sexta-feira, 29 de maio de 2026

Poluição luminosa crescente impõe riscos a saúde e ambiente

Bem em frente à janela do quarto há um poste de iluminação pública. Dormir sem fechar as cortinas? Impossível. Já a fechadura da porta de casa pode ser encontrada facilmente graças à luz do mesmo poste. A luz artificial é importante, ou até mesmo indispensável, para muitas áreas da vida, mas também causa problemas.

As emissões globais de luz aumentaram 16% entre 2014 e 2022, segundo estudo recente nos Estados Unidos. A intensidade da luz artificial também cresceu, em média, 9%.

Em grandes cidades, se multiplicam as fontes de luz no espaço público, como faróis dos carros, vitrines e painéis publicitários iluminados. A preocupação com os efeitos da exposição excessiva foi um dos motivos que levou à criação da iniciativa Berlin Werbefrei (Berlim sem publicidade, em tradução livre), na capital alemã.

Falhou, entretanto, a campanha em favor da retirada de parte das peças de publicidade das ruas.  "Os monitores publicitários com conteúdo animado e em movimento são particularmente intrusivos. As imagens em movimento na periferia do nosso campo visual atraem automaticamente nossa atenção e provocam um aumento do estado de alerta e do estresse, promovendo assim a retenção da mensagem publicitária," afirmava a iniciativa.

<><> Impacto sobre humanos e meio ambiente

Quando somos expostos de forma intensa à luz artificial a ponto de desregular nosso ritmo natural de sono e vigília, isso pode alterar o equilíbrio hormonal e favorecer doenças metabólicas como o diabetes.

O risco de depressão e obesidade também pode aumentar. Quanto mais fria, ou seja, quanto mais branca e azulada a luz, mais ela se assemelha à luz do dia e mais fortemente suprime a melatonina, hormônio que à noite provoca o sono.

A poluição luminosa também prejudica o meio ambiente. Todos os seres vivos se adaptaram, ao longo de milhões de anos, ao ritmo da luz natural do Sol, da Lua e das estrelas. Quando as noites ficam cada vez mais claras, as consequências podem ser graves.

Aves migratórias, por exemplo, se orientam por fontes naturais de luz, como a Lua. A luz artificial as confunde e desvia de suas rotas, levando-as a percursos mais longos e exaustivos.

Outras aves, por excesso de luz artificial, começam a botar ovos cedo demais. Quando os filhotes nascem antes da época certa, muitas vezes ainda há poucos insetos disponíveis como alimento.

<><> Desorientação no mundo animal

Insetos voadores noturnos também se orientam pela luz fraca dos astros para buscar alimento e parceiros. As fontes artificiais, porém, brilham muito mais forte e os atraem inevitavelmente. Em postes e luminárias, no entanto, eles não conseguem se reproduzir, botar ovos nem encontrar alimento.

Mariposas, besouros e outros insetos costumam girar em torno dessas luzes até a exaustão total e acabam morrendo – são bilhões de casos todos os anos. O fenômeno agrava a redução drástica de populações de insetos por outros motivos.

Mamíferos noturnos, como ouriços e morcegos, evitam a luz e áreas iluminadas. Com excesso de iluminação, seu habitat vai ficando cada vez menor.

Para algumas espécies de peixes, a luz artificial representa uma barreira intransponível. Quando a iluminação de pontes incide sobre a água, por exemplo, enguias não conseguem atravessar essas barreiras luminosas, o que é um grande problema durante a migração para reprodução.

<><> Onde a poluição luminosa aumentou e onde diminuiu

Segundo o estudo dos EUA, o aumento mais acentuado da iluminação noturna ocorreu na Ásia, especialmente em regiões economicamente fortes da China e da Índia.

Nos Estados Unidos, a costa oeste ficou mais iluminada devido ao crescimento econômico e populacional nas áreas metropolitanas. Já a costa leste e partes do Centro-Oeste escureceram.

De acordo com o estudo, isso se deve ao desaparecimento de indústrias, à redução do número de empresas e moradores e à adoção de iluminação mais eficiente do ponto de vista energético.

Há boas notícias vindas da Europa: em comparação com 2014, a intensidade da radiação luminosa caiu 4%.

Em muitas regiões, os pesquisadores também observaram uma redução da poluição luminosa em termos de área. A queda mais acentuada ocorreu na França (menos 33%), seguida por Reino Unido (menos 22%) e Holanda (menos 21%).

<><> Leis para escurecer as noites

Ao contrário dos Estados Unidos, a redução da iluminação na Europa geralmente não está ligada ao declínio econômico.

O caso da França ajuda a entender o porquê. Leis determinam que a iluminação de prédios comerciais, vitrines, estacionamentos, parques e jardins públicos, assim como de bens culturais, deve ser desligada no mais tardar à 1h da manhã.

Outros países europeus começaram ainda antes a combater o céu noturno iluminado. A República Tcheca aprovou em 2002 a primeira lei do mundo para reduzir a poluição luminosa. Entre outras medidas, os postes de iluminação pública só podem iluminar para baixo; caso contrário, podem ser aplicadas multas superiores a 3 mil euros.

Na Eslovênia, uma norma sobre limites de poluição luminosa entrou em vigor em 2007. Por exemplo, o consumo de luz por habitante e por ano não pode ultrapassar 50 quilowatt-hora. Regras claras também garantem que postes de iluminação não iluminem excessivamente os quartos.

<><> Uma "cidade das estrelas"

Na Alemanha, ainda não existem regras nacionais unificadas contra a poluição luminosa, mas a Lei Federal de Proteção da Natureza está sendo modificada para combatê-la. O estado de Baden-Württemberg já adotou leis estaduais que proíbem, entre 1º de abril e 30 de setembro, a iluminação de fachadas de edifícios.

Por sua vez, a cidade de Fulda, no estado de Hesse, desenvolveu soluções inteligentes. Há alguns anos, a catedral da cidade deixou de ser iluminada por refletores e passou a receber uma iluminação pontual.

Caminhos para pedestres e ciclistas fora da área urbana são iluminados com apenas 20% da intensidade. Quando alguém passa, sensores de movimento aumentam temporariamente a luz para 100%.

"Armadilhas para insetos mostraram que 90% menos insetos morrem nas novas luminárias", relata Marcel Ciré, do departamento de planejamento e desenvolvimento urbano de Fulda.

Aos poucos, esse conceito de iluminação vem sendo aplicado também na área urbana, geralmente quando os postes precisam ser substituídos de qualquer forma, o que praticamente não gera custos adicionais, segundo Ciré.

Por essas medidas, Fulda foi reconhecida em 2019 pela International Dark Sky Association (IDA) como "cidade das estrelas".

<><> Iluminar o caminho, e não o céu

República Tcheca, Eslovênia e Fulda mostram o caminho: a luz deve iluminar apenas o que realmente precisa estar claro – o caminho, e não o céu noturno acima dele. E quanto mais quente a luz, menos prejudicial ela é, para humanos e outros seres vivos.

Organizações ambientalistas recomendam, para a iluminação externa, uma temperatura de cor de no máximo 3 mil Kelvin.

A luz também deve ser acesa apenas quando necessário. Luminárias com sensores de movimento são uma boa alternativa à iluminação externa permanente.

Talvez mais vaga-lumes voltem a aparecer em jardins e parques. A população dos insetos vem diminuindo no mundo todo, e a poluição luminosa é uma das principais causas.

Eles também precisam da escuridão para se reproduzir. Quanto mais luz artificial, menos os machos conseguem perceber as fêmeas luminosas.

 

Fonte: DW Brasil

 

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