Especialistas
criticam decisão dos EUA sobre PCC e CV
A decisão do governo dos Estados Unidos desta
quinta-feira (28/05) de designar as facções brasileiras Primeiro
Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas foi criticada
por analistas e entidades, que alertaram para potenciais impactos
econômicos da medida e riscos à cooperação de segurança entre os dois
países.
A
designação americana denominada Foreign Terrorist Organizations (FTO), ou
Organizações Terroristas Estrangeiras, inclui grupos estrangeiros envolvidos
em atividades terroristas ou que tenham
capacidade ou intenção de realizar tais atos e que representem uma ameaça à
segurança dos EUA.
"O
Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho são duas das organizações
criminosas mais violentas do Brasil. Sua influência se estende por toda a nossa
região e chega ao nosso país”, escreveu o secretário de Estado dos EUA, Marco
Rubio, em postagem na rede X.
A
decisão do Departamento de Estado americano coloca o PCC e o CV em uma lista de
94 organizações que inclui grupos como os islamistas Hamas, Hezbollah, Al-Qaeda, "Estado Islâmico" (EI) e Boko Haram; além de outras associadas ao tráfico
internacional de drogas, como o cartel de Sinaloa, no México.
A
designação é considerada estratégica por aliados do senador e pré-candidato à
Presidência Flávio Bolsonaro(PL), que veem na
medida um sinal de apoio eleitoral do governo americano. Visando as eleições
de outubro, os bolsonaristas avaliam que isso poderá gerar desgastes para o
governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Especialistas,
porém, alertam para os efeitos nas relações bilaterais, como as possíveis
implicações sobre o mercado financeiro brasileiro e a colaboração entre as
polícias dos dois países.
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"Implicações na soberania e autonomia do Brasil"
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública
(FBSP),
entidade não governamental que publica o anuário Atlas da Violência com dados da
segurança pública no Brasil, condenou a decisão americana.
"O
FBSP lamenta que um tema com implicações profundas na soberania e autonomia do
Brasil, na sua economia, sistema financeiro e nos mecanismos de cooperação
regional e internacional, tenha sido capturado pela disputa eleitoral, e a
medida norte-americana incentivada como solução de um problema bem mais
complexo, sem considerar os riscos de saídas unilaterais de outras nações para
uma economia do porte da brasileira", disse a entidade, em nota.
"Brasil
e EUA têm longa tradição de cooperação policial e têm atuado de forma
coordenada ao longo de décadas, com destaque para a troca de informações de
inteligência e no combate à lavagem de dinheiro, o que deve prosseguir. Porém,
no plano interno, o apoio explicitado por muitos políticos à medida demonstra
visões reducionistas e descoladas das reais tarefas que o Poder Público precisa
colocar em prática para retomar territórios e regular mercados e setores usados
pelo crime organizado, como Fintechs, Bets, Criptoativos, entre outros
setores", declarou a entidade.
O
debate sobre classificação das facções como grupos terroristas ganhou tração no
Brasil após a megaoperação policial no Rio de Janeiro, em outubro do ano
passado, que deixou mais de 120 mortos no Complexo do Alemão. À época, o então
governador Cláudio Castro acusou o CV de "narcoterrorismo" devido ao
emprego de drones e bombas contra forças policiais. O rótulo também foi
reforçado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
O
governo brasileiro, no entanto, se posicionou contra essa designação,
argumentando que há no país instrumentos mais adequados para combater os grupos
armados.
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Impacto no mercado financeiro
O
promotor de Justiça Lincoln Gakiya, considerado um dos
principais expoentes da luta contra o crime organizado no Brasil, disse que a
medida pode prejudicar investigações criminais e alertou para o impacto da
decisão no mercado financeiro brasileiro.
Durante
um evento nos Estados Unidos, o promotor – ameaçado de morte pelo PCC – disse
que a designação dá direito ao governo americano de sancionar praticamente todo
o sistema financeiro brasileiro.
Segundo
Gakiya, os EUA "podem dizer que todas as instituições financeiras que
comercializaram os fundos da Reag ou títulos do Banco Master também serão sancionadas", em
razão dos supostos vínculos das duas instituições – envolvidas em um esquema
bilionário de fraudes financeiras – com a organização criminosa.
"Estamos
falando de todo o sistema financeiro nacional porque praticamente todos os
bancos comercializaram. Isso é muito grave." O promotor destacou que as
ações do PCC e do CV "se assemelham muito ao terrorismo", mas
ressaltou que "o objetivo deles não é político nem ideológico".
"O objetivo é meramente econômico: a dominação territorial para poder
otimizar seus lucros.”
"No
processo e na investigação, não vejo nenhuma vantagem. A Lei Antifacção, sancionada
recentemente, já prevê penas maiores para organizações criminosas que as
previstas para o terrorismo”, disse Gakiya, lembrando que a nova legislação
possui mecanismos para a "asfixia financeira" do crime organizado.
Gakiya
também alertou que a designação como grupos terroristas pode retirar
investigações relativas ao PCC e ao CV nos EUA da alçada do FBI e da
Administração de Repressão às Drogas (DEA), que costumam cooperar com a Polícia
Federal brasileira. Neste caso, o controle passaria para a Agência Central
inteligência (CIA), uma entidade bem menos transparente e cooperativa, ou até
para as Forças Armadas dos EUA.
Isso
faria com que as informações sobre o crime organizado se tornem secretas ou
confidenciais, com futuras provas em processos criminais sendo tratadas como
segredo de Estado pelas autoridades americanas.
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"Polarização emburrecedora"
Oliver
Stuenkel, analista e professor na Escola de Relações Internacionais da Fundação
Getulio Vargas (FGV) em São Paulo, alertou para uma "polarização
emburrecedora" que pode reduzir a cooperação entre as polícias.
"Quem
acompanha o debate [...] pode chegar à conclusão de que só há dois tipos de
pessoas no mundo: defensores de bandidos e entreguistas, sem espaço para
qualquer nuance", escreveu Stuenkel no X.
"Hoje,
a polarização emburrecedora do tipo 'defensor de bandido vs. entreguista'
domina o debate sobre a decisão dos EUA de designar o PCC e o CV como
organizações terroristas. Nas próximas semanas, haverá espaço para uma
discussão menos maniqueísta sobre como isso impactará a relação bilateral.
Afinal, a decisão do governo americano é apenas um elemento: muito dependerá da
resposta do Brasil, e, mesmo discordando, há muito que o país pode fazer –
inclusive para aproveitar a situação."
Para o
especialista, "as implicações serão de longo prazo, demandando alguma
paciência e análise técnica. Isso porque a designação pode reduzir a cooperação
que órgãos estaduais como a Polícia Militar e a Polícia Civil (que de fato
investigam, prendem e desarticulam o PCC no dia a dia) têm com os EUA, já que
essa cooperação passou a se dar no nível federal e de forma muito mais
sigilosa."
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Pretexto para intervenção americana?
O
ex-ministro das Relações Exteriores e atual assessor-chefe da Assessoria
Especial da Presidência, Celso Amorim, avaliou que a
decisão americana não pode ser um pretexto para uma intervenção no Brasil.
"Segurança
pública é um tema fundamental para o desenvolvimento socioeconômico. Crime
organizado é um mal que tem que ser combatido. Cooperação internacional é
bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de
armas. Pretexto para intervenção é inaceitável", disse o ex-chanceler, em
nota.
No
entanto, Maurício Santoro, cientista político e professor de relações
internacionais no Centro de Estudos Políticos e Estratégicos da Marinha,
descartou a possibilidade de uma ação militar dos EUA no Brasil. Ele relacionou
duas principais consequências da decisão do Departamento de Estado americano.
"A
primeira mudança permite às Forças Armadas dos EUA atuar diretamente no combate
ao CV e ao PCC, porque, ao contrário do que ocorre no Brasil, é muito restrita
a possibilidade de usar os militares em operações de segurança pública",
afirmou Santoro ao jornal Folha de S. Paulo.
Para o
cientista político, a Marinha americana poderá interceptar embarcações
suspeitas de estarem a serviço das facções, como já ocorreu na Venezuela e na Colômbia. Além disso, a Força
Aérea dos EUA poderá abater aviões suspeitos transportarem drogas, armas ou
algum outro tipo de produto ilegal.
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Imposição de sanções e bloqueios
"Pela
Constituição Federal, militares estrangeiros só podem entrar no Brasil com
autorização do Congresso, respondendo a um pedido do presidente da República.
Então, só o presidente pode solicitar esse tipo de autorização e só o Congresso
é que pode dá-la", explicou.
"A
segunda consequência é que [...] os EUA abrem a possibilidade do uso de uma
série de ferramentas contra indivíduos, empresas, organizações brasileiras que
tenham algum tipo de relação com o PCC ou CV", pontuou Santoro. Dessa
forma, Washington poderá lançar mão de instrumentos como sanções
internacionais, bloqueio ou confisco de ativos.
¨
Quem mais está na lista dos EUA de grupos terroristas,
além de PCC e CV
As
facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e
Comando Vermelho (CV) se
juntarão a grupos como a Al Qaeda e o Estado Islâmico na lista de entidades estrangeiras
designadas como terroristas pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos.
Em
comunicado publicado na quinta-feira (28/5), o secretário de Estado, Marco
Rubio, afirmou que CV e PCC "são duas das organizações criminosas mais
violentas do Brasil" e que passarão a ser consideradas
terroristas a partir do dia 5 de junho.
A lista
de organizações terroristas estrangeiras do governo americano foi criada por
Washington há quase 30 anos, em 1997.
A
relação já nasceu com 14 integrantes, entre eles o grupo libanês Hezbollah e o
palestino Hamas. Desde então, ganhou
dezenas de novos nomes e possui atualmente 94 organizações.
Mais
recentemente, durante o segundo mandato do presidente americano Donald Trump,
também foram adicionadas à lista facções criminosas sul-americanas, como as
venezuelanas Tren de Aragua (Trem de Arágua, em português) e Cartel de Los
Soles (Cartel dos Sóis) e a mexicana Cartel de Sinaloa.
Confira,
a seguir, a lista atual de organizações internacionais designadas como
terroristas pelos Estados Unidos.
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Organizações designadas como terroristas pelos EUA
- Irmandade
Muçulmana Sudanesa, Sudão
- Irmandade
Muçulmana Libanesa, Líbano
- Clã do Golfo,
Colômbia
- Cartel dos Sóis,
Venezuela
- Antifa Ost
(também conhecida como Hammerbande), Alemanha
- Federação
Anarquista Informal / Frente Revolucionária Internacional (FAI/FRI),
Itália e Europa
- Justiça
Proletária Armada, Grécia
- Autodefesa
Revolucionária de Classe, Grécia
- Bairro 18,
América Central e EUA
- Movimento
al-Nujaba (HAN), Iraque
- Brigadas Sayyid
al-Shuhada (KSS), Iraque e Síria
- Movimento Ansar Allah al-Awfiya (HAAA), Iraque
- Brigadas do Imam
Ali (KIA), Iraque
- Los Choneros,
Equador
- Los Lobos,
Equador
- Exército de
Libertação do Baluchistão (BLA), Paquistão
- Viv Ansanm,
Haiti
- Gran Grif, Haiti
- Ansarallah,
Iêmen
- Cartel de
Sinaloa, México
- Cartel de
Jalisco Nova Geração (CJNG), México
- Cartel do
Nordeste, México
- A Nova Família
Michoacana, México
- Cartel do Golfo,
México
- Cartéis Unidos,
México
- Trem de Aragua,
Venezuela
- Mara Salvatrucha
(MS-13), El Salvador, América Central e EUA
- Segunda
Marquetalia, Colômbia
- Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP), Colômbia
- Estado Islâmico
– República Democrática do Congo (ISIS-DRC), República Democrática do
Congo
- Estado Islâmico
– Moçambique (ISIS-Moçambique), Moçambique
- Movimento Sawa'd
Misr (HASM), Egito
- Asa'ib Ahl al-Haq (AAH), Iraque
- Guarda
Revolucionária Islâmica (IRGC), Irã
- Grupo de Apoio
ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM), Sahel (Mali)
- Brigadas
al-Ashtar, Bahrein
- Estado Islâmico
no Grande Saara (ISIS-GS), Sahel
- Estado Islâmico
– África Ocidental, África Ocidental (especialmente Nigéria)
- Estado Islâmico
– Filipinas, Filipinas
- Estado Islâmico
– Bangladesh, Bangladesh
- Hizbul Mujahideen (HM), Índia (Caxemira)
- Al-Qaeda no
Subcontinente Indiano (AQIS), Sul da Ásia
- Estado Islâmico
– Líbia, Líbia
- Estado Islâmico
– Província de Khorasan (ISIS-K), Afeganistão
- Exército dos
Homens do Caminho Naqshbandi (JRTN), Iraque
- Estado Islâmico
– Província do Sinai, Egito
- Ansar al-Shari'a
em Benghazi, Líbia
- Ansar al-Shari'a
em Darnah, Líbia
- Ansar al-Shari'a
na Tunísia, Tunísia
- Batalhão al-Mulathamun / al-Murabitoun, Sahel
- Ansaru, Nigéria
- Boko Haram,
Nigéria
- Ansar al-Dine
(AAD), Mali
- Rede Haqqani
(HQN), Afeganistão e Paquistão
- Brigadas
Abdallah Azzam, Líbano
- Jemaah Anshorut
Tauhid (JAT), Indonésia
- Mujahideen
Indianos (IM), Índia
- Exército do Islã
(AOI), Gaza
- Jaysh al-Adl,
Irã e Paquistão
- Tehrik-e Taliban
do Paquistão (TTP), Paquistão
- Movimento do
Jihad Islâmico (HUJI), Paquistão
- Al-Qaeda na
Península Arábica (AQAP), Iêmen
- Brigadas
Hezbollah (KH), Iraque
- Luta
Revolucionária, Grécia
- al-Shabaab,
Somália
- Movimento do
Jihad Islâmico – Bangladesh (HUJI-B), Bangladesh
- União do Jihad
Islâmico (IJU), Uzbequistão e Ásia Central
- Estado Islâmico
(ISIS), Iraque e Síria
- Exército
Republicano Irlandês de Continuidade (CIRA), Irlanda do Norte
- Ansar al-Islam
(AAI), Iraque
- Lashkar-e-Jhangvi
(LJ), Paquistão
- Jemaah Islamiya
(JI), Sudeste Asiático
- Partido
Comunista das Filipinas / Novo Exército do Povo (CPP/NPA), Filipinas
- Al-Qaeda no
Magrebe Islâmico (AQIM), Norte da África
- Asbat al-Ansar,
Líbano
- Brigadas dos
Mártires de Al-Aqsa (AAMB), Palestina
- Lashkar-e-Tayyiba
(LeT), Paquistão
- Jaish-e-Mohammed
(JEM), Paquistão
- Novo Exército
Republicano Irlandês (Nova IRA), Irlanda
- Movimento
Islâmico do Uzbequistão (IMU), Ásia Central
- Al-Qaeda (AQ),
movimento global
- Grupo Abu Sayyaf
(ASG), Filipinas
- Hamas, Gaza
- Harakat
ul-Mujahidin (HUM), Paquistão
- Hezbollah,
Líbano
- Partido dos
Trabalhadores do Curdistão (PKK), Turquia
- Tigres de
Libertação de Tamil Eelam (LTTE), Sri Lanka
- Exército de
Libertação Nacional (ELN), Colômbia
- Frente de
Libertação da Palestina (PLF), Palestina
- Jihad Islâmica
Palestina (PIJ), Palestina
- Frente Popular
para a Libertação da Palestina (PFLP), Palestina
- PFLP – Comando
Geral (PFLP-GC), Palestina e Síria
- Partido/Fronte
de Libertação Revolucionário do Povo (DHKP/C), Turquia
- Sendero
Luminoso, Peru
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É possível sair da lista?
Desde
que a lista do Departamento de Estado americano foi criada, mais de 20 grupos
foram classificados como terroristas, mas posteriormente retirados da relação.
Segundo
informações da própria pasta, o órgão pode revogar a designação se considerar
que a organização não cumpre mais os critérios (por exemplo, deixou de praticar
terrorismo ou não representa mais uma ameaça à segurança nacional dos EUA), ou
se houve uma mudança relevante nas circunstâncias.
As Farc (Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia),
por exemplo, foram retiradas da lista em 2021, cinco anos após o acordo de paz
com o governo colombiano.
Parte
do grupo, porém, não aceitou os termos do pacto, e os americanos continuaram a
considerar os grupos dissidentes FARC-EP e Segunda Marquetalia como
terroristas.
A
designação de um grupo como terrorista também pode ser revogada pelo Congresso
americano, segundo o próprio órgão legislativo.
Ainda
de acordo com o Congresso americano, o Departamento de Estado deve revisar cada
um dos integrantes da lista ao menos a cada cinco anos. As organizações também
podem solicitar uma revisão judicial em relação à sua designação diretamente
aos EUA.
Fonte: DW
Brasil/BBC News Brasil

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