Paulo
Kliass: Huck, Galípolo & Durigan - tríplice aliança
O
bilionário Luciano Huck não consegue esconder a sua condição de classe social,
integrante do bloco dos privilegiados. Apesar de ter conseguido alcançar o
patamar do topo da elite brasileira, ele traçou este caminho graças a seus
contatos diretos estabelecidos com integrantes da grande maioria da população
por meio de programas televisivos. Vira e mexe, ele pratica seus exercícios de
sincericídio, verbalizando sem nenhum tipo de autocensura aquilo que as classes
dominantes de nosso país pensam a respeito das necessidades do povo e das
funções que caberiam ao Estado a esse respeito. Por sua condição de elevada
popularidade, graças a seus programas dominicais na maior rede de comunicações
e de elevada audiência junto às camadas populares, seu nome sempre volta à
baila quando se trata de buscar uma alternativa da chamada “terceira via” para
a disputa presidencial. Assim foi em 2018 e 2022. Aguardemos as cenas das
próximas pesquisas.
O
presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, passou a ocupar papel de
destaque na área econômica do terceiro mandato de Lula desde o início de 2023.
Iniciou sua trajetória ascendente como secretário-executivo do Ministério da
Fazenda e logo em seguida teve seu nome proposto por Haddad a Lula para
integrar a diretoria do BC. Em janeiro de 2025, com a saída de Roberto Campos
Neto, ele foi promovido a dirigente máximo do órgão. O economista já tinha
passagem em empresas do sistema financeiro e não hesita em apresentar, a todo e
qualquer instante, a receita básica do manual dogmático do neoliberalismo para
lidar com o cotidiano da política econômica do governo. Sempre se declarou a
favor de extrema austeridade na condução da política fiscal, prática essa que
conduziu com rigor quando estava à frente da Fazenda. Quando se bandeou para o
BC, aprofundou a política de arrocho monetário, promovendo ainda mais a
elevação da Selic em relação aos patamares já estratosféricos de seu
antecessor.
Dario
Durigan construiu grande parte de sua carreira profissional no setor público,
mas em 2020 recebeu um convite para mudar de lado do balcão. Até às vésperas de
ser convidado para integrar a equipe de Haddad no Ministério da Fazenda, ele
ocupava uma posição de relevância no interior de uma das grandes empresas do
mundo digital global, as assim chamadas “big techs”. Ele foi contratado pela
Meta para ser um dos responsáveis do WhatsApp para o Brasil, em especial nas
áreas de relações com o setor público. Assim, a exemplo do que ocorre com
vários integrantes e ex-integrantes da alta tecnocracia, manteve a prática da
porta giratória entre o setor público e o setor privado. Trata-se de dar
continuidade e aprofundamento na nefasta onda de relações incestuosas
estabelecidas entre as classes dominantes e o Estado.
<><>
Huck e o ódio de classe das elites
Esse
trio representa de forma bastante expressiva a forma pela qual os interesses do
capital se apoderam dos espaços de formulação e de implementação de políticas
públicas em nosso país. A tríade composta pelos meios de comunicação, pelo
capital financeiro e pelas grandes empresas de tecnologia digital está na base
da dominação do sistema econômico dos enormes conglomerados no mundo
contemporâneo globalizado. Huck, Galípolo e Durigan representam,
respectivamente, estes três universos de interesses vorazes pela maximização
dos lucros e pela apropriação de fundos públicos de forma privada. Não por
acaso, estavam eles frequentando as páginas da grande imprensa nos últimos
dias, sempre defendendo a pauta de viés conservador para os principais
problemas nacionais.
Luciano Huck foi convidado a
participar do 5º Fórum Esfera, em 23 de maio de 2026, realizado no
balneário paulista do Guarujá. Ali, o apresentador foi entrevistado a respeito
de uma série de assuntos, dentre os quais o Bolsa Família. Na verdade, ele
buscou focar sua crítica às políticas assistencialistas do Estado brasileiro
sobre o programa de políticas públicas dessa natureza mais reconhecido e
elogiado pelo mundo afora. O Bolsa Família foi instituído ainda durante o
primeiro mandato de Lula, em outubro de 2003. E, desde então, vem sendo objeto
de críticas permanentes por parte das elites econômicas e sociais de nosso
país.
Os
argumentos variam segundo a conjuntura e o nível de aprovação do governo de
plantão. Mas, nem mesmo depois do golpeachment contra Dilma
Rousseff, as classes dominantes conseguiram eliminar esse importante
instrumento de transferência de renda para os setores da base de nossa
vergonhosa pirâmide da desigualdade social e econômica. Passaram-se dois anos
de Temer e quatro de Bolsonaro, mas o Bolsa Família seguiu funcionando, apesar
das reduções de valores do benefício e de seu grau de abrangência. “Não adianta
dar o peixe, sem ensinar a pescar”, “a população pobre fica viciada na esmola”,
“é um desestímulo ao empreendedorismo”, “trata-se de um programa populista e
eleitoreiro” — enfim, são inúmeras as pérolas destiladas por todos aqueles que
não suportam ver os pobres conseguindo algum tipo de melhora em sua condição de
vida.
Pois
Huck repetiu pela enésima vez a mesma ladainha em sua entrevista durante um dos
eventos que mais repercute junto às elites do capital em nossas terras.
Provavelmente, ele se sentiu confortável e em casa, de tal maneira que não
refreou os ímpetos de preconceito contra a maioria da população. Disse ele:
(…)
“ao concentrar 56% da sua economia no Bolsa Família [aqui ele se refere a um
município do interior da Bahia], você não gera nenhum estímulo para elas
saírem. Na verdade, elas criam um monte de atalhos para conseguir
ficar no programa ad aeternum” (…)
<><>
Galípolo e o esmagamento proposto pelo financismo
Alguns
dias antes, Galípolo esteve participando de uma reunião da Comissão de Assuntos
Econômicos (CAE) do Senado Federal. No encontro, o presidente do BC não perdeu
a oportunidade de repetir, como sempre costuma fazer em suas manifestações
públicas, aquilo que considera como sendo o acerto impecável da implementação
da política monetária. Aliás, é sempre oportuno lembrar que sua nomeação por
Lula para o comando do órgão regulador e fiscalizador do sistema bancário e
financeiro foi precedida de uma grande expectativa de mudança na condução das
decisões relativas à taxa referencial de juros. Afinal, o presidente da
República passou a metade de seu mandato criticando a manutenção da SELIC nas
alturas, entendida por ele como uma chantagem praticada pelo bolsonarista
instalado no comando do BC. Pois o que se deu foi exatamente o contrário.
Galípolo não apenas manteve a política de juros altos, como chegou mesmo a
aumentar a Selic até o nível de 15% ao ano. Uma loucura!
Apesar
de ter promovido uma redução cosmética e insignificante nas últimas duas
reuniões do Comitê de Política Monetária (COPOM), o fato é que as diminuições
de 0,25% em cada um dos encontros não provocam nem cócegas nos custos do
endividamento por aqui. Galípolo contrariou o Chefe do Executivo e a grande
maioria da população, mas deixou com sorriso nos lábios e muito dinheiro no
bolso os dirigentes do financismo. Na reunião do importante colegiado do
Senado, ele
afirmou:
(…)
“a combinação de economia ainda aquecida, taxa de desemprego próxima das
mínimas históricas e níveis elevados de preços após o quarto choque de
oferta desde 2022 justifica os juros elevados no Brasil” (…) “O problema é que,
ainda assim, a inflação tem superado sistematicamente o teto da meta, de
3%. “E o instrumento que o Banco Central tem para colocar a inflação na meta é
a taxa de juros”.
Não
contente em expressar o contentamento com o absurdo representado pelo arrocho
monetário que impõe ao país, Galípolo avançou algumas casinhas em direção a
apoiar a independência plena do BC. Ele manifestou seu apoio à aprovação da PEC
65, uma proposta de emenda à Constituição construída por Roberto Campos Neto
com os dirigentes do sistema financeiro pouco antes do término de seu mandato à
frente do BC. A proposta não havia recebido a concordância nem mesmo de Haddad
ou de Lula, mas agora o aprendiz de banqueiro coloca suas manguinhas de fora e
busca se acomodar no interior daqueles que espera que o acolham quando terminar
seu mandato à frente do órgão. Assim, ele tem firmado críticas a órgãos do
próprio Poder Executivo:
(…)
“Eu tenho lido em alguns lugares que alguns membros da equipe econômica
estariam preocupados com a questão do impacto no resultado primário e na
relação do Tesouro com o Banco Central. Lógico, eu imagino que alguém tenha
ouvido, não tô duvidando de quem escreveu isso, não. Mas a gente recebe
com algum estranhamento porque, efetivamente, o texto e a forma que está
colocado lá veio justamente da equipe econômica e consolidado pela AGU”.
<><>
Durigan e a dominação das big techs
Desde
que Fernando Haddad pediu exoneração do cargo de ministro da Fazenda para se
candidatar ao governo do Estado de São Paulo, a pasta passou a ser ocupada por
um (i)legítimo representante das big techs. Assim, a partir de 20
de março passado, Dario Durigan vem respondendo pela condução da política
econômica na Esplanada dos Ministérios. Seu comportamento à frente do
Ministério tem preservado o mesmo fio condutor de Haddad. O foco é a
repetição ad nauseam do seu compromisso com as regras da
austeridade no controle da equação das contas públicas e com a obediência cega,
surda e muda às violências impostas pelo Novo Arcabouço Fiscal. O que mais
chama atenção é o fato de Lula ter nomeado para um posto tão estratégico alguém
com perfil declaradamente contrário às demandas da grande maioria da população
e de suas próprias necessidades enquanto candidato à reeleição em outubro
próximo. O principal aspecto a ser destacado é que os representantes do
Ministério da Fazenda buscam barrar, ainda no nascedouro, toda e qualquer
iniciativa do governo que envolva aumento das despesas orçamentárias. Esta é uma questão de princípio para
Durigan.
E ele não deixa dúvidas a esse respeito: uma verdadeira obsessão com
austeridade fiscal, corte de despesas e bloqueio de verbas.
(…)
“Estamos projetando superávit fiscal neste ano e no próximo” (…) “A
situação da economia brasileira é, sem dúvida nenhuma, das melhores do mundo,
tanto do ponto de vista do resultado fiscal quanto do ponto de vista
de como a gente está enfrentando esse momento da economia global
com responsabilidade fiscal para mitigar o impacto da guerra no nosso
país” (…) “A gente deve caminhar amanhã com aumento no bloqueio, esse ano
já foi feito um bloqueio de 1,6 bilhão no primeiro bimestral, a gente vai
caminhar com aumento de bloqueio, portanto o governo cortando na própria carne”.
<><>
Eleições e a oportunidade de mudança
Os três
personagens representam de forma cristalina uma aliança dos interesses dos
grandes meios de comunicação, do financismo e das big techs contra
o desenvolvimento social, econômico e sustentável do Brasil. Huck, Galípolo e
Durigan pautam suas ações e declarações de acordo com a lógica do grande
capital e buscam impedir a todo custo a presença do Estado oferecendo serviços
públicos para a maioria da população. Eles personalizam o movimento em prol de
um aprofundamento da financeirização e da globalização, propondo uma
subordinação ainda mais extrema do Brasil à dinâmica de acumulação de riquezas
do imperialismo. Para tanto, o caminho que eles pretendem impor é a
mercantilização generalizada de todos os setores da economia e da sociedade,
além da abdicação de qualquer projeto de soberania nacional.
O
processo eleitoral abre uma oportunidade às forças progressistas que
lutam pela retomada de um projeto de desenvolvimento brasileiro. O debate a
respeito do futuro do país exige a denúncia das intenções da tríplice aliança e
clama pela apresentação de propostas que rompam com o modelo elitista e
antinacional dos setores hegemonizados pelo capital financeiro
internacionalizado.
Fonte:
Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário