Trabalho,
raça e gênero no Brasil
O
capitalismo contemporâneo não funciona apenas por meio da exploração do
trabalho assalariado. Essa é apenas sua face mais visível, mais legalizada e
socialmente reconhecida. Sob ela, coexistem outras formas de extração de
riqueza e administração da vida que permanecem parcialmente invisíveis: o
trabalho expropriado e o trabalho domesticado.
A
crença de que o capitalismo opera exclusivamente por meio do contrato salarial
impede compreender como sociedades profundamente desiguais, como a brasileira,
continuam dependendo da coerção, da racialização e da invisibilização
sistemática de determinados corpos para manter sua estrutura de funcionamento.
O salário não aboliu a violência. Apenas reorganizou socialmente quem pode ser
protegido dela e quem continuará exposto.
No
Brasil contemporâneo, basta observar a organização concreta do trabalho para
perceber que diferentes grupos sociais ocupam posições radicalmente distintas
dentro da ordem econômica. Há aqueles inseridos na esfera relativamente
protegida do trabalho formal; há os permanentemente ameaçados pela
superexploração e pela informalidade; e há ainda os que permanecem próximos de
zonas onde a própria condição humana se torna precária: trabalhadores
resgatados em condições análogas à escravidão, migrantes submetidos à coerção
econômica extrema, mulheres negras encarregadas do trabalho invisível de
reprodução da vida.
Essas
formas não aparecem isoladamente. Elas se conectam. O capitalismo brasileiro
funciona através de um contínuo expropriatório-doméstico que distribui
diferentes graus de exploração, coerção e invisibilidade conforme classe, raça
e gênero.
O
contínuo expropriatório-doméstico não deve ser entendido apenas como uma
classificação abstrata das formas de trabalho. Ele funciona como uma tecnologia
social de distribuição desigual da proteção, da cidadania e da própria
humanidade. Em uma extremidade encontram-se os trabalhadores relativamente
protegidos pela legalidade salarial; na outra, aqueles cuja vida pode ser
consumida pela coerção econômica, pela violência racial ou pela invisibilidade
social sem produzir grande escândalo público. Entre ambos, multiplicam-se
formas híbridas de precarização que aproximam amplos setores da população da
insegurança permanente. O capitalismo brasileiro organiza essas zonas de
maneira profundamente racializada e generificada.
A
teoria política clássica ajuda parcialmente a compreender essa estrutura.
Thomas Hobbes afirmava que os indivíduos transferiam seus direitos ao soberano
para escapar do estado de natureza, marcado pela insegurança e pela violência
permanente. O Estado surgiria, assim, como garantidor da paz e da proteção da
vida.
Mas a
experiência histórica das sociedades coloniais revela algo diferente: o estado
de natureza nunca desapareceu para todos. Ele foi seletivamente preservado para
determinados grupos sociais.
A
escravidão colonial talvez tenha sido a maior demonstração disso. Enquanto
cidadãos livres podiam participar da esfera pública e da vida política,
populações escravizadas permaneciam submetidas à violência permanente, tratadas
como recursos econômicos descartáveis. O contrato social sempre conviveu com
zonas de expropriação.
Essa
lógica não desapareceu. Apenas assumiu novas formas.
No
capitalismo contemporâneo, trabalhadores de plataformas digitais atravessam
jornadas exaustivas sem garantias mínimas de proteção social. Migrantes
indocumentados aceitam condições degradantes sob ameaça de deportação.
Trabalhadores rurais continuam sendo encontrados em carvoarias e fazendas
submetidos a regimes de servidão por dívida. Em todos esses casos, existe uma
fronteira instável entre exploração e expropriação.
Achille
Mbembe ajuda a compreender essa dinâmica ao mostrar que o poder moderno não
opera apenas administrando a vida, mas também decidindo quem pode ser exposto à
morte social, econômica ou física. A necropolítica não se manifesta apenas nas
guerras ou nos regimes de exceção explícitos. Ela também aparece na gestão
cotidiana da precariedade.
No
Brasil, raça continua sendo um dos principais critérios de distribuição dessa
vulnerabilidade. Não por acaso, a maioria dos trabalhadores resgatados em
condições análogas à escravidão é negra ou parda. Tampouco é coincidência que a
violência policial se concentre sobre corpos racializados nas periferias
urbanas. Certos grupos permanecem mais próximos da necrozona social produzida
pelo próprio funcionamento da economia.
Mas
talvez nenhuma figura revele tão claramente essa engrenagem quanto a
trabalhadora doméstica negra.
A
sociedade brasileira foi construída sobre a continuidade histórica entre a
mucama colonial e a empregada doméstica contemporânea. Mesmo após a abolição
formal da escravidão, milhões de mulheres negras permaneceram confinadas ao
trabalho doméstico precário, mal remunerado e socialmente invisível.
Essa
permanência não constitui um acidente histórico. Ela expressa a maneira como
raça, gênero e classe se articulam na organização do trabalho no Brasil.
O
trabalho doméstico ocupa uma posição paradoxal. Ele é absolutamente
indispensável para a reprodução da sociedade – cozinhar, limpar, cuidar de
crianças, idosos e doentes – mas continua sendo tratado como obrigação moral
feminina, não como atividade econômica central.
Grande
parte da estabilidade do trabalho assalariado depende justamente desse trabalho
invisível realizado dentro das casas. O trabalhador formal só consegue vender
diariamente sua força de trabalho porque existe alguém reproduzindo
gratuitamente as condições básicas de sua sobrevivência.
Silvia
Federici mostrou que o capitalismo não nasceu apenas da fábrica e do salário.
Ele também dependeu historicamente da domesticação dos corpos femininos e da
naturalização do trabalho reprodutivo não remunerado.
Hannah
Arendt, embora tenha percebido a centralidade do labor na modernidade, jamais
enfrentou plenamente a pergunta decisiva: quem realiza concretamente esse
trabalho necessário à manutenção da vida? Em sociedades profundamente
racializadas, essa resposta possui cor, gênero e classe definidos.
Lélia
Gonzalez talvez tenha sido uma das intelectuais brasileiras que melhor
compreendeu essa engrenagem histórica. Ao analisar a permanência da mulher
negra no trabalho doméstico, ela mostrou que a abolição da escravidão não
rompeu a estrutura racial da divisão do trabalho no Brasil. A expropriação
apenas mudou de forma.
A
trabalhadora doméstica negra tornou-se a síntese mais acabada do contínuo
expropriatório-doméstico brasileiro: simultaneamente explorada, invisibilizada
e permanentemente exposta à precarização extrema.
A interseccionalidade não deve ser entendida
apenas como sobreposição abstrata de opressões. Ela funciona concretamente como
mecanismo de distribuição desigual da vulnerabilidade social. O capitalismo
racializado organiza quem será protegido, quem será precarizado e quem poderá
ser descartado.
Por
isso, a ideia de que o mercado de trabalho opera de forma universal é uma
ficção. Diferentes grupos sociais pagam preços radicalmente distintos para
participar da mesma economia.
Enquanto
alguns acessam contratos relativamente protegidos, outros entregam o próprio
corpo à insegurança permanente em troca da sobrevivência. Enquanto alguns
conseguem transformar trabalho em cidadania, outros permanecem aprisionados em
zonas onde a cidadania nunca se realiza plenamente.
O
capitalismo contemporâneo não explora apenas trabalho. Ele administra
hierarquicamente vidas.
E
talvez a medida mais precisa de uma sociedade continue sendo aquela proposta
implicitamente por Lélia Gonzalez: observar a condição da mulher negra
trabalhadora doméstica. Enquanto ela permanecer confinada entre a exploração, a
invisibilidade e a necrozona, qualquer promessa de democracia continuará
incompleta.
Fonte:
Por Carlos A. P. Vasques, em A Terra é Redonda

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