SUS:
é preciso “virar tudo de cabeça para baixo”
O
professor associado do Departamento de Política, Gestão e Saúde, da Faculdade
de Saúde Pública da USP, Carlos Botazzo, vivenciou de perto um dos marcos
fundamentais da história da saúde pública no país. Mas, ao relembrar a 8ª
Conferência Nacional de Saúde (CNS) no primeiro dia do seminário que celebra
seus 40 anos em São Paulo, o pesquisador foi além da nostalgia e alertou que o
SUS nasceu de um anseio democrático, mas foi assentado sobre um Estado que
nunca rompeu com seu passado autoritário.
Na mesa
40 anos da 8ª CNS: Legados, rupturas e possibilidades, Botazzo conta que chegou
à conferência de 1986 após ser preso pela ditadura e trabalhar em Moçambique,
onde ajudou a erguer um sistema de saúde pós-independência. Ao voltar ao
Brasil, encontrou um país em transição conciliatória. “A Lei da Anistia foi
parcial. Tinha o ‘jeitinho brasileiro’ e a esquerda pensava: não fazer agora,
porque depois a gente corrige. E nós não corrigimos nunca”, criticou.
Para
ele, a ditadura é uma realidade contínua nas periferias, materializada na
militarização. “É uma aberração que um país livre tenha uma polícia de
intervenção. Polícia militar é para quando se suspende o Estado de Direito”,
pontuou, lembrando que a própria USP foi palco da repressão.
No
contexto de um regime autoritário que comandava sua própria transição, Botazzo
descreveu a 8ª CNS como um verdadeiro “vento de liberdade”. “Foi um espaço onde
a fala estava liberada. Ela foi visionária, no sentido de antever o futuro, e
nisso não errou”, definiu.
Ele
relembrou um imbróglio ocorrido logo no primeiro dia, quando representantes do
setor privado abandonaram a conferência sob aplausos dos militantes. A reação
da grande imprensa foi dura. Botazzo citou um editorial do jornal O Estado de
S.Paulo da época, que decretava o fracasso do encontro: “Diziam que a
conferência de sindicalistas não ia prosperar, porque sem o setor privado não
haveria saúde pública no Brasil”.
O
alerta do professor em relação ao futuro do SUS reside na ausência de uma
análise crítica profunda sobre o Estado brasileiro. Segundo ele, o relatório da
8ª Conferência foi brilhante ao propor a reformulação da saúde, mas silenciou
sobre a máquina que operaria essas mudanças. “Nós que planejamos e gestamos não
temos ideia do que seja o Estado”, provocou.
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O SUS real e o desafio da gestão municipal
Com a
vivência de quem ajudou a estruturar o SUS a partir dos territórios, Aparecida
Linhares Pimenta trouxe a perspectiva da gestão municipal, relembrando as
dificuldades iniciais, celebrando a resiliência do sistema e falando a respeito
das ameaças atuais, desde a precarização do trabalho até o avanço do Congresso
sobre o orçamento da saúde.
Aparecida
tinha 30 anos quando participou da histórica conferência de 1986. Na época, a
presença de gestores municipais era restrita, mas a pressão garantiu cerca de
150 representantes. Sem salas disponíveis para reuniões, o grupo precisou
improvisar. “Sentamos todos no chão. A pergunta era: o que nós vamos fazer nos
municípios?”, relembrou.
Esse
encontro improvisado foi a semente para a criação de entidades fundamentais
para a governança do SUS, como o Conselho de Secretários Municipais de Saúde
(Cosems) e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).
“Estávamos nos territórios com a tarefa política de organizar o SUS. Não havia
um curso, não havia como dialogar com o Ministério ou com as secretarias
estaduais. Fomos fazendo na prática”, explicou.
Ao
revisitar o relatório final da 8ª CNS, Aparecida destacou que o movimento
sanitarista nunca se limitou a reivindicar a criação de um ministério ou mudar
regras financeiras. O foco era a determinação social da doença e a luta contra
as desigualdades. “A Oitava só foi o que foi porque aconteceu numa conjuntura
política de muita movimentação no Brasil, com a campanha das Diretas, a luta
pela anistia e as greves. A gente respirava um clima de esperança por um novo
Brasil”, pontuou.
Outro
ponto sensível é a gestão do trabalho. O relatório de 1986 já exigia
remuneração digna, concurso público e educação permanente. “Avançamos
pouquíssimo. Temos todo esse problema da precarização e da privatização que
rompe com as propostas da Oitava”, afirmou. A relação com o mercado também
sofreu uma inversão perigosa. “Lá está escrito que o privado deve ser
subordinado ao público com amplo rigor estatal. Hoje é o contrário: quem
controla o público é o privado”.
Apesar
dos reveses, Aparecida celebrou a sobrevivência do SUS como um legado
monumental, destacando a rede de quase 50 mil unidades básicas e o sucesso de
programas como o de imunização e o controle do HIV. Recordou e classificou o
governo de Jair Bolsonaro como uma “ruptura drástica”, marcada pela
militarização e desmonte do Ministério da Saúde e destacou outro tipo de perigo
que vê pela frente. “Estamos com outro risco que precisamos discutir: a questão
do Congresso. Essa questão das emendas parlamentares tem uma gravidade enorme.
Não podemos aceitar esse tipo de intervenção”, alertou.
Para a
gestora, a memória da 8ª CNS remete também à necessidade de mobilização
contínua. “Não é possível haver um sistema como o SUS num país tão desigual,
racista e violento para o seu povo sem luta, sem disputa, sem muito suor e
lágrimas. Revisitar a oitava é um convite à luta”, concluiu.
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O distanciamento das ruas e a medicalização da vida
A
professora Laura Feuerwerker, do Departamento de Política, Gestão e Saúde da
FSP/USP, trouxe um tom de urgência e autocrítica ao seminário. Falando em meio
a uma greve estudantil e uma mobilização que ocorre nas universidades estaduais
paulistas, ela usou o momento como metáfora para um problema maior: a imensa
dificuldade de diálogo entre as instituições e a realidade das ruas. Para ela,
o SUS sofre desse mesmo mal.
“O SUS
está longe da vida que é efervescente nos territórios. Isso é mortal para um
sistema em que a radicalidade democrática, a defesa da vida e o combate à
desigualdade são tão centrais”, questionou a pesquisadora. Segundo ela, embora
o sistema tenha ganhado centralidade no debate, a política de saúde tornou-se
burocratizada, tecnificada e, muitas vezes, produtora de “descuidado”.
A
pesquisadora ressaltou a naturalização da saúde como bem de consumo,
impulsionada pelo modo de vida neoliberal, citando o caso do estado de São
Paulo, onde metade da população possui alguma cobertura privada, muitas vezes
precária, como as clínicas populares.
“As
pessoas usam essas coisas e está completamente naturalizada a ideia de que elas
vão lá comprar serviços. É uma derrota assustadora da ideia da saúde como
direito”, lamentou. “Saúde virou bem de consumo: quem tem dinheiro compra, quem
não tem, anda a pé.”
Essa
lógica, segundo a professora, invadiu o próprio SUS por meio da medicalização
radical da vida e, diante do sofrimento brutal gerado pelo capitalismo, o
sistema tem oferecido respostas rasas. “A resposta que a gente dá ou é consulta
ou é remédio. É uma epidemia produzida pela indústria farmacêutica. O SUS tem
uma baixíssima capacidade de dialogar com o sofrimento que o modo neoliberal
produz”, analisou.
Feuerwerker
não poupou palavras para descrever o que chamou de uma “crise ético-política
radical” entre os trabalhadores da saúde, citando casos de profissionais que
resistem a atender pacientes do sistema prisional e advertiu sobre os rumos de
diretrizes e políticas públicas que são contrárias aos princípios fundadores da
saúde pública. “É inadmissível políticas do SUS serem cúmplices de políticas de
genocídio. A política de saúde mental hoje promove encarceramento das pessoas,
não só no manicômio, mas em comunidades terapêuticas”, denunciou.
Avaliando
o cenário político, a professora apontou que, além dos danos causados pelos
governos Temer e Bolsonaro, o SUS enfrenta uma outra ameaça silenciosa, a
eleição sucessiva de governos municipais de direita desde 2016. “Para o SUS,
isso é mortal, porque é no município que a vida mora”, explicou, criticando
também a capacidade de resposta “muito limitada” do atual governo federal.
Para
reverter esse quadro, Feuerwerker defende que é preciso “virar tudo de cabeça
para baixo”. A saída, segundo ela, exige uma reconexão urgente entre os
trabalhadores da saúde e os movimentos sociais. “A gente precisa fazer essas
coisas se encontrarem. Tem muita gente que não está nas conferências, mas que
está nos territórios fazendo coisas que importam para produzir outro jeito de
viver. Essa é a alma da aposta da Reforma Sanitária”, refletiu.
Fonte:
Por Glauco Faria, em Outra Saúde

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