Identidade:
O louco e a cidade
Tenho
28 anos e nasci no interior de Santa Catarina, em uma cidade chamada Caçador. A
cidade era pequena, industrial, cercada pela cultura do pinus e pelo orgulho
familiar de possuir terra, produzir e crescer. Para muitos dos meus familiares,
Caçador representava estabilidade, trabalho e pertencimento. Para mim,
representava outra coisa.
Sempre
me senti deslocado lá. Lembro de assistir televisão e imaginar uma vida
completamente diferente da que existia ao meu redor. Fantasiava apresentar
programas da MTV, morar em uma cidade grande, encontrar pessoas que
compartilhassem dos mesmos desejos e inquietações. Achava a vida ao meu redor
pouco ambiciosa, pouco diversa, pouco viva. Hoje consigo entender que existia
ali um desejo ainda sem nome: viver minha identidade longe dos olhos da minha
família e da vigilância moral de uma cidade pequena.
Sou um
homem gay e, durante muito tempo, tive a sensação de que não havia lugar para
mim naquela cidade. Interessante perceber como essa experiência individual
encontra ecos na própria história da loucura no Brasil. Assim como eu, o louco
também nunca teve lugar.
Quando
pensamos nos manicômios brasileiros, muitas vezes imaginamos apenas
instituições de tratamento psiquiátrico. No entanto, os manicômios também
funcionaram como dispositivos urbanos de segregação, criados para afastar da
convivência social todos aqueles considerados inadequados. Isso incluía pessoas
com transtornos mentais graves, mas também alcoólatras, usuários de drogas,
mulheres consideradas desviantes, homossexuais, prostitutas, opositores
políticos, pessoas negras recém-libertas após a abolição da escravatura e
indivíduos pobres sem qualquer rede de proteção social.
A
abolição ocorreu em 1888. Poucos anos depois, o Brasil expandia seus grandes
complexos psiquiátricos sob uma lógica higienista que buscava retirar das ruas
os corpos indesejáveis da nova ordem urbana republicana.
O
Hospício Pedro II, inaugurado em 1852 no Rio de Janeiro, introduziu no país o
modelo alienista francês, baseado no isolamento como forma de tratamento moral.
Sua arquitetura monumental, inspirada em palácios europeus, ajudava a construir
a imagem de modernidade do Império brasileiro. Décadas depois, surgiriam
instituições ainda maiores, como o Hospital Psiquiátrico do Juquery, em São
Paulo, e o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais.
O
Juquery, criado em 1898, funcionava sob o modelo de colônia agrícola. Os
pacientes eram enviados para uma vasta área afastada da capital paulista, onde
o trabalho rural fazia parte tanto do tratamento quanto do próprio
funcionamento econômico da instituição. Já Barbacena tornou-se símbolo máximo
da violência manicomial brasileira. Mais de 60 mil pessoas morreram ali e
estima-se que cerca de 70% dos internados sequer possuíam diagnóstico
psiquiátrico. Eram pessoas consideradas inconvenientes ao convívio social.
O
manicômio funcionava, portanto, menos como espaço terapêutico e mais como
tecnologia de remoção. Havia algo profundamente espacial nisso: afastar,
isolar, retirar da cidade.
Os
hospitais psiquiátricos eram frequentemente construídos longe dos centros
urbanos, em áreas rurais ou periféricas, como se a loucura precisasse
desaparecer do olhar público. Curiosamente, a mesma lógica aparecia na forma
como a homossexualidade era tratada em cidades pequenas.
Em
Caçador, os gays eram tolerados desde que discretos. Existia uma compreensão
silenciosa de que isso poderia existir “lá fora”, mas não dentro de casa. Ou
eram escondidos, ou saíam da cidade.
Hoje,
São Paulo é vista por muitos homens gays como uma espécie de Meca urbana: o
lugar do anonimato, da liberdade e da possibilidade de reconstrução da própria
identidade. Mas isso também revela algo importante. Para muitos de nós, existir
plenamente ainda depende de migrar. A ruptura com a cidade de origem continua
sendo, muitas vezes, condição para sobreviver.
Lembro
que, na adolescência, eu observava os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) de
Caçador quase sempre vazios. Também não via diversidade nas ruas. Não havia
muitas referências para um adolescente gay tentando imaginar futuros possíveis.
Ao
mesmo tempo, escutava nos almoços em família conversas sobre pessoas em
sofrimento psíquico e usuários de substâncias. Havia alguma comoção, mas também
um discurso profundamente moralizante. No senso comum em que fui criado, fumar
um cigarro já representava o início de uma espiral inevitável de destruição. As
frases se repetiam: “desperdício”, “perdido”, “pena da família”.
A
questão do sofrimento mental era tratada muito menos como um problema de saúde
e muito mais como falha moral. Para usuários de drogas, existia um único
destino possível: uma clínica psiquiátrica afastada da cidade, localizada em
área rural.
Nunca
visitei o local, mas anos depois, já na faculdade de medicina, pisaria pela
primeira vez em um hospital psiquiátrico. Lembro-me perfeitamente da sensação
ao entrar. Pensei imediatamente: “Meu Deus, isso é igual a uma prisão!”.
O
hospital atendia grande parte da demanda psiquiátrica do SUS do Paraná. Havia
alas separadas entre usuários de substâncias e pacientes com esquizofrenia ou
deficiência intelectual. Durante uma entrevista clínica, conversei longamente
com um homem jovem diagnosticado com esquizofrenia paranoide. Em determinado
momento, ele revelou acreditar que havia um chip implantado em sua cabeça.
Por
trás do delírio, no entanto, existia uma história brutal de violência,
negligência e abandono. Era um homem que nunca havia sido cuidado. Em algum
momento da conversa, ele repetiu uma frase dita por um juiz durante um processo
judicial: “estamos de olho em você”. Nunca esqueci a forma como aquelas
palavras pareciam ter atravessado sua subjetividade. Na faculdade e depois na
residência médica, fui entendendo que a loucura raramente pode ser reduzida
apenas à biologia. Aprendemos a repetir o modelo biopsicossocial, mas, na
prática, fala-se muito da biologia, um pouco da subjetividade e quase nada do
social. Não existe saúde mental sem cidade, sem moradia e sem possibilidade
concreta de pertencimento.
Durante
a residência em psiquiatria, em um hospital geral de São Paulo, conheci
pacientes que permaneciam institucionalizados há anos. Eram pessoas sem suporte
familiar, sem renda, com comprometimentos cognitivos importantes e diferentes
graus de dependência para atividades básicas da vida cotidiana. Muitos
alternavam longos períodos entre enfermarias psiquiátricas e CAPS. A condição
psiquiátrica já estava estabilizada e eles não teriam indicação para ficar mais
tempo internados. O problema era outro: eles simplesmente não tinham para onde
ir.
A
Reforma Psiquiátrica brasileira e a Lei Antimanicomial representaram conquistas
históricas fundamentais. O fechamento progressivo dos grandes manicômios foi
necessário e urgente, mas fechar os manicômios não bastava. Era necessário
construir dispositivos urbanos capazes de acolher essas pessoas: residências
terapêuticas, CAPS, hospitais-dia, leitos em hospitais gerais, assistência
social, políticas públicas de moradia e possibilidades reais de circulação pela
cidade.
Parte
importante dessa estrutura começou a ser organizada sobretudo após a criação da
Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), impulsionada também durante a gestão de
Luiza Erundina em São Paulo e pelas experiências territoriais dos CAPS. Ainda
assim, a implementação sempre ocorreu de maneira insuficiente.
Muitos
pacientes permaneceram dentro dos próprios hospitais psiquiátricos porque não
existia rede capaz de sustentá-los fora dali. Outros passaram a ocupar novos
espaços de institucionalização e as ruas.
Talvez
o manicômio tenha mudado de forma. Hoje já se fala em neomanicomialismo. As
comunidades terapêuticas são um dos exemplos mais evidentes disso.
Frequentemente localizadas longe da cidade, em zonas rurais, muitas funcionam
sob forte influência religiosa e organizam o tratamento a partir do isolamento
social, abstinência compulsória e trabalho forçado. Em alguns casos, sequer
existe equipe especializada em saúde mental.
Lembro
de avaliar no pronto-socorro um paciente que havia permanecido meses em uma
dessas instituições. Ele apresentava um quadro psicótico descompensado, feridas
infectadas e sinais importantes de negligência. A equipe precisou realizar
denúncia por maus-tratos.
O que
mais me inquieta é perceber como a lógica espacial permanece a mesma. O
problema continua sendo retirado da cidade. Se antes existiam os grandes
hospitais-colônia, hoje existem comunidades terapêuticas, internações
prolongadas, abrigos precários, encarceramento, abandono urbano e população em
situação de rua. O louco continua ocupando um não-lugar.
Vivemos
um período de aprofundamento da precarização da vida, da insegurança
patrimonial e do adoecimento psíquico. Já se fala em tecnofeudalismo,
capitalismo de plataforma e erosão progressiva do Estado de bem-estar social.
Ao mesmo tempo, direitos básicos continuam inacessíveis para grande parte da
população, entre eles o mais fundamental: moradia.
Existe
algo profundamente violento em exigir estabilidade psíquica de sujeitos que não
possuem estabilidade material mínima para existir.
A
professora Ana Luisa Aranha Silva, em uma discussão que acompanhei no
lançamento do dossiê da revista Cult em abril desse ano, postulou que, na
sociedade capitalista, a incapacidade para o trabalho frequentemente se torna
sinônimo de doença mental. Talvez por isso tantas políticas públicas ainda
sejam organizadas menos em torno do cuidado e mais em torno da produtividade. O
sujeito vale à medida que consegue trabalhar, produzir e consumir.
Mas o
que fazemos com aqueles que não conseguem? Que cidade estamos construindo para
integrar o diferente, o vulnerável e a loucura? A professora Ianni Régia
Scarcelli formulou isso de maneira precisa ao afirmar que não basta fechar
estruturas: é preciso criar dispositivos urbanos capazes de acolher a
diversidade e garantir pertencimento. Essa talvez seja a grande tarefa ainda
não concluída da Reforma Psiquiátrica brasileira.
Porque
o manicômio não era apenas um edifício. Era também uma lógica que definia quem
podia circular livremente pela cidade e quem deveria ser afastado dela.
Penso
muitas vezes na diferença entre a minha trajetória e a de muitos dos meus
pacientes. Eu também precisei sair da minha cidade. Também experimentei
deslocamento e medo de decepcionar minha família. Mas tive algo fundamental:
suporte. Pais presentes. Condições materiais. Possibilidade de estudar.
Possibilidade de partir.
Muitos
dos pacientes que acompanhei nunca tiveram essa chance. Alguns sequer possuem
documentos. Outros não têm família. Outros perderam completamente a autonomia
após anos de abandono institucional.
Enquanto
eu consegui migrar em busca de pertencimento, muitos deles continuam sem
qualquer possibilidade concreta de permanência.
Fecharam-se
os manicômios, mas não se construíram cidades suficientemente capazes de
recebê-los.
E
talvez por isso a sensação permaneça a mesma: o lugar do louco continua sendo o
não-lugar.
Fonte:
Por João Luiz Baú Carneiro, em Outra Saúde

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