quinta-feira, 28 de maio de 2026

Linhagem humana desconhecida viveu em era verde do Saara

Entre 14,5 mil e 5 mil anos atrás, durante o Período Úmido Africano, o terço norte da África – incluindo o Saara – era uma vasta savana verde pontilhada de rios, lagos e vida selvagem abundante, um lugar que facilitou a presença humana e a expansão do pastoreio.

Os humanos que viviam no chamado Saara Verde foram os primeiros pastores da África, mas ainda não está claro se o pastoreio foi levado ao lugar por migrações humanas do sudoeste da Ásia ou se esse modo de vida se espalhou entre caçadores-coletores locais.

Até agora, a extrema aridez do Saara, que dificulta a preservação do DNA antigo, tem dificultado o estudo desse período da história africana. No entanto, uma equipe internacional liderada pelo Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, Alemanha, apresentou um estudo genômico de duas mulheres de 7 mil anos cujos restos mortais foram mumificados em uma caverna em Takarkori, sudeste da Líbia. Detalhes da pesquisa foram publicados na revista científica Nature.

Estudos anteriores analisaram os genomas dessas mulheres usando DNA mitocondrial (que contém apenas as informações genéticas da mãe), mas o novo trabalho usou métodos aprimorados para obter DNA nuclear, que é herdado de ambos os pais e é muito mais completo.

Além disso, a equipe comparou seus resultados com dados genômicos de 795 indivíduos atuais e 117 antigos da África, Sudoeste Asiático e Europa.

Assim, a equipe descobriu que essas mulheres vieram de uma linhagem genética norte-africana até então desconhecida, que divergiu das populações da África Subsaariana quando as linhagens humanas modernas se espalharam para fora da África, cerca de 50 mil anos atrás.

Essa linhagem permaneceu isolada durante a maior parte de sua existência e é hoje um componente genético central da população norte-africana atual.

<><> Norte da África geneticamente isolado

Além disso, o estudo descobriu que os restos mortais de Takarkori compartilham laços genéticos estreitos com coletores de 15 mil anos que viveram durante a Idade do Gelo na caverna de Taforalt, no Marrocos, associados à cultura ibero-maurisiana, que antecede o Período Úmido Africano.

Indivíduos de Takarkori e Taforalt estão igualmente distantes das linhagens da África Subsaariana, indicando que, apesar do esverdeamento do Saara, o fluxo genético entre as populações subsaarianas e do Norte da África permaneceu limitado durante o Período Úmido Africano, ao contrário do que havia sido sugerido anteriormente.

O estudo também analisa a ancestralidade neandertal e mostra que os indivíduos Takarkori têm dez vezes menos DNA neandertal do que pessoas de fora da África, mas mais do que os africanos subsaarianos contemporâneos.

Todas essas descobertas sugerem que, “embora as primeiras populações do norte da África estivessem em grande parte isoladas, elas receberam traços de DNA neandertal devido ao fluxo genético de fora da África”, explica Johannes Krause, principal autor e diretor do Instituto Max Planck.

<><> Pastoreio no Saara Verde

Para Nada Salem, principal autora do estudo e pesquisadora do Instituto Max Planck, a pesquisa “desafia suposições anteriores sobre a história da população do Norte da África e destaca a existência de uma linhagem genética profundamente enraizada e há muito isolada”.

“Esta descoberta revela como o pastoreio se espalhou pelo Saara Verde, provavelmente por meio de intercâmbio cultural e não de migração em larga escala”, acrescenta Salem.

Por sua vez, David Caramelli, coautor do estudo e pesquisador da Universidade de Florença, acredita que o trabalho “destaca a importância do DNA antigo para reconstruir a história humana em regiões como o centro-norte da África, fornecendo suporte independente para hipóteses arqueológicas”.

“Ao lançar luz sobre o passado profundo do Saara, pretendemos aumentar nosso conhecimento sobre migrações humanas, adaptações e evolução cultural nesta região importante”, acrescenta Savino di Lernia, principal autor e pesquisador da Universidade Sapienza de Roma.

A Nature acompanha o estudo com um artigo da antropóloga Mary Prendergast, da Rice University no Texas (EUA), que destaca o valor deste trabalho no estudo da complexa história demográfica da África, baseada em linhagens dificilmente detectáveis nos genomas da população atual.

•        Fóssil revela que ancestrais de mamíferos botavam ovos

Um grupo de pesquisadores descobriu restos fossilizados de um embrião de Lystrosaurus, um pré-mamífero que habitou a Terra há cerca de 250 milhões de anos.

A descoberta fornece a primeira evidência direta de que nossos ancestrais mamíferos punham ovos, de acordo com um estudo publicado na revista científica PLOS One.

A ideia de que os ancestrais dos mamíferos – conhecidos como terapsídeos – punham ovos circula na ciência há mais de 180 anos. Nos dias de hoje, o ornitorrinco (Ornithorhynchus anatinus) e a equidna (Tachyglossidae) são raridades que fascinam muitos pesquisadores, por serem os únicos mamíferos vivos que botam ovos.

No entanto, nenhum fóssil havia sido encontrado que pudesse confirmar isso. A nova descoberta "finalmente prova que os terapsídeos eram, de fato, animais que colocavam ovos. Essa descoberta lança nova luz sobre as estratégias reprodutivas e de sobrevivência desse grupo de animais", escreveram os autores em uma publicação para o portal científico The Conversation.

O Lystrosaurus viveu há cerca de 250 milhões de anos, durante a chamada Grande Extinção, o evento em massa mais devastador da história do planeta, que dizimou até 90% de todos os seres vivos.

A Terra era então uma paisagem de cinzas e lava, com chuva ácida e mares envenenados. Pesquisadores sugerem que esse herbívoro pré-histórico pode ter sobrevivido a esse ambiente hostil graças à sua capacidade de colocar ovos.

<><> Ajuda da tecnologia para desvendar o segredo

Os restos mortais deste e de outros animais pré-históricos foram descobertos em 2008 pelo paleontólogo John Nyaphuli na região semiárida do Karoo, na África do Sul. O novo estudo revisita este espécime, que parece ter morrido dentro do ovo, e outros dois fósseis de filhotes de Lystrosaurus.

Quando os paleontólogos encontraram o espécime, não possuíam a tecnologia necessária para analisar os restos mortais do animal em detalhes. No novo estudo, os autores explicam que utilizaram uma "poderosa fonte de raios-X para obter imagens do interior dos ossos do embrião".

Graças a esse procedimento, "o fóssil revelou todos os segredos que guardava há tanto tempo; e, mais importante, seu estágio de desenvolvimento", afirmam. A coautora Jennifer Botha, paleontóloga da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, reconheceu que sabia desde o início que "era um filhote de Lystrosaurus perfeitamente encolhido. Eu até suspeitei, naquela época, que ele tivesse morrido dentro do ovo, mas não tínhamos a tecnologia para confirmar".

A posição e o formato oval do animal sugerem que ele morreu dentro do ovo. Além disso, sua mandíbula inferior não estava fundida, semelhante ao que ocorre com aves e tartarugas modernas antes da eclosão, e seus ossos e cartilagens parecem ter sido muito frágeis para suportar seu próprio peso.

<><> Filhotes independentes desde o primeiro dia

Ao contrário dos ovos de dinossauro – duros e abundantes no registro fóssil – a casca do ovo de Lystrosaurus seria feita de um material macio e coriáceo, o que explica seu desaparecimento.

Em sua fase adulta, este herbívoro pré-histórico "parecia um porco, com pele nua, um bico semelhante ao de uma tartaruga e duas presas protuberantes apontando para baixo", descrevem os autores.

O Lystrosaurus botava ovos grandes para o seu tamanho, indicando que seus filhotes eram bastante grandes. Ao eclodirem, eles eram capazes de se alimentar, escapar de predadores e sobreviver por conta própria. "Crescimento rápido, reprodução em tenra idade e proliferação foram os segredos da sobrevivência do Lystrosaurus", sugerem os autores.

<><> Função e origem do leite materno

Esses animais não recebiam leite materno. Os nutrientes que os alimentavam vinham diretamente do interior do ovo, um fato que também abre uma hipótese sobre a origem da lactação.

De acordo com os pesquisadores, é possível que o leite materno não tenha surgido para alimentar os filhotes, "mas como secreções da pele usadas para umedecer os ovos, fornecer nutrientes, protegê-los contra infecções fúngicas e bacterianas ou para a sinalização hormonal através da membrana do ovo", pontuam os pesquisadores.

A descoberta "nos ajuda a entender melhor a origem da biologia reprodutiva e da lactação em mamíferos, bem como a estratégia de sobrevivência do Lystrosaurus durante a crise biológica mais devastadora", concluem.

 

Fonte: DW Brasil

 

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