda enfrenta barreiras substanciais na sociedade e na política. Uma pesquisa do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) revela que, embora 95,4% dos brasileiros reconheçam que as mudanças climáticas estão acontecendo, apenas metade considera o fenômeno uma ameaça séria. Esse dado reflete um distanciamento crítico entre a compreensão do problema e a percepção de risco necessária para impulsionar ações efetivas.

A complexidade científica em torno das mudanças climáticas é um dos primeiros obstáculos. Embora termos como “aquecimento global” e “emissões de CO2” já sejam familiares, o entendimento real de suas causas e consequências é mais profundo e, muitas vezes, inacessível para o público em geral. A questão se torna ainda mais complexa ao considerar os modelos climáticos, que envolvem variáveis e projeções para cenários futuros. Esse descompasso entre conhecimento técnico e entendimento popular pode tornar o tema menos tangível, alimentando dúvidas sobre a urgência de ações concretas.

Outro ponto crucial são os interesses econômicos, que frequentemente entram em conflito com os esforços para combater as mudanças climáticas. Setores como o de combustíveis fósseis resistem à transição para energias limpas, defendendo seus interesses por meio de lobbies e até campanhas de desinformação. Essa influência é perceptível em várias partes do mundo, onde a resistência em abandonar atividades lucrativas, como a exploração de carvão e petróleo, é intensa. Essa disputa econômica tende a polarizar o debate e cria uma sensação de que o enfrentamento ao aquecimento global exige um sacrifício econômico muito grande.

A desinformação também é um elemento prejudicial que impede o avanço do diálogo sobre mudanças climáticas. Um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) revela que um terço das pessoas em países desenvolvidos ainda atribui o fenômeno a causas naturais, o que contradiz o consenso científico de que as atividades humanas, especialmente as emissões de CO2, são os principais motores desse processo. Essa desinformação dificulta o progresso, pois sem um entendimento claro do que está causando o problema, fica mais difícil unir esforços e encontrar soluções viáveis e eficazes.

A polarização política é outro fator que compromete o avanço do diálogo e das políticas climáticas. Em países como os Estados Unidos, por exemplo, a aceitação da ciência do clima é fortemente influenciada pela filiação partidária, sendo que os democratas têm muito mais probabilidade de apoiar políticas climáticas do que os republicanos. Esse tipo de divergência ideológica torna qualquer avanço coletivo desafiador, e o debate sobre mudanças climáticas acaba sofrendo as consequências de um ambiente político polarizado.

A percepção pública sobre o impacto social e econômico das mudanças climáticas também é limitada. Ainda que 73% dos brasileiros estejam preocupados com o impacto para as futuras gerações, de acordo com uma pesquisa da ONU Brasil, muitos hesitam em considerar o problema um risco imediato. Ao focar nos impactos a longo prazo, o público pode se sentir desconectado das consequências atuais, o que enfraquece a urgência de adotar medidas agora. Esse distanciamento temporal faz com que muitos vejam as mudanças climáticas como uma questão “do futuro”, quando na realidade seus efeitos já são sentidos hoje, com o aumento de eventos climáticos extremos.

Esses eventos, como furacões, secas e inundações, aumentaram significativamente nas últimas décadas, de acordo com dados recentes. Esse aumento, por sua vez, afeta diretamente comunidades e economias ao redor do mundo, especialmente em regiões vulneráveis. Mesmo assim, a falta de uma conexão direta entre esses desastres e as atividades humanas, que muitos não compreendem completamente, impede que o público faça essa ligação de forma clara.

Outro aspecto pouco explorado é o impacto dos níveis recordes de CO2 na atmosfera, que, em 2023, atingiram 417 partes por milhão (ppm), o mais alto em 800 mil anos. Essa concentração intensifica o efeito estufa, o que contribui diretamente para o aumento da temperatura global, que já subiu 1,1°C desde 1880. Embora esses números pareçam abstratos, eles têm consequências muito concretas, como o derretimento acelerado das calotas polares e o aumento do nível do mar, que desde 1900 subiu cerca de 20 cm. Esses efeitos não só comprometem a vida em ecossistemas frágeis, mas também ameaçam milhões de pessoas que vivem em regiões costeiras.

Superar essas barreiras exige uma abordagem mais transparente e colaborativa entre ciência, política, mídia e sociedade civil. Comunicar a realidade das mudanças climáticas de maneira acessível, mas sem simplificações excessivas, é essencial para construir uma base de entendimento comum. É preciso tornar esses dados mais palpáveis, relacionando-os com o dia a dia das pessoas, para que a urgência do problema seja clara. Essa comunicação deve, ao mesmo tempo, combater ativamente a desinformação, buscando um equilíbrio entre informar e conscientizar, sem gerar pânico.

Também é importante que a educação ambiental seja priorizada desde cedo, permitindo que futuras gerações tenham uma compreensão mais profunda sobre as causas e os impactos das mudanças climáticas. Além disso, ao fortalecer políticas que apoiem o desenvolvimento de energias renováveis, podemos criar um ambiente onde o progresso econômico e a preservação ambiental coexistam. Isso demanda coragem política e social para enfrentar interesses estabelecidos, mas é uma mudança essencial para um futuro sustentável.

O caminho para uma discussão aberta sobre mudanças climáticas está cheio de desafios, mas entender essas barreiras e enfrentá-las é o primeiro passo para uma ação coordenada.


Fonte: Correio BrazilienseEnvolverde


 

Por que cientistas desbravam profundezas cada vez maiores da Terra

Fico sentada e deslizo por um túnel de pedra curvo e brilhante, que parece o interior de uma garganta. Sinto-me como se estivesse sendo engolida e desapareço na escuridão do mundo subterrâneo.

Seguro pequenas estalagmites que parecem pústulas enquanto rastejo, agora de joelhos. Estalactites pontudas ameaçam me morder e capilares de calcita estão espalhados nas paredes da rocha.

Phil Short me alerta que as cavernas são "vivas". Elas respiram – suas entradas, muitas vezes, são pequenas, mas elas trocam gases com o mundo exterior.

Estou na caverna Wookey Hole, que faz parte de uma rede de cavernas subterrâneas na aldeia britânica de Wookey Hole, em Somerset, no sudoeste da Inglaterra.

"Hoje, o dia está quente", explica Short. Ele é um dos mais famosos mergulhadores e exploradores de cavernas do mundo e chefia as missões subaquáticas da Deep Research Labs.

"A pressão atmosférica no lado externo é alta", explica ele. "Mas ontem foi um dia frio e a pressão atmosférica aqui dentro é baixa."

Se a pressão do ar fora da caverna for maior do que a interna, segundo Short, o ar se move para o interior da caverna e vice-versa.

"Em outro dia, pode ser congelante lá fora e ainda quente aqui dentro – e a caverna respira na direção oposta."

Comprimo meu corpo através de uma abertura, escalando sobre minhas mãos, joelhos e estômago, até que o corte inclinado na terra se abre para uma pequena caverna.

Empoleirado sobre uma rocha, Short parece tão confortável quanto nós, quando ficamos relaxados em uma poltrona aconchegante. E esta descrição pode não estar tão longe da realidade, já que ele descreve a caverna Wookey Hole como sua "casa espiritual".

A guia de cavernas Becca Burne, do grupo de instrutores Wild Wookey, orienta a desligar as lanternas. Nós nos sentamos em total escuridão.

"As pessoas juram para mim que podem ver sua mão em frente ao rosto, mas elas não conseguem", conta Burne, rindo.

Aqui, embaixo da terra, a escuridão é completa. Tudo está parado e em silêncio. Esta sensação de calma só é possível quando você retira todos os estímulos incessantes da vida na superfície.

"[Explorar cavernas] é uma atividade lenta e controlada, não um esporte radical", explica Short. "Você trabalha lentamente, aperta um autosseguro ou cow's tail, passa a corda de segurança, verifica e, depois, move o segundo."

·        'Exploração pura'

Atualmente, existem dezenas de milhares de cavernas conhecidas em todo o mundo e outras são descobertas todos os dias. Na verdade, muitas das cavernas do planeta permanecem inexploradas, incluindo as dos montes Mendip, no Reino Unido, onde me encontro neste momento.

"Se você voltar à era de ouro das explorações – a busca pela fonte do Nilo, a corrida rumo ao Polo Sul – não havia satélites, nem aviões", relembra Short.

Para ele, "a exploração de cavernas é o último campo que possibilita a exploração pura. [Quando você entra em uma caverna inexplorada] Você vai para um lugar do planeta onde nada esteve antes – nenhum drone, nem a tecnologia moderna."

Short destaca que, nas cavernas, podem ser encontrados tesouros – "novas espécies, novas curas para doenças".

Algumas cavernas são tão grandes que já foram relatados sistemas meteorológicos próprios. Outras são tão profundas que ainda não conseguimos chegar até o fundo.

As cavernas contêm segredos da evolução humana, da vida que veio antes de nós e de milênios de impactos climáticos. E não são apenas repositórios de memórias distantes, mas pontos cruciais para a biodiversidade e o endemismo. Elas são ecossistemas completos e cheios de vida.

Foi o que o entomólogo Leonidas-Romanos Davranoglou, da equipe de pesquisa Expedition Cyclops e estudante de pós-dourado da Universidade de Oxford, no Reino Unido, encontrou ao caminhar até as montanhas Ciclopes, na região de Papua, na Indonésia.

A Expedition Cyclops é liderada por pesquisadores da agência de pesquisa governamental da Indonésia Badan Riset Dan Inovasi Nasional (BRIN), pelo Centro de Conservação de Recursos Naturais de Papua Ocidental (BBKSDA, na sigla em indonésio), pela ONG conservacionista Yayasan Pelayanan Papua Nenda (Yappenda) e pela Universidade de Oxford, em conjunto com estudantes de zoologia da Universidade Cenderawasih, na Indonésia.

Em 2023, a equipe escalou montanhas quase verticais, atravessou densa vegetação rasteira e construiu um acampamento completo, com um laboratório de trabalho feito de bambu.

Davranoglou conta que, se você ficar parado por um momento na região das montanhas Ciclopes, sanguessugas, brilhantes e escuras como o chão da floresta, irão se aproximar de todas as direções. Elas estão caçando você, seguindo minúsculas vibrações na terra, sua sombra e sua respiração.

"Em Papua, é muito úmido e as sanguessugas vivem em absolutamente toda parte – nas árvores, no chão, nos arbustos", explica Davranoglou.

Na floresta das montanhas Ciclopes, todas as formas de aranhas e cobras venenosas, além de mosquitos e carrapatos vetores de doenças, perseguem os poucos que se aventuram por aquela terra praticamente inexplorada.

Apesar dos riscos, a equipe estava determinada a "realizar a pesquisa mais abrangente sobre aquele ecossistema", segundo Davranoglou. E, durante o processo, eles coletaram a primeira evidência fotográfica que confirma a sobrevivência do peixe conhecido como equidna-de-attenborough.

Eles também redescobriram uma ave que havia sido perdida pela ciência há mais de 15 anos, encontraram um novo gênero de camarão que mora em árvores, incontáveis novas espécies de insetos e até um sistema de cavernas antes desconhecido, quando um membro da equipe caiu em um buraco no solo.

"Pudemos observar que ela descia mais fundo", ele conta. "Precisamos rastejar e, no momento em que entramos, morcegos começaram a voar freneticamente."

"Nós pensamos, 'OK, isso é muito bom sinal'. Depois, começamos a ver grilos da caverna."

Ele explica que os grilos da caverna são insetos observadores peculiares. Eles têm pernas e antenas extremamente longas e olhos minúsculos.

"Eles sentem o caminho através do escuro", prossegue ele. "Os grilos das cavernas são um sinal que indica a existência de um rico ecossistema de cavernas por ali."

Davranoglou e o líder da expedição, James Kempton, retornaram à caverna diversas vezes. Na terceira ocasião, Kempton estava sozinho no subterrâneo, patrulhando caminhos para prosseguir com a exploração, quando a terra começou a tremer. Poeira caiu das rachaduras e os morcegos começaram a voar em pânico.

"Papua é uma das áreas com maior atividade tectônica do mundo", explica Davranoglou. "Sentimos tremores de terra todo o tempo."

Do lado de fora, "você observava enormes rochedos caindo [nas encostas]. Houve então esse enorme terremoto que sacudiu [Kempton] dentro de uma caverna extremamente estreita, cheia de rochas."

"Nossos alunos esperaram fora da caverna, cheios de medo, para ver se ele iria sair", ele conta. "Eles gritaram de alegria quando ele chegou em segurança."

A equipe descobriu um "tesouro" de espécies subterrâneas, incluindo aranhas cegas, opiliões cegos e um escorpião-chicote, todos desconhecidos da ciência até então.

"Ficamos totalmente eufóricos, pois descobrimos um ecossistema escondido com muito potencial", relembra Davranoglou. "E, como exploramos apenas os primeiros 40 metros, nós apenas raspamos a superfície. Quem sabe o que existe abaixo disso."

·        Onde o trabalho começa

De volta a Oxford, Davranoglou mostra uma bandeja de espécimes de besouro-do-esterco, belos insetos furta-cores com seus enormes chifres pontiagudos.

Estamos em uma sala repleta de gabinetes metálicos, que fazem parte das Coleções da Vida do Museu de História Natural da Universidade de Oxford. Elas abrigam 5,5 milhões de espécimes de insetos.

Davranoglou conta que, agora que a expedição terminou, começa realmente o trabalho.

"Papua é a ilha com maior biodiversidade do mundo", segundo ele. Davranoglou espera que um novo nível de compreensão da sua biodiversidade possa orientar a criação de medidas de conservação para proteger aquele precioso ecossistema.

"A descoberta de cada nova espécie pode contar a evolução de toda uma linhagem", explica ele.

"Ela pode ajudar você a entender como os organismos eram distribuídos no passado e quais fatores ecológicos e geológicos dirigiram a formação de diferentes grupos de espécies. E, com estes dados, podemos também compreender fatores que poderão afetar a distribuição das espécies e seu destino no futuro."

Em 2013, Short passou três meses explorando cavernas. Ao todo, foram 45 dias embaixo da terra.

Com 12 km de comprimento e 1,2 km de profundidade, o sistema de cavernas J2 fica escondido nas profundezas das montanhas de Sierra Juárez, no sul do México. Transportar através da densa floresta o equipamento de expedição para três meses – cilindros de mergulho portáteis, reguladores, alimentos e equipamento para acampar – por si só, já foi um desafio.

"No topo plano da montanha, fizemos nossa base de acampamento", explica Short. "Tendas espalhadas pela floresta, caminhos entre elas e uma grande área comum coberta por lona com um braseiro."

"A cerca de uma hora de caminhada, descendo a montanha, havia uma minúscula plataforma na encosta e a entrada da caverna, com cerca de 45 cm de largura e 1,3 metros de altura", ele conta.

Esta singela entrada não dava ideia do enorme labirinto escondido embaixo da terra. A apenas dois metros da encosta, Short desceu de rapel por 70 metros, carregando 40 kg de equipamento de mergulho nas costas.

"Desci mais, mais e mais", descreve ele. "Por fim, depois de cerca de 700 metros de descida, terminamos em uma pequena câmara onde [membros da equipe anteriores] haviam pendurado redes. Havia um fogão e alguns mantimentos."

No segundo acampamento, foi preparada uma tenda e o terceiro era a base de mergulho. A primeira seção inundada tinha 200 metros de comprimento.

"Agora, sobrou apenas a equipe de mergulho", conta Short.

De uma equipe de 44 pessoas de 15 países diferentes, ficaram apenas dois – Short e sua colega exploradora Marcine Gala. Eles permaneceriam ali sozinhos, por nove dias.

Depois de um mergulho de mais 600 metros no desconhecido, Short e Gala subiram à superfície para ouvir o ruído de uma cachoeira.

"Encontramos essa bela cortina gigante de calcita multicolorida", relembra Short. "Nós nos esprememos em torno dela e vimos o rio contido como se fosse uma barragem."

"Havia névoa nesta enorme câmara, como em uma queda d'água na floresta, onde toda a água do rio de J2 estava simplesmente fluindo para os intestinos da Terra."

Usando uma furadeira elétrica para fixar parafusos à parede da rocha, a dupla prosseguiu de rapel até a base. Eles seguiram o rio até que ele "se fechou em um espaço no qual não podíamos nem colocar a mão – o fim da caverna", conta Short.

Embora a exploração – e não a ciência – fosse o motivo para eles estarem ali, mapear sistemas de cavernas como aquele abre o caminho para futuras expedições científicas, segundo o líder da expedição, Bill Stone.

"As cavernas precisam ser protegidas", afirma a professora de ciências geológicas Hazel Barton, da Universidade do Alabama, nos Estados Unidos. Barton é geomicrobióloga e estuda os micróbios que vivem em alguns dos ambientes mais extremos da Terra. Ela e outros cientistas seguiram os passos de Stone nas montanhas de Sierra Juárez.

Barton estuda há mais de 20 anos a vida microscópica encontrada nas profundezas da terra, capaz de sobreviver à extrema falta de alimento. Suas pesquisas ampliam nosso conhecimento sobre a resistência antimicrobiana e o que a capacidade de fotossíntese – em um ambiente que, para o olho humano, parece totalmente escuro – pode nos contar sobre a possibilidade de vida extraplanetária.

"A um quilômetro da entrada, ainda existe fotossíntese", explica Barton, "mas ela é deslocada para o infravermelho próximo."

"Existem estrelas que emitem apenas nesses comprimentos de onda. Por isso, este estudo pode nos ajudar a entender como é possível haver vida em outros planetas."

Para Barton, a exploração de cavernas é o mais próximo que podemos chegar de sermos astronautas, sem sair para o espaço.

"Você é a primeira pessoa a ver alguma coisa, as suas pegadas são as primeiras", descreve ela. "Daqui a 10 mil anos, as pegadas que deixei na caverna Lechuguilla, no Novo México [EUA], ou nas cavernas Tepui, na Venezuela, talvez ainda estejam por lá."

Saindo de Wookey Hole para a luz do dia, percebo que meus sentidos estão exagerados. Sinto o cheiro da folhagem úmida, o canto dos pássaros, a brisa na minha pele e o calor do Sol. Parece que acabei de acordar de um sonho.

"Atualmente, é difícil impressionar as pessoas", afirma Short. "Mas você pode vir aqui e sempre ver algo diferente."

Existem centenas de entradas de cavernas conhecidas na Terra, na Lua e até em Marte. Muitas delas nunca foram exploradas.

Se nos aventurarmos pela escuridão, o que poderemos encontrar escondido embaixo da superfície?

 

Fonte: BBC News Brasil

 

7 descobertas que se destacaram em 2024 pelo seu impacto na vida humana

No panorama médico e científico de 2024, a revolução da inteligência artificial prossegue com seu avanço vertiginoso.

A rápida evolução da IA fez com que muitas equipes de pesquisadores realizassem importantes descobertas em 2024 – desde o desenvolvimento de produtos farmacêuticos até aplicações para assistência médica e pesquisas ambientais.

Aqui relacionamos alguns dos avanços médicos e científicos mais significativos do ano de 2024.

As linhas do deserto de Nazca, no Peru, são um dos mistérios mais desconcertantes da humanidade.

Observadas do solo, as marcas parecem simples sulcos. Mas, vistas do espaço, os sulcos se transformam em figuras e formas misteriosas que assombram os cientistas desde sua descoberta, em 1927.

Em novembro deste ano, utilizando inteligência artificial e drones, uma equipe de arqueólogos japoneses encontrou em Nazca 303 geoglifos até então desconhecidos. Os cientistas publicaram suas conclusões sobre o enigmático propósito dos símbolos na revista científica Proceedings of the National Academy of Science.

·        A pesquisa sobre o cérebro da mosca para entender o processo de pensamento humano

Em 2024, os cientistas conseguiram criar a mais detalhada análise já produzida sobre o cérebro de um animal adulto.

Trata-se do mapa completo que identifica a posição, a forma e as conexões de cada um dos 130 mil neurônios e 50 milhões de conexões do cérebro de uma mosca.

O avanço foi descrito como "um enorme salto" para a compreensão do nosso próprio cérebro. Ele nos ajudará a entender os nossos mecanismos de pensamento.

"Quais são as conexões? Como os sinais fluem através do sistema que nos permite processar as informações para reconhecer seu rosto, que permite ouvir a minha voz e traduzir estas palavras em sinais elétricos?", destacou à BBC Gregory Jefferis, do Conselho Nacional de Pesquisas Médicas de Cambridge, no Reino Unido – um dos cientistas envolvidos no estudo.

"A cartografia do cérebro da mosca é realmente extraordinária e nos ajudará a compreender como funciona o nosso cérebro", explicou ele.

As imagens obtidas pelos cientistas mostram um belo e complexo emaranhado de cabos. Elas foram publicadas pela revista Nature.

·        Vacinas revolucionárias – 'uma verdadeira esperança' contra o câncer

Ao longo de 2024, diversos países realizaram testes clínicos das revolucionárias vacinas personalizadas baseadas em RNA mensageiro (mRNA) em seres humanos.

As vacinas fornecem instruções ao sistema imunológico para "treiná-lo" a reconhecer e destruir as células cancerosas, eliminando a doença. É a mesma tecnologia que foi usada em algumas vacinas contra a covid-19.

Os primeiros testes, dirigidos a diversos tipos de câncer, mostraram resultados alentadores.

O Reino Unido lançou este ano a chamada Plataforma de Lançamento da Vacina contra o Câncer. Ela reúne diversos testes clínicos que irão utilizar as vacinas com tecnologia mRNA.

Testes com pacientes também estão ocorrendo na Alemanha, Bélgica, Espanha e Suécia.

·        A 'façanha quase impossível de construir tipos de proteínas totalmente novos' com ajuda da IA – que valeu o Prêmio Nobel

O Prêmio Nobel de Química deste ano foi dedicado às proteínas – os componentes básicos da vida.

Estes compostos são encontrados em todas as células do corpo humano. As proteínas controlam e dirigem todas as reações químicas que, em conjunto, constituem a base da nossa existência.

O Comitê do Nobel as descreve como as "engenhosas ferramentas químicas da vida".

A melhor compreensão destas ferramentas impulsionou grandes avanços da medicina. E o que os três cientistas ganhadores do Nobel conseguiram foi decifrar o código das suas surpreendentes estruturas.

David Baker "conseguiu a façanha quase impossível de construir tipos de proteínas totalmente novos". Já Demis Hassabis e John Jumper "desenvolveram um modelo de inteligência artificial para resolver um problema que já durava 50 anos: prever as complexas estruturas das proteínas".

·        A ferramenta de IA que detecta tumores que os médicos não conseguem ver

A ferramenta de IA se chama Mia. Ela trabalha em hospitais britânicos, analisando mamografias.

O trabalho de Mia é identificar pequenos indícios de câncer de mama que passaram despercebidos durante a análise dos médicos.

Mia analisou cerca de 10 mil mamografias. A maior parte delas não mostrava sinais de câncer.

A ferramenta conseguiu identificar com sucesso as imagens que apresentavam indícios, incluindo 11 pacientes que não haviam recebido diagnóstico.

Pacientes com tumores com menos de 15 mm no momento do diagnóstico apresentam taxa de sobrevivência de 90% nos cinco anos seguintes.

Por isso, Mia foi descrita como ferramenta que reflete "o enorme potencial da IA" em diagnósticos médicos.

"Não há dúvida de que os radiologistas clínicos da vida real são essenciais e insubstituíveis, mas um radiologista clínico que utilize ferramentas de inteligência artificial será, cada vez mais, uma força formidável no atendimento aos pacientes", afirmou a presidente do Colégio de Radiologistas do Reino Unido, Katharine Halliday.

·        A descoberta de água líquida, pela primeira vez, no interior de Marte

Em Marte, existe água suficiente para formar oceanos.

Foi o que descobriram os pesquisadores, estudando os dados do módulo de aterrissagem Insight, da Nasa – um explorador robótico que aterrissou no planeta vermelho.

Extrair a água na forma de poço é pouco provável em um futuro próximo, já que ela se encontra a uma profundidade de 11,5 a 20 km embaixo da terra. Mas a descoberta ajudará a compreender o ciclo de água no planeta vermelho – o que é fundamental para entender a evolução do clima, sua superfície e seu interior.

A descoberta também poderá indicar outro objetivo para a busca real de provas de vida em Marte.

"Sem água líquida, não há vida", explica o professor Michael Manga, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, que participou da pesquisa. "Ou seja, se houver regiões habitáveis em Marte, elas podem estar agora nas profundezas do subsolo."

·        A temperatura aumentou 1,5 ºC durante um ano inteiro pela primeira vez

Esta foi uma má notícia de 2024. Pesquisadores do serviço climático da União Europeia descobriram que, pela primeira vez, o aquecimento global superou 1,5 ºC durante todo um ano.

O limite de 1,5 ºC para o aumento da temperatura a longo prazo é considerado fundamental para ajudar a evitar os efeitos prejudiciais do aquecimento do planeta.

Nós ultrapassamos este limite ao longo de um ano inteiro, atingindo pela primeira vez um aumento das temperaturas de 1,52 ºC. Com isso, deixamos o mundo mais longe de atingir as metas definidas pelo Acordo de Paris.

"Isso está totalmente acima do aceitável", declarou à BBC o professor Bob Watson, ex-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC, na sigla em inglês).

"Vejam o que aconteceu este ano com apenas 1,5 ºC: vimos inundações, vimos secas, vimos ondas de calor e incêndios florestais em todo o mundo", destaca ele. "E estamos começando a observar queda da produtividade agrícola e problemas com a qualidade e a quantidade da água."

Mas os cientistas afirmam que, se forem tomadas medidas urgentes para reduzir as emissões de carbono, ainda é possível frear o aquecimento.

 

Fonte: BBC News