quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Beber álcool faz mal? Diretrizes alimentares pesam riscos e benefícios

A maioria dos adultos nos Estados Unidos bebe álcool, mas há uma preocupação pública cada vez maior sobre os efeitos do consumo moderado da substância na saúde. As últimas pesquisas científicas apoiam essas preocupações, mas dois relatórios governamentais recentes sugerem que benefícios potenciais existem ao lado de riscos potenciais – e alguns especialistas dizem que as recomendações dietéticas formais, que devem ser revisadas este ano, podem adotar uma abordagem mais diferenciada.

Está bem estabelecido que o uso excessivo de álcool tem efeitos negativos significativos para a saúde. Mas estudos recentes descobriram que mesmo baixos níveis de consumo de álcool podem ser prejudiciais, e a Organização Mundial da Saúde disse que “nenhum nível de consumo de álcool é seguro para a nossa saúde”.

As atuais Diretrizes Dietéticas para Americanos, do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA e do Departamento de Agricultura dos EUA, dizem que os homens devem limitar sua ingestão diária de álcool a duas doses ou menos, e uma dose ou menos para as mulheres.

Essas diretrizes serão revisadas em 2025, e dois relatórios recentes destinados a informar esse processo chegaram a conclusões aparentemente conflitantes — dando continuidade a um antigo debate sobre como avaliar os riscos e benefícios potenciais do álcool.

Mas as atitudes públicas nos EUA já estão mudando.

Uma nova pesquisa da CNN conduzida pela SSRS divulgada nesta sexta-feira (24) descobriu que metade dos adultos dos EUA diz que beber moderadamente é ruim para a saúde, mais do que o dobro da parcela que disse o mesmo há duas décadas. Mulheres e adultos com menos de 45 anos são mais propensos do que homens e adultos mais velhos a dizer que beber moderadamente é ruim para a saúde, assim como democratas e independentes.

Apenas 8% dos adultos nos EUA dizem que beber moderadamente é bom para a saúde, de acordo com a nova pesquisa da CNN, cerca de um terço da parcela que disse o mesmo em 2005. Outros 43% dos adultos dizem que beber moderadamente não faz diferença para a saúde.

Há uma ligação conhecida entre álcool e câncer, e qualquer quantidade de bebida aumenta esse risco. Para o Cirurgião Geral Dr. Vivek Murthy, essa “ligação direta” foi suficiente para emitir um aviso e pedir uma atualização do rótulo de advertência de saúde em bebidas alcoólicas para destacá-la.

“O álcool é uma causa bem estabelecida e evitável de câncer, responsável por cerca de 100.000 casos de câncer e 20.000 mortes por câncer anualmente nos Estados Unidos — mais do que as 13.500 mortes por acidentes de trânsito associadas ao álcool por ano nos EUA — mas a maioria dos americanos desconhece esse risco”, disse Murthy em uma declaração no início deste mês.

A nova pesquisa da CNN descobriu que uma ampla maioria de 74% do público dos EUA seria a favor de novos rótulos de bebidas alcoólicas alertando sobre o risco de câncer, como Murthy sugere. Democratas, mulheres e pessoas de cor são especialmente propensos a apoiar uma revisão do rótulo de advertência, mas 69% ou mais adultos de todas as idades, gêneros, grupos partidários e raciais disseram que seriam a favor.

CNN Poll foi conduzida pela SSRS de 9 a 12 de janeiro entre uma amostra nacional aleatória de 1.205 adultos selecionados de um painel baseado em probabilidade. As pesquisas foram conduzidas on-line ou por telefone com um entrevistador ao vivo. Os resultados entre a amostra completa têm uma margem de erro de amostragem de mais ou menos 3,2 pontos percentuais.

·        Pesando riscos e benefícios

Um dos relatórios destinados a informar a próxima edição das diretrizes alimentares — solicitado pelo Congresso e publicado em dezembro de 2024 pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina — reforçou a ligação entre álcool e câncer, mas com vários graus de certeza. Os pesquisadores, que analisaram descobertas de cerca de duas dúzias de estudos, concluíram com “certeza moderada” que o risco de desenvolver câncer de mama era maior entre aquelas que bebiam com moderação do que entre aquelas que não bebiam nada. Havia “baixa certeza” de que o risco de câncer de mama e câncer colorretal era maior para aquelas que bebiam mais com moderação do que para aquelas que bebiam menos, e nenhuma associação com outros cânceres de garganta e pescoço.

Mas o mesmo relatório também encontrou algumas associações positivas potenciais entre consumo moderado de álcool e saúde. Comparados com pessoas que nunca consomem álcool, aqueles que bebem com moderação tinham menor risco de ataque cardíaco e derrame não fatal. E a mortalidade geral por qualquer causa também foi menor entre aqueles que bebiam com moderação, em comparação com aqueles que nunca bebiam.

“Muitas escolhas de estilo de vida trazem riscos potenciais, e o consumo de álcool não é exceção”, disse Michael Kaiser, vice-presidente executivo e diretor de relações governamentais da WineAmerica, uma organização sem fins lucrativos que representa os interesses da indústria do vinho, à CNN por e-mail.

“Nós encorajamos todos os adultos que escolherem beber a aderir às Diretrizes Dietéticas e consultar seus provedores de saúde. Ninguém deve beber para obter benefícios à saúde, e algumas pessoas não devem beber de forma alguma”, disse ele, acrescentando que a organização apoia o uso deste estudo para informar as diretrizes como o Congresso pretendia e como feito anteriormente.

O outro relatório, publicado na semana passada por um painel independente convocado pelo Comitê de Coordenação Interinstitucional do HHS para a Prevenção do Consumo de Bebidas por Menores, também descobriu menor risco de derrame entre aqueles que consumiam em média uma dose por dia, menor risco de diabetes entre mulheres que bebiam essa quantidade e maior risco de certos tipos de câncer.

Mas, por outro lado, descobriu-se que o risco de morrer devido ao uso de álcool começa em níveis baixos de uso médio e aumenta à medida que os níveis de consumo de álcool aumentam.

Muitos especialistas respeitam a complexidade da ciência, mas alertam contra a visão de beber álcool como um hábito categoricamente saudável.

“É enganoso dizer que a ciência não está estabelecida”, disse a Dra. Katherine Keyes, professora da Escola de Saúde Pública Mailman da Universidade de Columbia, cuja pesquisa se concentra na epidemiologia do uso de substâncias.

“Houve diferenças na metodologia e é por isso que há algumas diferenças nos resultados. Mas quando você separa os estudos, a ciência subjacente é consistente”, disse Keyes, que fez parte do painel independente convocado pelo HHS. “Há algumas condições em que vimos um benefício ou uma relação inversa em níveis muito baixos, mas elas são realmente superadas pelas condições em que você não vê nenhum benefício.”

O Dr. Ned Calonge, presidente do comitê que escreveu o relatório das Academias Nacionais, alerta que a ligação que seu grupo encontrou entre menor mortalidade por todas as causas e consumo moderado de álcool não deve ser interpretada como um resumo da relação entre álcool e saúde — muito pelo contrário, na verdade.

“A mortalidade por todas as causas é, eu diria, um resultado problemático, porque inclui muitos resultados diferentes, o que aumenta o risco potencial de viés associado a coisas chamadas fatores de confusão, outros fatores que podem ser responsáveis ​​pelo resultado”, disse Calonge, que também é reitor associado de prática de saúde pública e professor de epidemiologia na Escola de Saúde Pública do Colorado e professor de medicina de família na Escola de Medicina da Universidade do Colorado.

Pesquisas sobre os efeitos do álcool na saúde apresentam algumas lacunas significativas, o que contribui para possibilidades mais amplas de interpretação dos dados.

consumo “moderado” de bebidas alcoólicas não é definido de forma consistente, e agrupar as pessoas em categorias diferentes – como zero a três doses por dia – pode distorcer as médias quando os resultados podem ser muito diferentes para pessoas na extremidade inferior e superior dessa categoria.

O relatório da National Academies abordou isso em sua descoberta sobre o risco de câncer de mama, observando que maiores quantidades de bebida estão associadas a um risco maior de câncer de mama do que menores quantidades – mesmo dentro de níveis considerados “moderados”.

O padrão ouro para pesquisa científica é um ensaio clínico randomizado que monitora ativamente comparações diretas entre cenários com pouca variabilidade externa, mas a maioria dos estudos sobre os efeitos do álcool se baseia na observação sem intervenção.

Ao revisar descobertas de estudos observacionais, as conclusões mais fortes são tiradas de associações fortes entre dois fatores, disse Calonge. Mas as associações encontradas no relatório das Academias Nacionais – os riscos relativos nas direções positiva e negativa – não foram muito fortes, disse ele.

“Não podemos provar a causa com estudos observacionais”, disse Calonge. “Esses efeitos são importantes do ponto de vista da saúde pública, mas não podemos ir além da certeza moderada porque pode haver pesquisas adicionais com descobertas diferentes.”

·        Orientação médica sobre álcool: moderação

Apesar das lacunas na pesquisa, muitos especialistas dizem que as evidências de risco são fortes demais para serem ignoradas.

“Mesmo se você concordasse que uma linha de evidência está mais próxima da verdade para um estado de doença, você então olharia e reconheceria que se você apenas olhasse para um resultado de doença diferente, as descobertas poderiam ir em uma direção completamente diferente”, disse o Dr. Ahmed Tawakol, cardiologista do Hospital Geral de Massachusetts.

Se um novo medicamento estivesse sendo estudado para reduzir doenças cardíacas e os ensaios clínicos revelassem que ele também aumentava o risco de desenvolver câncer, esse medicamento nunca seria aprovado, disse ele.

“Quando você usa esse mesmo estado de espírito em referência ao álcool, diríamos que o álcool parece ter algumas ações mecanicistas que são benéficas, mas, ao mesmo tempo, vem como consequência de efeitos colaterais realmente inaceitáveis”, disse ele. “Fica claro que o álcool não deve ser considerado algo que você faz com o propósito de saúde.”

Algumas pesquisas sugerem que parte da maneira como o uso de álcool pode reduzir o risco de ataques cardíacos são os impactos que ele tem no sistema límbico, como limitar os sinais de estresse no cérebro. Mas há maneiras menos arriscadas de atingir o mesmo objetivo, disse Tawakol, como exercícios que vêm com múltiplos benefícios.

Ainda assim, Tawakol diz que normalmente não assume uma posição forte contra o álcool ao aconselhar seus pacientes.

“Eu me preocupo quando vejo esse tipo de abordagem em preto e branco”, ele disse. “Se você escolher beber álcool, certifique-se de que seja feito com moderação e também coloque isso no contexto de outros fatores de estilo de vida para que você possa amortecer ainda mais os potenciais efeitos adversos.”

Apesar do amplo apoio a um novo rótulo de advertência em bebidas alcoólicas, os adultos dos EUA estão praticamente divididos sobre se o governo deve fornecer recomendações de saúde ao público ou deixar que os americanos decidam por si próprios, de acordo com a nova pesquisa da CNN.

E muitos já estão fazendo suas próprias escolhas. Cerca de 4 em cada 10 adultos dizem que não bebem nada, enquanto cerca de 1 em cada 8 dizem que participaram do Dry January – com mais da metade desse grupo dizendo que estão fazendo isso este ano. Essa ideia é mais popular entre os americanos mais jovens, com quase 1 em cada 5 adultos com menos de 45 anos participando do Dry January em algum momento.

 

Fonte: CNN Brasil

 

Milei perde a primeira batalha de 2025: um grande passo na luta contra sua agenda reacionária

Em pleno verão e em meio a uma onda de calor, uma multidão nas ruas chacoalhou o governo, com múltiplas facetas. Depois de meses tentando se mostrar bem-sucedido e avassalador, o discurso mais reacionário de Milei ficou na defensiva. Também não conseguiu aplicar o "Protocolo Antipiquetes". O governo vinha ocupando o centro da cena política, mas neste sábado ficou visível a existência de uma oposição muito ampla que, por sua vez, está atravessada por debates estratégicos. Junto à diversidade sexual e às mulheres à frente, participaram trabalhadores em luta e dezenas de milhares de pessoas que queriam se manifestar contra Milei por múltiplas causas. Restam grandes desafios, mas a mobilização massiva mostrou que é possível enfrentar o governo e seguir até derrotar seu plano.

Desde cedo, era evidente que a marcha seria muito importante. Os lenços verdes, os laranjas e as cores da diversidade já haviam tomado os ônibus, os metrôs e os trens. Pouco depois, chegariam às ruas: uma multidão ocupou as ruas do centro de Buenos Aires e das principais cidades do país, ao mesmo tempo em que houve concentrações solidárias em diferentes países do mundo. Também participaram setores de trabalhadores que estão lutando contra fechamentos e demissões, além de um amplo espectro político e social.

Milei havia exagerado. Encorajado por seu melhor momento geopolítico, com a ascensão de seus amigos Donald Trump e Elon Musk, que viralizaram em todo o mundo com suas saudações nazistas e seus discursos reacionários, o presidente argentino lançou, a partir do Fórum de Davos, um de seus ataques mais reacionários, destilando ódio contra a diversidade sexual e contra as mulheres. No dia anterior, ele também havia tuitado contra os "esquerdistas filhos da puta".

No cenário local, o terreno também havia sido criado para ele. Depois que os facilitadores de governabilidade do macrismo, do radicalismo e de setores do peronismo facilitaram a aprovação da Lei de Bases e dos vetos contra os aposentados e as universidades públicas, o capital financeiro estava exultante com o "sucesso" do ajuste que permitia sua festa e a de poucos, enquanto a maioria empobrecia, sem perder o controle da situação. As burocracias sindicais e universitárias colaboravam com o quadro geral, retirando-se das ruas com uma cumplicidade absoluta e tentando criar um clima de que "não se pode enfrentar o governo". A CGT está de férias há muitos meses.

Nesse quadro "exitista", o governo lançou seus ataques obscurantistas. No entanto, a conjuntura reacionária que se vivia e que os jornalistas e tuiteiros de peruca amplificavam ao infinito escondia diversos pontos de fragilidade. Um deles era o esquema econômico, que está apoiado em múltiplos elementos de precariedade que abrem interrogações sobre seu futuro, um "futuro" que o governo tenta "adiar" até as eleições legislativas, sem desvalorizar a moeda para que a inflação não se agrave: o acordo com o FMI ainda pendente de assinatura, reservas do BCRA que continuam em terreno negativo, uma balança de conta corrente que acumula sete meses consecutivos no vermelho, um "dólar barato" difícil de sustentar no contexto nacional e internacional, atritos não apenas com as grandes massas, mas também com os patrões do campo (aos quais reduziram as retenções no marco de uma disputa) e com setores mercadointernistas que também sofrem com a abertura comercial.

Junto a isso, a multidão que se mobilizou neste sábado mostrou a existência de uma grande polarização política e social. O governo vinha quase monopolizando o centro da cena política, diante de uma oposição dos partidos do regime que estava em crise e desorientada, mas esse fato escondia a existência de uma grande oposição social que aparecia dispersa e atomizada. Mas neste sábado, mais uma vez, demonstrou-se que, quando existem canais de expressão e convocações claras, as pessoas vão às ruas com força, como foi na luta pelo financiamento universitário, nas greves nacionais, no 8 de março ou no 24 do ano passado, entre outras ocasiões. Os partidos do regime e as burocracias, como a CGT, eram responsáveis por isso não se expressar, o que também faz parte da explicação do grande descontentamento que existe com o papel do peronismo na oposição. Neste caso, a assembleia do Parque Lezama teve o mérito de organizar uma primeira resposta aos ataques furiosos de Milei, que agiu, com a diversidade sexual e as mulheres à frente, como um ponto aglutinador para que também se somassem setores de trabalhadores em luta e, de forma mais geral, dezenas de milhares de pessoas que querem lutar contra o governo. Isso também pôde ser visto nos próprios móveis dos diversos canais de televisão, que tiveram que refletir depoimentos de muitas pessoas que, ao explicar seus motivos para se mobilizar, manifestavam sua repulsa aos ataques de Milei às mulheres e às pessoas LGBTQ, assim como também ao ajuste, ao ataque à saúde e à educação públicas, ao fato de governar para os mais ricos, e até se ouviu mais de uma vez a exigência de "greve, greve, greve, greve geral". A esquerda, especialmente atacada por Javier Milei, também foi impulsionadora das convocações e apresentou denúncias contra Milei por incitação à violência e por querer impor a discriminação como política de Estado.

Ao mesmo tempo, esses dias também demonstraram que mesmo uma parte da base eleitoral que votou em Milei no segundo turno não compartilha esses valores reacionários que querem impor a discriminação como política de Estado. Em muitos casos, apoiam de forma reacionária a agenda econômica de ajuste, mas não os ataques à diversidade sexual, às mulheres ou à esquerda. Isso se expressou até mesmo em declarações e participações de alguns setores do PRO ou da UCR que quiseram aproveitar o tropeço de Milei para tentar recuperar parte do terreno perdido diante de um La Libertad Avanza que vinha tentando hegemonizar todo o espaço de direita. Todos os debates políticos estão atravessados pelo ano eleitoral e pelos possíveis fechamentos (ou não) de coalizões políticas.

Em outras faixas que apoiaram a marcha, há setores como Juan Grabois que querem aproveitar as circunstâncias para propor uma frente eleitoral de "todos contra Milei". Sob o argumento de "enfrentar o fascismo", propõem incorporar até mesmo setores que vêm dando apoios chave ao governo de ultradireita e antes ao macrismo, como Martín Lousteau (chave para aprovar a Lei de Bases) ou Elisa Carrió (histórica referência da direita gorila). É uma política de tentar reeditar - mas em uma versão ainda mais à direita - a política fracassada de fazer frentes amplas "para enfrentar a direita", que depois terminam ajustando e descumprindo todas as suas promessas, como aconteceu com o Frente de Todos, que acabou abrindo caminho para a ultradireita de Milei e frustrando sua própria base política. Um tempo atrás, outra experiência havia sido a Aliança de Fernando de la Rúa-"Chacho Álvarez".

Por parte do governo, quando perceberam seu erro não forçado, que estava provocando a organização de uma marcha massiva, quiseram tarde e mal atacar a mobilização, tentando desprestigiá-la, associando-a apenas ao peronismo e opondo os interesses das supostas "minorias" aos da suposta "gente comum" que sofre com a economia e a chamada insegurança. Também tentaram instalar que o presidente havia sido tirado de contexto ou que retirariam o projeto de eliminar o feminicídio como figura penal, mostrando uma atitude errática, que evidenciou um passo em falso do oficialismo. O fracasso total dessa tentativa de enfrentar a marcha ficou evidente na derrota de Patricia Bullrich, que não conseguiu aplicar seu "Protocolo Antipiquetes" contra a mobilização.

Muito pelo contrário, o que importa é, mais do que nunca e como propõe a esquerda, aproveitar esse revés do clima reacionário que o governo vinha impondo para seguir com força nas ruas, unificar as lutas democráticas contra os ataques às mulheres, à diversidade sexual e à esquerda, às lutas contra o ajuste. Por isso, foi muito auspiciosa a participação de setores em luta, como o Hospital Bonaparte, Shell, Pinkington, estatais e locais de memória. É preciso apoiar e coordenar todas essas lutas até que triunfem e preparar desde já mobilizações massivas para o 8 e o 24 de março.

A principal conclusão do dia é que é possível enfrentar e derrotar o plano de Milei. Nem bandeiras progressistas com ajuste (como foi um setor do Frente de Todos), nem discursos ultrareacionários "em nome da gente comum" (a quem ajustam selvagemente), como o governo de Javier Milei. Unidos e adiante, juntxs por todas as nossas causas de luta.

 

¨      Gustavo Petro é a voz de todos nós. Por Ana Prestes

Terminamos o mês de janeiro de 2025 com o povo latinoamericano e caribenho frontalmente atacados pelo novo governo Trump, empossado há pouco mais de dez dias. Uma das promessas de campanha que funcionou como pilar da estratégia da volta dos republicanos à Casa Branca, a massiva deportação de imigrantes, está sendo realizada e marca fortemente este início de mandato. Resta saber se ficará no alarde e na produção do terror e do medo dos últimos dias e depois será acomodada na burocracia, ou se será levada a cabo nos termos que se anunciam. Infelizmente, o que se percebe é uma América Latina e Caribe desintegrados e sem grande capacidade de resposta conjunta neste primeiro momento, embora iniciativas como a de Gustavo Petro, presidente da Colômbia, deem esperança de resistência e combate na região.

Para o cumprimento da medida, foram iniciadas as buscas e prisões de imigrantes indocumentados a serem enviados de volta aos seus países de origem Os primeiros voos partiram com destino ao Brasil, à Colômbia, à Guatemala e ao México. No dia 27 de janeiro, uma semana após a posse de Trump, a presidenta do México, Claudia Sheinbaum, informou a chegada de 4094 pessoas, em sua maioria mexicanas, e o número não surpreendeu muito, pois este é o país que mais recebe deportados dos EUA anualmente. De janeiro a novembro de 2024, por exemplo, o México recebeu mais de 190 mil deportados. A diferença em relação ao período anterior é que o governo Trump tentou enviar parte dos imigrantes em voos militares, o que não foi aceito pelo governo do México. Tais voos militares puderam pousar na Guatemala por volta do dia 24 de janeiro e é deste ponto que parto para trazer a reação do Brasil e da Colômbia ao envio desses voos. 

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, durante evento em Zipaquirá,em dezembro de 2024.

O primeiro voo de deportados brasileiros da gestão Trump chegou em território brasileiro no dia 24 de janeiro e pousou em Manaus, mesmo que seu destino original fosse Confins, em Minas. Pode-se considerar que as cenas das condições em que brasileiras e brasileiros desembarcaram foram fundamentais para a denúncia inicial da crueldade, da desumanidade e a total violação dos direitos humanos e das leis brasileiras praticadas pelo governo dos EUA. Os relatos são de que o avião possuía sérias avarias e as pessoas vieram em condições absolutamente indignas de calor absoluto, privação de alimentos, água, sanitários e algemadas nos pés e nas mãos, quando não amarradas pela barriga. Rapidamente, tanto a Polícia Federal, o Itamaraty e o presidente Lula pessoalmente agiram e determinaram a libertação dessas pessoas e enviaram um voo da FAB para a realização do trajeto final da viagem até Belo Horizonte. Muitas pessoas, cerca de 50, precisaram de atendimento médico diante das condições que enfrentaram. O governo Lula exigiu explicações da Embaixada dos EUA em Brasília.

Diante desse quadro, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, se posicionou de forma mais dura e assertiva no sentido de prevenir tanto a chegada de cidadãs e cidadãos colombianos em voos militares dos EUA, como aconteceu no México, Guatemala e Brasil, e impedir que estas pessoas fossem tratadas da forma degradante como as brasileiras e que nenhum voo tocasse o solo colombiano com pessoas algemadas e em condições desumanas de tratamento. A comunicação do Presidente Petro veio na forma de uma carta ao presidente Trump que pode ser considerado um documento histórico que marcará o início dessa nova fase de enfrentamento da América Latina e o Caribe com os EUA. Destaco abaixo um trecho do texto que representou a voz do povo latinoamericano e caribenho sistematicamente atacado pelos governos estadunidenses e que passa a um novo patamar de ataques:

 “Você nunca nos dominará. No seu oposto temos Bolívar, o guerreiro que cavalgava nossas terras gritando por liberdade. Na Colômbia está o primeiro território livre das Américas, antes mesmo de Washington, é lá que me abrigo, nos cantos africanos. Derrube-me, presidente, e as Américas e a humanidade responderão.”

A resposta de Trump não foi em termos históricos e literários, terreno que ele não domina e pelo qual não se interessa, mas sim econômicos. Muitos desdenharam de Petro dizendo que ele inocentemente atacou com história e literatura e recebeu uma dura resposta pragmática, com imposição de tarifas alfandegárias sobre os produtos colombianos e suspensão de vistos para membros do governo e familiares de Petro, mas o fato é que, ao final do embate e das negociações diplomáticas que seguiram, os voos que chegaram à Colômbia não eram em aviões militares dos EUA, mas sim colombianos, e ninguém chegou algemado e privado dos seus direitos básicos como ser humano. Além disso, o governo colombiano anunciou para estas pessoas “um plano de crédito produtivo, associativo e barato”, conforme as palavras de Petro, que ainda reforçou: “o migrante não é um criminoso, é uma pessoa humana livre”.

A iniciativa de Petro ficou isolada na região, pois mesmo o Brasil, que foi o primeiro a denunciar os horrores dos voos dos deportados, recuou para uma postura mais moderada com relação aos EUA. A iniciativa da presidente da Celac, Xiomara Castro, presidenta de Honduras, de realizar uma reunião da organização no dia 30 de janeiro para tratar o tema também não prosperou. Isso demonstra uma desarticulação e uma desintegração das forças políticas progressistas que hoje governam países na América Latina e Caribe, mas também uma conjuntura de conforto da extrema direita neoliberal e reacionária que avança na nossa região e no mundo, mas isso é tema para o próximo artigo.

 

Fonte: Esquerda Diário/Opera Mundi

 

Os brasileiros que imigram para trabalhar em frigoríficos na Irlanda: 'Abuso e condições precárias'

Cada vez mais brasileiros se mudam para a Irlanda para trabalhar em um mercado com mão de obra interna escassa: a indústria da carne, que abastece também outros países europeus.

Esse movimento é acompanhado de uma preocupação crescente com abusos trabalhistas — um problema relatado não só por organizações que estudam o setor, mas evidente em comunicações internas do governo brasileiro.

A BBC News Brasil teve acesso a um conjunto de telegramas da Embaixada do Brasil em Dublin que revelam preocupação com migrantes brasileiros sujeitos a:

# "Condições de trabalho precárias", "insalubres" e "abusivas por parte dos empregadores";

# "Desempenhar múltiplas funções no ambiente de trabalho, em condições de segurança precárias";

# "Turnos de trabalho prolongados", às vezes com "salário inferior ao mínimo".

Os relatos da embaixada apontam que "a maioria dos brasileiros nessa situação teme protestar" e, como consequência, serem"obrigados, junto com seus familiares, a voltar imediatamente para o Brasil".

Essas comunicações, obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação, ocorreram em 2024, e apontam ainda uma interpretação de que "não há apetite governamental" no país para um monitoramento mais sistemático das empresas.

Procurada pela reportagem, a Meat Industry Ireland (MII), associação que representa diversas empresas de processamento de carne bovina na Irlanda, disse que todos os funcionários de empresas associadas à organização são "altamente valorizados e tratados de forma igualitária por seus empregadores" e que "refutam fortemente as inferências feitas".

Já a Comissão de Relações de Trabalho (WRC, na sigla em inglês), órgão que fiscaliza questões trabalhistas em empresas na Irlanda, diz que não comenta críticas feitas por terceiros.

O Departamento de Empresa, Comércio e Emprego, que financia a Comissão de Relações no Trabalho, disse que não comentaria a reportagem.

A BBC News Brasil também procurou o gabinete do primeiro-ministro da Irlanda, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem.

Ao longo de três meses, a reportagem conversou com mais de dez trabalhadores brasileiros em diferentes cidades da Irlanda e identificou exemplos concretos dos problemas relatados nos documentos oficiais.

Um deles precisou amputar um dedo da mão, após se machucar exercendo uma função para a qual conta que não estava treinado (leia abaixo).

Outros relatos frequentes ouvidos pela BBC News Brasil envolvem remunerações menores do que de colegas de outras nacionalidades na mesma função, além de diversos casos de humilhação no ambiente de trabalho.

Apesar desses depoimentos, parte dos entrevistados diz que vê algumas das violações como uma espécie de sacrifício para obter condições de vida melhores no futuro.

·        'Favoritos'?

Brasileiros são considerados favoritos nesse setor, segundo recrutadores e especialistas em imigração ouvidos pela reportagem, por uma série de fatores: trabalham muito, têm experiência prévia em frigoríficos no Brasil e, como outros imigrantes que dependem do visto de trabalho, têm receio de demonstrar insatisfação e perder oportunidades.

O número de permissões de trabalho a brasileiros em diversas áreas do mercado de trabalho nunca foi tão alto quanto nos últimos 3 anos, segundo dados do governo irlandês.

Só em 2024, foram 4,5 mil novas autorizações. Há dez anos, esse número não chegava a 1 mil por ano.

Ao olhar especificamente para o mercado do processamento da carne, de 8 mil autorizações de trabalho emitidas desde 2020 pelo governo irlandês para pessoas de fora da União Europeia e do Espaço Econômico Europeu (EEA), 66% foram para brasileiros.

O Itamaraty estima que há 80 mil brasileiros na Irlanda, e diz que o número é uma avaliação aproximada, que inclui todos os brasileiros residentes, ainda que temporariamente, e independentemente da situação migratória.

·        'A arma disparou na minha mão'

Poucas semanas após mudar para a Irlanda para trabalhar em um frigorífico, o tocantinense Guilherme dos Santos, hoje com 34 anos, sofreu em 2021 um acidente que levou à amputação de um dedo.

"Sofri um acidente, com dois ou três meses de serviço. Fui atirar para matar um animal, ele mexeu com a cabeça, e a arma disparou na minha mão. Atingiu o tendão na palma da mão e tive que passar por três cirurgias. Duas foram para tentar reconstituir, mas tive que amputar um dedo", contou à BBC News Brasil.

Santos conta que perdeu a força na mão — além do mindinho lesionado, também teve fratura no anelar.

Ele diz que inicialmente teve apoio da empresa com os tratamentos. Depois, decidiu colocar o caso na Justiça — ele conta que não tinha o treinamento para trabalhar com a arma usada no processo de sangria do animal.

Hoje ele atua na área de limpeza de carcaça na mesma empresa, e pensa em voltar para o Brasil após cumprir o prazo para ter visto de residência na Irlanda.

Mas quer trabalhar em outra área: "Sinto muita dor. Não quero frigorífico mais".

Questionado se valeu à pena ir para a Irlanda, Santos diz que "com certeza".

E emenda: "Mas ninguém em sã consciência vem para passar muito tempo", apesar de acrescentar que considera que as experiências dos imigrantes são variadas.

O advogado brasileiro baseado em Dublin Bruno Borges atua há quatro anos em causas na justiça irlandesa que envolvem acidentes que geram lesão, como a de Santos.

Borges, do escritório Murray Flynn Solicitors, diz que a maioria de seus clientes em casos de acidentes ocorridos em ambiente de trabalho são trabalhadores da indústria de processamento de carne.

"Com trabalho pesado e por irregularidades, alguns brasileiros acabam se lesionando", diz. "Não tenho mais clientes porque alguns dependem do visto e ficam com medo de entrar com ação e sofrem calados para o resto da vida."

·        'Aprende ou te mando de volta pro Brasil'

Os profissionais brasileiros contratados por empresas na Irlanda já possuem experiência prévia como desossadores, cortadores, operadores de linha, limpadores, dentre outras funções.

Uma das etapas de seleção, inclusive, envolve a gravação de um vídeo do profissional no processo de desossar um animal abatido.

No entanto, um primeiro "tombo", segundo os relatos ouvidos pela reportagem, acontece quando alguns deles descobrem que o visto de trabalho recebido não é o equivalente a um cargo com essa experiência, para que possam pagar menos, ou quando, na prática, acabam trabalhando em um posto no qual não têm treinamento.

Lucas dos Anjos, de 27 anos, se mudou para Irlanda em 2020, após ser selecionado por uma entrevistadora no Brasil. A empresa pagou passagem e hospedagem, além de suporte inicial, como acomodação, e um adiantamento de 100 euros.

Inicialmente destinado à desossa, Lucas acabou trabalhando no abate.

"Logo na recepção, o pessoal já falava da fama dos supervisores de serem tiranos, mal-educados."

Ele chegou em um grupo com 20 pessoas e que elas tinham de aprender pelo menos três funções diferentes. "Se a pessoa nunca trabalhou no abate, por exemplo, é difícil de aprender. E então o supervisor dizia: ou você aprende, ou te mando de volta para o Brasil."

Depois de desentendimentos e muita frustração, Lucas conta que deixou a empresa após um ano. Conseguiu outro trabalho em um frigorífico menor, que depois descobriu que era conhecido por colegas brasileiros como "pela jegue" por suas condições ainda mais degradantes.

"Não tinha hora para acabar. Era um trabalho escravo. Já tive de trabalhar mais de 12 horas em um dia. Se fosse embora, era punido depois e não nos chamavam pra trabalhar", diz, em referência ao pagamento semanal.

Hoje ele avalia que as empresas perceberam o valor do brasileiro como uma mão de obra barata e esforçada. "Sabem que o euro vale muito no Brasil e, por isso, qualquer coisinha que o brasileiro recebe, ele se acostuma."

Outro problema, relata, era a falta de segurança. "Tinha muitos acidentes. Era comum ver gente que sofreu corte de faca, que passava mal. E não tinha gente suficiente para os primeiros socorros. Minha virilha inchou uma vez porque estava trabalhando no couro. Arrastava um couro sozinho que pesa 50 kg, o dia inteiro."

Lucas conta que, após ter se juntado a colegas para pedir melhorias à empresa, acabou demitido. Ele abriu um processo contra os empregadores e conseguiu, em 2024, uma indenização.

No mesmo ano, conta, começou a trabalhar em um frigorífico maior, onde está há quatro meses, em condições que avaliou serem melhores.

·        'Medo de demissão'

O temor da demissão após reclamação por melhorias é uma das preocupações relatadas nos documentos da embaixada.

Os telegramas mostram que a comunidade que trabalha em frigoríficos é vista pela diplomacia brasileira como "especialmente vulnerável" por uma combinação de fatores, que inclui falta de domínio do inglês, relativo isolamento no interior do país (onde estão as empresas) e "limitada capacidade de mobilizar-se em defesa dos seus interesses."

Em resposta, o governo irlandês lançou no fim de 2024 uma pesquisa com trabalhadores do setor, cujos resultados ainda não foram divulgados.

"A pesquisa certamente terá sido motivada por uma série de incidentes envolvendo direitos trabalhistas na indústria da carne irlandesa nos últimos anos", disse a embaixada brasileira à reportagem, em nota. "A Embaixada vem atuando há muitos anos nesse tema, algumas vezes acompanhando negociações entre trabalhadores brasileiros e as empresas, em outras exigindo das autoridades irlandesas medidas contra casos abusivos."

As violações trabalhistas na Irlanda são fiscalizadas por um órgão estatal independente, a Comissão de Relações de Trabalho (WRC, na sigla em inglês).

O relatório mais recente aponta que o órgão visitou seis empresas da carne em 2023 e identificou irregularidades trabalhistas em cinco delas. No ano anterior, 15 de 20 empresas fiscalizadas tinham falhas.

Em um encontro realizado no começo de 2024 com representantes da comissão, o então embaixador brasileiro Marcel Biato expôs uma série de problemas nas contratações pelo setor.

Para ele, esses trabalhadores estão "frequentemente sujeitos a contratos de prestação de serviços abusivos, em condições de trabalho insalubres, com horários extensos e salários deprimidos, em desacordo com os termos de emprego que lhes foram oferecidos quando recrutados no Brasil."

Biato afirmou ainda que os contratos assinados muitas vezes estabelecem apenas obrigações dos empregados, não direitos, e que os trabalhadores desempenham múltiplas funções, em condições de segurança precárias — reclamação citada por todos os entrevistados para esta reportagem.

O representante da comissão afirmou, no encontro, que eles possuíam número insuficiente de inspetores para verificar todas as denúncias recebidas (o órgão disse que aumentou esse número em 2025).

Na visão apresentada pela embaixada naquele momento, "não há apetite governamental para promover uma campanha de fiscalização mais sistemática".

Procurada pela BBC News Brasil, a WRC disse que seu objetivo é que as empresas sigam as regras de forma voluntária, por meio de educação, conscientização e fiscalização das empresas. Informou que possui 70 inspetores para todo o país e que o número aumentará para 80 em 2025.

O órgão disse ainda que seleciona as empresas a serem fiscalizadas com base em reclamações de funcionários, empregadores e cidadãos, bem como informações vindas de outras agências de fiscalização. E disse que não comentaria as críticas específicas.

·        'Xingam a gente dando risada'

Entre as reclamações de um brasileiro que se mudou em 2022 para a Irlanda para trabalhar em uma empresa tradicional do setor, está a falta de fiscalização. Ele diz que era mais rigorosa em seu emprego anterior, no Brasil.

Ele — que pediu para não ser identificado, pois trabalha na mesma empresa e teme perder o visto — também reclama que não recebe pelas horas extras trabalhadas. "Ganham muito dinheiro em cima da gente."

Além de salário e jornada, ele também reclama das condições no local.

"Não tem um bebedouro dentro da fábrica. A gente tem que sair, tirar o uniforme que usamos lá dentro, e ir em uma cantina. De vez quando, a gente vai e o gerente começa a gritar com a gente, [reclamar] que estamos fazendo pausa."

Ele também afirmou que escuta xingamentos, que muitos colegas sequer entendem por não falar inglês. "Não tem um tradutor na empresa. Quando cheguei, a empresa falou que pagaria um curso, mas nunca pagou. O que sei hoje foi aprendendo no dia a dia, com o chefe botando pressão. Às vezes, xingam a gente dando risada."

·        'Ganho financeiro'

O interesse de brasileiros em migrar para trabalhar na indústria da carne irlandesa fica evidente nas redes sociais, onde perfis e grupos dividem informações sobre processos seletivos, que chegam a ter centenas de candidatos por uma única vaga.

No Youtube e no Instagram, há até venda de "métodos" para conseguir o trabalho, que exige experiência comprovada.

Também há agências que prometem passagem, moradia e salários cinco vezes maiores do que é pago por um mesmo cargo no Brasil.

Micheline Oliveira é recrutadora para alguns dos maiores frigoríficos irlandeses desde 2018, após mais de dez anos atuando em empresas do mesmo setor no Brasil.

A empresa para a qual ela trabalha oferece contrato inicial de dois anos, documentação e passagem aérea pagas pela empresa, e salário anual de 30 mil euros (cerca de R$ 16 mil por mês).

"O que mais atrai os brasileiros é o ganho financeiro mesmo. Quando me abordam, muitos falam que querem mudar de vida, ter possibilidades maiores. Uma boa parte fala que quer ter casa própria, e que na Irlanda conseguiria [juntar dinheiro] mais rápido."

Mas, nos últimos anos, conta ela, há também relatos dos que querem uma melhor qualidade de vida e nem pensam em voltar ao Brasil.

"Alguns gostam de tal forma que não voltam ao Brasil há quatro, cinco anos, mesmo com pressão da família."

A recrutadora diz que boa parte dos europeus considera o serviço "pesado" e, por isso, acabam sobrando vagas. Ao mesmo tempo, brasileiros ganharam a fama de serem bons trabalhadores e de permanecerem muito tempo nas empresas, em busca de cidadania no país (que exige cinco anos de permanência).

Oliveira diz que muitos acabam encontrando dificuldades com o inglês — muitos viajam sem saber falar o idioma —, com a adaptação com o clima mais frio e chuvoso, e com diferenças culturais.

Outra reclamação constante é sobre o salário maior para europeus. "Mas tem vários brasileiros que conquistaram espaço de encarregado de setor. Aprenderam inglês e foram ganhando a confiança", diz ela.

Em 2024, duas mudanças legislativas favoreceram trabalhadores estrangeiros.

Cônjuges e parceiros de titulares de visto de trabalho passaram a ter permissão de trabalhar, sem necessidade de uma autorização à parte.

Além disso, foi reduzido o tempo que trabalhadores precisam ficar vinculados à empresa que os levou para Irlanda, de um ano para nove meses. Especialistas esperam que a medida reduza os riscos de abuso por parte das empresas.

·        Empresas seguem a lei, diz representante do setor

A Meat Industry Ireland (MII), associação que representa diversas empresas de processamento de carne bovina na Irlanda, disse em uma nota à BBC News Brasil que todos os funcionários de empresas associadas à organização são "altamente valorizados e tratados de forma igualitária por seus empregadores" e que "refutam fortemente as inferências feitas".

"Funcionários de fora da União Europeia/EEE, incluindo cidadãos brasileiros, são empregados por meio de um sistema de permissão de trabalho operado pelo governo irlandês, e suas condições de remuneração e trabalho estão de acordo com os termos desse sistema aprovado."

A organização disse ainda que a indústria da carne é altamente regulamentada, "com presença permanente de funcionários do Departamento de Agricultura, Alimentação e Assuntos Marinhos em todos os nossos locais".

Disse também que os frigoríficos estão sujeitos a inspeções e auditorias regulares, realizadas por agências governamentais em relação às condições de trabalho, protocolos de saúde e segurança e remuneração.

"Qualquer problema levantado com os empregadores relacionado à segurança ou às condições de trabalho é tratado com seriedade e resolvido quando necessário. Suporte e assistência estão disponíveis para todos os funcionários por meio dos departamentos de RH de cada empregador".

A organização reforça, no entanto, que não representa ou fala em nome de todas as empresas do setor de carne no país. A BBC News Brasil não citou o nome de empresas específicas no e-mail enviado à organização.

·        'Ascensão social'

Mestre em Antropologia Social e doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, Igor Machado, que fez trabalho de pesquisa com brasileiros na Irlanda, relata que o trabalho em frigoríficos irlandeses representa uma "ascensão social" para muitos brasileiros que trabalharam no mesmo setor no Brasil.

"A diferença salarial na Irlanda é menos intensa que no Brasil, é um país menos desigual. Mesmo com o salário mínimo, há mais acesso a determinadas políticas sociais. Isso faz com que a vida seja menos dura do que no Brasil", diz.

Em relação ao dia a dia no trabalho, no entanto, Machado observa que "o trabalho em frigoríficos mói as pessoas".

"É um trabalho brutal. Se você ficar dois, três anos, inevitavelmente terá problemas físicos. É uma atividade repetitiva, violenta. Exige força. Os acidentes de trabalho são muito intensos", diz ele, que aponta que imigrantes que trabalham neste setor no Brasil, como haitianos, sofrem situações similares.

"Não à toa esse é o mercado preferencial para imigrantes. Os irlandeses não vão querer."

O trabalho na indústria da carne está relacionado à história do movimento imigratório de brasileiros para a Irlanda, como lembra Machado. Ele relata que, nos anos 1990, houve uma onda de contratações para trabalhar na indústria da carne. Os primeiros a chegar, com o tempo, começaram a trazer suas famílias.

Um artigo publicado na revista Population, Space and Place pelos pesquisadores Garret Maher e Mary Cawley, contextualiza esse movimento.

Segundo a pesquisa, um irlandês que trabalhava com exportação de carne em Goiás, nos anos 1970, começou a receber solicitações de conhecidos em frigoríficos irlandeses, que estavam enfrentando escassez de mão de obra.

Ele então empregou sua esposa para recrutar trabalhadores brasileiros. Segundo o artigo, a maioria veio da Vila Fabril, nos arredores de Anápolis, onde um frigorífico tinha fechado e deixado 900 pessoas sem trabalho e com qualificações para trabalhar nas mais diversas áreas.

A cidade goiana é também, vale lembrar, o berço da maior empresa do mundo no setor, a JBS.

Em 2002, o censo irlandês identificaria a presença de 1.075 brasileiros no país. Em 2006, o número já tinha quadruplicado.

·        'Injeção para dor'

Maurício Lino, de 50 anos, está desde 2003 na Irlanda. E foi em 2019 que percebeu que seria importante se organizar.

Como desossador, começou a ter problemas no movimento de uma das mãos, causado por esforço repetitivo no trabalho. Isso o deixaria fora da empresa por três anos.

Passou por duas cirurgias e tentou voltar a trabalhar, mas um médico o alertou que ele poderia perder o movimento do braço se continuasse no mesmo ritmo.

Nos primeiros meses, a empresa continuou a pagar seu salário. Mas no começo da pandemia, em 2020, ele deixou de receber e passou a depender exclusivamente de um auxílio do governo, que não chegava a um quinto de seu salário.

"Quem está há mais de dez anos nessa área só trabalha na base de injeção [para diminuir a dor]", diz.

Ele reclama que, nesse ponto, as condições de trabalho na Irlanda são piores que as do Brasil.

"No Brasil, tinha aquecimento, fisioterapia. Aqui não tem nada disso, e o tempo é bem mais frio. O trabalhador chega com o corpo gelado e começa a desossar um boi duro. Vai dando sequela no ombro, no punho, na mão."

Neste período, Lino teve contato com a ONG Migrant Rights Centre Ireland (MRCI), que pesquisava a situação dos imigrantes no setor da carne durante a pandemia, e o chamou para ajudar em uma pesquisa.

"Aprendi as leis trabalhistas e viajei com eles. Quando queriam apoio com os brasileiros, recorriam a mim."

Hoje Lino atua como uma liderança entre os brasileiros, encaminhando denúncias de colegas e os ajudando a reclamar em suas empresas, com orientações sobre direitos trabalhistas e questões de visto.

O trabalho da ONG que ele participou entrevistou 151 imigrantes, incluindo brasileiros. Um dos achados foi que muitos dos trabalhadores têm contratos de forma terceirizada — com agências, e não com a própria empresa.

O estudo conclui que essa seria uma forma de pagar menos e deixar os trabalhadores em situação de incerteza sobre seus direitos ou a quem reclamar.

Lino conta que voltou a trabalhar na mesma empresa e lá ajudou a criar uma associação dos trabalhadores.

"Brigamos por salários e condições melhores", diz ele. "Sei que sou uma ovelha negra, mas sou um bom funcionário. Mesmo que brigue pelos direitos, faço bem o meu serviço."

 

Fonte: BBC News Brasil