sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Rio: o espantoso controle dos grupos armados sobre a cidade

Um novo estudo da UFF aponta: milícias e facções já controlam ou influenciam 31% da cidade. População destas áreas perde acesso a empregos dignos, escolas e equipamentos de Saúde. Operações espetaculosas matam e atraem holofotes — mas eternizam o problema...

Para entender o fenômeno da ascensão dos grupos armados que passaram a fazer parte do cotidiano de boa parte da população do estado do Rio de Janeiro, em especial da capital fluminense, é preciso ir além da ótica restrita que vê a questão apenas como um tema da Segurança Pública, embora este seja o seu lado mais visível. O crescimento dessas organizações envolve dinâmicas próprias, fatores sociais, econômicos e políticos e uma necessidade de resposta por parte do Estado que atue em diversas frentes e de forma coordenada, o que só será possível a partir de um esforço de compreensão dessa realidade.

A atualização do Mapa Histórico dos Grupos Armados, estudo produzido pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pelo Instituto Fogo Cruzado, traz elementos importantes a respeito da forma de atuação desses grupos e sobre como ela vem se modificando de acordo com o contexto. O crime organizado, segundo o levantamento, passa por um processo de reorganização territorial com o avanço da violência armada, no qual agora se adotam de forma mais efetiva métodos de conquista de território quando antes o principal método adotado era o da chamada colonização. Mas não é em qualquer lugar que o crime organizado se estabelece.

Se o estudo aponta que, em 2024, quatro milhões de moradores da cidade do Rio de Janeiro estavam sob controle ou influência de grupos armados — percentual que equivale a quase 35% da população carioca —, existe uma disparidade gritante de renda e composição racial entre territórios sob controle dessas organizações e os demais. O crime não apenas se aproveita da pobreza e da exclusão social como é um fator que ajuda a perpetuar essas condições.

Nas áreas sob controle, a renda média per capita é de R$ 1.267 na capital e R$ 1.121 na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ), ambas abaixo do salário mínimo nacional, de R$ 1.518. Já nos territórios que não estão sob controle armado, a renda média alcança R$ 3.521 na capital, uma diferença quase três vezes maior, e R$ 1.658 na Região Metropolitana, quase três vezes mais do que entre aqueles que vivem sob controle armado. Em relação ao recorte racial, a desigualdade se repete. As áreas sob controle de grupos armados na Região Metropolitana têm composição média de 69,1% de pessoas não brancas — somadas pretas, pardas e indígenas — contra 55,2% nas áreas não controladas. O estudo aponta tratar-se de um padrão geral recorrente quando se observa, por exemplo, a própria capital, a Baixada Fluminense e o Leste Fluminense, assim como as zonas Sul, Central, Norte e Oeste.

Diante disso, o controle territorial precisa ser entendido como parte do aprofundamento das dificuldades associadas à pobreza e ao racismo, afetando em escala maior os grupos historicamente já vulnerabilizados. “A abordagem do controle territorial armado exige, portanto, uma atenção específica e a integração das dimensões de renda e raça na compreensão do fenômeno para melhor entendimento de como a construção social das desigualdades está estreitamente relacionada às dinâmicas de controle e territorial”, sustentam os pesquisadores.

<><> Diferença entre controle e influência

A pesquisa destaca ainda as formas de atuação dentro dos territórios e de que forma os grupos armados conseguem avançar e crescer, adotando uma distinção conceitual entre “controle” e “influência”.

Para se caracterizar o controle exercido por grupos armados em relação aos territórios e à população, é preciso atender a três condições. A primeira diz respeito à extração econômica sobre diferentes mercados que fazem parte dos recursos territoriais e populacionais. Já a segunda se relaciona à capacidade de intervir e/ou definir normas de conduta e padrões de comportamento, enquanto a terceira é a utilização da força para fazer valer as duas condições anteriores.

O conceito de influência trabalhado pelos pesquisadores tem como referência as mesmas três condições que definem o conceito de controle, mas, em áreas e contingentes populacionais específicos, essas características não são encontradas de forma integral ou são irregulares, o que constituiria uma espécie de “controle insuficiente”, não exercido de forma estável ao longo do tempo.

A distinção é importante porque os impactos para a comunidade também diferem se ela está sob controle ou influenciada por um grupo armado. “O empreendedorismo (violento ou não) muitas vezes é acompanhado de práticas monopolísticas, que fazem com que a população tenha acesso a serviços e mercadorias mais caras, como é o caso do botijão de gás, ou de qualidade bastante duvidosa, como no caso do transporte alternativo”, explica o relatório. “A presença, o controle social e especialmente o uso da força violam direitos civis e políticos, como, por exemplo, a livre expressão, religião, associação, o direito de ir e vir, à proteção, dentre outros. A distinção entre controle e influência permite capturar com maior acurácia a diferença entre os territórios onde a população sofre esses impactos de forma integral e regular ou apenas parcialmente e/ou de forma intermitente.”

Outra diferença importante do ponto de vista conceitual, e que ajuda a compreender a dinâmica dos grupos armados, é a forma de expansão do controle territorial e populacional exercido por eles, que pode se dar por colonização ou por conquista. A colonização, como destaca o relatório, é um processo de expansão realizado por meio da imposição do controle territorial e populacional armado em áreas anteriormente não controladas por outro grupo, geralmente locais com baixa densidade populacional, de urbanização recente e muitas vezes localizados nas fronteiras urbanas.

“Nesses espaços, a expansão dos grupos armados assumiria um caráter extensivo, reproduzindo uma lógica de ocupação que antecede ou acompanha o crescimento populacional, residencial, comercial e da infraestrutura urbana (serviços e equipamentos urbanos). Dessa forma, o grupo armado pode atuar como ‘agente de organização territorial’, controlando a venda de lotes, a construção imobiliária e a oferta de serviços e equipamentos de infraestrutura urbana”, destacam os pesquisadores. Em suma, o crime organizado assume nesses locais diversas funções estatais, inclusive a de “planejamento urbano”. Não surpreende, diante disso, a relação íntima que muitas vezes esses grupos passam a constituir com parte da classe política e também com a elite econômica, em especial o setor imobiliário.

Diferentemente da colonização, a conquista refere-se ao movimento de expansão em que existe a substituição de um grupo que controlava determinado território e população por outro. Ocorre, por exemplo, em áreas de alta densidade populacional, onde a ocupação já está consolidada, os serviços e equipamentos já se encontram instalados e a atividade econômica é mais complexa. “A expansão, aqui, é intensiva, possivelmente assentada na capacidade de impor a cobrança de taxas ilegais e informais sobre a economia popular, sobretudo aos comércios, mas também aos moradores. No que diz respeito às dimensões urbanas, a imposição de influência ou controle será feita de forma mais coercitiva, fazendo uso da força armada para impor novas lideranças e monopólios econômicos em substituição às lideranças e empresas que atuavam na área e/ou subordinando-as às suas práticas extorsivas e modos de atuação”, pontua o relatório.

<><> Expansão das milícias e domínio das facções

As atuações em termos de colonização e conquista ajudam a diferenciar o modus operandi de milícias e facções e também como esse tipo de atuação tem mudado nos últimos anos. De acordo com o relatório, no período de 18 anos, de 2007 a 2024, a área submetida a algum tipo de domínio armado cresceu 130%. O Comando Vermelho domina atualmente 47,5% desses territórios controlados, enquanto as milícias mantêm maior extensão territorial.

Em 2024, as milícias controlavam ou influenciavam 49,4% das áreas sob o domínio de grupos armados, o que corresponde a 201 km². Mas, quando considerado apenas o controle territorial, ou seja, aquele exercido de forma mais efetiva e estável, o Comando Vermelho conta com 47,5% dos territórios controlados, aproximadamente 150 km², sob seu domínio. Contudo, entre 2007 e 2024, os grupos milicianos foram as organizações armadas que apresentaram maior crescimento, aumentando em 315% (103 km²) os territórios sob seu controle.

O estudo aponta que a capital fluminense possui a maior proporção de territórios e população sob controle ou influência de grupos armados, ultrapassando o Leste Fluminense a partir de 2015. E isso se relaciona com a expansão das milícias, que detêm sua hegemonia na cidade, principalmente na Zona Oeste, que abarca 65% da superfície territorial urbanizada habitada do município e 2.964.400 habitantes — 49% da população total da cidade. Em todas as outras zonas (Norte, Sul e Centro), a presença do CV é central. Os números da pesquisa mostram, porém, que o poder das milícias vem diminuindo após anos de expansão desenfreada, e o crime organizado mudou de estratégia, adotando a conquista violenta de áreas já ocupadas.

Há uma distinção importante também no domínio das milícias e de outras facções, em particular o Comando Vermelho, quando são analisados os tipos de urbanização dessas áreas: se são de favela, ou seja, ocupação irregular com padrão urbanístico precário e falta ou má qualidade de serviços públicos essenciais; ou se são territórios de urbanização regular, designados em geral pelo termo “asfalto”. Em 2024, 59,9% das áreas controladas por milícias eram de asfalto, enquanto 73,9% das áreas controladas por facções do tráfico de drogas eram de favelas.

A partir desses dados, os pesquisadores buscaram explicar o fenômeno da expansão miliciana. “Como hipótese, poderíamos sustentar que o modelo de atuação política e econômica das milícias, centrado na exploração de mercados legais e ilegais de bens e serviços urbanos e na cooptação de atores estatais, é mais impactado pelas políticas de Estado, estagnando-se no período da CPI das milícias [2008], expandindo em períodos de baixa coerção e de grandes investimentos em infraestrutura na Zona Oeste e retraindo após a deflagração de uma série de operações repressivas lideradas pelo Gaeco/MPRJ. Já as facções têm atuação mais ostensiva, que necessita maior defesa bélica de territórios e população, e sua expansão não é afetada pelas políticas repressivas que lhes são dirigidas, centradas em operações policiais”, concluem os pesquisadores. Assim, embora tenham impacto midiático, operações como a Contenção, deflagrada em 28 de outubro nos complexos da Penha e do Alemão, com 122 mortos, não alteram o quadro de domínio de organizações criminosas.

O estudo aponta ainda para outra distinção entre os grupos milicianos e as facções, relacionada à forma de controle e influência. “A hegemonia das milícias no que se refere à influência territorial e populacional indica que a ascendência associativa e política das milícias necessita de menos intensidade para se realizar, mostrando-se capaz de praticar a extração de recursos de territórios e população que não controla efetivamente, e diferindo em relação às facções do tráfico, que dependem do controle armado ostensivo sobre territórios e população para operar a extração de recursos”, pontuam.

“Esse modelo político e econômico das milícias, contudo, se mostra mais vulnerável às ações que desmantelam a rede clientelista que a sustenta para conseguir realizar as mediações da implementação de seus negócios e com a política institucional. A influência tem vantagens de ganho de escala econômico e político, mas também apresenta vulnerabilidades, por ser mais sensível a mudanças. O controle, tal como realizado por facções, é mais estável; contudo, depende de mais tempo para se expandir por ser uma estrutura mais custosa de ser mantida”, pontuam os autores do levantamento.

Em função do diagnóstico de amplo domínio de organizações criminosas, o Estado terá que definir se quer realmente encontrar soluções efetivas ou se vai perpetuar um modelo que, como aponta o estudo, consolida um quadro de desigualdade no qual os mais vulneráveis são duplamente vítimas: das organizações criminosas e dos próprios agentes estatais, cuja ação repressiva, além de ineficaz, traz danos severos a todos. As políticas públicas precisam ser integradas em suas diferentes instâncias e dimensões, e não se deve confundir a urgência da situação com imediatismo irresponsável. Repetir a receita de sempre não fará com que o resultado seja outro.

 

Fonte: Por Glauco Faria, em Outras Palavras

 

A ESTÉTICA DA SUBMISSÃO: Tradwives e a performance da feminilidade conservadora

O movimento das tradwives (traditional wives, ou mulheres tradicionais) tem ganhado cada vez mais visibilidade, sobretudo nas redes sociais, onde influenciadoras compartilham rotinas centradas na dedicação ao marido, à maternidade e ao lar. Mais do que uma escolha de estilo de vida, o fenômeno resgata um passado marcado pela rígida divisão de papéis de gênero e pela valorização da família nuclear como modelo único. A performance, construída por meio de discursos, conselhos de “feminilidade” e uma estética que associa obediência à elegância, traduz uma dinâmica cultural que se conecta diretamente ao avanço do conservadorismo contemporâneo.

A ascensão desse fenômeno não se explica apenas pelo apelo “nostálgico”, mas pelo diálogo direto com projetos políticos ultraconservadores em diversas partes do mundo. Partidos e lideranças da extrema direita têm investido na retórica da “restauração da ordem” e na defesa dos “valores tradicionais”, apresentando-se como barreiras às políticas de equidade de gênero e à autonomia reprodutiva. Nesse contexto, as tradwives operam como peças de legitimação simbólica: suavizam os mecanismos de ação do conservadorismo ao transformá-los em um ideal de vida doméstico, feminino e aparentemente inofensivo.

É nesse contexto que a imagem de Ivanka Trump, durante a posse de Donald Trump em 20 de janeiro de 2025, ganhou enorme repercussão. Vestida com um conjunto monocromático verde e apresentando-se de forma sóbria, Ivanka evocou comparações imediatas com a estética de O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), obra distópica de Margaret Atwood que retrata um regime teocrático e totalitário nos Estados Unidos. A semelhança com as Esposas – mulheres casadas com os Comandantes, que sustentam e legitimam o sistema de exploração das Aias – foi vista como um gesto carregado de simbolismo político.

Como destacou Bleiker, as imagens visuais são performances que circulam politicamente e, por isso, tornam-se importantes instrumentos na “guerra das imagens”, sendo capazes de moldar opiniões, percepções e influenciar debates. Assim, a fotografia de Ivanka não pode ser compreendida como uma escolha casual, mas como parte de uma performance que traduz a estética da feminilidade conservadora. Sua presença encarna o mesmo espírito que sustenta o movimento das tradwives: a legitimação de papéis de gênero rígidos, ocultada pelo discurso da elegância e disciplina. Ao mesmo tempo em que desperta admiração em setores conservadores, essa estética também funciona como instrumento de naturalização de retrocessos em relação aos direitos das mulheres.

O atual avanço do movimento dialoga diretamente com o momento pelo qual países do mundo vivem, em especial o Brasil, com o avanço de diversas pautas conservadoras, e por vezes retrógradas, que parecem querer suprimir direitos conquistados por minorias durante décadas de luta.

Um dos argumentos para o avanço desse fenômeno é a percepção de que essas mulheres escolheram a família ao invés do feminismo. No entanto, essa ideia não encontra respaldo na realidade, tendo em vista que, como prega Beauvoir, o feminismo busca libertar a mulher das condições sociais e simbólicas que a colocam em posição de subordinação e subalternização. Assim, o feminismo não impõe um modelo único de vida, mas defende a autonomia da mulher para decidir o que deseja para si, seja construir uma carreira, dedicar-se à família ou conciliar ambas as escolhas, até porque, trabalho doméstico também é uma forma legítima de trabalho.

Ademais, outro ponto relevante é que, no cenário econômico-social atual, optar por não trabalhar fora é uma realidade acessível a poucas mulheres, devido principalmente às limitações financeiras. Segundo dados do IBGE, a renda média mensal da população brasileira é de R$ 3.057,00 (três mil e cinquenta e sete reais), sendo que as mulheres ganham, em média, 20,9% a menos que os homens. Entre as mulheres negras, a desigualdade é ainda mais acentuada: elas recebem menos do que os homens, independentemente da raça ou etnia, e também menos que as mulheres brancas, com uma diferença que pode chegar a 110%.

O Brasil possui uma população majoritariamente feminina, na qual a maioria das mulheres é negra e está – historicamente – alocada em sub-empregos, trabalhos informais ou trabalhos formais de baixa remuneração; logo, não trabalhar fora, para parte significativa desse grupo, nunca foi uma opção. Dizer, mesmo que indiretamente, que essas mulheres se dedicam menos à família, por não terem a possibilidade de se concentrar exclusivamente nela, revela uma visão limitada da realidade social e histórica, tendo em vista que muitas dessas mulheres são as responsáveis por prover e manter a casa e a família, evidenciando, assim, como o movimento tradwife é nichado e voltado para segmentos específicos de mulheres com condições socioeconômicas privilegiadas.

Outro ponto importante, ao optar por esse estilo de vida, é a questão da dependência financeira que essa escolha pode acarretar. Por reforçar uma ideia patriarcal, de que o homem é o único responsável por prover a casa, o poder e o controle econômico ficam concentrados no marido, o que pode colocar a mulher em posição de submissão por não deter autonomia financeira, já que a subordinação econômica é uma forma estrutural de opressão feminina, limitando liberdade e escolhas de vida. Além disso, em um país como o Brasil, em que os casos de feminicídio e violência contra a mulher, infelizmente, aumentam a cada dia, a hipossuficiência financeira só seria um elemento dificultador para que a mulher possa romper com situações de abuso e agressão.

Diante disso, é importante refletir sobre como modismos que evocam um modo de vida conservador impactam a sociedade, especialmente em relação ao gênero, política e cultura. Estilos de vida como o das tradwifes são apresentados a muitas mulheres, em grande parte jovens, como um modelo ideal, sem que sejam discutidos os possíveis contrapontos e limitações dessa escolha. Torna-se igualmente necessário analisar criticamente quem ou o que impulsiona esses movimentos, bem como o contexto sócio-político em que movimentos como esse estão sendo fomentados, para compreender as implicações mais amplas dessa tendência.

 

Fonte: Por Isabela Tabarelli Cabral e Michele Ferreira, em Le Monde

 

Viagra eletrônico: dispositivo permite recuperar ereção em homens paraplégicos em resultado inédito

Uma pesquisa conduzida no Brasil conseguiu fazer com que homens que tiveram uma lesão na medula e perderam o movimento dos membros inferiores voltassem a ter ereções. O ‘viagra eletrônico’, um dispositivo que estimula as terminações nervosas, fez com que os homens com a lesão pudessem voltar a ter os impulsos de resposta ao estímulo sexual – um feito inédito.

➡️ O estudo está sendo feito com pacientes voluntários no laboratório de urologia da Faculdade de Medicina do ABC, que fica em Santo André. Foram acompanhados seis homens paraplégicos com lesão medular, todos com até 34 anos e com lesões ocorridas há mais de quatro anos.

O médico urologista Sidney Glina, responsável pelo estudo, explica que, nesse tipo de lesão, as conexões nervosas responsáveis pela ereção ficam interrompidas, e o impulso que deveria chegar ao pênis não é transmitido. Alguns até chegam a ter ereções de reflexo, mas não conseguem mantê-las durante a relação.

➡️ O chamado CaverSTIM, o "viagra eletrônico", funciona como se fosse um marcapasso e é um neurotransmissor em que os eletrodos são implantados por meio de cirurgia na região pélvica. Ao ser acionado o controle remoto, o estimulador entrega estímulos nos nervos que causam a ereção. (Entenda mais abaixo)

Após um ano de acompanhamento, cinco dos seis pacientes conseguiram retomar a ereção contínua e melhorar a qualidade de suas relações sexuais.

“É a primeira vez que conseguimos estimular um nervo ligado à ereção e ter resultado clínico”, afirma. “Já existe tecnologia para estimular a medula e controlar funções como o intestino, mas recuperar a via nervosa da ereção é algo totalmente novo. Isso abre caminho para outros tratamentos”, explica Sidney Glina, responsável pelo estudo.

➡️ Os resultados ainda estão sob análise para revisão por pares, mas a equipe considera o achado suficiente para expandir o estudo: o próximo passo é incluir 20 pacientes paraplégicos, com diferentes tipos e níveis de lesão medular.

Se os resultados se confirmarem, o dispositivo pode abrir uma nova fronteira na reabilitação sexual de pessoas com lesão medular — uma área que, até agora, tinha alternativas limitadas e pouco eficazes.

<><> O que é o ‘viagra eletrônico’

Hoje, a estimativa é de que 150 milhões de homens no mundo sejam afetados pela disfunção erétil.

O tratamento mais comum para disfunção erétil envolve o uso de medicamentos como Viagra ou Cialis. O problema é que, em 30% dos casos, os homens não respondem aos comprimidos e precisam recorrer a alternativas mais invasivas, como injeções penianas ou próteses.

🍆 Na prótese, dois cilindros são implantados ao longo do pênis, junto de uma bomba posicionada no saco escrotal. Para ter ereção, é necessário acionar manualmente o dispositivo no momento da relação.

O “viagra eletrônico” propõe uma abordagem diferente. Segundo o pesquisador responsável pelo desenvolvimento do equipamento, Rodrigo Araújo, que está atualmente nos Estados Unidos para uma nova etapa da pesquisa, a alternativa disponível hoje para os pacientes acaba quebrando o “clímax” na relação.

O dispositivo desenvolvido por ele, chamado CaverSTIM, propõe uma abordagem diferente: totalmente interno e sem partes aparentes, o CaverSTIM é ativado por um controle remoto que pode ser acionado discretamente.

Mais do que isso: ele não provoca uma ereção imediata, mas inicia o estímulo nervoso que permite que a ereção aconteça de forma fisiológica, conforme o estímulo sexual aumenta.

<><> Dispositivo recupera a ereção em 90% dos pacientes em estudo

A pesquisa com pacientes que usaram o “viagra eletrônico” — dispositivo criado por um brasileiro para tratar disfunção erétil — registrou 90% de eficácia na recuperação da ereção. O resultado, obtido em um estudo inicial com homens operados de câncer de próstata, abre um novo caminho para a reabilitação sexual após a cirurgia e para o tratamento da disfunção, que afeta mais de 150 milhões de homens no mundo.

O estudo começou com pacientes submetidos à prostatectomia, cirurgia para retirada da próstata. Mesmo nos modelos robóticos mais modernos, o risco de desenvolver disfunção erétil é de cerca de 70%, porque os nervos responsáveis pela ereção podem ser danificados durante o procedimento.

🔎 Ao todo, dez homens receberam o dispositivo CaverSTIM, nome oficial do dispositivo, que funciona como um marcapasso: eletrodos são implantados cirurgicamente na região pélvica e, quando ativados por um controle remoto, enviam estímulos aos nervos cavernosos. A ideia era usar o equipamento como terapia após a cirurgia para reduzir a taxa de disfunção — hoje, mais regra do que exceção.

Segundo o estudo, nove dos dez pacientes voltaram a ter a vida sexual que tinham antes da cirurgia.

A maioria recuperou a potência da ereção cerca de dois meses após o procedimento, sem uso de medicamentos ou injeções. Eles foram acompanhados por um ano e, ao final desse período, já não precisavam mais dos estímulos enviados pelo aparelho.

“Esses pacientes retomaram a capacidade sexual que tinham antes da cirurgia, e poucos meses depois. Eles não precisaram nem de Viagra, nem de injeções. Hoje, caminhamos para um tratamento que reduz de 70% para 10% a chance de desenvolver disfunção após a retirada da próstata”, diz o pesquisador brasileiro Rodrigo Araújo.

A pesquisa agora entra em novas fases:

•        🍆 Início dos testes clínicos nos Estados Unidos, no Johns Hopkins Hospital, um dos centros médicos e científicos mais renomados do mundo.

•        🍆 Início do estudo pivotal (fase 3), com previsão de incluir até 150 pacientes.

•        🍆 Publicação de um novo artigo com resultados do uso do dispositivo em homens paraplégicos. Ao g1, a Faculdade de Medicina do ABC adiantou que cinco dos seis pacientes testados voltaram a ter ereções.

<><> Como o equipamento funciona

Atualmente, o tratamento mais comum para disfunção erétil envolve o uso de medicamentos como Viagra ou Cialis. O problema é que, em 30% dos casos, os homens não respondem aos comprimidos e precisam recorrer a alternativas mais invasivas, como injeções penianas ou próteses.

🍆 Na prótese, dois cilindros são implantados ao longo do pênis, junto de uma bomba posicionada no saco escrotal. Para ter ereção, é necessário acionar manualmente o dispositivo no momento da relação.

O “viagra eletrônico” propõe uma abordagem diferente. Totalmente interno e sem partes aparentes, o CaverSTIM é ativado por um controle remoto que pode ser acionado discretamente. Ele não provoca uma ereção imediata, mas inicia o estímulo nervoso que permite que a ereção aconteça de forma fisiológica, conforme o estímulo sexual aumenta.

O dispositivo pode ser usado de duas formas:

  • Como terapia temporária, como no caso dos pacientes operados da próstata, até que a função natural seja recuperada.
  • Como uso permanente, no caso de pacientes com lesão medular.

<><> Estudo com pacientes paraplégicos

Um segundo braço da pesquisa avaliou o uso do dispositivo em homens com lesão medular, um grupo para o qual a retomada da vida sexual é um grande desafio.

🍆 Nesse tipo de lesão, as conexões nervosas responsáveis pela ereção ficam interrompidas, e o impulso que deveria chegar ao pênis não é transmitido.

O urologista Sidney Glina, professor da Faculdade de Medicina do ABC e responsável por essa etapa no Brasil, explica que muitos desses pacientes apresentam ereções de reflexo, mas não conseguem mantê-las durante a relação.

Há um ano, seis homens com paraplegia — todos com até 34 anos e lesões ocorridas há mais de quatro anos — receberam o “viagra eletrônico” como parte de um protocolo experimental. Após o acompanhamento, cinco dos seis apresentaram melhora tanto na capacidade de ereção quanto na qualidade da relação sexual.

O estudo ainda será avaliado em revisão por pares, mas Glina destaca o caráter inédito da descoberta.

“É a primeira vez que conseguimos estimular um nervo ligado à ereção e ter resultado clínico”, afirma. “Já existe tecnologia para estimular a medula e controlar funções como o intestino, mas recuperar a via nervosa da ereção é algo totalmente novo. Isso abre caminho para outros tratamentos.”

 

Fonte: g1

 

A COP30, o agro e a difícil verdade sobre o consumo de carne

A COP30 reuniu não apenas chefes de Estado e negociadores climáticos, mas também setores historicamente responsáveis pela devastação ambiental que o encontro buscava enfrentar. Entre eles, o agronegócio brasileiro ocupou espaço não apenas físico, com estandes imponentes e churrascadas estrategicamente instaladas na AgriZone da Embrapa, mas também simbólico, ao tentar redefinir sua imagem em um momento em que é necessário questionar a sustentabilidade da produção de carne.

Organizações de restauração ecológica, pesquisadores e movimentos socioambientais apresentaram propostas para rastrear, reconstruir e responsabilizar a indústria. Entre iniciativas de criação de plataformas que conectam projetos (descritas como um “Tinder da restauração”) e debates sobre governança territorial, emergiu o ponto de que qualquer transição exige enfrentar a estrutura fundiária, econômica e política da pecuária. E não apenas aperfeiçoá-la.

A partir da conversa sobre rastreamento de gado na Amazônia, e de discussões sobre restauração e justiça ambiental, podemos analisar o abismo entre o discurso do agro e a realidade do consumo, o papel contraditório da rastreabilidade e os limites concretos da chamada pecuária “sustentável.” Isto é, não parece que o consumidor vai redimir a Amazônia sem uma reconfiguração na estrutura da cultura alimentar, e a restauração da natureza não pode se apoiar em um sistema que foi construído para destruir.

<><> O mito da preocupação do consumidor

A discussão sobre rastreabilidade durante a COP30 partiu de pesquisas que sugerem que consumidores afirmam se importar com a origem da carne que compram. Muitos dizem querer saber se o produto veio de uma área desmatada, se está vinculado à violência ou ao crime ambiental, ou se contribui para a aceleração da crise climática. No entanto, esse tipo de declaração deveria causar suspeita, porque as pessoas respondem pesquisas a partir dos valores que desejam projetar, e não necessariamente a partir das escolhas concretas que fazem diante de uma prateleira de supermercado.

A realidade observada há décadas é que o consumo de carne, no Brasil e no mundo, é majoritariamente determinado pelo preço e pela percepção de segurança sanitária. A carne mais barata, desde que considerada limpa, tende a vencer independentemente da origem ética, de sua pegada de carbono ou das condições sociais/animais envolvidas em sua produção. Esse padrão, tão estável quanto invisível, questiona a premissa de que a mudança virá pelo engajamento dos consumidores.

O consumidor brasileiro, geralmente pressionado por orçamento e pela necessidade imediata, tende a priorizar o menor preço possível e a sucumbir à cultura alimentar que hipervaloriza uma dieta carnívora. Se essa carne é proveniente da Amazônia ou de áreas de conflito agrário, essa relação costuma permanecer invisível no momento da compra. Pesquisas que não incorporam o fato básico de que as pessoas são subjetivas em suas respostas, para parecer moralmente melhores, contam com metodologias falhas.

Esse descompasso reforça que não há evidências de que engajar consumidores levará a uma indústria mais sustentável. Muitas pessoas não querem saber de onde vem sua carne realmente; a brutalidade da qual ela depende no corpo animal e na terra. A redução significativa no consumo de carne, regulamentada ou ilegal, pode ser proveniente de quanto mais as pessoas forem expostas a real fonte da carne – não por opção ou desejo de conhecimento sobre o assunto.

Enquanto a estrutura econômica permanecer ligada à oferta abundante de carne barata, a demanda continuará firme, e a origem amazônica seguirá ocupando o centro dessa oferta.

<><> A rastreabilidade e a legitimação

A rastreabilidade individual do gado foi apresentada durante o painel como peça-chave para excluir do sistema os produtores ilegais, os grileiros e os frigoríficos que operam em áreas desmatadas. A proposta de identificar cada animal desde o nascimento permitiria impedir que gado originado em terras públicas invadidas ou áreas protegidas chegasse ao mercado formal. Porém, quando é questionado se a rastreabilidade poderia reduzir o consumo ou fechar mercados, a resposta foi que a rastreabilidade não representa ameaça alguma para a pecuária; ao contrário, tende a fortalecê-la. A rastreabilidade não mexe na demanda, não altera cultura alimentar e não interfere nos incentivos que mantêm a pecuária lucrativa.

De acordo com especialistas do painel durante a COP30, a rastreabilidade aumenta a confiança de compradores internacionais, abre portas a novos mercados e não eleva o preço da carne considerada conforme as exigências ambientais. Sem a concorrência ilegal, os produtores sérios podem investir mais e produzir melhor.

Ela também profissionaliza a cadeia produtiva, facilita o acesso a crédito e atrai investidores interessados em segurança jurídica e previsibilidade. Além disso, transforma áreas antes degradadas em ativos valorizáveis no mercado, beneficiando produtores que já operam dentro da legalidade. Assim, a rastreabilidade tende a consolidar os médios e grandes produtores que já dominam o mercado e a reforçar o peso econômico da pecuária na Amazônia, em vez de reduzi-lo.

O setor, portanto, não teme que a rastreabilidade diminua a produção, mas que revele a arquitetura de ilegalidades que sustenta grande parte da cadeia. Por isso, uma proposta tão simples como essa enfrenta tanta resistência. Como disse uma das participantes do painel, “eles não são fazendeiros; são ladrões de terras públicas e não deveriam fazer parte do sistema.” A rastreabilidade serviria para expulsar justamente esse grupo dominante. No entanto, o efeito mais amplo seria o de racionalizar e expandir uma pecuária modernizada, eficiente e cada vez mais integrada ao mercado internacional.

Rastrear não é, por si só, sinônimo de sustentabilidade. É apenas uma ferramenta de gestão, que pode ser usada para abrir caminho a práticas socioambientais mais rigorosas ou, ao contrário, para blindar o status quo e oferecer uma aparência de controle sem alterar seus fundamentos insustentáveis e destrutivos. Queremos rastrear para transformar o modelo, ou para legitimá-lo?

<><> O agro na COP

Um dos momentos mais simbólicos da AgriZone na COP30 foi o churrasco na área montada pela Embrapa. A escolha não foi casual. Enquanto povos indígenas denunciavam o impacto devastador do gado na Amazônia, enquanto pesquisas científicas detalhavam o papel da pecuária na crise climática, o setor decidiu afirmar sua identidade de forma contundente. Essa provocação performática se soma a uma estratégia de comunicação que busca antecipar e neutralizar críticas. Isso reforça que soluções apresentadas não só ali, mas no contexto geral da COP30 (como rastreabilidade), tendem a favorecer quem já tem poder, não quem precisa de justiça climática.

O agronegócio adotou o discurso da sustentabilidade com a fluidez de quem compreendeu o risco reputacional de permanecer associado ao desmatamento. Assim, apropriou-se de termos como ‘pecuária regenerativa,’ ‘transição alimentar justa’ e ‘carbono neutro,’ enquanto prometia inclusão de povos indígenas e comunidades tradicionais em seus projetos. Essa manobra segue a lógica já utilizada por indústrias do tabaco e do petróleo: quando a crítica se aproxima de se tornar dominante, é preciso tomá-la para si e esvaziá-la de potência política.

Esse esvaziamento é inescapável porque o mercado não pode admitir que sustentabilidade ambiental exige limitar a pecuária, e não apenas qualificá-la. Reconhecer isso implicaria aceitar o encolhimento de um setor que depende, estruturalmente, da expansão contínua; uma noção incompatível com a lógica de acumulação que organiza o capitalismo. A nossa experiência histórica mostra que, dentro desse modelo, oportunidades de lucro tendem sistematicamente a prevalecer sobre considerações ecológicas e sociais, o que explica por que discursos de sustentabilidade são tão facilmente absorvidos sem alterar os fundamentos destrutivos da atividade.

A COP30 não mostrou um agro acuado, mas um setor afinado com tal disputa simbólica. O agronegócio continua sendo uma das forças mais influentes no Congresso, com enorme capacidade de orientar políticas públicas, controlar fundos e moldar a regulamentação ambiental. Em Belém, mostrou não apenas força econômica, mas também desejo de domínio narrativo.

<><> O limite estrutural da ‘pecuária sustentável’

Entre os discursos mais repetidos pelo setor está a promessa de uma pecuária sustentável, baseada em intensificação, pastagens arborizadas, manejo rotacionado e aumento de produtividade. Em teoria, esse modelo permitiria produzir mais carne em menos área, sem desmatamento, reduzindo a pressão sobre a floresta. Porém, a intensificação aumenta a produtividade e o lucro por hectare. Quando lucra mais, o produtor tende a expandir, não a reduzir área. Isso se chama efeito rebote, onde a eficiência gera expansão, não retração. Na prática, o histórico brasileiro mostra que a intensificação raramente substitui os sistemas extensivos. Ou seja, ela tende a coexistir com eles, ampliando margens de lucro e incentivando a expansão territorial.

Esse impasse decorre de fatores estruturais. A maioria das terras agrícolas brasileiras pertence a médios e grandes produtores, que respondem pelos maiores índices de desmatamento. A pecuária extensiva permanece barata porque seus custos ambientais – erosão, perda de biodiversidade, emissão de metano e degradação de solos – porque quem causa o dano não paga por ele. E a concentração fundiária impede uma distribuição democrática dos benefícios econômicos, mantendo comunidades tradicionais e agricultores familiares à margem das decisões e dos lucros.

Se até mesmo iniciativas moderadas de melhoria da pecuária enfrentam resistência feroz, o que isso revela sobre a própria indústria? Talvez a pecuária não precise apenas ser melhorada; talvez precise ser consideravelmente reduzida.

<><> Da restauração à reparação

As discussões sobre restauração ecológica revelaram avanços curiosos, como a tentativa de criar plataformas de conexão entre projetos e investidores. A metáfora do “Tinder da restauração” capturou esse desejo de articulação. Mas também evidenciaram contradições. Empresas continuam promovendo monoculturas de eucalipto como se fossem florestas em pé. Programas de créditos de carbono transformam destruição em oportunidade financeira. E políticas de regularização ambiental muitas vezes colocam sobre agricultores familiares, responsáveis por uma fração minúscula do desmatamento, um peso desproporcional, enquanto os grandes proprietários seguem blindados por sua influência política.

Não dá para colocar o ônus da restauração no agricultor familiar. Uma restauração séria exige confrontar a concentração de terras, desarticular cadeias ilegais e garantir que benefícios cheguem a comunidades que historicamente protegeram a floresta. A restauração não pode ser reduzida a uma vitrine de projetos ambientalmente simbólicos; precisa ser um processo de reparação territorial e social.

<><> Transparência de dados e resistência institucional

Outro tema recorrente foi a dificuldade de acesso a dados públicos sobre movimentação de gado e estrutura fundiária. Em vários estados, autoridades se recusam a fornecer informações alegando, de forma equivocada, supostas restrições impostas pela LGPD. Esse bloqueio revela uma estratégia de opacidade que beneficia justamente frigoríficos que não querem exposição, grandes fazendeiros e atores ligados ao desmatamento ilegal. Ou seja, agentes que dependem da falta de estreamento.

A ausência de dados torna a fiscalização ineficaz, e dados escondidos e manipulados também. Sem acesso pleno a informações, rastreabilidade se torna uma promessa vazia. Transparência é pré-condição para qualquer esforço sério de controle ambiental; sem ela, a Amazônia segue vulnerável a ciclos de destruição disfarçados de progresso.

<><> É possível ter uma pecuária totalmente rastreada e totalmente insustentável ao mesmo tempo

Discussões na COP30 revelam que a rastreabilidade, embora necessária, não resolve a questão central da insustentabilidade da indústria da carne. Qual deve ser o papel da pecuária no futuro da Amazônia e da luta climática?

A rastreabilidade tende a reduzir a ilegalidade e expulsar grileiros, mas também tende a fortalecer a pecuária que permanece, ao torná-la mais competitiva e mais integrada a mercados internacionais. Ela organiza o setor, mas não o redimensiona ou garante a proteção ambiental. Sem demanda, a rastreabilidade não vai recuperar de pastagens, proteger a água, limitar agrotóxicos, promover o bem-estar animal ou incentivar qualquer prática regenerativa.

Esse paradigma se dá porque, hoje, a demanda pela carne é tão alta, culturalmente, que o esforço que a indústria precisa fazer para prosperar no mercado é muito menos que o mínimo. Ou seja, garantir o mínimo de rastrear para não cometer crimes é um grande desafio. Será que baixar ainda mais as expectativas no nível institucional é uma estratégia eficaz?

A restauração só será efetiva se romper com a lógica atual da sociedade, que transforma destruição em ativo financeiro. Justiça climática exige uma reconfiguração cultural e não apenas institucional. A COP30 escancarou que a Amazônia pode ser restaurada, mas não pela mesma economia que a devastou. A rastreabilidade não é neutra. Ela pode ser ferramenta de transformação ou de legitimação. A pergunta que persiste é para qual futuro estamos caminhando. E, sobretudo, para o benefício de quem.

A rastreabilidade só é uma ferramenta de justiça climática se redistribuir poder, terra e renda, e não apenas eficiência econômica para os que já dominam a indústria.

 

Fonte: Por Mirna Wabi-Sabi, em A Terra é Redonda

 

Arquitetura da distração e fatos consumados: a expansão territorial de Israel

Enquanto a atenção global é capturada por crises cuidadosamente amplificadas, o mapa do Oriente Médio está sendo redesenhado no terreno. Este artigo revela como o diversionismo estratégico do Ocidente funciona como cobertura política e midiática para a consolidação silenciosa do projeto da Grande Israel.

<><> Quando a atenção é desviada, o território é decidido

Há momentos na história em que a guerra não se anuncia pelo estrondo das armas, mas pelo deslocamento calculado da atenção. Não é o silêncio que engana, mas o excesso de ruído. Crises sucessivas, narrativas concorrentes e urgências fabricadas passam a organizar o campo visual do mundo, criando uma paisagem saturada em que tudo parece grave, imediato e incontornável. Nesse cenário, o essencial deixa de ser visto. E é exatamente aí que o território é decidido.

O poder contemporâneo não opera apenas pela força direta, mas pela gestão da agenda. Ao definir o que deve ser observado, debatido e temido, define-se também o que pode avançar fora dos holofotes. A distração não é um efeito colateral da política internacional; ela se tornou um de seus instrumentos mais eficazes. Enquanto a atenção global é capturada por crises amplificadas e disputas narrativas incessantes, processos materiais profundos seguem seu curso no terreno, produzindo fatos que, uma vez consolidados, passam a ser tratados como realidade irreversível.

O Oriente Médio vive hoje um desses momentos críticos. Enquanto o debate internacional se desloca de um palco a outro, o mapa é reconfigurado por decisões administrativas, atos burocráticos, intervenções espaciais e normalizações silenciosas. Não se trata de movimentos improvisados ou reativos, mas de um projeto político-territorial de longa duração, executado de forma fragmentada, progressiva e estratégica. Cada passo, isoladamente, parece técnico ou circunstancial. Observados em conjunto, revelam um desenho coerente.

Este artigo parte de uma premissa simples e incômoda: quando o mundo se distrai, o poder avança. A distração cria a janela necessária para que projetos de expansão territorial se consolidem sem enfrentamento proporcional, sob a cobertura de discursos de segurança, estabilidade ou excepcionalidade permanente. O que está em jogo não é apenas uma disputa regional, mas a normalização de um método de dominação que combina controle da narrativa global e transformação material do espaço.

Ler o presente exige romper com a lógica fragmentada das manchetes e recompor a totalidade do processo em curso. Porque, quando a atenção finalmente retorna ao território, o mapa já terá mudado — e o custo histórico dessa distração recairá sobre povos inteiros, privados de autodeterminação em nome de uma ordem que se impôs enquanto ninguém olhava.

<><> A distração como método de poder

A política internacional contemporânea não se organiza apenas pela disputa entre interesses materiais imediatos, mas pela capacidade de definir o que será percebido como central e o que será relegado à periferia da atenção. O poder, hoje, não se exerce apenas sobre territórios, mercados ou exércitos, mas sobre a própria hierarquia do visível. Controlar a agenda é controlar o ritmo da história.

A multiplicação de crises simultâneas não é, por si só, sinal de um mundo mais caótico. Ela é também expressão de um sistema que aprendeu a operar por saturação informacional. Quando tudo parece urgente, nada consegue ser acompanhado com profundidade. O resultado é uma atenção fragmentada, incapaz de recompor processos históricos em curso. Nesse ambiente, decisões estruturais passam a ser tomadas longe do escrutínio público, protegidas pela sensação permanente de emergência em outros fronts.

Os Estados Unidos desempenham papel central nessa engrenagem. Não apenas por seu poder militar ou econômico, mas por sua posição como gestor da agenda internacional, capaz de deslocar o foco global conforme seus interesses estratégicos e os de seus aliados. Guerras, negociações de paz, crises diplomáticas, sanções e declarações espetaculares funcionam como polos de atração da atenção midiática e política. Não é necessário que sejam falsas; basta que sejam amplificadas, reiteradas e enquadradas de modo a ocupar o centro do debate.

Esse mecanismo não exige coordenação conspiratória nem controle absoluto. Ele opera por incentivos estruturais. Governos reagem ao que está nos holofotes. A mídia segue o fluxo das declarações oficiais e dos conflitos mais ruidosos. Organismos internacionais adaptam suas prioridades ao clima político dominante. O que não gera atrito imediato ou escândalo visível tende a ser tratado como assunto secundário, técnico ou inevitável.

É nesse intervalo, criado pela distração, que projetos de longo prazo avançam. O diversionismo não atua negando a realidade, mas reorganizando sua percepção. Ele não elimina o conflito; ele o redistribui no tempo e no espaço, permitindo que certas frentes avancem enquanto outras concentram a atenção pública. O método é simples: fragmentar o olhar para impedir a visão do conjunto.

A história oferece inúmeros exemplos desse padrão. Grandes transformações territoriais raramente ocorreram sob máxima visibilidade e consenso. Elas avançam por acumulação de pequenos passos, legalizações graduais, ajustes administrativos e normalizações discursivas. Cada movimento isolado parece insuficiente para mobilizar reação significativa. Somados, produzem uma mudança estrutural que, quando percebida, já se tornou difícil de reverter.

No cenário atual, a sucessão de crises internacionais funciona como um campo de manobra. O debate global é continuamente deslocado, enquanto decisões territoriais, jurídicas e espaciais são tomadas sob a justificativa da segurança, da excepcionalidade ou da estabilidade. O resultado não é a ausência de conflito, mas sua gestão estratégica, de modo que o custo político do avanço seja minimizado.

Compreender a distração como método de poder é condição essencial para entender o que está em curso no Oriente Médio. Sem essa chave de leitura, cada evento parecerá desconectado, cada decisão será tratada como reação circunstancial. Com ela, torna-se possível enxergar a lógica que articula narrativa, tempo e território. É a partir desse ponto que o projeto político por trás da reconfiguração do mapa deixa de ser invisível e passa a se revelar como aquilo que sempre foi: um processo deliberado, contínuo e profundamente material.

<><> Ideologia, cartografia e projeto: a Grande Israel

Nenhum projeto territorial se sustenta apenas pela força. Antes de ocupar o espaço físico, ele precisa ocupar o imaginário, naturalizar-se como ideia legítima e apresentar-se como horizonte inevitável. É nesse ponto que ideologia, cartografia e política se fundem. No caso israelense, a expansão territorial não pode ser compreendida apenas como resposta a ameaças conjunturais ou como efeito colateral de conflitos recorrentes. Ela se ancora em um projeto político-ideológico claro, historicamente construído, que trata o território como fundamento existencial do Estado.

É essencial estabelecer, desde o início, uma distinção rigorosa. Judaísmo é uma tradição religiosa, cultural e histórica plural, atravessada por múltiplas correntes éticas, filosóficas e políticas. O sionismo, por sua vez, é uma ideologia política moderna, surgida no contexto europeu do final do século XIX, que propõe a constituição e a expansão de um Estado judeu soberano ancorado em um território específico. Confundir essas dimensões não apenas empobrece o debate, como serve para blindar um projeto político de críticas legítimas, deslocando a análise do campo material para o moral ou identitário.

Enquanto ideologia, o sionismo político opera a partir de uma lógica territorial. O espaço não é apenas cenário, mas objetivo. O território deixa de ser um meio de organização estatal para se tornar fim estratégico, permanentemente ampliável, justificado por narrativas de segurança, promessa histórica ou excepcionalidade civilizatória. Essa lógica aproxima o sionismo de outras experiências de colonialismo de assentamento, nas quais a presença do outro é tolerada apenas enquanto transitória, subordinada ou invisibilizada.

A cartografia desempenha papel central nesse processo. Mapas não são representações neutras da realidade; são instrumentos de poder. Ao decidir o que aparece, o que desaparece e como as fronteiras são desenhadas, o mapa antecipa o mundo que se pretende construir. Quando líderes políticos apresentam mapas em arenas internacionais, não estão apenas ilustrando uma situação; estão enunciando um programa.

A exibição, por Benjamin Netanyahu, de um mapa na Assembleia Geral da ONU no qual a Palestina simplesmente não existe não foi um gesto acidental ou retórico. Foi um ato performativo. Ao apagar visualmente a Cisjordânia e Gaza, o mapa transforma a ocupação em normalidade e o apagamento em dado consumado. Trata-se de uma pedagogia silenciosa do poder: o que não é mostrado deixa de ser percebido como problema. O mapa, nesse contexto, não descreve o presente; ele projeta o futuro desejado.

O conceito de “Grande Israel” não opera necessariamente como slogan oficial permanente, mas como horizonte implícito que orienta decisões concretas. Ele se manifesta menos em declarações formais do que na coerência entre discurso, cartografia e prática administrativa. Cada assentamento legalizado, cada outpost normalizado, cada zona redefinida reforça esse horizonte, tornando-o progressivamente mais real e menos contestável.

Esse projeto não avança por um único ato decisivo, mas por uma sequência de passos graduais. A força da ideologia está justamente em sua capacidade de se diluir em procedimentos técnicos, debates jurídicos e justificativas securitárias. Quando a expansão territorial é apresentada como ajuste administrativo ou necessidade defensiva, ela se afasta do campo político explícito e se instala no terreno da gestão, onde o conflito tende a ser despolitizado.

Compreender a relação entre ideologia e cartografia é fundamental para decifrar o que está em curso. O mapa não é consequência do poder; ele é uma de suas formas. Ao redesenhar o espaço, o projeto da Grande Israel busca transformar o que hoje ainda é disputado em evidência natural. E quando o território passa a ser visto como dado, a autodeterminação do outro deixa de ser sequer considerada uma questão legítima.

<><> Fatos consumados no terreno: quando o mapa deixa de ser metáfora

Se a ideologia fornece o horizonte e a cartografia anuncia o projeto, é no terreno que o poder se torna irreversível. A expansão territorial não se impõe apenas por grandes ofensivas militares ou declarações formais de anexação. Ela se consolida por meio de uma sequência de fatos consumados, produzidos de forma fragmentada, administrativa e cotidiana, até que a mudança estrutural se torne impossível de ignorar — e difícil de reverter.

Na Cisjordânia, esse método opera com precisão. Assentamentos inicialmente classificados como “temporários” tornam-se permanentes. Outposts considerados ilegais passam por processos de regularização. Infraestruturas civis, estradas, cercas e serviços públicos são expandidos sob o argumento da normalização da vida. Cada passo é apresentado como exceção, ajuste técnico ou resposta localizada. Observados em conjunto, porém, esses movimentos configuram um processo contínuo de anexação de fato, sem a necessidade de uma declaração formal que provoque reação internacional imediata.

O elemento central desse mecanismo é a burocratização da ocupação. Ao deslocar a expansão territorial do campo militar para o administrativo, o conflito é rebaixado a uma disputa jurídica ou urbanística. O território deixa de ser percebido como espaço político disputado e passa a ser tratado como área sob gestão. Nesse enquadramento, a presença palestina é progressivamente comprimida, fragmentada e subordinada, enquanto a expansão israelense se apresenta como resultado natural de procedimentos legais.

Gaza, por sua vez, oferece um laboratório ainda mais extremo dessa lógica. Ali, o controle não se exerce prioritariamente pela anexação formal, mas pela engenharia espacial. Corredores, zonas-tampão, áreas de circulação restrita e bloqueios de retorno redesenham a geografia de forma profunda, mesmo quando o discurso oficial fala em cessar-fogo ou estabilização. O território permanece fisicamente intacto em certos pontos, mas funcionalmente inviável como espaço de autodeterminação.

O controle da circulação é decisivo. Ao definir quem pode se mover, por onde e em que condições, o poder reorganiza a vida social sem precisar ocupar cada metro quadrado. Zonas declaradas inseguras, áreas interditadas e corredores militarizados criam uma paisagem fragmentada, na qual comunidades inteiras ficam isoladas, deslocadas ou impedidas de retornar. O resultado é um território formalmente existente, mas politicamente neutralizado.

É nesse contexto que a noção de “cessar-fogo” revela seu caráter ambíguo. A redução temporária de confrontos armados não implica a suspensão do processo de reconfiguração territorial. Pelo contrário: a trégua funciona, muitas vezes, como janela de normalização, permitindo que mudanças espaciais e administrativas avancem com menor resistência e menor visibilidade. O conflito parece arrefecer, enquanto o mapa continua a ser redesenhado.

O poder dos fatos consumados reside justamente em sua acumulação silenciosa. Cada assentamento adicional, cada estrada construída, cada zona redefinida reduz o espaço de negociação futura. Quando o debate político finalmente se reabre, ele já ocorre sobre um território transformado, no qual as opções de autodeterminação foram drasticamente limitadas. O que antes era apresentado como disputa passa a ser tratado como realidade objetiva.

Nesse ponto, o mapa deixa de ser metáfora e se torna destino imposto. A expansão territorial não precisa mais ser defendida; ela é apenas administrada. E é exatamente aí que o método revela sua eficácia máxima: ao transformar o excepcional em normal e o provisório em permanente, o poder consegue consolidar sua dominação sem precisar vencê-la explicitamente no campo da legitimidade. 

<><> O silêncio que autoriza: Ocidente, normalização e cobertura

Nenhum projeto de expansão territorial se sustenta apenas pela iniciativa de quem avança. Ele depende, de forma decisiva, do ambiente político que o torna viável. No cenário internacional contemporâneo, esse ambiente é produzido menos por declarações explícitas de apoio e mais por uma combinação de silêncio, relativização e enquadramento seletivo. O poder que autoriza não é apenas o que age, mas também o que escolhe não reagir.

Os Estados Unidos ocupam posição central nessa engrenagem. Não apenas como aliado estratégico de Israel, mas como gestor da ordem internacional, capaz de modular pressões diplomáticas, vetar iniciativas multilaterais e definir o grau de aceitabilidade política de determinados movimentos. Ao tratar a expansão territorial como questão secundária, técnica ou inevitável, Washington contribui para deslocar o debate do campo político para o da administração do conflito. O que deveria provocar ruptura passa a ser absorvido como parte da paisagem.

A Europa, por sua vez, atua como retaguarda discursiva. Discursos formais em defesa do direito internacional coexistem com a ausência de medidas concretas capazes de produzir custos reais. A crítica retórica, desprovida de consequência prática, cumpre uma função paradoxal: preserva a imagem moral dos atores ocidentais ao mesmo tempo em que não interfere no curso dos fatos. O resultado é uma normalização progressiva da expansão territorial, apresentada como problema complexo, sensível e insolúvel no curto prazo.

A mídia corporativa internacional desempenha papel igualmente decisivo. Ao priorizar eventos espetaculares, confrontos armados imediatos e declarações de alto impacto, ela contribui para a fragmentação da percepção pública. Processos lentos, administrativos e estruturais tendem a receber cobertura marginal, quando não desaparecem por completo do noticiário. A expansão territorial, assim, deixa de ser percebida como processo contínuo e passa a surgir apenas em momentos de crise aberta, desconectada de sua lógica histórica.

Esse enquadramento produz um efeito profundo: a ocupação se torna pano de fundo permanente, enquanto a violência episódica ocupa o centro da narrativa. A atenção se fixa nos sintomas mais visíveis, não nas causas estruturais. O território, novamente, escapa ao olhar. O silêncio não é ausência de informação; é resultado de escolhas editoriais e políticas que definem o que merece ser acompanhado com persistência.

A normalização opera, portanto, em múltiplos níveis. Diplomático, ao evitar sanções e medidas coercitivas. Midiático, ao reduzir a expansão territorial a notas esporádicas. Político, ao tratar o conflito como insolúvel e, por isso, administrável. Cada um desses níveis reforça os demais, criando um ciclo de permissividade que transforma o avanço no terreno em dado consumado.

Esse silêncio não é neutro. Ele funciona como autorização tácita. Ao não impor custos proporcionais, o Ocidente sinaliza que a expansão territorial pode continuar sem comprometer alianças, fluxos econômicos ou legitimidade internacional. O poder aprende com a ausência de reação. Cada passo não contestado se torna precedente para o próximo.

É assim que o projeto avança sem precisar se afirmar abertamente como tal. Amparado por uma ordem internacional que prefere administrar consequências a enfrentar causas, a expansão territorial se consolida sob a aparência de normalidade. O silêncio, nesse contexto, não é falha do sistema. É uma de suas engrenagens mais eficientes.

<><> Irreversibilidade e autodeterminação

A história raramente cobra no momento em que os fatos são produzidos. Ela cobra depois, quando as escolhas omitidas se tornam estruturas consolidadas. O perigo maior do tempo presente não está apenas na violência explícita, mas na irreversibilidade silenciosa que se instala quando o mundo aceita a distração como condição permanente.

Projetos de expansão territorial não se impõem apenas pela força; eles vencem quando deixam de ser percebidos como projeto. No instante em que a ocupação passa a ser tratada como realidade dada, a autodeterminação deixa de ser horizonte político e passa a ser lembrança histórica. O território, então, já não é disputado — é administrado. E a administração do fato consumado costuma ser apresentada como pragmatismo, quando na verdade é capitulação tardia.

O que está em jogo não se limita ao destino palestino. Trata-se de um precedente civilizatório. Quando a distração global permite que a reconfiguração territorial avance sem custo político proporcional, legitima-se um método que pode ser reproduzido em outros contextos. O direito internacional perde densidade material, a soberania dos povos se torna negociável e a força passa a ser mediada pela burocracia e pelo silêncio, não apenas pelas armas.

A autodeterminação dos povos não é um princípio abstrato ou retórico. Ela é o limite mínimo contra a naturalização da dominação. Quando esse limite é corroído pela normalização da exceção, o que se perde não é apenas território, mas a própria capacidade de imaginar futuros alternativos. Povos sem território não perdem apenas chão; perdem tempo histórico.

Este texto não é um chamado à indignação imediata, mas à lucidez estratégica. O mapa que hoje se redesenha fora dos holofotes será, amanhã, apresentado como ponto de partida incontornável para qualquer negociação. Quando isso acontecer, muitos dirão que nada poderia ter sido feito. A história, no entanto, costuma registrar que o essencial foi ignorado enquanto a atenção estava em outro lugar.

Romper a distração é um ato político. Recolocar o território no centro do debate é uma forma de resistência. Antes que o irreversível se consolide, ainda é possível nomear o processo, expor o método e afirmar, com clareza, que nenhum projeto de dominação é inevitável enquanto houver povos dispostos a reivindicar o direito de decidir seu próprio destino.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

 

domingo, 14 de dezembro de 2025

Em razão dos festejos natalinos e do Ano Novo, informamos que entraremos em recesso a partir do dia 15/12 até o dia 12 de janeiro/26. Na oportunidade desejamos votos de um Feliz Natal e um Ano Novo reconfortante e brilhante. esperamos continuarmos juntos no ano que se avizinha.