terça-feira, 31 de outubro de 2023

Marcus Pestana: O cenário que nos espera e o Brasil com que se sonha

Minha geração do movimento estudantil acreditou que conquistada a agenda democrática – anistia, Constituinte, eleições diretas e liberdade política – a desigualdade social e os desafios brasileiros seriam naturalmente enfrentados e construiríamos o Brasil dos sonhos.

Outro dia, fui tomado por um baixo astral incrível ao ler um artigo do economista Samuel Pessoa, na revista Conjuntura Econômica do IBRE/FGV, onde ele informava que no PISA – programa internacional de avaliação do ensino – os 10% de alunos vietnamitas com o pior desempenho estavam na frente dos 10% com melhor desempenho entre os brasileiros. É inevitável, diante de um fato dessa gravidade, sentir na boca um certo gosto amargo de fracasso geracional. Afinal, educação é tudo.

O Brasil de 1900 a 1980 só cresceu abaixo do Japão. Com desigualdades, mas em ritmo acelerado. A partir daí foram crises e mais crises. É verdade que o Plano Real derrotou a hiperinflação, o SUS se consolidou, a democracia resistiu e uma sólida rede de proteção social foi erguida. Mas há um oceano a nos separar do Brasil dos nossos sonhos.

A equação central é econômica. Sem geração de emprego e renda não há política social que seja eficiente. O tripé macroeconômico está bem resolvido nos planos monetário e cambial. Hoje temos um sistema de metas inflacionárias sólido, Banco Central com autonomia operacional, inicio de movimentos de aumento da competição bancária e revoluções na ponta, como a do PIX. Ainda assim, nossa taxa real de juros é ainda muito alta.

No front cambial não temos os riscos de estrangulamento externo. O câmbio é flutuante, as reservas cambiais são abundantes, a balança comercial é fortemente superavitária e o fluxo de investimentos banca o déficit nas transações correntes. Mas todo cuidado é pouco. O cenário externo é extremamente preocupante. Taxas de juros altíssimas nos EUA, China sem o crescimento vigoroso de outrora, guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, Argentina em situação caótica.

O grande problema é o desequilíbrio fiscal que se sair do controle levará ao círculo vicioso que trava o desenvolvimento. O Brasil produz déficits primários desde 2014. Há um buraco a ser corrigido no Orçamento de 2024. É verdade que a política fiscal não deve ser um samba de uma nota só. Julgo que o Congresso acertou ao priorizar o emprego e prorrogar a desoneração da folha salarial.

Há ainda um plano subjetivo ligado à formação de expectativas e ao ambiente de negócios. O Brasil precisa trabalhar cada vez mais segurança jurídica e estabilidade institucional. Sem isso, adeus desenvolvimento sustentado.

Mas o grande desafio está nas políticas sociais. E aí, é preciso um choque de ousadia, inovação e competência. Como aceitar os sofríveis níveis de desempenho de nossos estudantes? Como dormir tranquilo diante das cenas inacreditáveis nascidas da ousadia do crime organizado? Como banalizar o fato de quase metade da população não ter coleta de esgoto? Como ficar passivo diante da destruição de nossas florestas?

Os indicadores de 2023 não são ruins. No entanto, tudo o que não podemos é dormir em berço esplendidos e nos contentarmos com resultados ainda frágeis. Em tempos de polarização política radical é preciso cada vez mais construir consensos progressivos e ação eficaz em torno da agenda brasileira de desenvolvimento.

 

Ø  Lula rasga a fantasia que nunca esteve muito disposto a vestir

 

Foi na saideira, quando assessores do presidente já pediam para encerrar a entrevista, que Lula decidiu falar sobre a meta fiscal. Mais especificamente sobre a sua má vontade com o objetivo de chegar ao déficit zero em 2024.

O presidente não tergiversou sobre o motivo: ele não quer cortar gastos. De acordo com o raciocínio de Lula, há de se pensar no melhor para o país. E falar em controle de despesas é coisa do “mercado ganancioso”.

O problema é que a tal meta foi estabelecida pelo seu ministro da Fazenda com aval presidencial. Uma forma de acalmar investidores, trazer alguma perspectiva de esforço para controlar a trajetória da dívida pública e abrir espaço para o início da queda dos juros — principal problema a ser enfrentado, de acordo com diversas declarações do mesmo Lula ao longo do ano.

Há sempre duas formas de se abordar o ajuste fiscal. Pelo lado das despesas, cortando gastos até que eles encontrem o patamar das receitas. Ou pelo lado das receitas, aumentando as arrecadação de forma que ela dê conta dos gastos programados.

Como Lula nunca quis realmente controlar despesa alguma, restou ao seu ministro da Fazenda bolar um plano altamente dependente do aumento das receitas para tirar as contas do país do vermelho. Era preciso conciliar a vida real da economia ao desejo do seu campo político — e do seu chefe.

E aí veio o enrosco. Para colocar o projeto de pé, seria preciso aprovar um caminhão de leis complexas no Congresso. Para conseguir passar essas propostas, o governo teria de aumentar o seu apoio no Legislativo. Para ter base, Lula teria de acenar com cargos. Ele assim o fez e o Centrão então veio, prometendo ajudar em votações — mas nem todas — e cobrando pela liberação de emendas e recursos — leia-se mais gastos. Não nos esqueçamos que, ano que vem, é tempo de eleição.

Fernando Haddad e seu time já tinham feito as contas. Não ia dar para entregar o tal déficit zero. No mínimo, seria um trabalho dos mais duros pelas resistências e prazo curto para que tudo fosse votado. O prognóstico era ruim, mas a ideia era perder lutando.

Haddad pretendia usar a promessa da meta e o compromisso do governo em persegui-la para pressionar o parlamento a correr. Foi com esse espírito que o ministro esteve com Arthur Lira na última semana, pedindo pressa em votações e sugerindo atalhos para que as novas regras começassem a valer já no início do ano que vem.

A estratégia da equipe econômica ao longo do ano foi enviar projetos em série ao Congresso, buscando janelas para aprovar o que fosse possível. A jogada é manjada em Brasília: mira-se no aparentemente inalcançável para que se saia com, ao menos, alguma coisa em mãos. Mas, a dois meses do fim do ano, Haddad e seu time anteviam tempos duros e trabalham numa forma de atenuar o discurso, já que a meta de déficit zero parecia cada vez mais improvável. Aí veio Lula deixando claro que, em essência, nunca acreditou no plano do seu ministro.

É que, se o plano de passar projetos e elevar a arrecadação não desse certo, seria preciso bloquear despesas já no início do ano que vem — o chamado contingenciamento. Não precisava ser analista político dos mais astutos para antever que a ambiciosa agenda de mudanças na tributação poderia empacar no Congresso.

Antes mesmo de Haddad tentar a última investida, no entanto, Lula tratou de desarmar qualquer possível pressão em cima dos parlamentares. Se nem o presidente acha que é fundamental zerar o déficit, por que o Legislativo deve se preocupar?

Investidores, banqueiros e analistas poderiam levantar o cartaz do “eu já sabia”. O mercado nunca achou crível zerar o déficit público no ano que vem. Mas viu que o resultado ao fim pode ser pior do que se imaginava. É como gostava de dizer meu avô: de onde menos não se espera… aí que não sai nada mesmo.

·         Haddad evita comentar meta fiscal após falas de Lula sobre deficit zero

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, evitou responder sobre uma nova projeção da meta fiscal para 2024. Em coletiva de imprensa na manhã desta segunda-feira (30/10), Haddad foi indagado por jornalistas sobre declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de que o governo poderia não cumprir a meta de zerar o saldo das contas públicas em 2024 e preferiu não responder objetivamente.

“A minha meta está mantida”, disse Haddad, referindo-se ao propósito dele de manter o equilíbrio fiscal, mas não se referindo à meta de zerar o deficit fiscal em 2024. O ministro informou que Lula pediu uma reunião com as lideranças políticas no Congresso para conversarem sobre a situação fiscal do país. Somente depois dessa reunião, o governo vai anunciar novas medidas que busquem o equilíbrio fiscal.

Ao explicar as declarações do presidente, Haddad disse que Lula teve como base uma apresentação que ele mesmo havia mostrado, demonstrando as razões porque a arrecadação não cresce, mesmo com a elevação do Produto Interno Bruto (PIB).

“Não há, da parte do presidente, nenhum descompromisso. Muito pelo contrário, se ele não estivesse preocupado com a situação fiscal, não estaria pedindo apoio da área econômica para orientação das lideranças do Congresso", disse Haddad a jornalistas.

ministro citou a Lei Complementar 160/2017, que permitiu abater da base de cálculo Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e da Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL) os incentivos ficais dados pelos estados. A estimativa para este ano, segundo Haddad, é que o governo deixa de arrecadar R$ 200 bilhões por conta desse incentivo.

O ministro citou também uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), também de 2017, que retirou ICMS da base de cálculo do PIS/Cofins recolhido pelas empresas. “Estamos falando de muitas dezenas de bilhões de reais”, disse ele, alegando que todas essas medidas provocaram uma “erosão” na arrecadação dos tributos federais.

 

Ø  GOVERNO CORRE O RISCO DE ENCERRAR O ANO CERCADO POR GREVES

 

Movimentos sindicais e associações ligadas ao serviço público federal cogitam iniciar paralisações e greves a partir de novembro em decorrência da dificuldade do governo em oferecer propostas que atendam às demandas de reestruturação de carreiras e reajustes salariais. As categorias mobilizadas incluem tanto servidores de órgãos econômicos, como Banco Central (BC) e Receita Federal , quanto na segurança pública, com movimentações entre funcionários da Polícia Federal (PF).

“O governo pausou a mesa de negociação da Polícia Federal, os policiais estão indignados. Não existe mesa de negociação com a Receita Federal e o diálogo por lá é difícil. Com o Banco Central, eles tinham prometido uma reunião até o dia 23 de outubro e não cumpriram”, relatou o presidente do Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal), Fábio Faiad. Os três setores correm risco de encerrar o ano de 2023 em greve.

Os funcionários do BC são aqueles que se encontram em uma etapa mais profunda de protestos contra o governo contra a demora para uma reestruturação da carreira. Desde o mês de julho, os servidores ligados ao Sinal se encontram na operação-padrão (também conhecida como operação-tartaruga). Em setembro, aprofundaremos a prática, concentrando esforços no atraso para a implementação de novos mecanismos de transferência via PIX e na construção do Drex, moeda virtual equiparada ao Real.

Eles desativaram a criação de um sistema de retribuição por produtividade, a exigência de ensino superior para a carga de técnico e a transformação da carga de analista na carga de auditor. “Sem a reestruturação completa da carreira, os representantes preveem um desmantelamento da carreira de Especialista do BC, situação que vem se agudizando na última década, com reajustes abaixo da inflação e com as crescentes assimetrias em relação a carreiras congêneres”, alertou Faiad.

Na Receita Federal, o Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal (Sindifisco) iniciou na quinta-feira (26) uma agenda de protestos, que seguirão acontecendo em diferentes pontos do país até o dia 20 de novembro. “No dia 20, caso os pleitos da categoria não sejam atendidos, a greve será deflagrada”, alertou em nota o sindicato. Assim como no BC, os auditores da Receita se encontram na operação-padrão.

A pauta do Sindifisco é mais específica, e tem como item principal a aplicação dos recursos do Fundo Especial de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento das Atividades de Fiscalização (Fundaf), criado em julho pelo Ministério da Fazenda para, por meio de parte dos recursos obtidos no Conselho de Administração de Recursos Fiscais, garantir bônus de eficiência aos auditores fiscais.

Na PF, tanto policiais quanto servidores administrativos reivindicam a restrição da carreira, uma pauta elevada ainda na transição entre o antigo e o atual governo. Uma reunião estava prevista para acontecer junto com o Ministério da Gestão e Inovação no último dia 17, mas foi cancelada pelo próprio governo, que não conseguiu elaborar uma proposta a tempo.

Em resposta, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) e a Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) deram início a uma agenda de protestos, prevista para culminar em uma paralisação geral no dia 16. Apesar de não ter estabelecido um calendário de greve, a possibilidade segue em aberto, conforme declaração de Luciano Leiro, presidente da ADPF .

Uma mesa de negociação geral do governo com os sindicatos do serviço público está prevista para acontecer no dia 16 de novembro. Faiad conta que há um pouco de otimismo quanto ao saldo da reunião. “Há uma situação meio de pé de guerra. A polícia está brava, a Receita está brava e com greve já agendada”, ressaltou.

 

Fonte: Congresso em Foco/Agencia Estado

 

Halloween: a curiosa origem do Dia das Bruxas

Você sabe como surgiu o Dia das Bruxas, também conhecido mundialmente como "Halloween"?

É celebrado no dia 31 de outubro, principalmente nos Estados Unidos, mas, hoje em dia, comemorado em diversos outros países, inclusive no Brasil.

Hábitos como o de crianças se fantasiarem para sair de porta em porta atrás de doces, ou de espalhar pela casa enfeites e adereços "assustadores" como abóboras esculpidas e iluminadas, ou de participar de festas a fantasia, são cada vez mais populares.

No entanto, sua origem pouco tem a ver com o significado moderno que essa festa adquiriu.

·         De onde vem o nome do Halloween?

O Halloween tem suas raízes não na cultura americana, mas no Reino Unido. Seu nome deriva de "All Hallows' Eve".

"Hallow" é um termo antigo para "santo", e "eve" é o mesmo que "véspera". O termo designava, até o século 16, a noite anterior ao Dia de Todos os Santos, celebrado em 1º de novembro.

Mas uma coisa é a etimologia de seu nome, outra completamente diferente é a origem do Halloween moderno.

·         Como esta festa começou?

Desde o século 18, historiadores apontam para um antigo festival pagão ao falar da origem do Halloween: o festival celta de Samhain (termo que significa "fim do verão").

O Samhain durava três dias e começava em 31 de outubro. Segundo acadêmicos, era uma homenagem ao "Rei dos mortos". Estudos recentes destacam que o Samhain tinha entre suas maiores marcas a fogueira e celebrava a abundância de comida após a época de colheita.

O problema com essa teoria é que ela se baseia em poucas evidências além da época do ano em que os festivais eram realizados. A comemoração, a linguagem e o significado do festival de outubro mudavam conforme a região.

Os galeses celebravam, por exemplo, o "Calan Gaeaf". Há pontos em comum entre esse festival realizado no País de Gales e o Samhain, celebração predominantemente irlandesa e escocesa, mas há muitas diferenças também.

Em meados do século 8, o papa Gregório 3º mudou a data do Dia de Todos os Santos de 13 de maio - a data do festival romano dos mortos - para 1º de novembro, a data do Samhain.

Não se tem certeza se Gregório 3º ou seu sucessor, Gregório 4º, tornaram a celebração do Dia de Todos os Santos obrigatória na tentativa de "cristianizar" o Samhain.

Mas, quaisquer que fossem seus motivos, a nova data para esse dia fez com que a celebração cristã dos santos e a do Samhain fossem unidas.

Assim, tradições pagãs e cristãs acabaram se misturando.

·         Quando surgiu o Dia das Bruxas?

O Dia das Bruxas, o Halloween, que conhecemos hoje tomou forma entre 1500 e 1800.

Fogueiras tornaram-se especialmente populares nessa festa. Elas eram usadas na queima do joio (que celebrava o fim da colheita no Samhain), como símbolo do rumo a ser seguido pelas almas cristãs no purgatório ou para repelir a bruxaria e a peste negra.

Outro costume de Halloween era o de prever o futuro - previa-se a data da morte de uma pessoa ou o nome de seu futuro marido ou mulher.

Em seu poema Halloween, escrito em 1786, o escocês Robert Burns descreve as formas pelas quais uma pessoa jovem podia descobrir quem seria seu grande amor.

Muitos destes rituais de adivinhação envolviam a agricultura. Por exemplo, puxar uma couve ou um repolho do solo por acreditar que seu formato e sabor forneceriam pistas cruciais sobre a profissão e a personalidade do futuro cônjuge.

Outros incluíam pescar com a boca maçãs marcadas com as iniciais de diversos candidatos e "ler" cascas de noz ou olhar um espelho e pedir ao diabo para revelar a face da pessoa amada.

A comida era um componente importante do Halloween, assim como de muitos outros festivais.

Um dos hábitos mais característicos envolvia crianças, que iam de casa em casa cantando rimas ou entoando orações para as almas dos mortos. Em troca, elas recebiam bolos de boa sorte que representavam o espírito de uma pessoa que havia sido liberada do purgatório.

Durante o festival, as igrejas costumavam tocar seus sinos, às vezes por toda a noite. A prática era tão incômoda que o rei Henrique 3º e a rainha Elizabeth 1ª tentaram proibi-la, mas não conseguiram. Esse ritual prosseguiu, apesar das multas regularmente aplicadas a quem fizesse isso.

·         Como a festa chegou à América?

Em 1845, durante o período conhecido na Irlanda como a "Grande Fome", 1 milhão de pessoas foram forçadas a imigrar para os Estados Unidos, levando junto sua história e tradições.

Não é coincidência que as primeiras referências ao Halloween apareceram na América pouco depois disso. Em 1870, por exemplo, uma revista americana publicou uma reportagem em que o descrevia como feriado "inglês".

A princípio, as tradições do Dia das Bruxas nos Estados Unidos uniam brincadeiras comuns no Reino Unido rural com rituais de colheita americanos. As maçãs usadas para prever o futuro pelos britânicos viraram cidra, servida junto com rosquinhas, ou doughnuts em inglês.

O milho era um cultivo importante da agricultura americana — e acabou entrando com tudo na simbologia característica do Halloween americano.

Tanto que, no início do século 20, espantalhos — típicos de colheitas de milho — eram muito usados em decorações do Dia das Bruxas.

Foi nos EUA também que a abóbora passou a ser sinônimo de Halloween. No Reino Unido, o legume mais "entalhado" ou esculpido era o turnip, um tipo de nabo.

Uma lenda sobre um ferreiro chamado Jack que conseguiu ser mais esperto do que o diabo e vagava como um morto-vivo deu origem às luminárias feitas com abóboras que se tornaram o principal símbolo do Halloween americano.

A tradição moderna de "doces ou travessuras" também é americana. Há indícios disso em brincadeiras medievais que usavam repolhos, mas pregar peças tornou-se um hábito nessa época do ano entre os americanos a partir dos anos 1920.

As brincadeiras podiam acabar ficando violentas, como ocorreu durante a Grande Depressão, e se popularizaram de vez após a 2ª Guerra Mundial, quando o racionamento de alimentos acabou e doces podiam ser comprados facilmente.

Mas a tradição mais popular do Halloween, de usar fantasias e pregar sustos, não tem qualquer relação com os doces.

Ela veio após a transmissão pelo rádio, nos Estados Unidos, de uma adaptação do livro Guerra dos Mundos, do escritor inglês H.G. Wells, que gerou uma grande confusão quando foi ao ar, em 30 de outubro de 1938.

Ao concluí-la, o ator e diretor americano Orson Welles deixou de lado seu personagem para dizer aos ouvintes que tudo não passava de uma pegadinha de Halloween e comparou seu papel ao ato de se vestir com um lençol para imitar um fantasma e dar um susto nas pessoas.

Mas a esta altura, muitos já pensavam que, assim como no livro, a terra estava realmente sendo invadida por marcianos.

·         E quanto ao Halloween moderno?

Hoje, o Halloween é o maior feriado não cristão dos Estados Unidos. Em 2010, superou tanto o Dia dos Namorados quanto a Páscoa como a data em que mais se vendem chocolates. Ao longo dos anos, foi "exportado" para outros países, entre eles o Brasil.

Por aqui, desde 2003, também se celebra nesta mesma data o Dia do Saci, fruto de um projeto de lei que busca resgatar figuras do folclore brasileiro, em contraposição ao Dia das Bruxas.

Em sua "era moderna", o Halloween continuou a criar sua própria mitologia.

Em 1964, uma dona de casa de Nova York chamada Helen Pfeil decidiu distribuir palha de aço, biscoito para cachorro e inseticida contra formigas para crianças que ela considerava velhas demais para brincar de "doces ou travessuras". Logo, espalharam-se lendas urbanas de maçãs recheadas com lâminas de barbear e doces embebidos em arsênico ou drogas alucinógenas.

Atualmente, o festival conserva pouco de sua origem, mas, apesar de ter ganhado nova roupagem, dá oportunidade para que adultos brinquem com seus medos e fantasias.

Ele permite subverter normais sociais como evitar contato com estranhos ou explorar o lado sombrio do comportamento humano. Une religião, natureza, morte e romance. Talvez seja esse o motivo de sua grande popularidade.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Menopausa: como contornar as flutuações hormonais?

É preciso falar mais sobre a menopausa – pelo menos essa é a avaliação da Sociedade Alemã para a Menopausa, instituição que busca eliminar os tabus em torno do tema e colocá-lo na agenda dos formuladores de políticas de saúde.

Em 2021, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 26% da população feminina mundial tinha 50 anos ou mais. Isso significa que cerca de 1,3 bilhão atravessavam a menopausa ou já haviam passado por ela. Mas, afinal, o que acontece nessa fase da vida da mulher?

·         Quando começa a menopausa?

Para responder a esta questão é preciso, antes de tudo, esclarecer a terminologia, diz a ginecologista Anneliese Schwenkhagen. Radicada em Hamburgo, ela é especialista em endocrinologia ginecológica: os hormônios –  os principais agentes por trás da menopausa – são sua área de atuação.

A menopausa é definida como a última menstruação. De acordo com a Sociedade Alemã para a Menopausa, isso acontece em média entre os 51 e 52 anos de idade. Em casos raros, pode chegar por volta dos 40 anos.

Ela marca o ponto em que cessa a ovulação mensal, o que acarreta infertilidade. Mas a queda na fertilidade da mulher já começa durante a perimenopausa, que pode se anunciar muitos anos antes da menopausa.

O termo perimenopausa também se refere aos 12 meses após a última menstruação. Só depois desse período de um ano é que passa a se falar de pós-menopausa. O termo menopausa abrange quase todas essas fases juntas, e o momento em que ocorre, portanto, só pode ser determinado retrospectivamente.

·         Quais são os sintomas da menopausa?

Para cerca de dois terços das mulheres, a menopausa é uma transição desagradável: um terço reclama de sintomas graves.

Tudo começa na perimenopausa, devido sobretudo à atividade flutuante dos ovários. Hormônios estrogênicos, especialmente estradiol, são produzidos nos folículos ovarianos que amadurecem nos ovários. Durante a perimenopausa, o ciclo se torna mais irregular, ou estendendo-se ou com ausência de sangramento.

Isso provoca flutuações hormonais, que, por sua vez, levam a sintomas como sensibilidade mamária, retenção de líquidos, alterações de humor e distúrbios do sono. "Muitas mulheres nessa fase, que às vezes pode começar aos 40 anos, sequer sabem que seus sintomas podem estar relacionados às alterações hormonais do início da menopausa", explica Schwenkhagen.

Durante a menopausa, ex-pacientes de doenças psiquiátricas como depressão ou transtornos de ansiedade também podem sofrer uma recaída. "Estatisticamente falando, a menopausa é uma situação de alto risco para doenças psiquiátricas, devido à instabilidade hormonal, que torna o cérebro mais vulnerável." A enxaqueca é um dos males que podem piorar nessa fase.

Um dos principais sintomas da pós-menopausa são ondas de calor e suores. A pele e as mucosas ficam cada vez mais secas. "Isso afeta particularmente a vagina e a bexiga. Podem haver dores durante o sexo ou infecções do trato urinário recorrentes", diz Schwenkhagen. Muitas também reclamam de dores nas articulações. Tudo isso é reflexo de um nível constantemente baixo de estradiol – com os folículos esgotados, não há mais produção deste hormônio.

·         Como tratar a menopausa?

A terapia de reposição hormonal (TRH) pode aliviar muitos sintomas. Nela, o estradiol é prescrito na forma de comprimidos ou administrado através da pele por meio de géis, sprays ou adesivos. "Se o útero ainda estiver presente, aplica-se também a terapia com hormônio de corpo lúteo para proteger o revestimento uterino."

Segundo a ginecologista, a secura vaginal responde bem ao tratamento local com supositórios, comprimidos ou cremes contendo estrogênio. O método também pode reduzir o risco de infecções urinárias recorrentes.

Durante muito tempo as terapias hormonais não tiveram boa reputação. E, de fato, podem aumentar ligeiramente o risco de trombose e câncer de mama. Mulheres que já tiveram lesões pré-cancerosas ou câncer de mama não são, portanto, aconselhadas a passar por uma TRH. Por outro lado, a terapia hormonal também tem alguns efeitos positivos na saúde, e para Schwenkhagen e outros especialistas os benefícios superam os riscos.

Hoje em dia sabe-se, por exemplo, que a terapia de reposição hormonal iniciada logo após o último sangramento pode até ter efeito protetor sobre o sistema cardiovascular, aponta Schwenkhagen, e até reduzir o risco de diabetes. Esse efeito protetor adicional também se estende aos ossos, já que a falta de estrogênio tende a afetae negativamente a densidade óssea, aumentando o risco de osteoporose.

·         A menopausa traz benefícios?

Mas, para além de diversas afecções ao longo dos anos: há algo de positivo na menopausa? Os sintomas hormonais, afinal, muitas vezes coincidem com transições entre diferentes fases da vida – filhos que cresceram e estão saindo de casa, por exemplo. Isso, muitas vezes, coloca à prova relacionamentos de anos. "No trabalho, muitas oscilam entre o boreout e o burnout", ou seja: entre o tédio e a exaustão total.

Para Schwenkhagen, a menopausa pode ser vista como um ponto de virada, que as mulheres podem aproveitar para lançar um olhar sobre si mesmas e se redefinir. Um ponto de virada que exige um novo exame do próprio corpo e da saúde. Sim, mas e as queixas? Felizmente, garante a ginecologista, elas respondem bem aos tratamentos.

 

Ø  Perimenopausa: Sintomas podem começar aos 30 anos

 

Perimenopousa é uma condição caracterizada pelo período anterior à menopausa, marcada pelo fim dos anos reprodutivos que podem começar muito antes do esperado.

Para entender os diagnósticos da perimenopausa, especialistas da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, acompanharam mulheres e constataram que a irregularidade menstrual começa, em média, entre os 47 e 48 anos. No entanto, o estudo revelou que alguns sintomas podem surgir até mesmo na faixa dos 30 anos, deixando muitas mulheres sem saber que estão passando por essa fase.

Em entrevista à BBC, Nanette Santoro, especialista em obstetrícia e ginecologia da universidade, detalha os resultados do estudo, que observou mulheres entre 30 e 40 anos, que relataram sintomas claros da menopausa. “Isso está ocorrendo embora testes os objetivos, como contagem de óvulos, não pareçam mostrar que elas estão tão próximas disso”, afirmou à BBC.

·         O que é a perimenopausa?

Durante a perimenopausa, os níveis hormonais oscilam e, posteriormente, declinam, levando ao surgimento de novos sintomas e mudanças no corpo.

·         O que ocorre nesta fase?

Durante a perimenopausa, os ovários gradualmente reduzem a produção do estrogênio, um hormônio feminino fundamental.

Nos últimos um ou dois anos desta fase, a queda nos níveis de estrogênio se acelera, resultando em sintomas da menopausa. Embora geralmente comece por volta dos 40 anos, a perimenopausa pode ocorrer já aos 30 anos ou até mais cedo.

A duração média da perimenopausa é de 4 anos, mas para algumas mulheres, esse estágio pode durar apenas alguns meses ou se estender por 10 anos. A perimenopausa é oficialmente concluída quando uma mulher passa 12 meses sem menstruar.

Além disso, as mulheres podem experimentar diversas sensações, incluindo os sintomas clássicos da menopausa, como ondas de calor e secura vaginal.

·         Conheça os sintomas da perimenopausa:

Alterações menstruais;
Mudanças de humor;
Suores noturnos;
Fadiga;
Enxaquecas;
Problemas para dormir;
Ganho de peso;
Perda de densidade óssea;
Secura vaginal;
Irritação genital durante as relações sexuais.

 

Fonte: Deutsche Welle

 

Bíblia e avião: como atuam missionários para evangelizar indígenas na Amazônia

“Nós respeitamos os governos até o ponto em que eles falam contra a palavra de Deus. (…) A palavra de Deus [está] acima de tudo”. Embora pareça slogan político da extrema direita brasileira, a declaração é do missionário evangélico Andrew Tonkin, processado no Brasil por invasão de terras indígenas.

Colocar a religião acima das leis não é retórica exclusiva de Tonkin, mas um indício do que são capazes algumas denominações religiosas para evangelizar povos indígenas, principalmente na Amazônia.

Alguns missionários são pilotos e usam aeronaves próprias para percorrer longas distâncias. A maioria dessas organizações tem sede nos Estados Unidos e faz vaquinhas virtuais para financiar as ações, como a formação de pastores-pilotos e a tradução da Bíblia para o idioma nativo das comunidades. Algumas traduções, contudo, têm a qualidade questionada.

Esses grupos demonstram ainda especial interesse em alcançar povos isolados – uma violação à Constituição Federal e a tratados internacionais firmados pelo Brasil que pregam o respeito aos costumes e modos de vida dos povos originários.

Uma das regiões com maior assédio é o Vale do Javari, região com a maior concentração de povos isolados no país. “A gente observa uma presença cada vez maior [de missionários evangélicos], de diferentes doutrinas”, afirma Eliesio Marubo, procurador jurídico da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).

Embora os grupos atuem ali desde os anos 1960, Eliesio conta que foi durante o governo de Jair Bolsonaro que se intensificaram a presença dos religiosos e as investidas a indígenas na região. “Eles buscam sobretudo contato com alguns indígenas que moram na cidade, oferecendo dinheiro e vantagens”, relata.

Para controlar a situação, a Univaja entrou em 2020 com ação na Justiça Federal para pedir a expulsão de missionários que estavam fazendo operações em busca do povo Korubo, considerado de recente contato.

Entre os acusados está Andrew Tonkin, da missão Frontier International, que falou com a Repórter Brasil e O Joio e O Trigo por e-mail. Ele diz agir guiado pelo Espírito Santo e que, embora esteja atualmente no Iraque, mantém um programa de rádio com suas pregações para os indígenas.

Questionado se tentou acessar povos isolados, ele respondeu: “Nunca tive o privilégio de conhecer nenhum”. Apesar de não confirmar a tentativa de evangelização de indígenas isolados e afirmar que respeita as autoridades, ele não descartou agir ilegalmente, se a lei estiver “contra a palavra de Deus”.

“Acredito que Deus tenha colocado os governos e nós obedecemos às leis dos seres humanos. Respeitamos os governos e obedecemos até o ponto em que eles ensinam ou falam contra a palavra de Deus. Nós colocamos Jesus Cristo e a palavra de Deus acima de tudo. É nossa autoridade final”, declara. De avião

Além de Tonkin, a Univaja também processou o missionário-piloto Wilson Kannenberg. Ele é ligado à norte-americana Asas de Socorro, uma organização cristã missionária que fornece apoio logístico, incluindo aviões, para áreas remotas. Kannenberg teria usado um hidroavião para acessar o Vale do Javari e tentar burlar a fiscalização que impede a entrada no território.

Segundo a Univaja, a Asas de Socorro não faz apenas “missões humanitárias”, mas promove invasões de terras indígenas em busca de povos isolados.

A Asas tem sede em Anápolis, Goiás, cidade que funciona como centro de operações para diversas organizações de missionários que atuam na Amazônia. A entidade subsidia a formação de pilotos e mecânicos, o que a torna atraente também para quem não tem interesse na atividade religiosa.

A Asas se recusou a responder às perguntas enviadas pela reportagem. Em uma nota assinada por uma advogada, negou participação em qualquer atividade ilegal.

Outro citado na ação movida pela Univaja e aceita pela Justiça Federal em Tabatinga (AM) é Josiah Mcintyre, da Ethnos360 – uma organização missionária americana ligada à Missão Novas Tribos do Brasil.

Durante a pandemia, missionários da MNTB realizaram sobrevoos de helicóptero na TI Vale do Javari, sem autorização da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas). Segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo, o helicóptero Robinson R-66 teria sido adquirido no fim de 2018, com doações de simpatizantes no site da entidade nos Estados Unidos. A MNTB também foi processada pela Univaja. Os três missionários e a MNTB foram proibidos de entrar no território pela Justiça.

“É curioso como muitos cientistas batalham e não conseguem autorização para passar um ano na floresta e eles [missionários] permanecem por décadas sem [sofrer] interferência nenhuma”, analisa o linguista Daniel Everett, ex-missionário norteamericano que hoje é ateu e crítico dessas denominações religiosas.

Kannenberg foi localizado pelas redes sociais, mas não respondeu aos pedidos de entrevista. Josiah Macintyre não foi localizado pela reportagem.

Procurada, a MNTB disse, em nota, que atua “dentro da legalidade, em respeito à lei, aos povos indígenas e aos seus direitos constitucionais de autodeterminação”. Afirmou ainda que não colocou em risco os povos indígenas do Javari durante a pandemia e que deixou a região antes mesmo da ordem judicial.

•        Bíblia sem ambiguidade

Após desembarcarem no país, os missionários aprendem os idiomas dos povos originários, produzem dicionários e gramáticas e usam esse conhecimento para traduzir a bíblia e pregar para os indígenas em suas línguas nativas. Porém, sutilezas do livro sagrado acabam ficando de fora das traduções, avalia Everett.

“A bíblia é um livro bastante ambíguo e, na tradução, o missionário já tira essa ambiguidade, para adaptar o texto a sua própria ideologia, muito conservadora e ligada ao discurso da extrema-direita cristã”, explica o ex-missionário.

Utilizado desde os anos 1960, esse método continua sendo largamente empregado pelos missionários. O Ethnos360 mantém arrecadações abertas para financiar traduções do livro sagrado dos cristãos para os idiomas de povos originários de diferentes localidades do planeta.

No site da instituição, é possível doar dinheiro diretamente para o trabalho de cada um dos missionários, mesmo que a página não especifique o que fazem e o município onde atuam. Só no Brasil, atuam mais de 50 missionários.

Outro site ligado às missões estrangeiras é o Joshua Project. A entidade tenta atrair ao menos 47 religiosos para atuar no Brasil, com mapas de locais onde as atividades devem ser desenvolvidas.

Entre os públicos alvos da pregação no país estão judeus, islâmicos e outras comunidades estrangeiras. Mas o grande foco são os indígenas.

 “A ideologia levada pelos missionários é reacionária e ligada aos valores dos Estados Unidos”, afirma Everett. Ele lembra que boa parte desses religiosos apoiava a ditadura militar e, mais recentemente, Bolsonaro. E recebia benefícios em troca, como a permanência nos territórios indígenas.

É o caso do pastor Steve Campbell, da igreja Greene Baptist Church, cuja família atua há 60 anos entre os Jamamadi, em Lábrea (AM). Levado pelos pais, também missionários, em 1963, ele fala a língua dos indígenas e convive com eles desde criança.

Segundo o indigenista Daniel Cangussu, um dos principais impactos causados pela presença do missionário é o conflito geracional. Campbell apoia lideranças mais jovens, que têm melhor domínio do português e do uso de tecnologias, o que contribui para deslegitimar os mais velhos.

“Há um efeito grave nas aldeias, pois os mais velhos perdem a credibilidade. Isso é bem sério, eles têm se afastado entre si e isso desorganiza bastante a situação interna. É algo que a gente nunca viu acontecer”, explica Cangussu.

Em 2018, o missionário Campbell foi expulso pela Funai da Terra Indígena Jarawara/Jamamadi/Kanamanti, após liderar uma expedição que entrou, sem autorização das autoridades, no território do povo isolado Hi-Merimã – o que é proibido. Por causa desse episódio, Campbell passou a ser investigado pelo Ministério Público Federal.

O imbróglio vem prejudicando o atendimento à saúde dos Jamamadi, já que as lideranças atuais dizem que servidores da Funai e da saúde indígena só poderão entrar no território novamente após o retorno do missionário.

Dentre outros motivos, Campbell consolidou sua influência entre os Jamamadi por conseguir aviões e helicópteros para pessoas que necessitavam de transporte para hospitais na cidade, em casos de emergência.

Na avaliação de Everett, é preciso restringir a presença dos missionários das terras indígenas. Porém, isso demanda investimentos em profissionais de saúde e voos de urgência, por exemplo.

“O Brasil já tentou diversas vezes expulsá-los dos territórios indígenas sem sucesso, porque eles ignoraram as decisões. E eles não vão sair apenas porque o governo falou que eles não podem ficar lá. Esses missionários acreditam que a lei de deus está acima das leis de qualquer país”, finaliza.

 

       Leia os posicionamentos do missionário Andrew Tonkin e da MNTB sobre evangelização de indígenas

 

•        O senhor está no Brasil atualmente? No Vale do Javari? Pretende retornar à região?

Andrew Tonkin: Estou servindo ao Senhor Jesus Cristo aqui no Iraque. Estou sempre disponível para seguir Jesus em obediência e ir aonde ele me guia. Por enquanto, a obra está aqui no Oriente Médio. Mas um grande pedaço do meu coração ficou no Brasil. E até hoje estou envolvido na pregação e ensinamento da palavra de Deus pela rádio. Se você estiver lá, você pode encontrar nosso programa na Rádio Rios FM, em Benjamin Constant (AM).

•        O senhor sabe que está sendo alvo de uma ação judicial pedida pelos povos indígenas do Vale do Javari? A que atribui esta ação?

Sim. Não são “povos indígenas do Vale do Javari” que estão contra a palavra de Deus. São algumas pessoas que estão influenciadas por outras. Realmente os povos indígenas me conhecem bem e sabem que eu prego viver a mensagem de Jesus Cristo para a glória dEle. Esta mensagem de Jesus Cristo é o relacionamento com Deus através de Jesus Cristo pelo novo nascimento do Espírito Santo. Esse relacionamento é real e vivo, trazendo paz e verdadeira alegria. Jesus disse em João 3:3. Na verdade, te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Portanto eu prego essa mensagem de Jesus Cristo para todos os povos até você. Não importa a nacionalidade, cor, sexo, ou raça das pessoas; Deus é misericordioso dando todas essas oportunidades de arrependimento. Ele me deu essa oportunidade e, pela sua graça, Ele me salvou. Estou totalmente diferente do que era. Tudo mudou. Jesus transformou minha vida por dentro e por fora. Essa mudança não veio da capacidade humana, mas de Deus a quem estou muito grato.

•        Junto com o senhor, são alvos dessa ação os missionários Wilson Kannenberg e Josyah Mcintyre. O senhor os conhece? Trabalha junto com eles? Qual a relação entre os senhores?

Sim eu conheço eles e posso dizer que são homens honestos, que amam Deus e todas as pessoas. Porém temos trabalhos de Deus que são diferentes entre uns e outros. Mas trabalhamos com o mesmo pensamento; que todas as pessoas são dignas de respeito e oportunidade. E isso é principalmente conhecer a verdade que só há em Jesus Cristo. Até o próprio Jesus falou: eu sou o caminho a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai se não por mim (João 14:6).

•        Quanto tempo o senhor permaneceu no Vale do Javari? Qual o trabalho que desenvolveu lá e junto a quais comunidades?

Nosso Ministério no Brasil durante esta última década era com todos os povos e raças, como brasileiros, colombianos, peruanos, e os povos indígenas. Alguns indígenas são peruanos, mas o resto é cidadão brasileiro. A gente prega o evangelho de Jesus Cristo para todos esses povos. E ensina como andar com Cristo para que eles sejam maduros na fé. Tinha programas de alfabetização, programa de jovens, alimentação, e muito mais. Sempre trabalhei em parceria com a igreja batista Cristo é vida. O trabalho era mais concentrado junto ao povo Marubo, da aldeia Boa Vista.

•        Caso não esteja no Brasil, o senhor tem planos de voltar? Para a mesma região?

Sim, gostaria de voltar um dia se Deus quiser. Eu sei que é difícil para alguém que não experimentou a salvação de graça e a obra redentora de Jesus Cristo de entender essa vida altruísta de sacrifício. Especialmente porque um americano não está na América seguindo o sonho americano ganhando muito dinheiro vivendo a boa vida viajando por boas estradas, carros e boas coisas. O sonho americano tornou-se um pesadelo para mim. Minha vida mudou radicalmente para melhor por causa de Jesus Cristo. Fui resgatado de mim mesmo por Jesus. Libertado do pecado e abraçado pelos braços amorosos de Cristo. Recebi um propósito de viver muito maior do que eu, para ser uma parte no plano de Deus.

•        O senhor tentou acessar povos indígenas isolados? Recebeu autorização de algum integrante do governo para isto? Qual era o objetivo de suas missões junto a estes povos?

Nunca tive o privilégio de conhecer nenhum. Prego o evangelho de Jesus Cristo a todas as pessoas, não me limitando apenas aos indígenas. A mensagem de Jesus é real, verdadeira e dá esperança e liberdade em todas as áreas da vida e, sem dúvida, inclui as pessoas que estão nas correntes do pecado.

•        Caso tenha participado destas viagens, como elas eram organizadas? Havia indígenas que colaboravam no acesso aos isolados?

Não tenho planos de entrar em contato com ninguém além daqueles que o Senhor Jesus coloca em meu caminho. Encontro diariamente pessoas de todas as raças e, sem desculpas, tenho a honra e o privilégio de participar do trabalho do Senhor em compartilhar a mensagem de boas novas de Jesus Cristo.

•        Como foi o seu chamado para participar das missões? Na sua opinião, um governo pode proibir missionários estrangeiros de acessarem povos de seu país? Por quê?

Meu chamado foi descoberto pela oração, pedindo a Deus para usar a minha vida. Minha vida foi mudada para sempre pela graça de Jesus Cristo. Eu experimentei a verdadeira salvação e meus pecados foram perdoados para sempre. É a nova vida, mudada 100% de dentro para fora. A fonte da verdadeira felicidade está em Jesus Cristo. Nem sempre fui assim. Eu buscava fama e fortuna do sonho americano. Aos 24 anos, já tinha um emprego sólido e ganhava bem. No entanto, ainda havia um vazio lá dentro. Tentei preencher esse vazio com muitas coisas. Novos bens materiais, carros etc, mas sem sucesso. Você vê que esse vazio na minha vida era um vazio do tamanho de Deus, que só pode ser preenchido pelo próprio Deus. Depois de ouvir o Evangelho pregado, algo se agitava dentro de mim para procurar mais. Procurar e descobrir que minha vida tinha um propósito nesta terra mais do que tentar viver para mim e agradar a mim mesmo. E pela graça de Deus encontrei esse propósito quando Jesus Cristo me redimiu em si mesmo e me chamou de filho, apesar de todo o mal que fiz no passado. O sacrifício de Jesus Cristo e a cruz do sofrimento cruel e do derramamento de puro sangue justo foi o sacrifício que pagou a dívida que eu havia adquirido pelo meu próprio pecado. Sou um homem mudado. Essas coisas no passado se foram. Eu costumava desejar o errado e a escuridão, mas agora não os desejo mais. Meus desejos mudaram ao dar minha vida, meus planos, meu tudo a Jesus. Tudo muda. Onde antes havia ódio, agora há amor. Onde havia orgulho, agora há humildade. Onde havia ganância, agora há generosidade. Onde havia egoísmo, agora há doação de si mesmo. Jesus Cristo é a Resposta. Então acredito que Deus tenha colocado os governos e pela a palavra de Deus e nós obedecemos às leis dos seres humanos. Respeitamos os governos e obedecemos até o ponto que eles ensinam ou falam contra a palavra de Deus. Nós colocamos Jesus Cristo e a palavra de Deus acima de tudo. É nossa autoridade final.

•        Como seu trabalho em missões lhe trouxe para o Brasil, mais especificamente para a Amazônia? O que o senhor aprendeu com este convívio com os indígenas brasileiros?

Simplesmente guiado pelo Espírito Santo. Ele é nosso capitão e mestre. E sabe muito melhor do que nós para onde ir. Uma coisa que eles eu aprendi com eles é que as opiniões de outras pessoas não mudam o que você já sabe ser a verdade.

<<<<<< Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB)

A Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB) comparece para trazer a realidade dos fatos apontados por V.S.ª.

Primeiramente, ressaltamos que a MNTB atua sempre dentro dos quadrantes da legalidade, em respeito à lei, aos povos indígenas e aos seus direitos constitucionais de autodeterminação.

Dito isso, quanto ao processo movido pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari – UNIVAJA, em trâmite na Vara Federal Cível da SJ de Tabatinga/AM, contextualizamos que essa foi proposta pela UNIVAJA no intuito de que quaisquer pessoas estranhas ao convívio dos povos do Vale do Javari fossem afastadas daquela região por ocasião da pandemia da Covid-19, que há pouco se instalara no Brasil.

Ora, foi estritamente nesse contexto que o juízo deferiu medida cautelar para não ingresso de pessoas naquela região, e não somente os(as) missionários(as) da MNTB. Todavia, justamente preocupando-se com a saúde e bem-estar dos povos do Vale do Javari, antes mesmo da referida decisão, a MNTB já havia suspendido sua atuação no local.

Tão é verdade o que se afirma que, nesta mesma ação judicial, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas – FUNAI realizou perícia in loco nas comunidades em questão e constatou que os povos da região do Vale do Javari, em especial os Marubo, têm profundo apreço pela MNTB, desejam a retomada de suas atividades no local e ficaram profundamente consternados com a ação proposta pela UNIVAJA, que tolheu seu direito à autodeterminação.

Sobre os demais questionamentos suscitados, temos a dizer que a MNTB é uma instituição séria, fundada em 1953, nacionalmente reconhecida por sua atuação ímpar e tem como sua alma mater a atuação eclesiástica, a qual se cumpre por meio da evangelização e do trabalho missionário – sempre dentro dos ditames legais conferidos pela Constituição Federal aos templos de qualquer culto. A MNTB nunca colocou em risco a vida e/ou a integridade física de quaisquer povos, nem jamais colocará.

Por fim, pontuamos que tomaremos as medidas cabíveis frente a quaisquer desinformações, fake news ou inverdades publicadas sobre a MNTB, inclusive, com respaldo na Lei 7.716 de 1989, que tipifica criminalmente a discriminação ou preconceito em razão da religião.

E, sem mais para o momento, seguimos à disposição para eventuais esclarecimentos que se fizerem necessários.

 

Fonte: Reporter Brasil/O Joio e o Trigo