sábado, 30 de maio de 2026

Identidade: O louco e a cidade

Tenho 28 anos e nasci no interior de Santa Catarina, em uma cidade chamada Caçador. A cidade era pequena, industrial, cercada pela cultura do pinus e pelo orgulho familiar de possuir terra, produzir e crescer. Para muitos dos meus familiares, Caçador representava estabilidade, trabalho e pertencimento. Para mim, representava outra coisa.

Sempre me senti deslocado lá. Lembro de assistir televisão e imaginar uma vida completamente diferente da que existia ao meu redor. Fantasiava apresentar programas da MTV, morar em uma cidade grande, encontrar pessoas que compartilhassem dos mesmos desejos e inquietações. Achava a vida ao meu redor pouco ambiciosa, pouco diversa, pouco viva. Hoje consigo entender que existia ali um desejo ainda sem nome: viver minha identidade longe dos olhos da minha família e da vigilância moral de uma cidade pequena.

Sou um homem gay e, durante muito tempo, tive a sensação de que não havia lugar para mim naquela cidade. Interessante perceber como essa experiência individual encontra ecos na própria história da loucura no Brasil. Assim como eu, o louco também nunca teve lugar.

Quando pensamos nos manicômios brasileiros, muitas vezes imaginamos apenas instituições de tratamento psiquiátrico. No entanto, os manicômios também funcionaram como dispositivos urbanos de segregação, criados para afastar da convivência social todos aqueles considerados inadequados. Isso incluía pessoas com transtornos mentais graves, mas também alcoólatras, usuários de drogas, mulheres consideradas desviantes, homossexuais, prostitutas, opositores políticos, pessoas negras recém-libertas após a abolição da escravatura e indivíduos pobres sem qualquer rede de proteção social.

A abolição ocorreu em 1888. Poucos anos depois, o Brasil expandia seus grandes complexos psiquiátricos sob uma lógica higienista que buscava retirar das ruas os corpos indesejáveis da nova ordem urbana republicana.

O Hospício Pedro II, inaugurado em 1852 no Rio de Janeiro, introduziu no país o modelo alienista francês, baseado no isolamento como forma de tratamento moral. Sua arquitetura monumental, inspirada em palácios europeus, ajudava a construir a imagem de modernidade do Império brasileiro. Décadas depois, surgiriam instituições ainda maiores, como o Hospital Psiquiátrico do Juquery, em São Paulo, e o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais.

O Juquery, criado em 1898, funcionava sob o modelo de colônia agrícola. Os pacientes eram enviados para uma vasta área afastada da capital paulista, onde o trabalho rural fazia parte tanto do tratamento quanto do próprio funcionamento econômico da instituição. Já Barbacena tornou-se símbolo máximo da violência manicomial brasileira. Mais de 60 mil pessoas morreram ali e estima-se que cerca de 70% dos internados sequer possuíam diagnóstico psiquiátrico. Eram pessoas consideradas inconvenientes ao convívio social.

O manicômio funcionava, portanto, menos como espaço terapêutico e mais como tecnologia de remoção. Havia algo profundamente espacial nisso: afastar, isolar, retirar da cidade.

Os hospitais psiquiátricos eram frequentemente construídos longe dos centros urbanos, em áreas rurais ou periféricas, como se a loucura precisasse desaparecer do olhar público. Curiosamente, a mesma lógica aparecia na forma como a homossexualidade era tratada em cidades pequenas.

Em Caçador, os gays eram tolerados desde que discretos. Existia uma compreensão silenciosa de que isso poderia existir “lá fora”, mas não dentro de casa. Ou eram escondidos, ou saíam da cidade.

Hoje, São Paulo é vista por muitos homens gays como uma espécie de Meca urbana: o lugar do anonimato, da liberdade e da possibilidade de reconstrução da própria identidade. Mas isso também revela algo importante. Para muitos de nós, existir plenamente ainda depende de migrar. A ruptura com a cidade de origem continua sendo, muitas vezes, condição para sobreviver.

Lembro que, na adolescência, eu observava os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) de Caçador quase sempre vazios. Também não via diversidade nas ruas. Não havia muitas referências para um adolescente gay tentando imaginar futuros possíveis.

Ao mesmo tempo, escutava nos almoços em família conversas sobre pessoas em sofrimento psíquico e usuários de substâncias. Havia alguma comoção, mas também um discurso profundamente moralizante. No senso comum em que fui criado, fumar um cigarro já representava o início de uma espiral inevitável de destruição. As frases se repetiam: “desperdício”, “perdido”, “pena da família”.

A questão do sofrimento mental era tratada muito menos como um problema de saúde e muito mais como falha moral. Para usuários de drogas, existia um único destino possível: uma clínica psiquiátrica afastada da cidade, localizada em área rural.

Nunca visitei o local, mas anos depois, já na faculdade de medicina, pisaria pela primeira vez em um hospital psiquiátrico. Lembro-me perfeitamente da sensação ao entrar. Pensei imediatamente: “Meu Deus, isso é igual a uma prisão!”.

O hospital atendia grande parte da demanda psiquiátrica do SUS do Paraná. Havia alas separadas entre usuários de substâncias e pacientes com esquizofrenia ou deficiência intelectual. Durante uma entrevista clínica, conversei longamente com um homem jovem diagnosticado com esquizofrenia paranoide. Em determinado momento, ele revelou acreditar que havia um chip implantado em sua cabeça.

Por trás do delírio, no entanto, existia uma história brutal de violência, negligência e abandono. Era um homem que nunca havia sido cuidado. Em algum momento da conversa, ele repetiu uma frase dita por um juiz durante um processo judicial: “estamos de olho em você”. Nunca esqueci a forma como aquelas palavras pareciam ter atravessado sua subjetividade. Na faculdade e depois na residência médica, fui entendendo que a loucura raramente pode ser reduzida apenas à biologia. Aprendemos a repetir o modelo biopsicossocial, mas, na prática, fala-se muito da biologia, um pouco da subjetividade e quase nada do social. Não existe saúde mental sem cidade, sem moradia e sem possibilidade concreta de pertencimento.

Durante a residência em psiquiatria, em um hospital geral de São Paulo, conheci pacientes que permaneciam institucionalizados há anos. Eram pessoas sem suporte familiar, sem renda, com comprometimentos cognitivos importantes e diferentes graus de dependência para atividades básicas da vida cotidiana. Muitos alternavam longos períodos entre enfermarias psiquiátricas e CAPS. A condição psiquiátrica já estava estabilizada e eles não teriam indicação para ficar mais tempo internados. O problema era outro: eles simplesmente não tinham para onde ir.

A Reforma Psiquiátrica brasileira e a Lei Antimanicomial representaram conquistas históricas fundamentais. O fechamento progressivo dos grandes manicômios foi necessário e urgente, mas fechar os manicômios não bastava. Era necessário construir dispositivos urbanos capazes de acolher essas pessoas: residências terapêuticas, CAPS, hospitais-dia, leitos em hospitais gerais, assistência social, políticas públicas de moradia e possibilidades reais de circulação pela cidade.

Parte importante dessa estrutura começou a ser organizada sobretudo após a criação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), impulsionada também durante a gestão de Luiza Erundina em São Paulo e pelas experiências territoriais dos CAPS. Ainda assim, a implementação sempre ocorreu de maneira insuficiente.

Muitos pacientes permaneceram dentro dos próprios hospitais psiquiátricos porque não existia rede capaz de sustentá-los fora dali. Outros passaram a ocupar novos espaços de institucionalização e as ruas.

Talvez o manicômio tenha mudado de forma. Hoje já se fala em neomanicomialismo. As comunidades terapêuticas são um dos exemplos mais evidentes disso. Frequentemente localizadas longe da cidade, em zonas rurais, muitas funcionam sob forte influência religiosa e organizam o tratamento a partir do isolamento social, abstinência compulsória e trabalho forçado. Em alguns casos, sequer existe equipe especializada em saúde mental.

Lembro de avaliar no pronto-socorro um paciente que havia permanecido meses em uma dessas instituições. Ele apresentava um quadro psicótico descompensado, feridas infectadas e sinais importantes de negligência. A equipe precisou realizar denúncia por maus-tratos.

O que mais me inquieta é perceber como a lógica espacial permanece a mesma. O problema continua sendo retirado da cidade. Se antes existiam os grandes hospitais-colônia, hoje existem comunidades terapêuticas, internações prolongadas, abrigos precários, encarceramento, abandono urbano e população em situação de rua. O louco continua ocupando um não-lugar.

Vivemos um período de aprofundamento da precarização da vida, da insegurança patrimonial e do adoecimento psíquico. Já se fala em tecnofeudalismo, capitalismo de plataforma e erosão progressiva do Estado de bem-estar social. Ao mesmo tempo, direitos básicos continuam inacessíveis para grande parte da população, entre eles o mais fundamental: moradia.

Existe algo profundamente violento em exigir estabilidade psíquica de sujeitos que não possuem estabilidade material mínima para existir.

A professora Ana Luisa Aranha Silva, em uma discussão que acompanhei no lançamento do dossiê da revista Cult em abril desse ano, postulou que, na sociedade capitalista, a incapacidade para o trabalho frequentemente se torna sinônimo de doença mental. Talvez por isso tantas políticas públicas ainda sejam organizadas menos em torno do cuidado e mais em torno da produtividade. O sujeito vale à medida que consegue trabalhar, produzir e consumir.

Mas o que fazemos com aqueles que não conseguem? Que cidade estamos construindo para integrar o diferente, o vulnerável e a loucura? A professora Ianni Régia Scarcelli formulou isso de maneira precisa ao afirmar que não basta fechar estruturas: é preciso criar dispositivos urbanos capazes de acolher a diversidade e garantir pertencimento. Essa talvez seja a grande tarefa ainda não concluída da Reforma Psiquiátrica brasileira.

Porque o manicômio não era apenas um edifício. Era também uma lógica que definia quem podia circular livremente pela cidade e quem deveria ser afastado dela.

Penso muitas vezes na diferença entre a minha trajetória e a de muitos dos meus pacientes. Eu também precisei sair da minha cidade. Também experimentei deslocamento e medo de decepcionar minha família. Mas tive algo fundamental: suporte. Pais presentes. Condições materiais. Possibilidade de estudar. Possibilidade de partir.

Muitos dos pacientes que acompanhei nunca tiveram essa chance. Alguns sequer possuem documentos. Outros não têm família. Outros perderam completamente a autonomia após anos de abandono institucional.

Enquanto eu consegui migrar em busca de pertencimento, muitos deles continuam sem qualquer possibilidade concreta de permanência.

Fecharam-se os manicômios, mas não se construíram cidades suficientemente capazes de recebê-los.

E talvez por isso a sensação permaneça a mesma: o lugar do louco continua sendo o não-lugar.

 

Fonte: Por João Luiz Baú Carneiro, em Outra Saúde

 

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