Uma
deputada pró-Palestina é acusada de apoiar o terrorismo
Na
primeira vez que a polícia busca esse tipo de acusação por um tweet”, explicou
Rima Hassan, um mês depois de ter sido presa e mantida sob custódia por
acusações relacionadas à “apologia ao terrorismo”.
Uma
publicação no X em 26 de março rendeu a Hassan, uma voz importante no movimento
palestino e figura proeminente no partido populista de esquerda França
Insubmissa, uma investigação do tribunal distrital de Paris que culminou em sua
prisão em 2 de abril.
A
polícia recebeu denúncias depois que ela compartilhou uma citação de Kōzō
Okamoto, membro do Exército Vermelho Japonês que participou dos ataques de 1972
ao aeroporto de Tel Aviv, que mataram vinte e seis pessoas.
“Havia
uma intenção por parte do tribunal de ignorar minha imunidade parlamentar e
garantir minha prisão”, disse Hassan, acrescentando que foi deliberadamente
alvo de uma acusação de “flagrante delito”, geralmente reservada para
pessoas flagradas cometendo um crime de fato.
Autoridades
eleitas na França, como Hassan — membra do Parlamento Europeu (MEP) — geralmente recebem
imunidade, o que as protege de serem detidas — mas uma acusação
de flagrante delito é uma das poucas exceções.
A
última vez que eurodeputados acabaram presos e detidos foi durante o escândalo
“Qatargate”, quando a polícia invadiu propriedades do Parlamento e apreendeu
mais de 1 milhão de euros num esquema de compra de influência.
A
prisão e o processo judicial dela são os mais recentes de uma longa lista de
ataques contra ativistas da causa palestina no Ocidente, acrescentou.
Isso também se aplica à própria
Hassan, que rapidamente se tornou uma das políticas mais reconhecidas na Europa
na defesa dos direitos dos palestinos.
Nascida
apátrida em um campo de refugiados na Síria, antes de chegar à França aos nove
anos, ela sempre afirmou que sua experiência como filha da Nakba influencia sua
atuação na política. Seu histórico também demonstra isso. Só neste ano, ela se
destacou como uma das vozes mais ativas
contra a Lei Yadan, um projeto de lei que, na prática, proibiria críticas a
Israel na França.
Hassan
também lançou a Iniciativa de Cidadania Europeia (ICE) para suspender o acordo
de livre comércio entre a UE e Israel, que bateu recordes ao receber mais de um
milhão de assinaturas em três meses.
Mas seu
ativismo vai além de seu papel como funcionária pública eleita. No ano passado,
Hassan se juntou à Coalizão da Flotilha da Liberdade em sua missão de levar
suprimentos médicos e alimentos essenciais para Gaza, uma ação pela qual foi
detida por Israel juntamente com a ativista Greta Thunberg.
Foi por
isso que ela se tornou alvo dos tribunais, da mídia e do governo, explicou.
Somente nos últimos dois anos, houve um total de dezesseis investigações sobre
as declarações de Hassan. A recente acusação que levou à sua prisão fez com que
a polícia fosse muito além do que havia feito antes. Embora a maioria dessas
dezesseis denúncias tenha sido rejeitada em primeira análise pelo tribunal, os
promotores recorreram a medidas mais radicais no caso da publicação de Kōzō
Okamoto.
Nas
semanas que se seguiram à prisão, a plataforma investigativa online Mediapart
revelou que os procuradores rastrearam o celular da eurodeputada, solicitando
seus registos de localização dos últimos três meses. Também pediram à companhia
ferroviária nacional francesa e à Air France os registos de viagens de Hassan,
antes de recorrerem à Europol para obterem mais informações.
Para
Hassan, este é mais um capítulo em uma longa série de ataques do
establishment francês, tanto por parte da mídia controlada por bilionários
quanto por membros do governo de Emmanuel Macron.
Nos
dias que se seguiram à sua prisão, a principal notícia veiculada pela CNews, um
canal de notícias 24 horas no estilo da Fox News, pertencente ao empresário
conservador Vincent Bolloré, era a de que ela supostamente portava drogas
ilícitas — um detalhe não confirmado que vazou para a imprensa enquanto ela
ainda estava sob custódia e que foi posteriormente reiterado pelos promotores.
Alguns dias depois, ela foi inocentada de todas as acusações relacionadas a
drogas, após exames comprovarem que ela portava apenas uma pequena quantidade
de CBD.
O
status de Hassan como a pária favorita do establishment talvez tenha sido
melhor exemplificado pelos inúmeros apelos de políticos de extrema-direita e
conservadores para que ela fosse privada de sua cidadania francesa por defender
os direitos dos palestinos diante do genocídio e da
colonização.
No ano
passado, Bruno Retailleau — hoje líder do partido conservador Republicanos e na
época ministro do Interior da França — juntou-se aos apelos pela sua
desnaturalização.
Para
Hassan, os motivos da acusação de “extremismo” contra o França Insubmissa são
claros. “A questão não é que estejamos exigindo que a idade de aposentadoria
volte a ser sessenta anos. O que não perdoaram foi a nossa posição sobre o
conflito israel-palestino.”
Após
sua prisão, Hassan conversou com Christophe Domec para Jacobin e
falou sobre as consequências do escândalo, sua queixa formal junto ao órgão
regulador de radiodifusão francês sobre falsas reportagens de acusações
relacionadas a drogas e a repressão às vozes pró-Palestina na Europa.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Você afirmou que esta é a primeira vez que alguém com
cargo eletivo é detido por causa de uma publicação online na França. Por que
você acha que os promotores buscaram essas acusações incomuns no seu caso?
RIMA
HASSAN -Eu classificaria o que me aconteceu como assédio político e judicial.
O
Tribunal de Paris está ligado ao governo. Quer queiramos, quer não. Está ligado
ao Ministério da Justiça. E foi o próprio porta-voz do ministério que vazou
informações sobre a minha prisão para jornalistas. Todas as declarações que ele
fez enquanto eu estava sob custódia tinham a ver com supostas drogas sintéticas
na minha mala. Portanto, o porta-voz do Ministério da Justiça está implicado.
A
primeira denúncia sobre o tweet de Kōzō Okamoto foi feita pela chefatura de
polícia de Paris, sob ordens do ministro do Interior. A segunda denúncia foi
feita por um deputado de extrema-direita. E houve mais duas denúncias à polícia
enquanto eu estava sob custódia, porque eles descobriram. Como abutres, eles
atacaram. Essas denúncias foram feitas pela OJE [Organização Judaica Europeia]
e pela LICRA [Liga Internacional contra o Racismo e o Antissemitismo].
Portanto,
temos o envolvimento do Ministério da Justiça, o envolvimento do Ministério do
Interior e todos esses grupos de pressão pró-Israel que, há dois anos,
participam desse assédio. O objetivo deles é obter uma condenação.
Na
verdade, estou sendo vigiada e oprimida.
Começando
por essas dezesseis queixas policiais contra mim no período de dois anos — isso
dá uma média de uma queixa a cada mês e meio. E essas são apenas as que os
promotores decidiram examinar; há outras que foram arquivadas imediatamente.
Havia
uma intenção por parte do tribunal de ignorar minha imunidade parlamentar e
garantir minha prisão.
É
também uma guerra midiática. “Rima foi presa” — é uma afirmação leva as pessoas
a acreditarem que eu fiz algo muito ruim. Na realidade, ser mantida sob
custódia policial é procedimento comum para esse tipo de acusação (flagrante
delito). Mas é a primeira vez que a polícia busca esse tipo de acusação por um
tweet.
A
última vez que um eurodeputado foi acusado de [flagrant délit] foi durante o
escândalo do Qatargate, quando autoridades eleitas foram flagradas com malas
cheias de dinheiro dado pelo Qatar. Isso é um caso de flagrante delito — eles
foram encontrados com malas cheias de dinheiro, isso é corrupção. Isso
significa que eles não estavam protegidos pela imunidade parlamentar. Parece
extremo que eu enfrente o mesmo tipo de acusação por um tweet.
·
Que outras queixas foram feitas contra você?
RH - A
promotoria do distrito de Paris considerou apresentar acusações contra mim
simplesmente por citar um poema de Mahmoud Darwish.
Houve
uma acusação por usar a palavra “levante” ao me referir ao “levante estudantil
pela Palestina” e fui intimada a comparecer à delegacia, onde me perguntaram se
eu pretendia usar a palavra “intifada” e sugeriram que eu estava incitando uma
insurreição na França.
Houve
outra queixa quando citei Frantz Fanon. O Tribunal de Paris decidiu investigar
o caso e fui interrogada. Acabou sendo arquivada.
Portanto,
há algumas queixas que não se sustentam: pelo menos treze não se sustentam. Na
verdade, na minha opinião, nenhuma delas se sustenta.
·
O que significam para o movimento mais amplo pela
libertação da Palestina na Europa esses ataques às suas declarações por meio
dos tribunais?
RH - Hoje,
estamos lidando com uma situação em que nossos líderes estão dispostos a
sacrificar a democracia, o Estado de Direito, as liberdades individuais e a
liberdade de expressão para proteger uma ordem — uma ordem colonial — que
consiste no apoio incondicional ao Estado de Israel.
Estamos
enfrentando uma tendência autoritária. E isso vai além da Palestina. Estamos
agora em uma luta para preservar o Estado de Direito. Ele está sendo
sacrificado. Hoje, isso me afeta, mas quem pode garantir que, em breve, não
afetará jornalistas e sindicatos de uma forma mais ampla? É isso que está em
jogo.
·
Desde a prisão e a ampla divulgação, porém falsa, de que
você estava em posse de drogas sintéticas ilegais, seu advogado apresentou uma
queixa formal à Arcom, órgão regulador de radiodifusão da França. Por que isso
foi importante?
RH - Durante
o período em que estive sob custódia, houve vazamento de informações. Policiais
— e acredito que também o porta-voz do Ministério da Justiça — divulgaram
informações a jornalistas e, sem qualquer cautela, insinuaram que eu estava em
posse de drogas. Foi aí que começou a desinformação.
O
comunicado do Ministério Público foi divulgado às 23h, depois da minha
libertação. Mas a informação já circulava na imprensa desde o início da tarde.
Portanto, houve um vazamento prévio. Por isso, encaminhei o caso à Arcom.
Mas os
promotores também não refutaram essas alegações sobre drogas [quando
descobriram que os testes deram negativo]. Eles esperaram até 9 de abril para
divulgar seu próprio comunicado à imprensa. São seis dias [após a divulgação
dos resultados], mesmo já sabendo disso.
·
Que outras coisas você acha que foram mal interpretadas
em relação à sua prisão?
RH
- O mais importante é contextualizar
isso dentro dessa campanha de assédio que envolveu todas essas denúncias à
polícia.
A
última denúncia, que levou à minha prisão, surgiu após quinze queixas
anteriores. Envolve os Ministérios do Interior e da Justiça — com o relatório
sobre drogas vindo diretamente do chefe de polícia. E a informação vazou do
porta-voz do Ministério da Justiça.
Além
disso, ainda não sabemos quem deu a ordem para rastrear meus movimentos durante
um período de três meses. Isso exige colaboração entre os serviços de
diferentes ministérios. É inegável.
Houve
também a tentativa de contornar minha imunidade parlamentar por meio da
acusação de flagrante delito. Em todos os outros casos, eu gozo de imunidade e
o processo teria que ser conduzido no nível do Parlamento Europeu.
·
Por que você acha que se tornou alvo de ataques tão
intensos tanto nos tribunais quanto na mídia?
RH - Na
verdade, tenho sido alvo de uma campanha midiática em duas frentes: primeiro,
pela minha posição pró-Palestina e, segundo, pelo meu trabalho na organização
França Insubmissa. O problema não é que estejamos exigindo que a idade de
aposentadoria volte a ser sessenta anos. O que não perdoaram foi a nossa
posição sobre o conflito israel-palestino. É isso que está em jogo. Foi nesse
momento que a maré virou.
Em
interrogatórios policiais anteriores, assim como no mais recente, recebi
perguntas absurdas, que demonstram ignorância sobre o tema da Palestina e a
caricatura que se fez dos palestinos. Vozes pró-Palestina e os próprios
palestinos — se você for palestino de fato, a situação é ainda pior — são
sempre tratados com suspeita.
Mesmo
no mundo árabe, como inimigos internos, [os palestinos são vistos como] um povo
um tanto incontrolável que, ao longo da história, com os poucos recursos que
possuíam, conseguiu realizar feitos que abalaram o mundo. E creio que existe
uma espécie de medo e suspeita que é amplificada e, de fato, influenciada pela
islamofobia estatal. Isso é certo.
·
Você acha que a imagem do França Insubmissa mudou desde o
assassinato do neofascista Quentin Deranque em Lyon, em fevereiro? Parece que
as acusações de violência contra o partido aumentaram desde então.
RH - Isso
já acontecia antes do caso Deranque. Já havia controvérsias recorrentes em
torno do França Insubmissa. Éramos acusados de sermos disruptivos, antissemitas, etc. Mas
o que era verdadeiramente imperdoável [para parte da mídia
e do establishment] era essa divisão na esquerda em torno do
genocídio em Gaza.
De modo
geral, sejamos honestos, a esquerda tradicional na França ainda é, em parte,
uma esquerda sionista. Há muitas vozes no Partido Socialista que são
abertamente sionistas, muitas das quais expressam apoio incondicional a Israel.
O que incomodou o Partido Socialista foi que eu quebrei todos esses tabus sobre
a questão palestina: luta armada, direito de retorno, sionismo, e o último tabu
que ajudei a derrubar foi a [suposta santidade da] solução de dois Estados.
Já não
acredito nisso e finalmente consegui convencer o França Insubmissa a criar um
grupo de trabalho, que irei coordenar e lançar em setembro. Ele servirá para
pensar em alternativas aos Acordos de Oslo com um grupo de especialistas.
Esse é
o cerne do problema da esquerda: ela quer ser pró-Palestina, mas só se envolve
em um discurso muito polido e humanitário, que não tem nada de político.
Sou uma
radical de esquerda. Não baseio minha abordagem a essas questões na estrutura
política da França. Sou um ativista com uma causa a defender. Não estou aqui
para apaziguar os ânimos. Esse não é o meu papel.
·
Como podemos pressionar a esquerda a reformular suas
narrativas em torno do conflito?
RH -
Essa recusa categórica em ouvir as vozes políticas palestinas significa que
estamos completamente cegos. Não entenderemos essa luta a menos que
compreendamos que são refugiados em constante revolta desde a Nakba.
Se não
entendermos, por exemplo, por que as memórias de [Yahya] Sinwar, escritas na
prisão, dizem: “Sou um refugiado, sou alguém de uma família que foi
desapropriada” — enquanto não tivermos uma resposta para a questão da
reparação, sempre haverá situações como essa.
Eu
mesma sou a prova viva disso. Não passei pelo que os habitantes de Gaza
passaram. Tive o privilégio de um segundo exílio, um passaporte ocidental.
Mas não
há um único dia na minha vida em que eu não me veja como uma refugiada
palestina, vindo de uma história de desapropriação, cuja família está enterrada
em um campo de refugiados, que viveu essa humilhação por várias gerações, que
conheceu a perda de uma pátria, que conheceu o desenraizamento.
E
independentemente do status dos refugiados palestinos — estejam eles em campos,
na diáspora, em Gaza, como deslocados internos — eles continuam a reivindicar
esse direito de retorno.
Enquanto
nossos líderes não ouvirem as vozes palestinas, nunca encontrarão soluções.
Fonte: Entrevista
com Rima Hassan - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário